Você sabe quem eu sou?
11 Capítulo 9.A menina que falava com os mortos (parte final)
Notas iniciais
Capitulo 9. A menina que falava com os mortos (parte final)
Meu temperamento considerado difícil estava outra vez sob controle. Uma gélida fúria me dominava. Eu vivia um daqueles raros momentos em que a raiva não me cegava, mas permitia olhar as coisas sob um perverso prisma.
A minha volta, o mundo girava. Girava ferozmente e já não era efeito da bebida ou das emoções que não permitia tornarem-se visíveis. Era afeito da percepção de minha insignificância. De minha irrelevância. Naquela mesma noite eu estava comemorando a minha tão sonhada liberdade e de repente, eu era apenas a garota incapaz de cuidar de se mesma. Alguém que precisava de internação.
E enquanto eu estava ali, fervendo no fogo brando da fúria, ao meu redor um show de horrores. Meu descontrole me permitia perceber toda alma perdida que ali transitava.
Mas eu não estava assustada. Eu estava furiosa, uma raiva intensa que guardava apenas para mim. Sei que minha aparência era assustadoramente lúcida, o que era no mínimo doentio, mas necessário.
Yuna e Eun-Há estavam furiosas e de certa forma, o descontrole delas ajudava com que eu fosse capaz de esconder o meu. Já havia ligado para os pais, que apareceram com advogados. Infelizmente, uma vez que não possuía capacidade legal de tomar minhas próprias decisões, não poderia usar os serviços deles.
Naquele instante eu estava numa sala a parte, incomunicável, até minha responsável legal aparecer, ou seja, minha mãe.
Isso mesmo, de alguma forma, dona NaNa havia conseguido se tornar minha única tutora.
Estava furiosamente curiosa em saber como ela conseguiu aquele incrível feito, enquanto meu lado racional estava realmente impressionado com a astúcia daquela mulher.
... eu sei que você pode me ver... eu sei que você pode me ver...
Ah, tinha também esse pequeno problema: fantasmas!
Eu nunca havia estado em uma delegacia. Jamais que imaginei que ali houvesse tantas almas perdidas. De algum modo, consegui passar despercebida pela maioria delas... até cruzar com aquela garota. Sua roupa de festa estava degastada. Duas manchas de sangue estragavam o vestido que por baixo de tanta sujeira, parecia ter sido muito bonito.
Ela queria falar... eu não. Não apenas pelo fato dela ser um fantasma, mas porque, apesar da corrente de ódio que me envolvia, eu entendia a importância de parecer serena, lúcida e racional. Eu precisava projetar a imagem de uma pessoa mentalmente sã. Certamente, cada atitude minha seria gravada e usada mais tarde para validar as posturas de minha mãe.
Uma agitação de súbito atraiu a minha atenção. A fantasma olhou para porta assustada.
... não, eu não vou perturbar sua noiva... não meu senhor... eu prometo me comportar.
E então, atravessou a parede, numa fuga desesperada.
Olhei para a porta da sala tentando entender por que a entrada daquele homem assustou tanto a fantasma. O examinei com o cenho franzido. Ele estava recostado contra a porta, mãos no bolso, olhava para a parede que a fantasma acabara de atravessar.
O que aquilo significava? Ele também era um médium?
As perguntas coçavam a ponta da minha língua, mas eu sabia que se desse lugar a minha curiosidade e estivesse errada, seria a imagem da insanidade personificada.
Desde o incidente na lanchonete, a minha capacidade de ver o plano espiritual aumentava. Se por um lado eu estava estranhamente à vontade com aquela habilidade, por outro ainda estava seriamente preocupada em estar sofrendo alucinações, paranoia.
— Como você conseguiu entrar aqui?
— Não existe portas nesse mundo que possam se fechar para mim.
O poderoso Kim Shin. Normalmente eu estava tão obcecada por aquele sujeito que mal lembrava que estava diante de um homem extremamente poderoso. Para mim, ele era apenas o cara mais velho por quem eu estava apaixonada. O amigo de meu pai. Meu desejo proibido.
— Deve ser bom ter tanto dinheiro.
Aquilo soou meio esnobe. Até porque, eu não era exatamente pobre, mas o sarcasmo ajudava a manter minha raiva num nível civilizado.
— Você está com raiva. — Ele observou com a voz desprovida de qualquer emoção. Era como se tentasse puxar conversa, mas não soubesse como eu reagiria.
— Não de você.
A sombra de um sorriso surgiu no rosto másculo e eu momentaneamente esqueci que estava com raiva. A garota apaixonada em vi quis ver aquele sorriso, então escondido, sem qualquer reserva. Talvez se eu o provocasse um pouquinho...
— Quer dizer, minha raiva de minha mãe, se sobrepõe a raiva que eu estava sentindo de você.
— Ah... percebo...
Um sorriso meio torto e enfeitou aquela boca já perfeita. E eu me sentir vitoriosa. Uma mulher poderia ficar facilmente viciada nos sorrisos daquele homem. O olhar dele se fixou em mim, intenso, como se tentasse ler minha alma enquanto escondia os segredos da sua.
— Eu já liguei para seu pai.
— E contou o que estávamos fazendo?
Quando o homem ficou vermelho, percebi o quanto minha pergunta foi cruel e que no fundo, era desse jeito que eu queria que fosse. Eu queria descontar minha fúria em alguém e ele estava por perto.
Muito sério, o senhor Kim Shin respondeu.
— Ainda não, mas vou contar.
— Eu sei que vai. — Não escondi minha irritação, obviamente, o sujeito pretendia assumir a responsabilidade.
