Você sabe quem eu sou?

2 Capítulo 2 . O deus solitário


Capítulo 2. O Deus solitário

“Se você só vai voltar à noite, eu prefiro viver sem o dia”1

Tal qual a fragilidade do dente-de-leão se desfazendo ao vento é a fragilidade da vida. Eu mais que ninguém sabia disso. Tantos passaram por mim e tantos ainda passariam. Por fim, eu estava liberto da morte, mas condenado a viver.

Durante muito tempo me perguntei até quando meu castigo duraria, se um dia eu finalmente teria descanso. Quantas vidas da Eun-Tak eu me seria permitido compartilhar.

E o quanto deus me odiaria.

De todo modo, eu teria que viver sem a noiva que esperei por novecentos anos. A quem amaria por toda a eternidade. A quem esperaria por toda eternidade se preciso fosse. Ainda que só restasse um único fio de esperança de que retornaria, eu estaria ali.

Lembrei que uma vez ela apostou e sem saber ganhou essa aposta: aquele seria um amor triste, lindo, intenso e doloroso. Apesar de toda dor, eu não o trocaria por nada mais.

Como o marido apaixonado que era, depois enviar minhas preces, tudo que fiz foi me trancar no quarto, enquanto aquela dor me queimava.

Após a partida da Eun Tak, eu chorei. Chorei por tanto tempo, que por dias a cidade não viu o sol. De todas as mortes que presenciei, aquela rasgava a minha alma.

Havia a consciência de que fui inútil. Mesmo eu a amando com todo o meu ser. Mesmo com todos os poderes que possuía, fui incapaz de retê-la ao meu lado.

Nos primeiros meses, quando finalmente consegui deixar o quarto, troquei o dia pela noite. Caminhava pelos campos de trigo sarraceno revivendo nossos momentos. Sonhando com seus beijos. Sorrindo por causa de nossas conversas bobas... e chorando.

Aquele foi um ano úmido e frio.

Embora a espada já não estivesse em meu peito, ele ainda doía. Já não lembrava de todas as pessoas que perdi ao longo da minha existência, mas apenas de uma.

A casa estava silenciosa demais. Vazia demais.

“Você deve chorar um pouco, mas ri mais. Você tem que viver para que os que seguiram não fiquem olhando para trás. ”

E quanto mais ela hesitasse em sua jornada, mais ela demoraria para retornar.

Um dia, porém, enquanto os raios de sol se infiltravam pela janela, eu soube que era hora de seguir. Abri meu coração e meus ouvidos, afinal, havia muitos precisando de um deus coração mole. A vida ainda precisava de milagres.

Nos cem anos seguintes, amigos me deixaram para trás. A dor que apertava meu peito, como já disse, não era uma espada, mas a saudade daquela que eu ansiava reencontrar.

Eu vagava pela cidade. Não perdido como outrora, mas procurando um rosto específico. Vagava pelas ruas por onde caminhamos juntos. Li livros que acreditava que ela poderia gostar. E cuidei de minhas crianças.

Elas, na maioria das vezes eram grandes fontes de alegria.

Ainda gostava de lugares altos. Fosse o topo dos arranha-céus ou outdoors, o barulho distante da cidade me acalmava. As vidas das pessoas seguiam, assim como a minha deveria seguir.

Era ali que meus olhos vagavam em busca dela, preocupado que Deus ouvisse minhas preces e permitisse que ela voltasse logo.

Eu costumava vê-la por toda parte, conseguia sorrir quando lembrava de nossos bons momentos, mas no final de cada sorriso havia aquela dorzinha no peito, aquele sentimento agridoce provocado pela espera.

Eu poderia chorar ocasionalmente, mas precisava viver plenamente. Era assim que ela queria. E assim foi feito.

Meu “cuidador” era um velho conhecido. Voltou para mim como o bisneto de si mesmo. Um jovem que um cuidei e vi crescer, casar-se com uma moça incrivelmente sensata, de temperamento discreto, em oposição clara ao marido. Duk Hwa tornou-se pai, avô e exatamente há quarenta e nove anos, nervoso por me deixar sozinho, morreu numa manhã de primavera.

