Você quer ser meu?
10 Uma surpresa no elevador e um sorvete
Notas iniciais
POV Alois
Fazia tempo que eu estava querendo tomar sorvete. Nós tínhamos um pote de sorvete de chocolate no freezer mas não é a mesma coisa do que tomar na sorveteria onde tem aquele monte de coberturas e complementos de confeitos, balinhas de goma e tubinhos de biscoito. Então, naquela manhã quando peguei o panfleto das mãos do divulgador na porta da escola e vi que era a inauguração de uma mega sorveteria no centro da cidade, não pensei duas vezes.
“Vou chamar o Claude. Falo que é uma comemoração e o tiro um pouco de casa”.
Ele é a pessoa mais caseira do mundo! Não sai por nada. Acho que se pudesse fazia a compra de mercado pela internet também. Aliás, acho que isso é possível, ele que não sabe disso.
Eu poderia ir com o Andrew, mas acho que esse não é melhor momento para um passeio desse, é ir com muita calma. Principalmente depois do bilhete que ele me deu e depois da nossa longa conversa na lanchonete naquele mesmo dia.
Claude estacionou o carro e saiu.
_Pode ficar aí, Alois. Eu só vou subir e já volto.
_Ah não. Eu quero ir.
Eu não gosto de ficar sozinho. Não é medo, é só uma sensação ruim. Acho que é resquício do período que eu fiquei na rua, sei lá.
Claude olhou para mim como se fosse uma bobagem eu querer ir com ele mas não se opôs, subimos rápido até o apartamento, era só para pegar a carteira que ele tinha deixado provavelmente sobre o aparador ao lado da porta — era onde ele sempre deixava as coisas que não queria esquecer quando saísse mas não adiantava muito pois ele sempre esquecia alguma coisa.
Acompanhei-o e nem cheguei a entrar em casa, fiquei esperando no hall de entrada enquanto ele pegava o objeto, aproveitei enquanto Claude fechava a porta para apertar o botão e chamar o elevador.
Ficamos os dois, lado a lado, em frente à porta dupla de aço inox aguardando.
Aguardando.
Aguardando.
Aguardando.
_Mas o que raios está acontecendo? — perguntou Claude, impaciente.
_Será que quebrou? — olhei para o alto no visor, onde marcava o andar que o elevador estava parado: décimo oitavo andar, onde fica a cobertura. As setas para cima e para baixo piscavam juntas, mostrando que o elevador realmente estava parado.
_Ele está parado no último andar — comentei — O que será que houve?
_Sei lá — Claude respondeu — Quer ir pelas escadas?
Olhei horrorizado para o outro.
_Tá louco? Oito andares de escada? Quer me matar?
_Você é muito novo para ser tão preguiçoso — me provocou. Eu não sou preguiçoso, apenas gosto de guardar minhas energias para coisas mais divertidas, como dançar no meu Wii, jogar PSP, ouvir música, ler, provocar o Claude — essas coisas. Na verdade, aposto que o Claude também não estava muito afim de encarar as escadas intermináveis que seriam mais de oito andares porque o carro estava no estacionamento do primeiro subsolo, se bem que podia ser no segundo subsolo e aí seria mais um andar.
Neguei o convite indecente de descer dez andares de escada e ele não insistiu. Ainda bem.
O elevador continuava parado e eu ficava cada vez mais impaciente. Comecei a apertar incessantemente o botão.
_Não adianta fazer isso, Alois — reclamou.
_Adianta sim. Olhá lá, está descendo — falei vitorioso.
Os números no visor diminuíam gradativamente indicando que o aparelho descia os andares. Mas parou novamente no décimo terceiro.
_Mas que droga! — voltei a apertar o botão.
_Não vai ter jeito. Vamos ter que encarar as escadas. Ou então desistir do sorvete.
_Desistir do sorvete? Jamais.
Por sorvete eu encararia a tortura das escadas. Dei dois passos em direção à porta de incêndio que dava acesso às escadas, então Claude me chamou.
_Voltou — avisou e eu me aproximei da porta de inox.
Finalmente o elevador chegou no nosso andar e abriu as portas sem fazer barulho algum.
A primeira coisa que eu vi foi um homem alto e magro, e o estranho foi que ele estava de costas para a entrada do elevador, de modo que o que eu vi foi suas costas vestidas numa jaqueta preta. Achei muito esquisito, ele estava meio encurvado e se mexia um pouco. Me deu a impressão que eu ouvi um pequeno gemido.
Acho que ele nem percebeu que o elevador tinha parado porque ele se virou para o lado, arrastando o garoto que ele estava abraçado e o prensando contra a parede lateral. Arregalei os meus olhos em espanto.
