Você sabe quem eu sou?
8 Capítulo 7. O Belo Ahjussi (parte final)
Capítulo 7. O Belo Ahjussi (parte 2)
Eu ainda não podia acreditar em minha sorte. E deveria ter desconfiado que era algo bom demais para ser verdade.
Quando o ahjussi disse que me levaria, acreditei que era para o hotel no primeiro momento, que arranjaria um quarto, imaginei que jantaríamos juntos e com um pouco de minha insistência, poderia ter uma noite agradável em sua companhia.
Pretensiosa? Talvez, mas havia algo em seu olhar que revelava mais interesse do que ele tentava demonstrar. Talvez o Ahjussi se sentisse incomodado, mas sob aquela fachada fria e solene, havia um homem que estava interessado em uma mulher e essa mulher era menor de idade. Eu apostava que seu jeito ríspido, escondia um dilema moral.
Já havia algum tempo que eu ansiava por completar a maior idade.
Se antes meu principal motivo era me livrar da opressiva rede de amor materno que me aprisionava, agora eu queria muito uma oportunidade com aquele homem. Queria tanto que meu coração chegava a doer.
E talvez essa oportunidade houvesse chegado.
A primeira coisa que o Ahjussi fez foi ligar para o meu pai. E só quando a conversa teve início é que percebi que na verdade, ele estava a caminho da mesma estação de esqui que eu e usaria seu carro alugado para me levar ao encontro de minhas amigas antes que a tempestade de fato caísse.
E é claro, meu pai quis falar comigo.
— Por que você não volta querida?
Não fiquei surpresa com a sugestão dele, em outra época eu nem mesmo sairia de casa.
— Se eu voltar, pai, toda a confusão que mamãe armou para que eu não saísse, vai funcionar.
O breve instante de silêncio do outro lado da linha foi um indício que meu pai pensava da mesma maneira.
— Muito bem. Kim Shin vai levar você até a estação e deixa-la segura. Embora acredite que não será necessário, se a tempestade os pegar, há paradas seguras no meio do caminho e pode ser uma opção, então não se assuste se ele sair da estrada principal, de todo modo, entrará em contato comigo se precisarem mudar o roteiro.
— Certo, papai. Nos vemos na segunda.
Uma noite inteira sozinha com aquele Ahjussi? Seria um presente divino?
— Por favor minha filha, se comporte.
Talvez vindo de outro pai, aquele pedido fosse normal, mas eu sempre fui a criatura mais ajuizada entre as garotas de minha idade, logo aquele pedido soou estranho.
— Mamãe contou sobre o Canadá. — Deduzi.
— Sua mãe me contou sobre o Canadá há meses. Não é por causa disso o meu pedido.
— Então é por causa de quê, pai?
A breve pausa antes de responder com certeza era porque meu pai ponderava se deveria ou não ter aquela conversa comigo por telefone. Talvez eu não gostasse da resposta.
Por fim ele se decidiu:
— A maneira como você olha para o meu amigo. Eu sei que está um pouco apaixonada por ele e se permito que a acompanhe até a estação, é por que ele foi muito correto ao me ligar, poderia apenas se aproveitar da sua paixonite e leva-la aonde quisesse.
— Pai...
— Querida, o senhor Kim é um homem adulto. Não quero que você se machuque gostando de alguém que talvez nunca venha a gostar de você.
— Isso não seria algo próprio da minha idade?
— Seria.
— Então me deixe tentar viver e fazer as besteiras de uma garota de minha idade.
— quero que tenha juízo, não faça nada que a envergonhe depois.
— O senhor me conhece. Manter a compostura é minha especialidade.
Embora aquele fosse um comentário casual, ele estava impregnado de uma dor muito grande.
Garotas de minha idade se apaixonavam por homens mais velhos. Tinham paixonites por professores, vizinhos, irmãos mais velhos, pais de amigos... mas se eu o fizesse, ligava o alarme de todos a minha volta.