Mas ele não ficou muito tempo longe, ignorou, como era de se esperar, o meu conselho de se tornar alguém livre numa próxima vida e reencarnou com o mesmo rosto vinte e cinco anos depois, como filho de seu neto.

Aquele moleque nunca ouvia ninguém e isso era parte de seu charme. Era a terceira vida que ele dedicava a mim e eu não poderia estar mais feliz por sua teimosia. De algum modo, finalmente eu entendi que nunca estaria sozinho.

Sempre haveria alguém olhando por mim. Ao meu lado.

Duk Hwa foi certamente a pessoa que voltou mais rápido para mim, talvez por ter assistido de tão perto a dor de minha saudade, aquele coração mole não conseguiu parar de olhar para trás. Ainda era um tolo vaidoso, mas como sempre, um tolo generoso e risonho. Enchia minha vida de barulho e ocasionalmente se metia em confusões que me ajudavam a passar o tempo.

E esse retorno trazia uma pergunta incômoda.

“Onde estaria Eun Tak”?

E quanto tempo eu esperaria por uma resposta?

— Tio? Tio?

Os gritos de Duk Hwa ecoaram pela casa. Como ele era barulhento. Num instante, transportei-me para sua presença.

— Ai!

Seu grito de susto ao me ver, colocou uma careta de desdém em minha face. Não era a primeira vez que eu fazia isso, mas todas as vezes ele reagia excessivamente.

— Ah, tio você tem parar. Sabe o quanto é esquisito quando faz essas coisas?

— Você está falando comigo descuidadamente? — Perguntei num tom sério e ameaçador.

Apesar de ter gostado muito do jovem bondoso que me serviu em sua primeira vida, a primeira criança que cuidei e que cuidou de mim, aquele que me provocava e deixa-se ser provocado era um pouco mais reconfortante para o meu coração solitário.

Ele paralisou um instante e olhou-me nervosamente, então desconversou.

— Trouxe seus novos documentos.

Olhei o envelope com desinteresse. Estava com as mãos no bolso e não fiz questão de me mover.

— Que nome uso agora? — Perguntei e fui surpreendido com a resposta.

— Kim Shin.

— Por que esse nome?

— Não é o seu nome?

A resposta fria me fez observá-lo mais atentamente.

— É você quem está aí, Duk Hwa?

Sua expressão suavizou. E aquele sorriso de quem sabe que ultrapassou os limites apareceu.

— Quem mais seria tio? — Então ele ficou sério. — O que você quer dizer tio? Que as vezes não sou eu?

Seu olhar de pânico foi genuíno.

— Só esqueça isso. Algo mais?

Apesar de ainda incerto, ele colocou a mão no bolso de lá tirou duas pulseiras.

— O que é isso?

— A pulseira o tornará invisível, assim evitaremos notícias estranhas mundo a fora.

Aquilo me surpreendeu. Aliás, nos últimos tempos as pessoas e suas invenções não paravam de me surpreender.

— Mesmo?!

Arrebatei as pulseiras e coloquei no braço. Um tanto decepcionado, percebi ainda era capaz de ver a mim mesmo.

— Acho que está quebrado, ainda consigo me ver.

Dessa vez que me dirigiu o olhar de desdém foi ele.

— Não é esse tipo de invisibilidade, tio. Você estará indetectável eletronicamente. Nenhuma máquina será capaz de detectá-lo ou filmá-lo. Ainda assim, não faça nada muito estranho, as pessoas ainda poderão vê-lo. A segurança do hotel já configurada para proteger a privacidade dos hospedes, mas fora dele, nunca deixe de usá-la.

— Entendo. Preciso usar as duas?

Duk Hwa me olhou penalizado um por segundo e antes mesmo que ele abrisse a boca, eu já sabia o porquê.

— É para o caso do senhor encontrar sua noiva. — Explicou e sem permitir que o clima ruim se instalasse, ele continuou — o pessoal do hotel já preparou tudo para a sua chegada.

Comovido com o seu empenho, achei justo me despedi apropriadamente.

— Obrigado por tudo, você é um menino bom. Ficaremos um tempo sem nos ver, mas...