“Puta que pariu! Isso é que é beijo!”
Não havia espaço entre os dois corpos. Mesmo com a diferença de altura entre os dois, seus corpos estavam perfeitamente encaixados, as pernas entrelaçadas, cada um roçando o espaço entre as pernas do outro. O menor abraçava o pescoço do maior e este mantinha as mãos na cintura do outro. Pude ouvir o som das línguas se movendo dentro das bocas e comecei a sentir um calor subindo pela minha coluna.
Olhei para Claude e ele estava tão desconsertado quando eu, tossiu disfarçadamente para chamar a atenção do estranho e me empurrou tentando me pôr para dentro da cabine. Então o homem olhou um pouco para nós, interrompendo o beijo e se endireitando. Pude vê-lo melhor, agora que estava com a coluna reta era um pouco mais baixo que o Claude mas ainda assim era um homem alto, era magro, mas não muito, tinha um corpo bom e vestia a tal da jaqueta preta, calças jeans justa e uma blusa vinho de decote V. Tinha um cabelo estiloso, pretos e lisos e a parte da frente era mais longa que a de trás, a pele era branca e os olhos tinham um formato que lembravam os do Claude, tão misteriosos quanto os do meu meio-tio, com a diferença que os do estranho eram de uma cor quase avermelhada. Inegavelmente era um homem bonito, muito bonito, a boca tinha lábios finos e o nariz era bem feito.
Então o garoto espalmou as mãos nos ombros do homem e o empurrou, ganhando um pouco de espaço. O homem se afastou, virando-se de frente para a entrada do elevador mas se manteve bem próximo do jovem e passou um braço pela cintura do menor, o abraçando, o garoto olhou para o homem e fechou a cara, bravo. O homem piscou para ele e apertou os dedos na cintura do menor, então a expressão se suavizou um pouco e ele deu um sorrisinho. O jovem também era bonito, tão novo quanto eu se não mais novo ainda, era pequeno e menor que eu. A pele era bem clara e o rosto era perfeito, os olhos eram azuis, num tom mais escuro que os meus, quer dizer, um olho, porque o outro estava escondido atrás de um tapa olho.
“Coitado! Deve ser cego” — foi o que pensei quando vi a peça cobrindo o olho.
O menor olhou para nós e seu olho se fixou em nós por alguns instantes. Percebi que ele levou um susto quando me viu, olhou de modo significativo para o homem que deu um aceno com a cabeça como se ambos estivessem se comunicando por gestos. Então voltou a olhar para frente, tentando neutralizar a expressão.
O garoto estava corado e limpou a boca, obviamente por causa do beijo incendiário que eles estavam trocando à poucos minutos. Claude me deu mais um empurrão fraco e dessa vez eu entrei na cabine, fiquei bem no meio e ainda olhava atentamente para o casal ao meu lado mas assim que Claude entrou, me empurrou para o lado e se pôs entre mim e os dois. Todos nos mantivemos no mais absoluto silêncio. Claude estava sério e me deu um cutucão para que eu não os encarasse tão fixamente.
Mas isso era impossível porque os dois não paravam de se olhar. O homem olhava o menor como se quisesse tirar a roupa dele ali mesmo, bem, talvez ele tivesse feito isso se o elevador não tivesse parado no meu andar. Mas o olhar do menor não ficava para trás, era tão intenso e quente quanto o do maior e parecia dizer: não vejo a hora de você me comer!
As portas do elevador se fecharam e este começou a descer. Agarrei o braço do Claude e o puxei, trazendo sua orelha até a altura da minha boca.
_Eu quero que você faça a mesma coisa comigo, Claude — miei para ele que se endireitou na mesma hora.
Tentou ignorar o meu pedido, seu rosto ficou vermelho e ele abaixou os olhos para me encarar. Olhei para ele com uma carinha pidona.
_Por favor — movi meus lábios silenciosamente e ele negou com a cabeça mas sorriu para mim.
“Oh Céus! Por que Claude não pode também me prensar contra a parede e me beijar daquela forma?” — desejei silenciosamente.
Queria fazer mil perguntas porque eu nunca tinha visto os dois. Os outros moradores dos apartamentos eram muito discretos, era difícil encontrar os vizinhos no elevador ou na área comum.
Descemos no primeiro subsolo e eles continuaram no elevador, com certeza desceriam no segundo subsolo ou talvez fossem travar o elevador novamente e terminar o que tinham começado antes.
Quase morri de inveja desses dois.
_Quem eram aqueles, Claude? — perguntei enquanto caminhávamos até o carro, nossos sapatos faziam eco no estacionamento deserto.
