Você quer ser meu?
9 Um livro e um anime
Notas iniciais
Eram duas e quarenta da tarde e nada do Alois voltar para casa. Hoje não era dia do clube de dança nem do de teatro que ele participava e portanto seu horário de saída da escola era ao meio dia.
“Onde esse garoto se meteu?” — pensei angustiado.
Logo no começo eu não me importei muito com seu atraso mas conforme os minutos iam passando comecei a ficar cada vez mais preocupado. Comecei a pensar se ele ia fugir de casa como fez quando vivia com a Hannah.
“Será que eu fui tão desprezível assim?”
Eu só quero que o Alois fique bem e não acho que ele possa ser feliz comigo. Ele merece alguém jovem e despreocupado e não alguém como eu. Mesmo sofrendo por tê-lo dispensado eu tive quer fazer isso.
Tenho que sufocar o amor que eu sinto pelo Alois. Mesmo que eu não queira fazer isso, não depois da última noite, não depois de provar do loirinho. Estou num dilema atroz: agir com a razão ou com o coração?
Tinha me arrependido tremendamente pelo que falei, devia ter esperado, falado com mais calma e não do jeito que eu fiz. Dispensando o garoto depois de ter jogado ele na cama e ter transado como se não tivesse sido especial para mim. Tentei esquecer os momentos da noite passada, esquecer como foi ter ele e como depois de tudo ficamos abraçados trocando beijos carinhosos. Mas, como esquecer algo que me fez me sentir tão bem? Tão feliz?
Talvez o Daniel tenha razão. Talvez eu devesse me permitir. Nós dois queríamos não é? Mas eu não conseguir aceitar com tranquilidade essa ideia, acho que no fundo eu me sinto meio como aqueles caras que compravam algumas horas do Alois, dá a impressão que eu o estou usando… E se ele não me quiser de verdade? E se ele só estiver confundindo gratidão com outra coisa?
Eu não quero ser usado também. Eu prometi a mim mesmo nunca mais deixar ninguém me usar.
Mudei o rumo dos meus pensamentos quando senti as primeiras lágrimas caírem no dorso da minha mão. Levei elas ao meu rosto e as sequei.
Estava morrendo com a demora dele e me torturando pensando com quem ele estaria.
“E se ele se meteu em encrenca?”
“E se alguém se alguém o sequestrou? Assaltou? E se alguém o agarrou no meio do caminho e o arrastou para algum lugar?”
O relógio bateu as três horas quando vi Alois aparecer virando a esquina e caminhando para cá. Andava calmo, a mochila pendurada num só ombro, eu conseguia ver mesmo ao longe o fio dos seus fones de ouvido verde-água balançando conforme ele andava e sim, ele rebolava um pouquinho, o suficiente para fazer o idiota que atravessava a rua torcer a cabeça quase no ângulo da menina do exorcista para vê-lo. Tive vontade de descer e ir para cima do cara que o comeu com os olhos e olha que ele estava de uniforme, nem eram aqueles shortinhos escandalosos que ele usa aqui em casa! Quando chegou perto do prédio, saí da sacada gourmet e fechei a porta de vidro, não ia dar chance dele perceber o quanto eu estava preocupado.
Corri na cozinha e joguei no lixo o copo descartável de café que eu havia comprado escondido mais cedo — estava nervoso demais com tudo o que aconteceu, precisava desesperadamente de cafeína e nem três litros de coca-cola iriam solucionar a minha abstinência pela substância. Voltei a tempo de sentar no sofá e ajeitar o cabelo para que não percebesse que eu tinha corrido, passei a mão no primeiro livro que estava na mesinha de centro e ele abriu a porta do apartamento.
_Oi — me cumprimentou entrando e fechando a porta.
_Oi — tentei parecer despreocupado — Hoje era dia de clube?
_Não — falou enquanto caminhava para o quarto, ouvi o baque surdo da mochila pesada no chão de madeira e ele abrindo o armário.
Depois de alguns minutos, saiu do quarto, tinha trocado o uniforme por uma camiseta roxa e um shorts branco e foi para a cozinha.
_Almoçou? — perguntou para mim.
_Sim. Fiz um lámen.
_Isso não é comida, Claude. Você sabe que não pode comer essas coisas — brigou comigo.
Veio para a sala e se sentou ao meu lado. Segurava um copo de água gelada que bebia em pequenos goles.
Não consegui me controlar.
_Onde você estava?
_Numa lanchonete — tomou mais um golinho e minha atenção foi atraída para os seus lábios rosados e úmidos.
Balancei a cabeça. Não podia pensar nele dessa forma.
_Fazendo o quê? Com quem?
_Nossa, isso é um interrogatório? Cadê aquele holofote que ligam na sua cara durante os interrogatórios nos filmes? — tirou sarro de mim.
Comecei a sentir o bichinho do ciúme me roer por dentro.
