Você sabe quem eu sou?

1 Capítulo 1. A garota Louca


CAPÍTULO 1. A GAROTA LOUCA

“Quando fecho os meus olhos, aparecem os seus olhos, meu coração continua doendo, por isso eu queria esquecer. Se isso é um sonho, me desperte agora, por favor. Será que você é o meu destino? Estou apaixonada por você”.1

O tempo é efêmero e tudo sob o sol, perecível...

Saudosamente, ele era todas as sensações...

Fosse chuva suave deslizando entre os meus dedos. A neve que encontrava abrigo entre os fios do meu cabelo. A frieza do chão molhado sob meus pés...

O cheiro das flores trazido pela ventania nos campos por onde andávamos.

O triste cinza cobrindo o dia e prometendo chuva, que comprimia meu peito.

Era simplesmente tudo que me chamava de volta a vida, algo que eu não podia esquecer um só instante.

Meu coração deveria estar calmo, em paz... afinal, aquele era o meu merecido descanso, entre pessoas queridas...

Bobagem, eu não podia descansar ou estar bem. Não sem ele.

Paradoxalmente, a primeira coisa que fiz ao ir ao seu encontro foi esquecê-lo. Deixar que a vida o apagasse de meus pensamentos.

Eu me ocupei de nascer e crescer. O resto foi tão bem guardado, que se perdeu em minha mente. Por anos eu soube havia algo importante que eu precisava fazer. Era inquietante como essa sensação me perseguia nos momentos alegres ou momentos tristes. Nos momentos em que eu estava de fato vivendo sob a minha nova pele.

Havia sempre aquela forte sensação de inadequação, de estar no lugar errado, com as pessoas erradas, mas foi apenas aos nove anos que eu me lembrei dele. No meu aniversário de nove anos.

Era noite. Como condizente a ocasião, a minha volta pessoas batiam palmas e cantavam o “Parabéns para você”. A minha frente, um bolo com as nove velas esperando para serem apagadas. Foi naquele exato momento que aconteceu, um estalo que apenas eu ouvi e então como uma avalanche, milhões de imagens invadiram minha cabeça. E meu choro desesperado ecoou pela casa chocando a todos.

Já não era Ji Eun-Tak. Eu era, nessa oportunidade, Kim Yeon Woo. E então, era consciente disso.

Aquele, segundo o meu histórico médico, foi meu primeiro surto.

De repente, sentir os braços de minha mãe me envolverem e algum tempo depois, suas lágrimas se juntarem as minhas. Ela perguntava o que eu estava sentido, onde doía, mas os soluços compulsivos haviam roubado a minha voz. Meu coração doía absurdamente, tanto que me sentia sufocar.

Meu pai também se aproximou e no momento seguinte, era eu colocada num carro e levada a emergência do hospital mais próximo. No hospital, como não conseguiam me acalmar, o recurso mais fácil foi me sedar.

Esse seria um acontecimento recorrente. Antidepressivos e antipsicóticos fariam parte da minha vida pelos cinco anos seguintes.

Até aquele dia eu fui uma criança considerada normal. Era obediente, apesar de ter meus momentos de birra, risonha, alegre, de temperamento doce. Tinha pais presentes e amorosos, mesmo trabalhando fora. Minha mãe, trabalhava para a indústria farmacêutica. Meu pai era médico pediatra. Se conheceram na universidade e não se deixaram desde então. Éramos felizes até ali.

O que posso dizer? Eles tentaram e muito, mas o que fazer quando sua filha de nove anos insiste em falar que é uma mulher casada e precisa ir atrás de amor de sua vida, um duende de mil anos?

No começo meu caso foi tratado como uma bobagem de criança. Eu apenas fiquei muito impressionada com algum sonho que tive, ou estava confundido realidade com algum filme ou história que li.

Então eu coloquei fogo em minha cama enquanto tentava invocar meu amado, Kim Shin, apagando a chama de um fósforo.

Tudo seria visto como peraltice se eu não insistisse em contar sobre minha outra vida com detalhes tão vívidos e ficar nervosa quando não acreditavam em mim. Esse tipo de comportamento me comprou uma passagem direta para uma consulta com um psiquiatra. Essa sessão me colocou diante do Dr. Ho Ji-hoo, o homem que me convenceria que eu era louca.

— Coloque tudo num diário. Cada lembrança desse duende com quem você é casada. — O psiquiatra solicitou após alguns encontros. — Se você provar a existência desse ser, eu a ajudarei a localizá-lo.

Uma promessa tola, vã, mas uma menina de nove anos não entenderia a diferença. Tudo o que eu queria era meu Kim Shin e qualquer um que prometesse me levar até ele ganharia facilmente minha confiança.

