Voo 186
8 Em ação
– Prevenção do quê? Tô começando achar que tu tem problemas. Se explodir é uma grande prevenção? Idiota.
– Cala a boca. Não vou fazer nenhuma besteira. – gritou BR.
– Espero que não faça. – disse Marcelo afastando-se, voltando para onde estava antes.
A chuva do lado de fora martelava o teto de vidro com força.
A água pingava pelo furo do teto. Marcelo voltou depois de alguns minutos.
– Dez minutos pro avião chegar. Vai lá fora fazer o que tem que fazer, eu tomo conta daqui.
BR concordou com a cabeça e saiu correndo.
– Quero todo mundo atrás do balcão. – gritou Marcelo levantando a arma para cima.
As pessoas demoraram a se levantarem por causa do frio.
– Acho que o frio que todos sentiam machucava mais do que o próprio terror que sentiam. – disse Fernando interrompendo a sua própria historia.
– Andem. Levantem. Atrás do balcão. – ele gritou.
Ele pareceu apertar o gatilho, mas a arma não disparou.
As pessoas começaram a se levantar lentamente, tremendo. Aos poucos as pessoas caminhavam para trás do balcão e sentavam um do lado do outro."
– Eu só queria sumir dali, fugir. Tive um momento de adrenalina o qual fiz de tudo para querer sumir. Fui engatinhando na direção contrária, entre as pernas das pessoas. Elas pareciam não me ver, ou apenas me ignoravam. Talvez achassem que pelo menos alguém, a única criança ali deveria fugir e viver. – disse Fernando, sorrindo ao pronunciar as últimas palavras.
O policial o olhou com incerteza. Anotou algo no caderninho que segurava e pareceu envolver diversas vezes o que escrevera.
– O que você realmente acha que aconteceu? – ele perguntou.
– Aconteceu o quê?
– Na hora de você fugir. Se as pessoas te viram, por que não impediram? O que você acha?
– O que isso importa?
– Nada. Só quero saber o que você acha sobre isso. Não esqueça, qualquer coisa é uma pista, uma dica.
Fernando concordou com a cabeça.
– Acho que eles queriam que eu fugisse. Sou só uma criança. Não deveria estar ali, passar por tudo aquilo.
– Ninguém merece passar por isso. O que te torna especial para ter fugido?
Fernando não soube o que responder. Ele parecia estar sendo pressionado.
– O que quer dizer com isso?
– Nada. Só quero saber o que você acha. – o policial fez uma pausa. – Um dia você irá entender.
– Lição de moral? Agora? – Fernando bufou.
O policial riu. E mudou de ideia.
– Continue contando.
"Fora do prédio a chuva parecia cair como chumbo. O frio parecia congelar todo o corpo. O céu estava tomado por nuvens cinzas e escuras.
Fernando fugiu, do lado de fora ele sentiu frio ainda mais, sentiu dor. Suas pernas não se mexiam muito bem e suas articulações pareciam ficar cada vez mais rígidas. Então a preocupação de não saber onde Helena e Marcela estavam o atingiu. O pouco que conseguia ver com a chuva não lhe trazia nem o mínimo conforto. Longe ele conseguiu ver três formas compridas idênticas parada, aviões.
Haviam três aviões parados na pista de decolagem, pareciam estar vazios, ou apenas aguardando permissão para decolagem ou esperando que a chuva passasse.
Na mesma direção que estavam os aviões, alguém vinha se aproximando, debaixo da chuva sem nenhuma proteção. Passado alguns segundos, Fernando conseguiu identificar de quem se tratava, BR. Fernando se esforçou para correr e escondeu-se atrás de um carro para carregar bagagens. Aos poucos ele conseguiu identificar o que BR carregava, viu que o homem andava sem pressa, o frio não lhe incomodava. Com um binóculos na mão e uma grande arma nas costas, ele parou, o que parecia estar no meio da pista de decolagem, onde um avião deveria pousar.
O corpo de Fernando tremia incontrolavelmente. Levantar ele já não conseguia mais. Seus dentes pareciam estar se destruindo de tanto bater. Ele fazia uma força considerável para levantar-se, mas já não sabia se era o frio que congelara suas pernas ou se fora o medo que congelara o seu corpo. Ele só podia ficar ali, agachado, olhando o que BR faria enquanto seu corpo morria a cada segundo.
BR olhou para o céu com o binóculos e ficou procurando por alguma coisa no céu."
– O avião. – Fernando disse olhando para o policial. Ele esperou por alguns segundos e voltou a contar.
"Ele pareceu ter achado o que procurava. Soltou o binóculos e posicionou a enorme arma no ombro, uma bazuca. Ele olhou na mira e aguardou.
Ele parecia não se incomodar com todo aquele frio. Seus dentes não chegavam nem a tremer.
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