Voltando à Viver
29 Conclusões
CHLOË
Vi mamãe recuar vários passos para trás, e, misturada à alegria, a mágoa me invadiu.
– Mamãe... — arfei, piscando — sou eu...
Mamãe olhava para todos ao redor, aterrorizada, como se esperasse que alguém pudesse lhe explicar o que uma zumbi fazia dentro da comunidade de sobreviventes.
Quando ela olhou para papai, porém, levou as mãos à boca; vi lágrimas embaçarem seus olhos.
– Carl? — a voz de minha mãe não passava de um gemido.
Papai se adiantou, indo em direção à mamãe. Ela recuou mais um pouco.
– Makennah... — papai disse com a voz triste — somos nós.... querida...
Tio Fred olhava chocado para mim.
– Chloë?
Ouvi alguém engatilhar a arma atrás de mim. Balancei a cabeça, amedrontada, para Ryan.
– É a minha família — sussurrei para ele.
Mamãe finalmente deu alguns passos hesitantes na direção de papai.
– Como..? — ela arfou, olhando para Garret que estava ao seu lado — como é possível?
– Nem nós sabíamos que era — Garret deu de ombros — descobrimos não faz nem um dia.
Mamãe voltou o olhar para mim.
– Filha...?
Meus olhos se encheram de lágrimas, o que só assustou mamãe ainda mais.
– Sim, mamãe... sou eu...
Ela fez menção de vir em minha direção, mas tio Fred segurou seu ombro. Mamãe se desvencilhou dele, franzindo o cenho.
– É a minha filha, Freddie. Me solte.
Não aguentei mais. A saudade repentina que invadiu meu coração desgastado me impeliu para frente, jogando-me na direção de mamãe.
Tio Fred engatilhou a arma e a apontou-a para mim, mas mamãe segurou o cano, sem tirar os olhos da filha que vinha correndo até ela.
O abraço foi dolorido, maravilhoso e inevitável.
– Chloë... — ouvi mamãe soluçar em meio aos meus cabelos — está... meu Deus... não parece uma zumbi... eu... achei que...
– Tô bem , mamãe — murmurei — tô bem....
Senti mais alguém nos abraçando. Papai viera se juntar ao nosso pequeno reencontro.
– Carl... — mamãe me soltou para abraçar papai. Papai soluçava feito uma criança, o que me fez sentir uma tristeza enorme no peito. Pobre papai...
Tio Fred havia abaixado a arma, mas ainda observava, embasbacado, seu irmão e sua sobrinha zumbis interagindo com ele e mamãe.
Ryan se adiantou e veio até nós, abraçando minha cintura.
– Senhora Temple... é um prazer — Ryan sorriu, estendendo a mão para minha mãe, que, surpresa, a segurou.
– Foi o jovem Ryan aqui que andou tratando esses zumbis para que recuperassem a humanidade — Garret sorriu — foi ele que encontrou sua filha e seu marido.
Mamãe balançava a cabeça, parecendo incrédula.
– Ryan... — ela franziu a testa — como posso lhe agradecer por fazer esse milagre?
– Não sei... — Ryan brincou, rindo — quem sabe, depois que essa loucura toda acabar, a senhora pode me dar a mão de sua filha...
Pulei ao lado de Ryan, chocada.
Ele estava brincando, certo?
Olhei para ele, e o que vi no fundo de seus olhos fez meu estômago afundar. Uma queda maravilhosamente estonteante.
Casseta... ele estava falando sério.
Ele queria casar comigo.
Queria ficar comigo de verdade.
Enquanto mamãe ficava paralisada de susto e choque, beijei Ryan sem cerimônia. Depois daquela, eu podia dar uns amassos com ele em público e nem ligaria.
– Nossa... — Ryan se afastou, rindo. Ouvi mamãe rir, e me virei para ela, sorrindo.
– Bom... — mamãe parecia bem mais calma agora — talvez...o que me diz, Chloë?
