Voltando à Viver
27 Cinzas
CHLOË
Minhas mãos tremiam quando voltei a raciocinar.
Não... eu havia feito de novo.
Havia matado.
Havia prometido a mim mesma que nunca mais faria isso. Quebrar essa promessa doeu mais do que eu imaginava.
Quando vi Bob atacar Ryan, meu corpo simplesmente me impeliu a atacar. Só que, desta vez, não havia sido por fome.
Minha visão turvou-se com as lágrimas que encheram meus olhos. Droga, eu não queria ter feito aquilo.
Mas ouvir a respiração dolorida de Ryan atrás de mim e sentir o latejamento em minha ferida reforçaram minha convicção que fora um mal necessário.
Enquanto pensava, me erguendo lentamente do corpo ensanguentado no qual eu estava debruçada, percebi que minha visão não ficara avermelhada.
Senti uma lágrima pingar em meu pulso. Olhei para a pequena gotinha que escorreu pelo meu braço, arfando quando olhei mais de perto.
Era uma gotinha de água. Transparente.
Olhei para meus dedos ensanguentados. Limpei o indicador com a minha blusa amarrotada, e percebi que o sangue ainda não saíra totalmente.
Mas aquelas manchas beges eram sangue?
– Chloë! — Ryan gemeu atrás de mim.
Me virei e corri até ele, deixando o corpo de Bob para trás. De relance, vi os integrantes do Comitê nos observando, em silêncio. Papai ainda abraçava Pim, que mantinha a carinha enterrada em sua barriga. Isaac chiava, provavelmente ainda assustado com a explosão e os tiros. Gail alisava o cano de sua pistola, tensa.
Ver o corpo de Julia à alguns metros de nós me fez sentir um nó em meu estômago morto. Mais lágrimas brotaram de meus olhos quando vi minha amiga morta.
Me aproximei de Ryan, que tremia, com a perna curvada num ângulo estranho.
– Ryan... — murmurei, abraçando-o.
– Tudo bem, Chloë — ele arfava — acabou. Ninguém vai machucar vocês outra vez...
Olhei para sua perna, preocupada.
– Quebrada — ele deu de ombros, tentando descontrair, mas sua expressão brincalhona não mascarou a dor em seu rosto — já tive dias piores.
Ele estava péssimo... coberto de fuligem e pó, com um hematoma na cabeça e um corte na boca. Me dava uma vontade louca de chorar ainda mais ao vê-lo naquele estado.
Gail veio até nós e ajudou Ryan a levantar. Apoiei seu outro braço, fraquejando um pouco ao me curvar. Quase havia esquecido que havia sido atingida por uma espingarda momentos antes. Aquilo doía demais.
Levamos ele até a bancada. Gail sentou-o ali, e Shawn se adiantou para colocar a perna de Ryan no lugar.
– Vai doer um bocado — ele avisou, segurando a perna de Ryan.
Enquanto observava Garret e os demais homens abaixarem as armas e se aproximarem, curiosos, ouvi o grito de Ryan quando Shawn virou sua perna. O som pareceu fincar uma estaca em meu coração débil, que bateu ainda mais rápido em resposta.
Shawn improvisou uma tala com o material de pronto-socorro que restara na Clínica, imobilizando a fratura.
Ryan bufou de dor, balançando a cabeça. Quando se voltou para mim, poém, vi em seu olhar um espanto surpreendente.
– Chloë! Está chorando...chorando de verdade!
Quase havia me esquecido dessa curiosidade.
– É...
Mostrei a ele minha mão. Ele praticamente perdeu a fala.
– Chloë! — Gail arfou, surpresa — você parece... mais... corada!
Ouvi passos em nossa direção quando Garret e os outros chegaram mais perto, me observando espantados.
– Ryan... — Garret balançou a cabeça — se nós tivéssemos tido a menor ideia de que isso era possível... — ele ergueu a mão para mim, embasbacado — céus, teríamos apoiado sua causa à muito tempo. Meu Deus...
Pim e papai se aproximaram também. Isaac ainda chiava, agitado.
Foi quando aquele chiadinho seco virou algo sonoro.
Um chiado muito mais alto, soluçante e penalizante.
Garret recuou vários passos quando ouviu Isaac chorar como um bebê humano. A expressão chocada em seu rosto devia estar no meu também.
– Isaac! — papai embalou o bebê no colo dando um sorriso curto.
Um dos homens atrás de Garret deu uma risada maravilhada.
– Olhe isso, Garret!
– Eu sei! — Garret sorriu pela primeira vez — doutor Shawn, Gail, Ryan... — ele balançou a cabeça, parecendo finalmente convencido — graças à vocês, talvez ponhamos um fim nesse inferno. Se esses zumbis recuperaram um pouco que fosse de sua humanidade, todos os outros poderão também.
Ryan deu um sorriso dolorido; senti sua mão procurar a minha e aperta-la.
Garret, para a surpresa de todos, pôs a mão em meu ombro, sorrindo para todos os zumbis ali.
– Não se preocupe, minha jovem... agora poderão viver finalmente em paz. Acho que está na hora de formar uma nova ordem mundial...
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Tudo que ocorreu a seguir pareceu um filme acelerado num DVD.
Paul e Garret, para a surpresa bizarra de Gail, esquartejaram e guardaram o corpo de Bob na geladeira da Clínica. Fiquei enojada de pensar em qual pobre zumbi teria que se alimentar daquele corpo podre durante seu tratamento, mas não protestei.
Tivemos dificuldade de retirar o corpo de Julia dos escombros. Apesar da barra atravessada em seu peito, sua expressão estava tranquila, como se estivesse dormindo.
