Voltando à Viver

28 Artérias e Neurônios


RYAN

Para minha grata surpresa, a comunidade no shopping não demonstrou nenhuma oposição ou reação absurda quando ao que o Comitê — agora presidido por Garret — explicou e mostrou sobre os zumbis recuperados.

Assim que Chloë saíra, tive um ataque de preocupação e saí da loja em seu encalço.

– Chloë! — exclamei.

Chloë se voltou para mim, não sem antes ser focalizada pela pequena multidão aglomerada no pátio.

Algumas pessoas arfaram, apontando as mãos para Chloë. Outras começaram a cochichar, espantadas.

– Ryan... o que você... — ela começou.

Numa ação irracional e impensada, cheguei até Chloë e a acolhi num beijo, puxando-a para os meus braços de modo que ficasse em meu colo. Ela me encarou, com os olhos arregalados, até que eles se fecharam. Senti seus braços gélidos circularem meu pescoço e suas pernas se enroscarem em minha cintura.

Ela bateu em meu peito, parecendo horrorizada, antes que eu a soltasse de volta no chão.

– Ryan... — ela ficou boquiaberta durante uns cinco segundos. Mexeu os lábios, mas não saiu som algum.

– Desculpa — dei de ombros — estava precisando dar uns beijinhos.

Chloë levou as mãos à boca, rindo debilmente, parecendo não saber se ficava envergonhada ou voltava a me abraçar.

Algumas risadinhas apreciativas vieram da multidão. Chloë cobriu as bochechas com as mãos, naquele seu jeito zumbi de corar.

Olhei para as pessoas que admiravam Chloë. Ninguém ali parecia mais assustado. Não se via, em nenhum daqueles olhares curiosos, algo parecido com ódio, aversão ou medo.

Suspirei ao pensar em como Bob fora cego, mesquinho e cruel, com sua ideia de dominação tirana da humanidade. Por que não vira a beleza e a necessidade de se ajudar as pessoas, em vez de mata-las? Nunca me passou pela cabeça que fosse esse o objetivo e a ideologia dele por trás de seus discursos inflamados e caças descontroladas.

Foi quando finalmente me lembrei de Skype,

Meu Deus. Minha calopsita!

Com toda a minha preocupação com os zumbis na Clinica, eu a esquecera completamente. Nem me lembrava de onde estava a ultima vez que a vi... e quando tudo desabou com as bombas do Comitê...

Meu peito doeu. Skype...

Gail finalmente chegou até onde nós estávamos. Me virei para ela, sentindo os olhos arderem.

– Ryan? — ela falou, assustada, ignorando a a bajulação da comunidade em cima de Chloë — o que foi?

– Skype... — engoli em seco — eu a esqueci completamente...

Gail abriu uma expressão impassível;

– Devia cuidar melhor dos seus bichinhos, rapaz — ela resmungou.

Olhei para ela, atônito. Como ela podia ser tão petulante e insensível depois do que eu acabara de dizer? Minha pobre calopsita devia estar morta...

Gail revirou os olhos e puxou algo de sua cintura. Uma caixinha roxa, com furinhos na tampa. Grande o suficiente para alojar um passarinho.

Ouvi um pio vindo de dentro da caixa, e meu coração saltou.

– Skype!

Ela abriu a tampa, e, de lá, Skype saiu, se equilibrando no dedo de Gail e assoviando para mim.

Chloë parecia ter levado o mesmo choque que eu ao se lembrar dela, pois, antes mesmo que eu pudesse pega-la, aninhou Skype em suas mãos, encostando-a em seu rosto.

– Skype! Você está bem! — exclamou Chloë, Vi grossas lágrimas translúcidas escorrerem em seu rosto pálido.

Skype bicou a bochecha de Chloë carinhosamente. Acariciei suas asas, aliviado. Skype se virou na mão de Chloë e bicou a pontinha de meu dedo, um tanto forte, como se me desse uma bronca por esquece-la.

– Desculpa, amigona — sorri — graças a Deus você está inteira...

Skype subiu pelo meu braço, saindo das mãos de Chloë, até se acocorar em meu ombro, onde ficou deitada, quieta.

– Passarinho! — ouvi uma vozinha no meio das crianças, Pim apontava para Skype, pulando em suas perninhas magras.

