Você quer ser meu?
22 Um stalker e uma fantasia
Notas iniciais
POV Alois
—Alois? Onde você está??? — a voz do Andrew falava baixa e tensa do outro lado da linha, eu o conhecia bem demais para reconhecer que embora ela estivesse calma, havia irritação ali. Irritação e impaciência.
—Calma, Andrew. Já tô chegando — falei ofegante, andando rápido pela calçada.
—Já faz mais de quarenta minutos que você está chegando e nada — falou mais irritado ainda.
—Dessa vez é sério. Juro ! — desliguei o celular antes que ele dissesse que eu já tinha jurado isso há quarenta minutos.
Olhei para os lados e atravessei a rua correndo; continuei correndo pela calçada cheia de pessoas, tentando escapar da garoa chata que caía, pegando carona no guarda-chuva dos outros.
Finalmente cheguei em frente à sorveteria onde tinha marcado de me encontrar com o Andrew, ele estava em pé debaixo do toldo, digitando algo no celular com um sorriso bobo nos lábios, cheguei de mansinho por trás e fiquei na ponta dos pés.
—Para de ficar namorando… — falei bem perto da orelha dele.
Andrew se assustou e segurou o celular que ameaçava cair.
—Tá louco? Primeiro demora feito não sei o quê, agora tenta me matar de susto! — brigou, voltando a digitar e logo guardando-o no bolso. Dei uma risada um pouco alta.
—Que chiliquento! Larga de ser mimizento, Andrew, foi só um sustinho — falei em tom de brincadeira — Agora diz aí, era mensagem para o Alexy, né?
Andrew corou muito e sorriu.
—Estávamos marcando de nos ver mais tarde.
Sorri ainda mais e dei um empurrão ombro a ombro.
—Mais uma noite de sexo selvagem!! — falei, zoando com a cara vermelha de vergonha do meu amigo. Ele ficou ainda mais envergonhado e olhou para os lados, nervoso, com medo que alguém tivesse ouvido, segurou o meu cotovelo, começando a me arrastar para longe, me arrastando enquanto eu tinha mais um acesso de risadas.
Eu estava feliz pelo Andrew ter encontrado alguém que o amasse como ele merecia, eu não conhecia o Alexy, não mais do que algumas vezes em que nos esbarrávamos pela escola e uma ou outra vez que trocamos poucas palavras, mas só pelo fato dele ter sempre nos ajudado contra os ataques homofóbicos do Anton, já contava pontos positivos para mim. Melhor ainda que, mesmo depois dos acontecimentos ruins entre a gente, nossa amizade voltou rápido ao normal. Andrew era o meu melhor e único amigo e eu não queria correr o risco de perdê-lo.
Sorri para mim mesmo e caminhamos lado a lado pela calçada larga.
—Já pensou onde quer ir? — Andrew perguntou.
—Só conheço duas lojas de fantasias aqui, e elas são perto uma da outra — respondi enquanto olhava o trânsito de carros passando rapidamente.
Não sei porquê, não havia motivo algum, mas minha atenção foi direcionada para um carro parado no meio fio, do outro lado da rua.
O carro era azul escuro mas não tinha insulfilm, o vidro estava aberto até a metade janela então eu pude muito bem ver o homem que estava no banco do motorista, infelizmente era uma pessoa bem conhecida. E para o meu desespero, tive certeza que não havia sido uma coincidência estarmos no mesmo local, não quando vi o modo como o homem me encarava, tão fixamente que duvido muito que sequer piscasse, e quando nossos olhos se encontraram, estremeci de medo e angustia. O pai do Andrew estava me seguindo…
Tentei conter a ânsia de vômito que tomou conta de mim e empurrei Andrew para a primeira loja que vi, não que eu achasse que ele fosse fazer algo tendo o filho como testemunha mas, mesmo assim, foi mais forte que eu. Andrew se assustou ao ser empurrado.
—O-o que foi? Tá louco — falou se desequilibrando, sendo lançado num empurrão para dentro da loja. Ainda olhei para fora e sim, ele estava olhando para mim, deu um sorriso mordaz e fechou o vidro, dando partida no carro.
Respirei fundo e percebi que estava agarrando com força o braço do Andrew que me olhava sem entender.
—N-n-não é nada, achei ter visto um ladrão — menti, falando a primeira coisa que eu pensei na hora. Ele me olhou descrente.
—E por que você achava que era um ladrão?
—Não sei. Parecia — dei de ombros, sorrindo meio constrangido.
—Posso ajudar os rapazes? — a voz da vendedora nos assustou. Mais à mim do que o Andrew.
