Voleur Sinderella
12 Capítulo 12 - Batman and Robin
Notas iniciais
Os olhos de Dannika já eram, de certo, enormes. Sua pele branca estava cada vez mais pálida e seu sorriso se extinguia de uma vez ao ficar se encarando com Charles. A moça estava realmente receosa e segurava-se para abrir a boca e falar algo.
– Charles, eu quero o diamante tanto quanto você e preciso da sua ajuda para consegui-lo de volta. – Ian respondeu entre dentes.
– Ahnm?! – Rato gaguejou – Vocês realmente pensam que vamos concordar com isso?!
– Deixe que ele próprio responda! – bufou Ian.
Naquele momento Rato virou-se para Charlie na esperança de que ele respondesse o mesmo e o acompanhasse para fora daquele lugar, mas não foi o que o rapaz fez. Seu cenho estava quieto, não parecia ter qualquer reação ao escutar Dannika e Ian em sua teoria absurda de que “juntassem forças”.
– Não responderam ainda minhas perguntas. – Charles disse calmamente, refletindo sobre as possibilidades.
Dannika suspirou e se acomodou um pouco mais desleixada sobre a cadeira, pousando seu olhar penetrante no amigo novamente. Desta vez como se fosse atacá-lo com as próprias unhas.
– Não me interessa um diamante qualquer como este. – ela respondeu, fria como gelo e rude como um animal – Você pretende usá-lo para ir atrás das pessoas na Dinamarca, não é? Príncipe querido, estamos atrás do mesmo objetivo, não negue.
“Entretanto, temos Ian que procura o diamante para devolvê-lo ao seu tio, Devoir Perrault. Demorei algumas horas para convencê-lo a me ajudar nisso. Mas para isso preciso também da sua ajuda, ele entende o meu desejo e concorda em nos apoiar.” As palavras saiam de sua boca como uma frase ensaiada, mas que no fundo de cada delas escondesse algo.
– Como assim ela já sabe do pessoal na Dinamarca?! – berrou Rato se levantando de impulso. – Quem é realmente você, garota?!
– Se sabe daqueles que residem na Dinamarca por que já não os ajudou com sua fortuna? – Charles perguntou, ignorando os gritos do amigo por completo.
A expressão dela não se alterou e seu sorriso fechou a cena com um silêncio discreto. Ela não iria responder por algum motivo e assim Rato ficou estático em seu próprio canto com a indignação latejando em sua mente.
– Eu vou embora! – ele quase berrou e virou-se para Charles de uma vez – Charlie, você vem comigo?
Ian e Dannika também viraram suas atenções para o loiro a espera de suas palavras.
– Ian e Dannika, o que estão dispostos a fazer para ter nossa ajuda? Minha e do Rato... – Charles disse calmamente, tomando as rédeas da situação.
– Eu não vou ajudar esses loucos! Não dá pra ver que isso é um tipo de armadilha?!
– Rato! – Charles gritou – Quieto! Quem não vê é você, não percebeu que essa é nossa chance? Que precisamos deles para completar a nossa verdadeira missão. Marianne está furiosa conosco e nós precisamos do diamante.
– E no quê exatamente eles podem nos servir?!
Ian levantou-se e pigarreou antes de falar:
– Eu sou parente dos Perrault, posso me gabar e dizer que sou a ponte de entrada de vocês para conseguirem se ‘infiltrar’ na cena do crime verdadeiro, o que nos daria uma imensa vantagem. Dannika é uma das mais jovens milionárias do planeta, não tem pais e ninguém que fale com o que ela deve gastar sua fortuna... Precisamos de apoio financeiro, não?
– E desde quando isso se transformou em nós?! – Rato disse enfurecido. Então foi até Charles com uma expressão mais que confusa em seu rosto, enquanto defrontava a visível calma do outro. – Charlie, nosso ‘emprego’ não é dos mais fáceis e você conhece a principal condição para que as missões dêem certo, não conhece?
Charlie abaixou o olhar, murmurando:
– Confiança...
– E eu não confio neles dois. Nunca os vi na vida e a primeira vez que encontro com Ian ele tentou nos chantagear por coisas que ele sequer tinha certeza. – Rato continuava com fala. Dannika, com isso, lançou um olhar censurado para Ian, enquanto este apenas fez que nada acontecia – Eu estou fora disso, vamos logo embora, Charles!
Charlie se levantou e então Rato deu de costas e seguiu em frente com o barulho de seus pés ecoando no chão. Apenas os seus passos eram ouvidos. O rapaz olhou para trás e viu que Charlie continuava parado no mesmo lugar.
– Eu não vou, Rato. – disse com um tom sombrio em sua voz. – Nem você. Nós realmente precisamos da ajuda deles...
– Ajuda de um cara mimado? Ajuda de uma mulher que eu sequer conheço? Não, eu acho que não.