Quando devolvi o telefone ao solícito amigo de meu pai, percebi uma ruga de preocupação em sua testa. Estaria ele com medo de mim?
Diante dessa possibilidade, minha casa e meus problemas ficaram muito distantes. Tudo que havia ali, naquele momento era eu e meu belo Ahjussi.
E milhões de possibilidades que fazia meu coração enlouquecer em meu peito.
Da cidade até a estação de esqui levava não mais que vinte minutos num dia claro, se o motorista dirigisse prudentemente. Numa noite, com ameaça de nevasca, mesmo com todos os equipamentos modernos de prevenção a impacto, levaria o dobro do tempo.
Se o senhor Kim estava surpreso por eu estava levando duas malas para uma viagem de fim de semana, não nada comentou, apenas as guardou no porta-malas. Como um cavalheiro, abriu a porta do carro e antes de se dirigir para o seu lugar, fez questão de garantir que meu cinto de segurança estivesse bem preso. Quase perguntei se ele sabia quantos anos eu tinha, mas por fim optei pelo silêncio a princípio.
— A estrada para as montanhas é um pouco perigosa. Vamos devagar.
— Então foi por isso que você fez questão de verificar se eu estava segura em minha cadeirinha?
Ele não respondeu, mas tenho certeza que captou o meu sarcasmo.
Mal tomamos a estrada e os primeiros flocos de neve surgiram. Comecei uma oração silenciosa para que uma nevasca feroz nos pegasse no meio do caminho.
Não conversávamos, uma seleção de música clássica de artistas variados preenchia o ambiente. De certo modo, eu não estava aborrecida, eu podia admirar o homem ao meu lado sem reservas, sem tentar parecer bonita e charmosa enquanto atraía sua atenção com uma conversa inteligente.
Eu gostava de tudo nele, desde suas mãos grandes, seus dedos envolvendo o volante, seu perfil másculo e bonito. Eu poderia perder horas falando sobre seus lábios carnudos e todas as sensações que eles suscitavam em mim, mas o que eu preferia mesmo era passar horas provando deles, talvez a noite toda. Naquela mesma noite se tivesse sorte.
Estava tão concentrada em minhas fantasias que estremeci quando ele anunciou.
— A tempestade está ficando pior. Acho que teremos que encontrar abrigo. Tem um chalé um pouco mais adiante fora da estrada. Acho que é nossa melhor opção até o clima melhorar.
Olhei para fora e notei que a visibilidade era precária.
— Também concordo que devemos parar.
Diante do seu olhar desconfiado, fiz cara de paisagem. No fim das contas, eu não era boa nessas coisas de seduzir. Nunca havia namorado de verdade e não fazia ideia de como atrair um homem. Muito menos um homem mais velho.
Eu precisava de conselhos.
O chalé parecia em desuso há algum tempo, mas estava limpo. Como se já conhecesse o local, o senhor Kim, pegou a chave sob um vaso de planta, então quase soterrado pela neve e logo estávamos abrigados do frio. Ele depositou uma cesta que trouxe do carro sobre a mesa da cozinha, enquanto eu estava um tanto deslocada, parada no meio da pequena sala a espera de instruções.
O barulho da tempestade lá fora deveria me assustar, mas era a última coisa na qual eu pensava.
Foi impossível abrir a mala do carro naquela tempestade, então teria que me virar com o que tinha em mãos, isso se reduzia ao que tinha em minha bolsa.
O casaco curto que usava mal me protegeu, a calça, totalmente úmida precisava ser trocada.
— O banheiro fica naquela porta a esquerda. A porta a direita é o quarto. Ele é seu, apenas pegarei o colchão extra e dormirei aqui na sala.
Apesar de sua óbvia tentativa de controlar a situação a nossa volta, assumindo o papel de anfitrião, decidi me tornar uma hóspede muito solícita.