Minha avó, na contramão de toda família, acreditava que eu estava sendo assediada por algum fantasma. Nem sei ao certo por quantos exorcismos ela me faz passar até a parte racional da família contê-la, mesmo depois, havia sempre algum talismã em meu quarto, ou alguma amiga/amigo estranho que ela me apresentava.

Foi o meu desespero ao perceber que as pessoas estavam me enganando e um segundo quase incêndio que garantiu minha primeira internação. E como eu era uma ameaça a mim mesma e aos outros, uma intervenção química mais séria, segundo o doutor, se fazia necessária.

Dos quatro anos seguintes lembro muito pouca coisa. Quando “acordei” era uma garota de trezes anos que estava perfeitamente convencida que era louca.

Nos meses seguintes minha “condição clínica” estava controlada. Dr. Ho reduziu os remédios desde que eu comparecesse a sessões duas vezes por semana.

Nos seis meses que se seguiram, eu dei muito duro para controlar “minha doença”, recuperar o tempo e seguir com uma vida normal.

Por sorte, uma colega de trabalho sugeriu a minha mãe que ela ouvisse uma segunda opinião sobre o meu caso e, essa segunda opinião contestou diversos pontos do tratamento. Uma terceira opinião validou a segunda, uma quarta também e desse modo, nossa família se mudou para Londres na tentativa de um novo recomeço.

Nos três anos que se seguiram minha vida entrou nos eixos. Meu novo terapeuta não se apressou em me rotular de doida, éramos racionais e nossas sessões começavam com uma pergunta.

— Quem é você?

Minhas primeiras respostas seguiam o roteiro de uma paciente que queria provar que era uma pessoa perfeitamente normal.

— Kim Yeon Woo.

Mas doutor White era um homem sensível e me conduzia a aceitar minha condição.

— Você se sente como Kim Yeon Woo?

— Sim.

Ambos sabíamos que era mentira, mas ele nunca a contestou.

A medida que a relação de confiança foi estabelecida, as respostas começaram a variar:

— Eu sou Kim Yeon Woo, mas me sinto como Ji Eon-Tak.

E então finalmente eu admiti.

— Eu sou a Yeon Woo, mas Ji Eon-Tak faz parte de mim.

Por sugestão dele, havia sempre velas em nossas sessões, assim, após uma viagem em minhas memórias, eu era convidada a apagar a chama e invocar meu marido... e ele nunca vinha. Sobre isso, eu criei uma teoria.

— Ele apareceu para mim pela primeira vez no meu aniversário de dezenove anos. Talvez...

Doutor White sempre permitia que eu devaneasse, mas ocasionalmente, me obrigava a encarar a realidade.

— Eu admito que sua história seria bem plausível se não fosse pelos elementos fantásticos: a casa existe, a moça que morreu no acidente de carro também existiu, há até mesmo registro da existência do homem que era o marido dela, embora aparentemente ele fosse um ricaço recluso, acho interessante que em suas fantasias esse homem seja alguém poderoso em todos os sentidos, em outra sessão podemos destrinchar esse item, mas hoje vamos falar sobre os ponto relevantes, todas essas informações podem ser facilmente descobertas numa pesquisa na rede, outras dependeria de testemunhas que naturalmente, já faleceram.

— Você também acha que eu sou louca...

— Rótulos... quem se importa com eles? Quem é normal? Todos nós carregamos uma certa dose de loucura e a sua pode apenas prejudica-la, a mais ninguém. O que precisamos saber é como e de onde essa fantasia surgiu.

— O que o senhor quer dizer doutor?

— Tenho esperado pacientemente que me conte o que causou a sua ruptura com a realidade, mas você tende a criar uma rede de sustentação para as suas fantasias e embora as rejeite, cada vez mais se perde nelas. É um círculo vicioso.

Eu mesma já havia chegado aquela conclusão, depois de grandes avanços, incluindo aceitar que seu sofria de um transtorno de múltiplas personalidades, não estava muito perto da cura.

— O que preciso fazer então?

O doutor sorriu. Sei que ele gostava da minha objetividade.

— Algo aconteceu com você aos nove anos. Você sabe o quê?

— Além do meu surto na frente dos convidados do meu aniversário? Não. Até onde me recordo, nada aconteceu de extraordinário naquele dia. Eu já pensei muito sobre isso mas nada me ocorre.

— Você aceitaria participar de sessões de hipnose?

— Não vejo problemas se for me ajudar. Eu preciso acabar com isso de uma vez.

— Isso o quê?

Lembro muito bem dessa conversa. Foi quando eu parei de falar de lembranças e passei a falar de sentimentos.

— Eu sinto tanto a falta dele que dói. E não é uma mera saudade. Eu sinto falta da voz dele. De seus lindos olhos tristes. Do peso de sua mão acariciando meus cabelos. De seus beijos... às vezes a saudade é tanta que eu penso que vou enlouquecer.