– Eu os conheço. – bravejou Charles – Eu confio naquilo que são capazes de fazer porque já fizeram muito por mim no passado... – e com isso os olhos de Dannika começaram a cintilar, ele estava do lado deles completamente. – Confie em mim quando digo que podem nos ajudar.
Rato franziu a testa inconformado.
– Está falando sério?!
– Estou me perguntando se você está falando sério. Eles realmente podem nos ajudar!
O olhar do loiro era determinado, forte e forçava Rato a ficar em seu canto ou ir embora com medo. Jamais viu aquele olhar nele.
– Isso quer dizer que Voleur Sinderella está conosco? – Ian se falou com um tom irônico em sua voz. Como se esperasse por aquilo, mas não o quisesse.
Rato e Charlie trocaram um olhar mais fulminante.
– Está errado. – disse Rato sem tirar os olhos do amigo – Sinderella não está com você, somente Charles. Sem mim não existe Sinderella.
– Sem mim você não passa de um rato de biblioteca se afundando na própria monotonia da vida. – Charles cuspiu como se falasse com alguma pessoa qualquer. Como se não fosse Rato, seu melhor amigo. – Sinderella existe com ou sem você.
E naquele instante foi como se uma linha tivesse se rompido rapidamente.
Num silencio insensível escutava-se apenas a respiração dos quatro. Rato baixou sua visão por um segundo e voltou a mirar os olhos de Charles, azuis vivos e que lhe percorreram a mente como um raio.
– Já entendi então... – a voz de Rato saiu frisando no ar.
– Não... Esqueça, Rato, eu não quis dizer exatamente isso. – Charlie balbuciou, andando lentamente na direção do outro.
– Não, Charles, você realmente quis. Você escolheu as pessoas em quem confiar, mas eu não.
E as palavras saiam dos lábios finos de Rato lentamente. Ele apenas levantou o olhar mais uma vez, para encarar Charles, mas o baixou outra vez e saiu com o rabo entre as pernas daquele galpão, enquanto o loiro e os outros dois o observavam.
Com a lentidão das pernas e as palavras ecoando em sua mente ele se dirigiu rápido o quanto pode para a estação de trem que era próxima ao porto, não tinha realmente uma idéia do que Charles tinha em mente quando decidiu confiar em outros para aquele trabalho, era uma armadilha, para ele. Nem mesmo a idéia de “ele fez de propósito para me proteger” dava pra ser engolida, não naquela situação.
.
– Rato?
Ela o salvou do transe, enquanto estava sentado num banco da estação de Auckland. E no exato instante em que viu seu rosto ficou parado, estático, sem saber o que fazer.
– Cl-Claire?! – seu nome saiu da boca dele com dificuldade, fazendo com que ela sorrisse docilmente – O que está fazendo aqui?!
A moça tinha o riso mais simpático que ele conhecia, apesar de terem se passado pouquíssimos dias desde o incidente em seu hotel ela tentava aliviar a tensão e evitar perguntas demais assim. Rato sabia disso, mesmo assim a olhou surpreso, nunca imaginaria vê-la ali.
– Estava de passagem, voltando de uma “fuga de casa”, digamos assim. – ela riu – E você? Parece que está pensando em algo de extrema importância.
O cenho dele se fechou.
– Não era tão importante assim... Digamos que eu perdi o emprego.
– Mas você não trabalhava na loja de seu pai? – Claire perguntou de olhos arregalados. Ela olhou em volta de si e estendeu a mão para o rapaz – Vamos conversar em outro lugar, estou de carro e posso te levar.
Ele segurou a mão de Claire. Era macia e quente como o sorriso dela, e nisso tanto Charles quanto Rato concordavam na mesma coisa.
Em sua mente não tinha muitas coisas se embaraçando, não havia muito o que se dizer e os dois jovens ficaram em silencio logo que chegaram ao café térreo que Claire prometia para que pudessem conversar. Era um lugar bonito que lembrava uma rua parisiense ampla e bem iluminada.
A moça via que seu silencio era proposital e mal ameaçava falar algo, pois ela mesma estivera em silencio com relação ao assalto do Hotel Claire Les Nuages no fim de semana anterior.
– Nós somos péssimos alunos, sabia? – ela riu um pouco, na tentativa quase frustrada de quebrar o gelo do clima. O rapaz a olhou sem saber direito do que falava – Matamos aula hoje, eu digo. Sabe, eu tentei fugir de casa só essa manhã ao invés de ir pro colégio. Acabei dando uma volta imensa de metrô até Grey Lynn e Point Chevalier, voltando para Auckland antes mesmo das onze.
Rato olhou o relógio. Ainda eram dez da manhã.
– Eu estava em Westmere. – ele disse, soprando a xícara de café em sua própria mão – Acabou sendo uma viagem muito ruim, diferente da sua.
– Não se engane, a minha se resumiu em sentar no banco do trem e olhar o tempo passar, haha.
– Ainda sim, foi bem melhor que a minha...
Rato tomou um longo gole de seu café, quando Claire finalmente disse:
– Você brigou com seu pai?