— Eu não me importo em dividir o quarto.
Ele parou o me olhou um instante, fiz o impossível para manter uma expressão inocente em minha face.
— Dormirei perto da lareira, onde é quente.
— Se dormirmos juntos ninguém vai passar frio.
Percebi o esforço do meu acompanhante para se manter sério. Depois disso ele decidiu que a melhor política era apenas me ignorar.
Como precisava trocar de roupa com urgência, fui ao quarto. Lá, enquanto me despia, peguei o celular e fiz uma chamada de vídeo para minhas amigas.
— Onde você está? — Hyuna perguntou ao me ver de roupão. Encontrei a peça no guarda-roupa.
— O teleférico para as montanhas não estava funcionando por causa da previsão do tempo. Consegui uma carona, mas o tempo piorou e paramos num chalé no meio do caminho.
— “Paramos”?
Não respondi, mas acho que meu sorriso me entregou.
— Encontrou seu Ahjussi!
— Encontrei.
— E agora vai passar a noite com ele? Meu Deus, como alguém pode ser tão sortuda?! Sabia que a tempestade de neve está concentrada num local específico? Está todo mundo surtando com esse tempo louco. Até o tempo colabora com você. Então, aproveite.
Oh, Deus, bem que eu queria, mas estava morrendo de medo de estragar tudo. Como o Ahjussi não estava por perto, me sentir à vontade para confessar.
— Eu nem sei o que fazer. Quer dizer, eu não consigo lidar com os garotos de minha idade, o que vou fazer para atrair um homem mais velho?
— Mínimo de roupa possível. Confortável e sexy. Você trouxe aquele sabonete de essência de rosas que te dei? Ele deixa o perfume na pele por horas. Perfeito para uma noite de provocação. E você vai provocar ele o máximo que puder.
Enquanto ouvia minhas amigas, sentia as pernas bambas. Ok, confesso que sou puritana. Queria atrair a atenção dele. Talvez passar a noite aconchegada, trocando carinhos, mas eu seria capaz? Teria o poder de atrair Kim Shin?
— Como eu faço isso?! — Perguntei num tom meio desesperado. Não tinha certeza se teria outra oportunidade como aquela.
— Você não precisa de instruções, Yeon Woo, vai saber o que fazer naturalmente. Aliás, com ele você se torna uma pessoa diferente, mais espontânea, nós gostamos e aprovamos. E confiamos em você.
— Tenho medo de assustá-lo.
— Querida, acorde, se ele quisesse se afastar de você, não teria lhe dado carona, mas conseguido um quarto num hotel para você passar a noite em segurança e seguido viagem, sozinho.
Depois de encerrar a conversa com minhas amigas, liguei para meu pai.
— O tempo piorou quando estávamos a caminho da estação de esqui. Vamos passar a noite num chalé. O senhor Kim vai dormir na sala e me cedeu o quarto.
— Entendo. Como já disse antes, se comporte. Kim Shin já deu mostrar de ser um homem decente, mas...
— Pai, eu tenho dezenove anos. Em menos dois meses serei maior de idade, precisa confiar que serei capaz de fazer minhas próprias escolhas.
Pela tela do celular vi que papai sorriu indulgente, mas um tanto inseguro.
— Você não precisa ter pressa querida, tem uma vida inteira pela frente.
— Eu sei. Ele também sabe, tanto que acredito que nada vai acontecer essa noite se depender dele.
— Mas não se depender de você.
— Eu preciso tentar pai. Gosto dele. Gostei desde a primeira vez que o vi. Ele é solteiro, eu também. Ao menos tentar passar algum tempo com o primeiro cara por quem me interesso de verdade é algo que devo tentar.
— Ele não é um cara, é um adulto.
— Eu sei que pode soar infantil, mas eu acho que ele pode ser o cara com quem vou compartilhar minha vida. Tudo em mim sinaliza isso.