Percebi minhas lágrimas apenas quando o doutor se aproximou e me entregou um lenço.

— Eu quero muito ajudá-la, Yeon Woo, mas eu nada posso fazer sem sua ajuda.

— E se isso não tiver cura? E se nunca passar?

— Bem, se nunca passar, você precisará de arranjar uma forma de conviver com isso. De seguir com sua vida apesar dessa... saudade. Não há nenhum rapaz por quem você se interesse? Alguém na escola.

— Eu sou uma mulher casada!

— Não, você é uma garota de dezesseis anos e quanto mais tempo aceitar isso, mais fácil será a sua vida. Esqueça a Eun-Tak ou a guarde num lugar seguro e deixa a Yeon Woo viver.

Foi preciso que mais um ano se passasse para que eu fosse capaz de sair com um garoto. Aquele encontro foi uma espécie de remédio amargo. A sensação de que eu estava traindo meu Ahjussi criou um mal-estar tão grande que o sujeito nunca mais me ligou.

Mas não foi de todo ruim, depois disso passei a sair com a turma da escola. Percebi que o fato de ter amigos novamente e atuar como uma garota normal com a minha idade, deixava toda a minha família feliz, então me esforcei para ser o mais formal possível. Esforcei-me tanto, que no ano seguinte, quando meus pais precisaram mudar de volta para a Coreia, eu recebi alta.

— Confio que você será capaz de pedi ajuda se precisar. Deixei com seus pais a indicação de alguns colegas que atuam em Seul. Tenho certeza que algum deles pode lhe ser útil.

Foi muito fácil para eu e minha família nos estabelecermos em Seul.

Nos primeiros dias, meses houve certa apreensão no ar. A vigilância de seus pais sobre mim era sutil, mas eu percebia. Então fiz o que era esperado: entrei para a escola, a mesma que estudei cem anos antes, fiz amigos e tirei boas notas.

O mundo havia mudado muito em um século. Havia novos e eficientes meios de transportes. A medicina avançado muito, descobertas de cinquenta anos antes foram praticamente milagrosas. A expectativa de vida estava em torno de 145 anos para pessoas comuns, e para alguns mais ricos, com dinheiro para pagar reconstrução corporal e genética, parecia que o céu era o limite. Entre essas pessoas, a velhice estava praticamente erradicada. Era comum encontrar pessoas com mais de 100 anos com aparência de não mais que trinta. Por ter nascido naquela época, isso talvez me passasse despercebido, mas com as lembranças da Eun Tak eu estava deslumbrada. Talvez por ter passado tanto tempo em hospitais, centrada em minha própria pessoa, essas diferenças me chocassem tanto. Não que Londres fosse atrasada, longe disso, mas eu não tinha lembranças de Londres há mais de cem anos.

Por outro lado, vírus e bactérias resistentes surgiram e epidemias ocasionalmente dizimavam parte da população. Conflitos locais assolavam algumas regiões do planeta e o modo de vida nesses locais faziam inveja aos distritos dos Jogos Vorazes. O mundo globalizado do início do século XXI, ergueu novas fronteiras. A distância entre países ricos e pobres ficou cada vez maior.

A vigilância sobre as pessoas aumentou. Era possível num único clique localizar alguém em segundos. Reconhecimento facial, de retina, de DNA.

Como paciente psiquiátrica, o controle sobre mim era maior. Meu pais, se assim quisessem, poderiam me localizar um segundo apenas pelo celular e acionar serviços de proteção pessoal, empresas especializadas em vigiar pessoas que se tornaram populares em nossos tempos, num único clique.

Ficava me perguntando como a existência sobrenatural de meu Ahjussi era escondida naqueles tempos de controle absoluto.

Por outro lado, a cultura retrô estava em alta. Cinema escuros, teatros onde o principal recurso era o artista. Houve uma época em que o mundo se deslumbrou os grandes efeitos tecnológicos, mas agora, as pessoas pareciam cansadas de tantas luzes e se voltavam para o antigo, o simples. Até mesmo as decorações de casas passavam por essa onda minimalista e tradicional.

A escola, porém, muito pouco havia mudado. Foram alguns recursos tecnológicos de realidade virtual, as salas de aulas continuavam praticamente as mesmas.

Para mim, entretanto a mudança era radical: era popular. Tinha professoras mais amáveis e colegas mais amigáveis. Bem, eu agora era filha de uma boa família, não mais uma órfã, talvez essa fosse a diferença de minha nova vida.

Em pouco dias me aliei a duas garotas que eram muito mais loucas que eu e acreditem, não ficaram nem um pouco chocada com o meu prontuário, mas souberam guardar segredo. Na verdade, até curtiram saber dos meus segredos. Era mais alguém para trocar experiências e não se sentirem tão desajustadas.

— Tomei antidepressivos boa parte da minha infância. — Foi o comentário de minha nova amiga, Yuna.