Ele negou com a cabeça.
– Com meu amigo. – respondeu, olhando para as próprias mãos. – Mas não precisa se preocupar com isso, sabe?
– E por causa disso você perdeu o emprego? Se quiser falar sobre isso comigo não há problema, também somos amigos, não é? – ela disse rindo.
– Bem, eu meio que me demiti. – Rato riu também, desta vez mirando os olhos verdes de Claire – Imagine algo como... O Batman e o Robin!
Claire começou a gargalhar alto, tentando esconder a risada com a mão, e Rato ficou completamente vermelho.
– Desculpe-me, não consegui evitar. – disse ela – Continue com a história do... BOM! POW! Batman e Robin.
– Não estou falando de BOM ou POW! Eu falo é da “dupla dinâmica”. Imagina que eu sou o Robin e o Cha-... Meu amigo é o Batman. – disse com um sorriso de lado – Batman resolveu confiar em algumas pessoas que o Robin não gostava e que não gostavam do Robin, por isso a dupla se separou.
A moça mirou o fundo de seus olhos com delicadeza.
– E essas pessoas? O Robin achava que machucariam o Batman? Ou o Robin se separou do Batman para não se machucar também? – disse ela.
Então Rato tomou um baque.
– O Robin foi embora por não gostar do egoísmo do amigo dele. Ele até tentou proteger os dois, mas o Batman é muito teimoso e só pensava em si mesmo e-
– Senhorita Claire?! – alguém falava de maneira surpresa atrás dos dois.
Quando Rato e Claire se viraram deram de cara com Ray Bierman boquiaberto e em pé com uma caneca de café em sua mão, enquanto na outra tinha um exemplar do jornal do dia.
– Ray?! – ela disse surpresa – O que está fazendo por essas bandas?
– Eu estava para fazer a mesma pergunta para a senhorita, não deveria estar na escola? – ele riu – Quer dizer, eu estava do outro lado conversando com o Oficial Campbell quando ele me pediu para comprar o jornal na banca e vi você sentada aqui com... – a visão dele se arrastou para a figura de Rato – seu amigo...?
– Oh, sim! Este é Jack Lourette. Jack, este é Ray Bierman, estagiário de um dos policiais que está cuidando do caso do roubo do diamante.
Rato o olhou de cima a baixo, não parecia ser muito mais velho que Charles, e por ser apenas um estagiário não lhe causava medo.
– É um prazer conhecer. – disse o moreno, estendo a mão.
– O prazer é meu. Amigos da Senhorita Claire são meus amigos! – riu Ray apertando a mão dele – Bem, eu vou indo. Muito a resolver na delegacia, haha. Tentem não matar mais aula!
E assim Ray foi andando para longe, seguindo até o estacionamento atrás da cafeteria, onde via o oficial Campbell recostado em um carro com uma expressão impaciente apontando para o próprio relógio de pulso. Ray podia ter demorado um minuto ou três horas, atrasos eram praticamente imperdoáveis.
– Já vou dizendo, desculpe por estar atrasado quarenta segundos! – berrava Ray para Campbell.
– Que seja, onde estão minhas coisas? – rosnou Campbell – Não durmo há duas noites e estou para rasgar a sua garganta...
– Café bem aqui. Você sabia que Claire Perrault não é tão perfeitinha assim?
– Que me importa isso? – respondeu antes de um gole no café.
– Ela estava matando aula com um amigo, os dois estavam ali conversando e eu fui cumprimentá-la.
Campbell parou de beber e olhou para Ray, dando-lhe um rápido susto. Então começou a andar na direção das mesas do café. Ray, sem nada em mente, o seguiu.
Naquele momento Claire e Rato se levantavam para irem embora e o oficial faz um sinal para que Ray não fosse até eles, esperasse um momento. E quando já estavam num raio distante o suficiente, os dois policiais foram até a mesa.
– O que está fazendo? – Ray indagou ao ver o outro pegar a xícara de Rato.
– Claire Perrault está escondendo algo, disso eu tenho certeza. Não viu a maneira como ela ficava perdida dentro de casa? Como se tivesse um pouco de culpa. – riu Campbell, retirando luvas de plástico de sua maleta e um pozinho, para colocá-lo na xícara – O ladrão não mostrou digitais ou por usar luvas, aquelas que encontramos no lixo. Me resta encontrar alguém sem digitais, e posso começar a procurar pelos amigos e conhecidos da Senhorita Claire. Pode ser apenas uma especulação, mas é bem melhor me aprofundar nela e começar a fazer algo do que cruzar os braços.
Ele passou o pó na xícara e esperou para retirar a digital com a luva de plástico.
– Quando se trata do Sinderella você vai atrás das piores hipóteses, não é?
– E não é este aqui. – bufou Campbell, levantando as sobrancelhas, retirando rapidamente as luvas – Ray, guarde essas digitais aqui, tenho um pressentimento sobre esses amigos da Senhorita Claire.
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