— Amor, isso é prematuro. Ele pode não partilhar dos seus sentimentos.
— Mas ele não me afasta como deveria, papai. Se eu fosse mesmo um incômodo ele me afastaria. Acho que ele na verdade pensa como o senhor.
— Como eu?!
— Sim. Ele também acha que eu sou jovem demais, que não estou pronta, mas não me é indiferente.
— Então ele compartilha da minha preocupação.
— Em dois meses eu também serei legalmente adulta, em dois meses será inadequado um relacionamento entre nós, mas não ilegal. E pai, eu não quero mentir para o senhor, não agora que o tenho como amigo. Então não me obrigue.
Papai sabia exatamente quando brigar comigo se tornava inútil.
— Apenas seja cuidadosa. E aceite que as coisas podem não dá certo.
— Qual relacionamento não já nasce sob essa lógica?
O Ahjussi já estava cuidando do nosso jantar quando voltei a sala usando apenas o roupão.
— Precisa de ajuda?
Ele mesmo olhou para mim quando orientou:
— Não, está tudo bem. Há água quente no chuveiro caso queira se lavar. Mais uns dez minutos e nosso jantar estará pronto.
— Certo, vou tomar um banho rápido e volto para pôr a mesa. Depois cuidarei dos pratos.
— Fique à vontade. Não tenha pressa. Com essa tempestade, não vamos a lugar algum.
Tomei um banho rápido, recoloquei o suéter vermelho que usava anteriormente e um short branco, conforme sugestão de minhas amigas.
Meu anfitrião já estava acomodado a mesa à minha espera. O olhar que ele me dirigiu foi neutro demais, como se estivesse pronto para camuflar quaisquer sentimentos.
— O cheiro está bom.
— Você não está com frio? O aquecimento do chalé não é muito bom. Ele é pouco usado. — Ele desviou o olhar quando me viu, o que trouxe um sorriso ao meu rosto, mas percebi que ele olhou para as minhas pernas antes.
O motivo de minha alegria? O homem até tentava parecer indiferente, mas não conseguia.
— Estou com um pouco de frio sim, mas após o jantar pretendo compartilhar com você o calor da lareira.
— A cama terá a temperatura ideal para garantir o seu sono.
— Você não espera que vá dormir cedo, espera?
— E o que mais há para você fazer?
— Muitas coisas. Podemos conversar por exemplo. Acho que é uma oportunidade para nos conhecermos.
— Por que?
— Por que não? Sou uma pessoa curiosa... e estou muito curiosa sobre você.
O ahjussi se calou e começou a comer, pensativo.
— E então, arranjou alguma namorada?
A pergunta estava na ponta de minha língua há muito tempo. Temia a resposta, mas eu precisava saber.
Outra vez me vi sob o seu intenso olhar. Pensei que ele não responderia, depois temi pela resposta, já que ele hesitava.
— Ainda solteiro.
Percebi certa tristeza em suas palavras. Aquilo me incomodou. Aquele seria o momento dele também me perguntar algo se quisesse manter uma conversação razoável, mas demonstrando que não facilitaria minha vida, ele voltou atenção a comida.
— Se o Ahjussi continuar me ignorando, vou acreditar que não está feliz com a minha companhia.
Tentei quebrar o clima subitamente sério do jantar. Outra vez ele apenas me olhou.
— Hei, eu não tenho culpa da nevasca. Adorei que ela tenha acontecido, mas acredito que meus desejos não têm tanta força assim.
— Você ficaria surpresa.
— Eu fiz algo que o aborreceu?
— Por que você pensa isso?
— Está me tratando com mais frieza que o normal.
— Ah...
— E...?
— Eu estou sozinho num chalé remoto com uma Agassi atrevida que obviamente está cheia de má intenções, estou apenas tentando manter as coisas num nível respeitável.
— Num nível respeitável... Acredito que isso será difícil.
— Acredita?!