_É um tipo de interrogatório sim — falei sério.
Ele sorriu.
_Huummm e você é o investigador? Vai me prender, Claude? Cadê as algemas? — me provocou.
_Isso não é uma brincadeira.
_Ah, tá bom. Estava no Harnold´s burger com o Andrew.
Era uma lanchonete que ficava entre a escola e aqui em casa mas o pior era a companhia. Quer dizer, eu não devia ficar assim, não é? Não fui eu que dei autorização para ele se envolver com o amigo?
“Mas ele precisava ser tão rápido????” — pensei sentindo meu estômago começar a doer miseravelmente.
_Satisfeito? — perguntou terminando de beber a água.
_Não. Preferia que você tivesse vindo para casa logo. Poderíamos ter almoçado juntos.
_Eu sei. Mas eu precisava conversar com o Andrew — pela primeira vez desde que se sentou ao meu lado, ele deixava de lado as provocações.
_Conversaram sobre o quê?
_Nada do seu interesse — finalizou — Eu acho.
Passou alguns minutos em silêncio. E minha cabeça imaginando mil coisas. Todas terríveis.
_Estava preocupado? — perguntou sorrindo meio de lado.
_Oh não. Apenas estranhei um pouco mas nem prestei muita atenção — menti.
_Sei. Ficou lendo esse livro, não é?
_É. Fiquei. É muito interessante — disfarcei.
_Deve ser mesmo, você até o está lendo de ponta cabeça!
Olhei para o livro que eu ainda mantinha aberto mas nem tinha prestado atenção e vi que ele estava certo.
“Que droga! Mais uma pisada de bola!”
Alois riu da minha cara e voltou para a cozinha para deixar o copo por lá. Depois voltou a sentar-se ao meu lado, eu tinha largado o maldito livro de lado e estava zapeando a tv.
_Mas me diga, como foi a reunião ontem?
Me animei com o interesse dele.
_Foi chata e horrível mas proveitosa. Estou num novo projeto.
_É mesmo? E qual é?
Me ajeitei melhor no sofá, sentando meio de lado e sobre uma perna. Alois sentou-se do mesmo jeito e segurou a cabeça com uma mão, apoiando o cotovelo no encosto do sofá. Seus olhos estavam atentos e brilhavam de interesse.
“Eu adoro esses olhos”.
_Querem que eu reformule o meu livro. O transforme num livro para jovens.
_Que legal.
_É uma mudança grande, quer dizer, eu escrevo para jovens adultos mas diminuir ainda mais a idade do meu público alvo é complicado. Ainda mais porque eles querem que seja um romance.
_Um romance? Achei que você escrevia histórias policiais.
_ E escrevia mas parece que o Daniel achou que tinha romance no meu manuscrito e quer que eu desenvolva a história focando mais no relacionamento dos personagens principais do que nos casos policiais.
_E quais são os personagens? Você nunca me disse.
Alois nunca tinha lido minhas obras nem mesmo o meu rascunho. Parece que não era o seu tipo de livro predileto. Fiquei um pouco envergonhado em falar o nome dos meus personagens mas acabei falando, não tinha porque esconder.
_ Carl e Liam — olhei e o vi sorrindo.
_São gays, Claude? — falou animado — Como a gente?
“Céus” — pensei e dei de ombros.
_Que fofo — bateu palmas — Um romance yaoi.
_Ya o quê? — nunca tinha ouvido esse termo.
_Não acredito que não conhece yaoi! — exclamou estupefato.
_Nunca ouvi falar.
_Não importa! Eu vou te mostrar. Agora me diga, como eles são, o que eles fazem?
Eu não ia descrevê-los fisicamente pois estava claro que eles se pareciam comigo e com ele.
_O Carl é um policial e o Liam seu assistente, agora vou ter que mudar para algo mais leve.
_Pode deixar eles com essas profissões mesmo. Não porque é para jovem que o tema tem que ser bobo.
_Você não acha que eles sendo policiais fica chato?
_Claro que não! Fica até melhor, já pensou o tanto de aventuras e perigos que eles vão se meter? Risco de morte, bandidos, submundo e o amor deles para colorir esse mundo preto e branco. É perfeito.
Me animei bastante com a conversa, era bom conversar com gente jovem para saber do que eles gostam e o que pensam das coisas.
Conversamos por horas sobre a trama e os personagens.
_Acho que vou tirar um cochilo — falou se espreguiçando, esticando os braços e pernas preguiçosamente e se levantou do sofá. O segurei pelo pulso e ele olhou para mim.
_Alois...eu queria me desculpar por hoje de manhã. Eu fui um idiota.
Ele tentou esconder um sorriso.
_E isso quer dizer o quê exatamente?
_Que eu não devia ter dito aquelas coisas — Eu não estava muito certo se estava conseguindo transmitir a ideia correta.