— Meus pais me usavam até hoje como arma um contra o outro.

Rebateu Eun-Ha, depois eu descobririam que as duas eram muito competitivas entre si, mesmo entre as coisas que as outras pessoas considerariam negativas, mas que isso não chegava a ser um problema para nossa amizade.

Talvez por que das três eu era a única que tinha uma família amorosa, Yuna e Eun-Há não saiam de lá de casa. E é claro, foram logo adotadas. A felicidade de meus pais com minha vida social era tamanha que eles praticamente endeusavam as meninas.

Se eles soubessem o tipo de conversas que tínhamos, talvez pensassem diferente.

— Acho que a gente tem que ir atrás do seu Kim Shin. — Sugeriu Yuna certa vez. Ela era a mais curiosa e aventureira de nós três.

— Eu tenho controle parental, se chegar perto de algum lugar que lembre vagamente minha psicose e se fizer alguma pesquisa referente a ele, meus pais saberão.

— Não exatamente. Tem um namorado da Eun-Ha que criou um programa que burla o sistema. É assim que os dois se encontram sem que os pais dela saibam. — Insistiu a Yuna com um olhar de determinação.

Não posso negar que meu coração deu um salto, mas ao mesmo tempo, o medo congelou minha alma. Tudo o que eu não gostaria era passar por tudo o que já havia passado.

— Eu não sei. Dei muito duro pra chegar até aqui... não quero regredir.

— Não vejo risco disso. Ora, se cara não existe, vamos provar que você é doida mesmo e esquecer o assunto, mas se ele existir...

Eun-Ha ainda estava tentando ajudar a Yuna a me convencer que não havia nada demais entrar naquela aventura, quando recebi a chamada de minha mãe.

— Você está com arritmia e seus níveis de adrenalina estão altos. Aconteceu alguma coisa?

O rosto preocupado de minha mãe apareceu na tela do meu celular.

— Estou bem, mãe, apenas brincando com minhas amigas. Se precisar de ajuda eu ligo.

— Tem certeza?

— Mãe, quando a senhora faz essas coisas, me faz parecer estranha.

Essa frase normalmente era muito eficiente em parar a superproteção de meus pais. Percebi que minha mãe do outro lado engoli seco.

— Desculpe querida. Chame as meninas para jantar conosco hoje. Se precisar de qualquer coisa me chame.

Era bom finalmente olhar o mundo com olhos adolescente. Falar de boyband e dos oppas dos dramas com entusiasmo. Isso quase acalmava o meu coração. Quase.

Nos dias que se seguiram, encontrar Kim Shin se tornou a ideia fixa de minha amigas. Eu estava a muito custo me controlando para não seguir o conselho delas.

Eu também possuía minhas próprias ideias fixas. A princípio pensei em fazer minhas investigações sozinha, agora que sabia que havia um meio de burlar o controle parental isso parecia viável, mas isso não seria justo com meus pais.

E se eles soubessem que eu continuava com minha obsessão, estrassem em desespero? Aonde aquela loucura poderia me levar?

O que eu não contava era com minhas amigas. Quando Yuna colocava algo na cabeça, nada a parava.

Quase havia esquecido o assunto, quando numa tarde ela convidou.

— Você pode dormir lá em casa hoje?

— Posso, mas porque esse convite agora?

— Meus pais receberão convidados para um jantar de negócios e eu tenho que ir. Muito chato. Vocês precisam me ajudar a passar por isso.

Não havia nada de estranho no pedido, então, no comecinho da noite já estava na casa de minha amiga me arrumando para o grande jantar.

— Quem virá a esse jantar? — Perguntei quando nos preparávamos para deixar o quarto.

— Um grupo de empresários que serão sócios de minha família num novo shopping Center marítimo. Mamãe está preparando o caminho para me arranjar um marido rico.

Uma leve suspeita surgiu em minha mente, mas eu a ignorei antes que minhas emoções fizerem minha mãe entrar em pânico.

— Finalmente vocês chegaram, venham, deixe-me apresenta-las a meus convidados.

O grupo de homens bem vestidos que se aproximaram de nós me causou certa apreensão, mas num relance de olhar percebi que entre eles não havia qualquer rosto familiar.

Foi ao mesmo tempo decepcionante e tranquilizador. Estávamos no fim das apresentações, quando uma voz muito familiar se fez ouvir atrás de mim.

— Desculpem o atraso.

Em meio ao choque, virei-me prontamente e exclamei.

— Duk-Hwa!

Mais surpreso que eu, o rapaz me perguntou.

— Já nos conhecemos?

E assim deu-se início a uma estranha e fantástica noite.

Notas finais
1. Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=0d7siE3Nd2M E então, gostaram do Capítulo? Deixe-me saber!! Amanhã posto o dois...