— Sim. Eu adoro quando o Ahjussi me chama de Agassi atrevida. Minha vontade é ser cada vez mais atrevida.
— Controle os seus impulsos.
— Por que?
— Terei que me afastar se você ultrapassar os limites.
— E você gostaria de se afastar?
— Farei se for necessário.
— Eu não perguntei se você faria, eu perguntei se você quer.
— Não é algo que esteve em minha mente até hoje. Como já disse, me preocupo um pouco com a forma como você aparece nos lugares que eu estou, mas quero acreditar que são coincidências.
Quase ri ao ver acusada sutilmente de ser uma perseguidora.
— Em minha defesa, pode dizer que perdi o horário da viagem com minhas amigas por culpa de minha mãe. Ela é controladora e não queria que eu viesse.
— Ela se preocupa com você. Eu a entendo.
— Não, o que minha mãe faz excede qualquer mera preocupação materna. Você não entenderia sem uma conversa longa que eu não estou nem um pouco disposta a ter.
— Não seja tão dura. Ela quer o melhor para você.
— Como você pode ter tanta convicção?
— Tive a oportunidade de conversar com ela.
— Ah, sim, agora eu estou entendendo. Ela veio até você com aquela conversa que eu sou uma criança incapaz de se proteger?
— E ela tem razão.
— Se ela tivesse razão, a gente já estaria dando uns amassos naquele colchão lá na sala.
— Agassi!
— Eu posso me calar se minha sinceridade o ofende, mas isso não vai fazer minha vontade passar.
— Agassi, seu comportamento é inapropriado.
Afinal se ele estava sugerindo que eu era criança demais...
— Você fosse um garoto de minha idade, não estaríamos tendo essa conversa, mas esse talvez seja meu erro. Talvez eu deva procurar um garoto de minha idade e deixar o Ahjussi em paz.
A reação dele, no entanto, me surpreendeu.
— Você está envolvida com algum garoto?!
A pergunta soou séria demais para alguém desinteressado. Minha garganta ardeu como se as palavras que acabariam com as dúvidas do Ahjussi tivessem vontade e força própria, mas eu resisti.
Enquanto mastigava calmamente, percebi que o homem do outro lado da mesa me olhava muito sério.
— Você está envolvida com algum garoto, Yeon Woo?
Fugi de uma resposta, uma vez que percebia que seria incapaz de mentir.
— Há muitos garotos bonitos em minha escola. Além disso, minhas amigas têm primos, tios muito interessantes. Seu sobrinho, por sinal, é muito bonito.
— Você se lembra do Deok Hwa?
— Vagamente, mas sei que ele é muito bonito. O Deok Hwa tem namorada?
Precisei reprimir meu sorriso quando percebi que minha pergunta o havia irritado.
Terminamos nossa refeição em silêncio.
— Você ainda não se respondeu se seu sobrinho tem namorada.
Uma rajada de trovões me fez pular da cadeira.
— Deus! O que foi isso?
— Acho que tem algum deus furioso por aí!
Enquanto eu lavava os pratos, o Ahjussi arrumou a própria cama. Ele parecia de mau-humor, e eu queria muito acreditar que era por minha causa. Não podia estar equivocada. Ele de fato detestou o fato de eu demonstrar interesse por outros rapazes.
Talvez finalmente houvesse encontrado uma brecha para penetrar na armadura daquele homem.
Um tanto inspirada por minha pequena vitória, preparei duas canecas com chocolate quente.
Quando cheguei a sala, o Ahjussi já estava deitado e com um livro nas mãos. Ao que parecia, havia me esquecido por completo. Numa atitude rebelde, sentei-me na beirada do colchão e coloquei a caneca no chão, próxima a ele enquanto tomava um gole da minha.
Como ele continuou me ignorando, me acomodei melhor sobre o colchão, sentando de pernas cruzadas.
— O que você está fazendo?