_Se arrependeu de se arrepender? — Alois voltou a se sentar, agora na pontinha do sofá e eu percebi que até aquele momento eu ainda o estava segurando, soltei seu pulso.
_Eu...eu não sei bem — gaguejei — Só não quero que você fique triste.
_Ainda acho você um idiota mas é um idiota fofo. Eu te desculpo — então se inclinou para mim e deu um rápido selinho nos meus lábios. Voltou a se levantar e foi para o quarto bocejando.
Mais tarde desse mesmo dia, entrou no meu escritório enquanto eu revisava o meu texto e começava a fazer as alterações necessárias e me mostrou o que era o tal do yaoi, falou dos animes e dos mangás que ele assistia e lia pela internet. Deixou anotado uma lista de animes desse tema e o primeiro estava escrito em vermelho.
_Acho esse especialmente necessário que você assista — recomendou, saindo do escritório e olhando para trás, uma das mãos apoiadas no batente da porta.
“Título muito sugestivo…” — pensei mas eu ainda não conhecia esse universo e não sabia o quão intenso ele podia ser.
_Por que ele é tão especial? — perguntei inocente.
_Assista e você vai entender — sorriu malicioso e saiu do cômodo.
Minha intenção era terminar de revisar o meu texto e depois, quando tivesse um tempo, iria assistir um ou outro. Não estava botando muita fé nesse yaoi.
Mas toda hora eu olhava para o papel, parecia que ele estava me chamando e no fim, eu não resisti e digitei no google o título: Papa to kiss in the dark.
Horas depois eu já estava no terceiro anime quando ele me chamou para jantar.
_Então? — perguntou malicioso — Assistiu o Papa?
_Você é pérfido — atirei.
_Oh, como você é cruel — falou falsamente indignado tocando o meio do peito com a mão espalmada — Só achei levemente familiar, com a diferença que o Kyousuke não é bobo.
_O garoto é um criança. Ele é o tio do garoto e eles transam — enumerei.
_Por que será que eu achei familiar? — cantarolou.
Me servi da comida, Alois já estava comendo, feliz por estar me deixando constrangido. Começou a rir com a boca cheia quando viu a minha cara.
_Ora, cale a boca — mandei.
_Se eu não obedecer, você vai me fazer calar como ontem? — provocou dando outra garfada.
_Alois!
Senti meu rosto corar e ele se limitou a rir ainda mais de mim.
“Pelo menos eu acho que ele não está mais com raiva de mim”.
****
No dia seguinte, nós quase voltamos a nossa rotina normal: levei Alois na escola, escrevi mais um pouco do meu livro, assisti mais um anime da lista, fiquei chocado com o que vi e depois fui buscá-lo na escola.
Ele demorou alguns minutos a mais para sair e eu saí do carro para esperar na calçada, encostado no carro com os braços cruzados na altura do peito.
Alois desceu as escadas do colégio ao lado do Andrew. Estreitei meus olhos para o moreno.
_Tchau, Andrew — se despediu sorrindo, aproximando-se de mim. O outro manteve-se a uma distância prudente, mas acenou com a mão para mim. Eu respondi com um pequeno aceno.
_Tchau Alois. Vou ligar para você mais tarde, tudo bem?
_Claro. Estarei esperando.
Odiei a resposta do loiro.
_Vamos logo Alois — falei e abri rápido a porta para ele entrasse.
Quase o empurrei para dentro.
_O que mais vocês têm para falar? Já não conversaram o bastante na escola? — perguntei ácido.
_A gente sempre tem o que conversar e tem coisas que não dá para falar na escola.
Olhei para ele e ele me encarou, então sorriu e piscou um olho.
_O que você quer dizer com isso? — perguntei.
_Não quero dizer nada, Claude.
Não acreditei muito nele.
“Acho que vou contratar um espião”.
_Nós ainda não comemoramos o seu novo trabalho — comentou.
_Eu nem terminei ele. Nem sei se vai ser um sucesso.
O semáforo fechou e eu parei o carro.
_Mesmo assim, acho que merece uma comemoração.
_Ok. O que você quer fazer?
_Aahhh, que pergunta perigosa! — falou, rindo.
_Comporte-se Alois — cortei, mas um pequeno sorriso se formou nos meus lábios.
O semáforo abriu e acelerei, passando a primeira marcha e saindo devagar.
_Sempre me comporto. Que tal um sorvete?
_Sorvete? Temos sorvete em casa.
Ele fez um bico.
_Mas não é igual ao da sorveteria. Olha — tirou um panfleto do bolso do blazer da escola — Abriu uma nova sorveteria no centro da cidade, quarenta tipos de sorvete. Dá para experimentar um sabor por dia durante um mês inteiro sem repetir! — seus olhos brilharam de gulodice e eu ri comigo mesmo.
_Ok, mas temos que passar em casa. Estou sem a carteira — me dei por vencido.
Alois bateu palmas em comemoração.
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