Eu ri baixinho.
– Talvez, não é, mamãe?
Mamãe soluçou de novo, apertando a mão do meu tio.
– Estão vivos... ela arfou baixinho — não acredito...
– Quem acompanhou vocês? — perguntou Gail, surgindo atrás de mim.
– Ah... — tio Fed sacudiu a cabeça — um casal... John e Linda Baxter.
Ryan arfou de modo audível ao nosso lado.
– Baxter? — ele engoliu em seco, com os olhos arregalados.
– O que foi, Ryan? — indaguei, preocupada.
Ele me olhou de novo, e levei as mãos à boca entes mesmo que ele dissesse.
– Meus pais...
Mamãe arregalou os olhos, e cutucou tio Fred.
– Freddie... acho que Linda e John são os pais desse jovem...
Garret acenou para Paul, vindo sabe-se lá de onde no meio da muvuca que era a entrada do shopping.
– Vá chamar o outro casal que veio com os Temple. Agora.
Paul assentiu e saiu correndo em direção às escadas.
Ryan apertou o abraço em minha cintura. Segurei sua mão,
– Tudo bem, Ryan... vai ficar tudo bem.
Mamãe olhou de modo taciturno o abraço entre eu e Ryan, dando um sorrisinho apreciativo.
– E desde quando... são namorados?
Ryan avermelhou um pouco. Já eu, fiquei ainda mais lívida.
– Ahn... — ele passou as mãos no cabelo — sei lá... começamos à namorar menos de, bem... uma semana... depois que a conheci.
Tio Fred fungou, rindo.
– Sério?
Ryan ergueu a sobrancelha para ele.
– Sério... Por que?
– Nada — meu tio ergueu as mãos — só fiquei curioso.
– RYAN!!!!
O berro foi tão alto que todos se viraram em direção às escadas, de onde descia, num galope desenfreado, uma mulher de cabelos acaju, iguais ao de Ryan.
Putz... devia ser a mãe dele.
– Mãe! Mãe! — Ryan se virou, com os olhos saltados, antes de ser engolfado num abraço desesperado dado pela mulher.
– Filho... cinco anos... que saudade... está vivo... — ouvi-a soluçar.
Um homem veio atrás dela e também abraçou Ryan. Tinha olhos verdes, iguais aos do filho.
– Olha só para você... já é um homenzinho — brincou o pai de Ryan, com lágrimas nos olhos — quanto tempo, filho...
Ergui a cabeça lentamente para ver por cima do ombro de Gail.
Foi quando os Baxter me focalizaram.
– Ai, que merda... chega de armas! — exclamou Gail, revirando os olhos e ficando na minha frente assim que John fez menção de pegar sua pistola na cintura — é a namorada do seu filho, tá legal?
Linda recuou dois passinhos, com a expressão chocada.
– São zumbis... — John balbuciou.
– Espere um pouco... são zumbis... mas não se parecem nem um pouco com um... — Linda segurou os braços do filho, confusa — o que...
– Eles estão voltando à ser humanos, mãe... — Ryan abraçou-a — nós estamos fazendo isso já por um tempo... tratando os zumbis...
– Impressionante — arfou o pai de Ryan.
As apresentações não tardaram à partir daquele ponto. Depois de apenas vinte minutos, o casal Baxter, mamãe e tio Fred já haviam sido convencidos.
Mamãe se apaixonou por Pim à primeira vista, o que, provavelmente, significaria que eu teria uma irmãzinha caçula mais à frente. Já a senhora Baxter não tirou os olhos do pequeno Isaac, o que me fez erguer o olhar para Ryan e imagina-lo como um irmão muito mais velho, trocando a fralda do irmãozinho. A ideia me fez rir.