Olhei para a ruiva bem penteada e maquiada que sorria amigável para mim, naquele uniforme rosa claro com detalhes na cor vinho, o logo da loja, um pequeno cupido dourado, bordado do lado esquerdo do peito.
“Ahh droga!!” — pensei ao olhar em volta e reconhecer a loja de uma das mais famosas marcas de lingeries sensuais do mundo, lingerie francesa, feita para surpreender.
—Hum… não sei… — disfarcei, afinal o que mais eu poderia fazer. Sair correndo novamente e correr o risco do pai do Andrew estar lá fora?
Ficamos na loja por mais um tempo. Disfarcei que estava procurando algo par a minha suposta namorada e a atendente, solícita e sorridente, me mostrou vários modelos de sutiã e calcinha.
—É tão jovem para comprar algo tão adulto… — comentou me mostrando um conjunto inocente de calcinha e sutiã em algodão com morangos vermelhos estampados, analisei sem nem ao menos colocar as mãos nas peças.
Na verdade, eu queria dar um tempo para que, se o pai do Andrew estivesse por ali, acabasse desistindo e fosse embora.
—Ah, mas ela merece algo especial — menti, dando um sorriso tímido. Olhei para o Andrew que estava roxo de vergonha e mal olhava para os lados.
A vendedora me mostrou então um conjunto rosa bebê com sapinhos verdes. Torci o nariz.
—Não, isso tudo é muito infantil — comentei correndo os olhos pelas prateleiras, como se realmente quisesse comprar algo. _ Aquele ali, Quero ver o vermelho — apontei para a peça pendurada no cabide de veludo negro.
—Pra quê você quer ver isso? Você não tem namorada! Nem de mulher você gosta!! — Andrew murmurou exasperado para mim, enquanto a vendedora estava de costas pegando a roupa.
—Para de ser chato! — disfarcei — Só estou fazendo hora.
—Pra quê? — repetiu- A gente devia estar escolhendo uma fantasia pra você — então ele arregalou os olhos e tampou a boca com a mão — Não me diga que você vai usar isso como fantasia????
Ele falou isso tão aterrorizado com a possibilidade de eu ir semi-nu e ainda enfiado numa lingerie que eu não pude deixar de rir alto.
—Andrew..Andrew… Já imaginou ? Acho que eu faria sucesso — brinquei, corando junto com ele. Rindo de como ele adquiria um tom profundo de vermelho que descia pelo pescoço.
Eu ainda ia falar mais alguma coisa mas a vendedora se aproximou.
—Este aqui é bem mais adulto, não sei se sua namorada vai se sentir confortável… — falou reticente, me mostrando o sutiã que não era mais do que dois triângulos de uma renda finíssima e macia, vermelha escura, as alças e a parte do elástico das costas em fita de seda dourada; a calcinha era daquelas fininhas nas laterais, também na mesma renda vermelha e seda dourada. Era um conjunto muito bonito e elegante, e definitivamente, era sexy. Fazia jus à marca que ostentava sob a forma do pequeno pingente de cupido dourado: roupas feitas para surpreender.
—É lindo! — murmurei, passando meus dedos sobre a renda tão agradável ao toque.
A atendente sorriu.
—A sua namorada usa qual tamanho?
Então, nesse momento em que, se eu tivesse algum juízo na cabeça, eu teria agradecido, dito que não levaria nada e virado as costas e ido embora. Mas como eu não tenho, mil coisas maliciosas pularam na minha mente, dei um sorriso diabólico.
“Talvez seja bom provocar um pouco o Claude” — pensei.
—Não sei, acho que 36 ou 38 — respondi.
Ela pegou o conjunto nas duas numerações para que eu pudesse escolher e, não vou negar, me deu vontade de experimentar.
—Vou levar o 36. Ela quase não tem seios — dei um sorriso e entreguei o conjunto no tamanho escolhido, dei uma piscadinha pro Andrew, só pra provocar ele.
—Não acha que vai ficar bom? — perguntei rindo e Andrew balançou a cabeça em negativa.
A vendedora acomodava as peças numa caixa rosa com corações cor de vinho e assim que eu paguei o valor alto, diga-se de passagem, peguei a sacola, agradecendo e então, finalmente saímos da loja.
—Queria saber qual namorada — murmurou muito envergonhado.
—Ora, Andrew . Ainda é inocente à esse ponto? Eu que vou vestir essa roupa.
—Você é louco — falou enquanto saíamos da loja.