— Observando você.
— Já passou da hora de você dormir.
— Pode me colocar na cama se quiser...
A proposta ficou entre nós e quando estava eu já comemorava vitória , ele me deu um golpe certeiro.
— Eu me sinto lisonjeado com seu interesse, Agassi, mas há uma mulher de quem eu gosto.
Meu choque frente a sua revelação foi tamanho, que acabei derrubando chocolate que ia beber em mim mesma.
E esse foi o fim das minhas pretensões de sedução.
Eu estava trancada há muito tempo no banheiro sem saber ao certo como agir. Sentada no vaso sanitário, usando apenas um roupão, minhas roupas estavam encharcadas sobre a pia. Nem mesmo o short havia se salvado do meu descuido.
Minhas opções não eram boas: ou usava as roupas muito folgadas do senhor Kim, ou encarava a nevasca e pegava minha mala, o que era um tanto exagerado ou continuava com o roupão.
— Está tudo bem, Yeon Woo. Vocês irão para a estação de esqui quando o tempo melhorar. Todos sabem que você está abrigada e acompanhada por um adulto que vai cuidar de você...
Parei de falar quando me recordei quem era o adulto que cuidaria de mim. Estremeci de raiva e excitação ao mesmo tempo. Não fazia ideia do que aquele Ahjussi pensava sobre mim naquele instante.
Eu quase tive um surto quando ele me disse que era apaixonado por outra mulher. Logo eu, especialista em controlar minhas emoções me abalei com tão pouco!
Ok, estava digerindo o fato dele gostar de outra mulher e me corroendo de ciúmes.
— Ele é só um cara de quem você gosta, não o último homem do planeta...
Repeti querendo na verdade convencer a me mesma.
Em meus dezenove anos de vida, nunca estive tão interessada em alguém real. Meu único interesse foi um amante de sonho sem rosto que tinha o mesmo nome de meu novo interesse.
Minha reação agressiva e exagerada diante da confissão que ele amava outra mulher também não foi de grande ajuda, logo a minha melhor opção era agir de forma adulta e aproveitar aquele momento para mostrar que eu não era uma louca completa.
Olhei mais uma vez as roupas que ele me deu: uma camisa gola polo, uma cueca samba-canção, um conjunto moletom, meias e luvas.
Por fim, decidi usar as roupas dele. A única peça que descartei foi a calça. Ela ficava tão grande que amarrando na cintura e dobrando a barra ainda ficava desconfortável. Além do mais, o suéter do moletom chegava quase até meu joelho. Sob esse suéter estavam a camiseta e a cueca... no fim eu estava mais coberta que num dia de verão.
Finalmente criei coragem e deixei o banheiro. O Ahjussi continuava deitado.
Isso chegava a ser ofensivo! Eu ali preocupada em refazer minha imagem e ele nem um pouco preocupado comigo.
Para meu desapontamento, enquanto estive trancada no banheiro me corroendo de ciúmes e decepção, o senhor Kim não perdeu muito tempo pensando em mim. Ele já estava deitado e dormia. Isso mesmo. Enquanto eu estive preocupada em lidar com a nossa noite sozinhos numa cabana isolada, o homem caiu no sono como se não houvesse nada de errado em nossa situação. Como se não houvesse soltado uma bomba sobre meus sentimentos.
Pisoteado sem dó meu coraçãozinho.
O problema era: será que eu não queria tanto aquele homem que estava entendendo todos os sinais que ele emitia de forma equivocada?
“Yeon Woo, há algo de errado na situação de vocês? ”
Não para o Ahjussi. Era possível que para ele eu fosse apenas uma criança precisando de auxílio, a filha perturbada de um amigo dele. Uma garota atrevida que o divertia, nada além disso.
No dia seguinte ele me deixaria em casa, talvez me repreendesse uma vez mais por meu descuido e seguiria sem nunca mais olhar para trás. Talvez fosse procurar a fulana por quem era apaixonado.