Não havia sofrido ao morrer outra vez. Era mais do que um zumbi poderia pedir. Senti que meus olhos iam se desmanchar de tanto chorar.
Garret fez um gesto, em meio a toda aquela confusão, pelo qual fiquei eternamente grata e comovida; ele carregou o corpo de Julia até o local onde enterravam-se os sobreviventes da comunidade que morriam. Ele me contou, durante o trajeto, que adaptaram um cemitério onde, anos antes, havia sido um campinho de futebol.
Os homens do Comitê cavaram um túmulo com as pás que haviam encontrado na loja. Ajudei Garret a pousar Julia no buraco, sentindo minha garganta apertada ao ver o rombo que ficara em seu corpo.
Cobri-a com o cobertor que ela havia levado para sua cama, cruzando seus braços sobre ele. Julia merecia algo muito mais pomposo, mas isso estava além do possível naquele momento. Passei uma última vez minha mão em sua cabeça antes que o primeiro punhado de areia batesse em seu corpo.
O enterro foi rápido. Ninguém disse nada, mas não foi necessário. A expressão de abalo e tristeza dos presentes falava por todos.
– O que vai acontecer com as coisas da Clínica? — indagou Gail a Garret.
– Vamos transferi-las para outro lugar — Garret parecia tenso — se conseguirmos convencer a comunidade... e os outros núcleos de sobreviventes... sobre o que aconteceu aqui, talvez possamos fazer um novo centro de tratamento de zumbis. Tudo o que vocês usaram será útil.
– E se não der certo? — Ryan disse, apoiado em mim, pulando num pé só por causa da perna.
Garret olhou soturno para Ryan, e deu uma palmadinha na espingarda em sua cintura.
– Então vamos ter que convence-los de outra forma.
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Primeiro, Garret exibiu as crianças para as pessoas da comunidade, fazendo um pequeno discurso sobre o que ocorrera fora do shopping.
Olhei, escondida, a reação chocada dos adultos na multidão. Então, para nossa surpresa, uma menininha humana, pouco maio que Pim, atravessou as pernas dos pais e deu nada menos do que um apertado abraço na pequena zumbi.
Pim arregalou os olhos, mas, para espanto geral deu uma risadinha adorável e retribuiu o abraço da menina.
– Ela é tão bonitinha, mamãe! — a menininha dizia, encantada — ela é branquinha... parece uma bonequinha de porcelana.
– Uma bonequinha de porcelana do mal — brincou Ryan, apoiando a perna toscamente engessada no balcão de sua casa — que, apesar de tudo, começava a se sustentar sem problemas no chão. Assistíamos a tudo ao longe, a uns cinco metros da multidão.
Bati de leve no peito de Ryan, censurando-o.
Ryan riu e, para minha vergonha, me deu um beijo muito demorado e muito doce na boca. Ele acariciou meu rosto, dando um sorriso estranhamente triste.
– Sabe o que eu faria se você tivesse morrido? — ele perguntou, ficando ´serio de repente.
– Não — suspirei — e você... sabe o que eu faria?
– Tenho certeza que não teria feito o que fez tão rápido — Ryan apertou minha mão — podia ter se machucado tentando me salvar...
– Estou bem... — revirei os olhos — mas o que... você faria?
Ryan abaixou a cabeça, enquanto se ouvia, mais adiante, uma mulher se derretendo toda por Isaac.
– Teria matado Bob — ele sussurrou — e depois... acho que faria o mesmo comigo.
Meu estômago afundou só de pensar.
– Você não faria isso... — olhei para ele, séria — se fizesse... eu fazia Shawn te transformar em zumbi... e aí quem ia te matar de novo... seria eu.
Ryan riu.
– Mas é verdade, Chloë — ele tocou minha bochecha com um carinho que eu só conhecia nos livros de romance — não posso mais ver minha vida sem você. Se eu não puder viver com você... então de viver irei deixar...
– Ahn... Shakespeare na área? — brincou Gail, sentada ao lado e papai na loja.
Não me importei com o comentário bobo de Gail. Eu estava nas nuvens com o que Ryan dissera.
Ele me amava. Queria viver comigo. Contra tudo e todos, ele realmente me queria. Aquela zumbi que quase o matara. Aquela criatura que dividira seu lar. Aquela garota que começou a se curar, aquela fera que matara uma pessoa na sua frente. Era ela que ele amava.
Esperei que o amor e a felicidade que senti ao beija-lo também fossem compartilhados com Ryan.
Ele me abraçou forte, rindo pelos nossos lábios.
– Por favor... — gemeu alguém atrás de nós. Até eu ri quando papai revirou os olhos.
– Foi mal, sogrão — disse Ryan, brincando, e virando para meu pai.
Alguém entrou correndo dentro da loja. Paul acenou com a cabeça, indicando que podíamos ir até a multidão.
– Eles aceitaram bem as pequenas,,, novidades — ele piscou, parecendo ainda atordoado com tudo que acontecera durante o dia — é a vez de vocês.
Me adiantei, não sem antes apertar a mão de Ryan, que beijou minha testa.
– Vamos todos ficar bem. Espere e verá...
Deitei a cabeça em seu ombro uma última vez antes de acompanhar Paul até os integrantes da comunidade.
Pela primeira vez, acreditei nele.
Acreditei que realmente minha "morte" estava ganhando um verdadeiro sentido. Um objetivo que, finalmente, poderia ser concretizado.
Respirei fundo e fui, junto com papai, conhecer nossos novos admiradores.
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