—Diga-me alguma novidade. Aliás você poderia usar algo assim para o Alexy, aposto que ele ia amar — falei rindo, andando ao lado dele pela calçada.
A loja de fantasias era a terceira depois dessa de lingerie e logo entramos nela, comecei a olhar as araras com fantasias de pirata, policial, detento… nenhuma realmente me agradava, queria algo menos óbvio. Um vendedor se aproximou nos cumprimentando e eu expliquei mais ou menos o que tinha em mente.
—Acho que temos algo assim. Venha, vou lhe mostrar — falou solícito se encaminhando para o fundo da loja, eu e Andrew o seguimos.
Ele me mostrou várias fantasias, não dessas baratas, mas daquelas mais chiques, feitas de tecidos bons e tão bem feitas que seria até incorreto chamá-las de fantasias. Experimentei inúmeras, desde de camponês até de príncipe, estava na verdade quase levando a te príncipe quando meus olhos pousaram na sessão de peças exclusivas.
—E ali? O que é? — perguntei olhando um lindo vestido vinho. Não que eu realmente quisesse me vestir de mulher na festa à fantasia da empresa do meu tio, mas quem sabe eu encontraria algo bom e de quebra levasse o vestido para provocar o Claude?
—São fantasias exclusivas, só foram feitas uma de cada modelo. Quer dar uma olhada? — perguntou o vendedor, um rapaz que não devia ter mais de vinte anos, tão ruivo e branco que a pele era toda pintada pelas sardas.
Assenti com a cabeça e me encaminhei para lá, examinando cuidadosamente cada peça, cada uma mais linda que a outra e então, meus olhos brilharam ao encontrar um fantástico casaco longo roxo, era lindo demais.
—Olha isso, Andrew!! — peguei o cabide mostrando a peça para ele.
—É roxo! — torceu o nariz.
—Eu sei! Por isso gostei — sorri e me virei para o vendedor.
—É fantasia de quê? — perguntei ao que ele me respondeu que essa peça era da linha vitoriana e que eu poderia montar o figurino com outras peças avulsas da mesma linha.
—Me mostre toda a linha — falei animado, algo bom pulsava em mim. Um misto de saudade e tristeza, algo muito doido pois, óbvio, eu não tinha nada a ver com a Inglaterra vitoriana. Me lembrei do trecho de uma música meio antiga “ Saudades de tudo que eu ainda não vi…” — ri para mim mesmo enquanto o vendedor sorria começando a me mostrar as outras peças, todas o triplo do valor das peças exclusivas. Eu não gostava de gastar tanto dinheiro assim, ainda mais por uma roupa que eu só usaria uma vez, mas não pude resistir quando ele começou a me mostrar as camisas e as outras peças.
Saímos depois de duas horas e de virarmos a loja de ponta cabeça. Andrew quis desistir e ficar me esperando do lado de fora mas eu o impedi, afinal ele tinha que me dar a opinião dele, ver qual peça ficava melhor com outra.
Carregava uma caixa grande, numa sacola de papelão brilhoso preta e dourada e mais a sacola com a lingerie.
—Desde quando roxo combina com verde? — Andrew perguntou se referindo às cores do meu casaco e colete, dei de ombros.
—Ingleses vitorianos usavam shorts daquele tamanho? Você pegou numeração infantil! — continuou me provocando.
—Não era infantil! — mostrei a língua para ele — E ficou bem em mim, não ficou?
Andrew suspirou.
—Ficou bem até demais — respondeu corando um pouco e eu sorri para ele.
Andrew me acompanhou até perto de casa e depois nos despedimos, corri o resto do caminho. Com sorte, Claude estaria no escritório, tentando terminar de escrever mais um capítulo do livro interminável dele mas assim que entrei em casa o vi deitado no sofá, só de short e nada mais. Engoli em seco ao ver o corpo dele e fechei a porta.
—Oi — Claude sorriu se levantando e vindo na minha direção, senti meu corpo formigar e uma revoada de borboletas se agitarem no meu estômago.
—Oi — respondi sorrindo, ainda carregava as sacolas.
—Estava com saudade — Claude me abraçou e eu tentei retribuir, fazendo as sacolas baterem nas costas dele.
—O que comprou? Quero ver — falou já tentando pegar a sacola da fantasia.
—Não pode ver, é surpresa — me afastei rápido.
—Deixa eu ver, vai ? — ele insistiu e me puxou para ele com um braço em torno da minha cintura.
—Saaaaiii — saí correndo para o quarto, fugindo do cara curioso e deliciosamente gostoso que corria atrás de mim.
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