— Ah, tio, o senhor está indo para o Canadá. Está apenas duas horas e meia de Seul. Não é como se estivesse se mudando para a colônia de Marte.

Eu até tentava ser gentil com ele ocasionalmente, mas não daquela vez.

— Você está falando descuidadamente comigo outra vez? Ah, esse moleque...

Antes de partir, num último sopro de esperança, caminhei por Seul. Que mal haveria em uma última busca?

Em meu passeio, uma agradável surpresa me aguardava: finalmente avistei minha irmã e meu rei em suas novas vidas. Estavam juntos e exibiam aquela áurea brilhante de felicidade. Minha previsão de cem anos antes se cumpriu.

É claro que quis me aproximar deles, mas o nosso tempo juntos havia acabado. Então, depois de uma pequena prece pela felicidade deles, segui o meu caminho.

Horas mais tarde, Quebec, Canadá

E então eu abri a porta e o sol atingiu meu rosto. Era uma tarde de outono atipicamente quente, confortavelmente colorida.

O sentimento de familiaridade trouxe um sorriso ao meu rosto e eu percebi que estava bem. Ainda não sabia ao certo quanto tempo ficaria. Horas, dias, anos?

Não sabia nem se estaria ali no dia seguinte ou se sucumbiria ao desejo de voltar para casa e esperar por ela. Tudo o que me importava era que eu suportaria mais um dia de espera.

Mudar de volta foi a decisão mais acertada. O meu eu velho deveria morrer, era hora de iniciar um novo ciclo. Embora minha aparência jovem numa idade avançada já não fosse um problema, para viver nesse mundo, eu precisava renovar minha identidade de tempos em tempos. E na nova contagem oficial, eu estava outra vez na casa dos trinta.

E era Kim Shin de novo.

Quando se é imortal, não há pressa em fazer qualquer coisa. Então, os primeiros meses se passaram. Com minhas idas e vindas. Com minha recusa em me misturar com as outras pessoas. Eu passava mais dias com os mortos que com os vivos. Os passeios até a colina onde repousavam os meus entes queridos eram quase diários. Sentar-me perto das sepulturas, jogar um pouco de conversa fora, observar a vida que passava a minha volta, ou simplesmente ler.

Eu dedicava longas horas a leitura. Pelo menos por algum tempo, eu vivia novas aventuras, novos amores e me permitia sonhar...

Naquela manhã, nada aconteceu de extraordinário. Foi uma noite sem sonhos. Quando abri os olhos, olhei para o espaço vazio ao meu lado na cama. Alisei o lençol com saudade, enquanto me recordava do quanto era bom acordar e ver o rosto da Eun Tak.

Fiz uma nova prece para que ela retornasse logo, enquanto as lágrimas ameaçavam escorrer de meus olhos.

Mas aquele seria um dia de tempo bom.

Prometi ao pular da cama, com a proposta de apenas suportar um pouco mais a minha solidão.

— O senhor vai a algum lugar, lorde? — Foi a pergunta do velho empregado do hotel ao perceber que eu me preparava para sair, horas mais tarde.

— Estou pensando em dá uma volta.

O homem sorriu educadamente antes de sugerir.

— O senhor deveria evitar a estrada principal. Estudantes de Coreia vieram de viagem para cá, então está um pouco agitado…

O mais reconfortante de estar no Canadá era o fato de que ali a vida parecia dá uma pausa, como se tudo fosse constante, um tanto imutável. Os avanços tecnológicos estavam presentes, é claro, mas havia ali algo harmonioso e forte, que conseguia preservar a essência e sua paisagem. Havia um prédio novo aqui e ali. Alguns estabelecimentos que mudaram de ramo ou fecharam, mas no fim, estava tudo quase igual. Tudo em seu lugar.

E ela estava em tudo...

Como de costume, me detive caminhando pelas ruas movimentadas e ao mesmo tempo tranquilas, segui caminhos alternativos para evitar encontrar-me com os barulhentos estudantes, mas ao longe ainda podia ouvi-los.