– Boas notícias — Garret comentou, lá pela sexta hora após toda a baderna da "apresentação zumbi" no shopping — consegui me comunicar com dois núcleos de sobreviventes, expondo o que descobrimos sobre a reabilitação dos zumbis. Eles concordaram em gerir dois centros de tratamento na área onde moram... com a ajuda periódica de quem já tem experiência, claro — ele olhou para Ryan e Gail — disseram que, se houver resultados favoráveis, irão ampliar os centros e repassar o conhecimento sobre esse processo para novos núcleos.
– Excelente — Gail bateu palmas.
– Gente, sem querer ser chato... mas estou morrendo de sono... — resmungou papai lá do seu canto.
– Boa ideia, Carl — Garret riu — já é noite... é melhor irmos todos descansar.
Um a um, todos foram se preparando para dormir. Gail e minha família — incluindo papai — haviam combinado de dormir na casa de Gail — a loja de conveniência do primeiro andar — enquanto PIm e Isaac dormiriam na casa de Garret, assistidos pela irmãzinha mais nova dele. Os Baxter decidiram ir dormir na casa de Paul; era impressão minha, ou ainda estavam inseguros quanto à dormir perto de uma zumbi?:
No fim das contas, outra vez, só ficaram na loja Ryan e eu.
Senti minha pele gelada esquentar levemente quando vi Ryan tirar a camisa, provavelmente para vestir o pijama. Mas ele ficou circulando quase cinco minutos sem a maldita camisa... então talvez não fosse cobrir aquele tórax musculoso tão cedo.
Quase dois minutos depois de arrumar sua cama, Ryan finalmente pareceu perceber meus olhos em seu peito. Virei a cabeça, envergonhada.
– O que foi? — ouvi ele rir na penumbra da loja — pensei que já estivesse na hora de se acostumar com isso...
– Hein..? — arfei, arregalando os olhos para ele.
– Com isso — ele se aproximou e levantou meu queixo, até que eu olhasse em seus olhos. Senti uma corrente elétrica percorrer todo o meu corpo com seu toque.
Sua mão desceu até meu pescoço, até começar à fazer movimentos circulares em meu braço. Ah, não... aquela quentura indecente começou à expandir-se nos lugares mais improváveis e assustadores.
Ryan tirou o macacão que eu vestira após o banho, tirando as alças de meus ombros e puxando-o para baixo. Fiquei estática, paralisada de choque, e só me obriguei a reagir quando Ryan finalmente me deixou apenas de lingerie, no meio da loja.
– Está quente... — ele brincou — não vai precisar disso...
– Ryan.... — gemi, assustada.
– Ei... — Ryan beijou minha bochecha; sentia seu sorriso em meu rosto — não vou fazer nada que você não queira, sua boba... você é a chefe esta noite...
Como assim? Eu era a "chefe"?
Ia ter Ryan todinho para mim naquela noite?
Por que diabos eu lambi os beiços com essa ideia?
– Não quero.. — gaguejei, apavorada — n-não quero... fazer nada muito... íntimo...
– Então não vamos — dei um pio baixo quando Ryan me pegou no colo e me deitou no emaranhado de cobertas que ele fazia de cama.
Ele não ia facilitar nada, é claro. Sentir alguém acariciando seu corpo do ombro até o tornozelo nunca santificou ninguém. Jesus...
– P-para... — praguejei, rindo, beijando-o enquanto Ryan me abraçava.
– Vamos dormir, modelo de passarela? — Ryan beijou o topo de minha cabeça. Senti um carinho ridículo forrar meu corpo e mente.
– Vamos... — suspirei, aninhando minha cabeça numa almofada, enquanto segurava a mão assanhada de Ryan.
Ryan riu, antes de fechar os olhos.
Em pouco tempo, meu namorado finalmente adormeceu, com um sorriso estranho no rosto.
Eu podia ficar assistindo-o dormir o resto de minha morte, mas o sono também cobrou seu preço de mim.
Aos pouquinhos, mergulhei numa relaxante inconsciência, sem sonhos nem pesadelos, enquanto pensava no que o novo amanhã traria à humanidade.
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