Alguém precisava me explicar por que eu não arranjava um namorado pervertido que só queria se aproveitar da situação como qualquer jovem solteira na casa dos vinte...
Ok, eu provavelmente deveria erguer minhas mãos para o céu e agradecer por encontrar um cara decente, mas, droga, precisava ser tão decente assim?
E principalmente, por que eu não conseguia ter uma vida comum, sem graça, como o resto dos simples mortais?
— Você pode não entender agora tudo o que eu estou fazendo por você...
— Ah, me poupe de bancar o tio agora. Você perdeu por completo a credibilidade depois que o policial pegou a gente... como pegou.
Eu precisei de muito esforço para não rir da cara que o sujeito fez.
Ele ficou verdadeiramente ofendido. Sua resposta foi suprimida pela chegada do referido policial que deu o flagrante.
— O que você faz aqui?
Obviamente a presença do meu “molestador” incomodou o policial, principalmente porque estávamos sozinhos numa sala.
— Acompanho a moça enquanto ela espera os pais.
O policial fez uma careta de desagrado. De alguma forma, ele me parecia muito familiar. Eu sabia que nunca o havia visto, mas de algum modo, a sensação de que o conhecia era forte. Talvez fosse por sua beleza. Ele estava mais para protagonista de drama que para policial.
— Eu sei que o presidente tem muitos amigos importantes, mas nem mesmo o comissário me obriga a fazer algo errado. E o senhor com essa jovem aos meus olhos parece algo muito errado.
Algo de fúria brilhou nos olhos do ahjussi, mas o policial não pareceu se importar. Havia algo de dèjá vu naquela cena, talvez por isso decidi interferir.
— Ah, senhor policial, acalme seu coração. Esse aí não me molestaria nem com uma arma na cabeça. O único perigo nessa sala sou eu. Para conseguir arrancar uma reaçãozinha do homem é preciso de horas de esforço. Deve ser a idade! Apesar de parecer vigoroso, o ahjussi demora um pouco para... acender.
Certo, eu fui ousada e um tanto vulgar, mas ser maldosa era algo que me dava algum alívio naquela situação.
Eu consegui arrancar um meio sorriso do carrancudo policial. E um grunhido do meu “molestador”.
— Entendo, ainda assim, a Agassi deve manter distância do velho até que seus pais apareçam e esclareçam sua situação. Assim, eu gostaria que o senhor se retirasse.
— Eu só a deixarei sozinha quando o pai dela chegar.
— Fico imaginando o que o pai dela dirá quando souber do que presenciei no carro...
— Eu tenho permissão do pai dela.
O olhar de pena que o belo policial me lançou deixou bem claro o que ele acreditava: eu fui vendida a um Ahjussi rico por meus próprios pais.
Era uma visão interessante, mas equivocada. Meu pai jamais me venderia pelo melhor preço.
Seria verdade o que Kim Shin falava?
Eu estava curiosa para saber se de fato meu pai havia dado permissão. Se fosse verdade, era revoltante saber que todos a minha volta se sentiam confortáveis para tomar decisões que me afetariam. Sabia que devia obediência e respeito filial, mas com o meu histórico, se não tomasse cuidado, nunca me tornaria uma mulher adulta. Ao dezenove talvez fosse cedo para tamanha preocupação, talvez eu estivesse tão ansiosa para viver a minha própria vida que estava confundindo cuidado com controle...
Não. Eu não ia entrar naquele ciclo de me auto culpar. Eu passei tempo demais me escondendo, me culpando, sofrendo.
O advogado do Ahjussi foi o primeiro a chegar. Ele se pôs a par dos acontecimentos e rapidamente começou a agir. Primeiro conseguiu impedir o interrogatório sem a presença de meus pais.
— Bem, precisamos provar que a moça é mentalmente capaz. Ela precisará passar por uma avaliação psiquiátrica, mas acredito que tudo será esclarecido.
O advogado falava com o ahjussi como se ninguém mais estivesse com eles.
Não demorou muito para meus pais chegarem. Dona NaNa chegou primeiro. Acompanhada por seu advogado e por uma pilha de documentos que provavam a minha incapacidade de tomar decisões. Acostumada com sua obsessiva necessidade de controle e sabendo que ela esperava que eu me comportasse de modo a validar suas atitudes, mantive a calma argumentando que era improvável que meu pai houvesse autorizado o meu processo de alienação. E contestando os documentos, informei que não havia passado por qualquer tipo de avaliação nos últimos meses.
Quando meu pai chegou o clima tornou-se tenso.
— Que diabos você fez agora NaNa?
— Eu apenas estou protegendo minha filha...
Foi uma noite longa.
Enfim, eu era quase dona de mim mesma: por hora estava restituída minha emancipação, mas até que o caso fosse julgado, precisaria ser acompanhada e avaliada. Logo, todos os planos feitos até ali estavam suspensos até a próxima audiência na vara de família.
Desconfiava que o desfecho tão rápido para um caso tão complexo foi conseguido pelo meu suposto namorado. Dona NaNa assistiu com desespero o seu plano elaborado por meses ruir como um castelo de cartas.
— Isso é para o seu bem.
Poderia ter contestado, mas eu simplesmente a ignorei. De todas as coisas que ela havia feito até aquele momento, essa era de longe a mais grave.
Apesar de me recusar a falar com minha mãe, eu precisei de um momento em privado com meu pai.
— Você deu permissão ao Kim Shin para me namorar?
Não havia motivo para eu ser polida naquela situação.
— Dei e não dei.
— Vocês poderão namorar, após você se formar... se essa sua paixonite ainda existir. E ele prometeu que esperaria.
Fale com o autor