Com um ramo de flores em mãos, um livro na outra, tracei o caminho em direção a colina onde velhos amigos repousavam. Por hábito, fiz as perguntas de sempre. Coloquei as flores na sepultura de meu velho amigo.

— Como você está? Tem descansado bem?

E é claro, também repeti o lamento de sempre.

— Eu ainda estou aqui, esperando por ela.

Então eu sentei-me, olhando de lá do alto a paisagem que era minha velha conhecida: a rua que seguia para o hotel e atrás dele, o mar.

— É um bom lugar para descansar.

Sussurrei para mim mesmo antes de abrir o livro. Inevitavelmente lembrei-me dela.

“Quantos anos você vai levar lendo o mesmo livro? ”

Ela ficaria feliz em saber que daquela vez eu não estava fazendo charme.

De fato, estava envolvido pela leitura, quando aquela súbita emoção me assaltou.

“Eu o encontrei”.

A frase foi confundida com uma visão do passado. Ela se misturou a uma conversa que tivemos há muitos anos.

“Não tem nada triste o suficiente para sofrer por quase mil anos. E não existe amor que dure mil anos também.”

“Eu aposto que tem”.

A resposta soou em coro e meu coração tremeu. Afastei os olhos do livro.

“No que exatamente você está apostando, exatamente? Na tristeza ou no amor? ”

“Num amor triste.”

Eu soube que ela estava ali antes mesmo de olhar para trás.

Metros acima, olhando para mim enquanto o sol do fim de tarde ilumina sutilmente sua silhueta. Então caminhou em minha direção em suas roupas de colegial. Eu levantei-me, mas fui incapaz de ir ao seu encontro. Talvez temesse que qualquer movimento abrupto fizesse com que ela desaparecesse. E se fosse uma ilusão de ótica provocada por minha saudade?

Mas não era.

O presente e o passado, diante de meus olhos, como um sonho.

Quando penso sobre o assunto, tudo parece perfeito. Eu estava visitando amigos queridos que haviam me deixado há muitos anos e algo precioso retornava para mim.

Finalmente... e mais uma vez eu entendia que esperar por minha noiva sempre valia a pena.

Ela ainda brilhava. Talvez pelos longos anos em que tive que esperar, brilhava mais que nunca.

A dor da saudade apertava o meu coração, enchia meus olhos. Por tantas vezes eu esperei aquele reencontro, mas quando ele de fato aconteceu, nem consegui reagir, só como um tolo, observar em choque sua linda face enquanto sentia a dolorosa certeza de que finalmente tudo estaria bem.

Ela estava de volta. O brilho voltava a minha vida.

— Ahjussi, você sabe quem sou eu. Não sabe? — ela perguntou com um sorriso nublado por suas lágrimas.

— A primeira e última noiva do Goblin.

Sorrimos entre lágrimas e como tolos apaixonados, nem mesmo conseguimos nos mover no primeiro momento. Encarávamo-nos com alegria, saudade e medo. Como se qualquer movimento fosse romper aquele momento mágico.

— Eu senti sua falta, Ahjussi. — Ela sussurrou por fim.

E num daqueles rompantes que tanto me desconcertou no passado, ela me abraçou. E veio tudo de vez. O cheiro dos seus cabelos, o corpo quente grudado no meu. O coração batendo forte contra meu abdômen. Meu coração batendo forte contra seu ouvido.

Eram tantas emoções que eu não retribuí o abraço de pronto. Fiquei chocado por sentir que ela era real. Ela estava de volta.

— Eu também. — respondi por fim abraçando-a forte.

Minhas lágrimas caíam livremente e repousaram em seu rosto. Ela se afastou e me olhou nos olhos.

— Não chore, Ahjussi, o dia está bonito.

Apenas ela para conseguir me fazer rir num momento como aquele. A gargalhada que não era ouvida há pelo menos um século ecoou entre nós.

A puxei de volta. Ainda não estava pronto para me afastar dela.

— Hoje não vai chover.

Confusa, ela buscou meu rosto com os olhos e perguntou.

— Por que não?

— Porque hoje eu estou feliz.

Notas finais
1. Musica do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=_MdFvZPU3Io Comentem, recomendem, compartilhe. Ep 3 logo, logo.