– Fala sério, Ryan! — exclamou alguém na multidão. Era o irmão de Gail, Stein — não tinha nome melhor para dar pra ela?

Alguns ao redor riram. Uma mulher de meia-idade não resistiu e ergueu os braços para Pim. Pim deu um gritinho assustador de alegria e pulou no colo da mulher, deitando em seu ombro como uma boneca de louça.

Isaac era passado de colo em colo pelas mulheres mais babonas, como se fosse uma bola de batata-quente. E, quando Carl finalmente se juntou a nós, houve um estardalhaço causado na panelinha dos homens mais velhos.

– Carl? — exclamou alguém, com os olhos arregalados — é você?

Carl também arregalou os olhos ao focalizar o cara de meia-idade que se destacou da multidão.

– Pharrel? — Carl gemeu, surpreso.

– Caramba! Ei , rapazes, é o Carl Temple, do clube de golfe!

Alguns homens atrás deram risadinhas surpresas.

– O cara tá vivo! — alguém gritou. Todos fecharam a cara para o tapado invisível que gritara — ah, desculpe, Carl...

Carl riu, balançando a cabeça.

Senti alguém pousar a mão em meu ombro. Me virei e dei de cara com Garret,

– Muito bem, Ryan. Conseguimos — Garret sorriu, enquanto olhávamos Chloë ser beliscada, cutucada e tocada alegremente por várias crianças pequenas, que, curiosas, pareciam se divertir em conhecer uma zumbi — o próximo passo será comunicar os núcleos mais próximos de sobreviventes e repassar a eles nosso planejamento. Aos poucos, talvez todas as comunidades espalhadas no país. e, quem sabe, no mundo, poderão aderir ao tratamento de cura.

– Acha que vai dar certo? — suspirei, vendo minha namorada zumbi rir ao ser agarrada nas pernas por uma coisa pequena e elétrica de três anos. Chloë revirava os olhos.

Deus, como parecia humana... estava mais perto de se curar como nunca. Meu coração saltou de alegria.

– Tenho muita fé — Garret assentiu — a esperança nunca pode morrer, ainda mais num mundo como o nosso.

Fiquei refletindo no que Garret disse. De repente, porém, ouvimos batidas desesperadas na entrada secreta. Uma buzina de carro foi ouvida, ecoando pelo shopping.

– Céus, Garret — uma pessoa desceu correndo a escada rolante — olhei lá de cima... saão humanos! Dois homens e duas mulheres...

– Deixe-os entrar! — exclamou Garret, meneando a cabeça. O vigia assentiu e foi acolher os recém-chegados — talvez seja melhor escondermos nossos amigos. Não podemos adivinhar como esses novos humanos vão reagir...

– Acho que um tratamento de choque, na verdade, seria bem eficiente — brincou Gail.

Garret franziu a testa para ela, mas, para minha surpresa, sorriu.

– Hum... Tem razão, Gail. Talvez já mostra-los traga melhores resultados à curto prazo.

– Ou à prazo imediato — ela disse.

Garret piscou para Gail e foi recepcionar os visitantes. Quando Garret desapareceu em meio à multidão, ouvi Gail suspirar.

– Ele é tão gato...

Chloë e eu olhamos para Gail, nos entreolhamos e finalmente caímos na risada.

– Olha só, Gail... — Chloë riu.

Gail corou.

– Ué... olhar não tira pedaço.

– Ele é gato mesmo — Chloë completou. Ergui a sobrancelha.

– Como é?

– Mas você é mais... — Chloë me deu um beijo gelado na bochecha, sorrindo de tal modo que meu coração parecia querer explodir de carinho. Minha zumbi linda...

– Cale a boca, Makennah! Eu é que falo nessa merda! — disse alguém que se aproximava do pátio. Apesar do linguajar, o tom era de brincadeira.

Chloë arregalou os olhos e se voltou imediatamente para a origem da voz.

Aquele nome não me era estranho. Onde eu já o ouvira?

Quando vi uma mulher de meia-idade, magra e com olhos castanhos se aproximar, seguida por um homem que parecia ser seu irmão, congelei de choque.

Makennah.

Que droga... agora me lembrava quem era.

A mulher encarou Chloë, recuando vários passos, espantada. Observou, pasma, o fantasma que estava a sua frente, sem saber se o que via era real.

Chloë já estava chorando antes mesmo de exclamar.

– Mamãe!!!