Desolada diante de minha situação, fui até a cozinha. As sobras do jantar ainda estavam quentes. Sei que é tolice, mas quando estou chateada, comer me anima.
Sabia que estava sendo completamente boba, mas enquanto comia, deixei que minhas lágrimas correrem livremente.
Não era a primeira vez que queria algo que não podia ter.
Que toda a minha frustração se esvaísse em forma de lágrimas.
No fim, limpei meu rosto, fui até a pia e lavei a louça que utilizei, na esperança que aquele trabalho manual conseguisse me ajudar a recuperar o senso.
De volta a sala, olhei mais uma vez para o homem que dormia tranquilamente.
Deus, ele era tão lindo que só olhar deixava meu coração oprimido.
Mesmo sabendo que não era apropriado, me aproximei e ajoelhei ao seu lado para observá-lo com mais atenção. Ele usava uma calça jeans, uma camisa básica branca e uma jaqueta de couro preta.
Como eu, ele viajou num dia claro e foi pego de surpresa pela virada do tempo.
Lamentei ter deixado meu celular no quarto, queria eternizar aquele momento numa fotografia e guardar para quando ele já não permitisse que eu me aproximasse, mas se levantasse e o acordasse, nem mesmo olhar seria permitido.
Como não podia guardar aquela lembrança numa fotografia, apenas me dediquei a observá-lo sem restrição: os lábios carnudos, o nariz reto e másculo, o queixo forte, as sobrancelhas grossas... tudo nele era tão injustamente lindo!
— Você continua me encarando.
Ele falou sem abrir os olhos, mostrado que estava acordado e ciente do meu exame.
— É por que eu estou apaixonada por você.
Uma coisa ficou clara, minha confissão o perturbou. Ele sentou-se bruscamente e ordenou.
— Pare de brincar!
— Eu estou falando sério!
— Agassi, vá para o seu quarto imediatamente e pare de bobagens!
Ele falava comigo como se falasse com uma criança impertinente, algo que eu não podia aceitar.
— Ainda não estou com sono, Ahjussi!
Se era uma criança impertinente que ele, era uma criança impertinente que ele teria.
Coloquei-me de pé e fui para uma poltrona que foi afastada da lareira para que o colchão fosse acomodado. Virei a poltrona para ficar de costa para ele e me acomodei ali, tendo a minha frente apenas uma mesinha de madeira e parede com um quadro que retrava uma cena rural.
O silêncio reinou entre nós até o escutei se movimentar. Para minha surpresa, ele puxou outra poltrona e se acomodou ao meu lado.
— Vamos assistir um filme. —Propôs sem grandes justificativas. — Você tem preferência? — Perguntou mexendo em seu celular.
— Eu não quero atrapalhar seu sono, eu estou bem, vá dormir.
— Você já atrapalha meu sono, Agassi, então por essa noite vamos apenas desfrutar de um filme enquanto esperamos a nevasca passar.
A tela foi projetada a partir do celular a nossa frente.
Nem percebi como ou quando relaxei e passei a prestar atenção na história...
Acordei me sentido aquecida. Algo muito quente me envolvia com força, peso...
Era tão bom que eu sabia que não deveria abrir os olhos e estragar o momento.
Havia uma mão sob o meu suéter. Espalmada sobre a minha barriga. Uma perna infiltrada entre a minhas. Senti lábios deslizando sobre o meu pescoço, antes de um beijo demorado em minha nuca que me deixou arrepiada. Naquele instante, era a mulher mais feliz do mundo, mas minha felicidade, como sempre, durou pouco.
— Eu te amo. — Sussurrou o Ahjussi com voz sonolenta perto do meu ouvido. E como que para que eu não tivesse dúvida de com quem ele falava, repetiu. — Eu te amo... Eun Tak.
Bem, ao menos agora eu sabia o nome da minha rival.
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