Ele meneou a cabeça.
_Eles moram na cobertura.
_Os dois juntos?
“Então são um casal mesmo!”
Ele fez que sim com a cabeça.
_O menor se chama Ciel e o mais velho, acho que se chama Sebastian.
_Eles são casados?
_Não sei. Com certeza não, o outro é muito novo. É quase um criança — recriminou.
_O Sebastian não pensa assim. Você viu como eles se beijavam????
_E tinha como não ver? — exclamou — É vergonhoso, deviam ir para casa fazer esse tipo de coisa e não num lugar público.
_Eu achei excitante — dei minha opinião e Claude me repreendeu com o olhar. Mostrei a língua para ele.
Nós entramos no carro e colocamos o cinto de segurança.
_Aqueles dois não têm vergonha! Parece que vivem se expondo desse jeito. Esses dias encontrei a vizinha do 204 e ela me contou umas coisas…
_Que vizinha? — perguntei — Aquela senhorinha do poodle rosa?
Essa senhorinha é a maior fofoqueira que existe, se aproveita que é aposentada e fica cuidando da vida dos outros, procurando assuntos. Dia desses ela me parou quando eu estava voltando da casa de pães e me perguntou com um tom investigativo o que eu era do Claude e quantos anos eu tinha.
_É, ela mesma — respondeu colocando o carro em movimento.
_O que ela te contou? — eu estava bem curioso, afinal de contas.
_Ela já pegou os dois transando no elevador uma vez.
_Transando??
_Foi o que ela disse. O tal Sebastian estava ajoelhado na frente do outro. Não preciso dizer o que ele fazia com a boca, né? — Claude olhou para mim significativamente.
_Sério? Uau.
_Você não fica chocado?
_Eu não. Eu tenho é inveja. Bem que a gente podia fazer o mesmo.
_E ela pegar a gente também?
Dei de ombros.
_Podia pegar que eu nem ligaria — olhei para ele com um olhar acusador — E que coisa feia hein? Fofocando com a vizinha.
Ele riu.
_Eu sou um curioso nato. Fazer o quê?
***
POV Claude
Chegamos na sorveteria e a propaganda não era mentirosa não. O local era enorme com duas longas fileiras de freezers horizontais contendo os baldes de sorvetes nas mais variadas cores; mais para frente, havia displays com diversos tubos de cobertura e taças com granulados e doces, além é claro da máquina de chantilly e de cobertura quente.
Depois do que a gente viu naquele elevador eu realmente precisava de algo gelado para combater o calor que eu sentia. É claro que eu fiquei excitado com a cena mas consegui controlar bem minha expressão para não dar mais corda ainda para o Alois que ficou todo animadinho e, que droga de olhar foi aquele que ele olhou para o vizinho?
Quando percebi que ele praticamente estava babando pelo Sebastian e pelo Ciel eu o empurrei para o lado e me pus entre os dois. É fogo, viu? O garoto não pára nunca de me provocar, me propôs fazer o mesmo com ele. E como eu queria fazer…
A sorveteria estava cheia, era dia da inauguração e havia bastante movimento mas também havia bastante atendentes. Escolhi um potinho pequeno de sorvete de tangerina e Alois, guloso do jeito que é pediu uma banana-split.
Conseguimos uma mesinha do lado externo da sorveteria, debaixo do toldo listrado de rosa e azul. Depois de uns dez minutos a garçonete trouxe a taça gigante e colocou na frente do loiro.
_Obrigado — agradeceu para a moça que sorriu.
Eu tomava meu humilde sorvetinho diet.
Alois segurava a colher e olhava para a montanha de sorvete, chantilly e cerejas em calda sem saber exatamente por onde começar a comer sem causar uma avalanche.
_Não sei como vai caber tudo isso em você sendo tão pequeno — obviamente eu me referia ao tamanho do sorvete mas ele abriu um sorriso malicioso.
_Cabe sim. Você sabe que com jeitinho cabe.
_Alois!!! Não estou falando disso! — briguei.
_Sim, sim, eu sei — concordou sem muito ânimo — Depois eu queimo todas as calorias dançando.
Alois adorava dançar mas eu não deixava ele sair para dançar e nem ele pedia muito, acabou que ele se contentava em participar do clube de dança na escola e de dançar no nintendo Wii.
_E as suas aulas de dança? — me perguntou ainda tentando bolar uma estratégia para pegar o sorvete sem derramar.
Por orientação do meu médico que disse que eu precisava de alguma atividade física e mental para desestressar eu tinha começado a fazer aulas de sapateado.
_Estão indo bem — respondi, já estava do segundo mês de aulas. Eu fazia dança na minha adolescência e o corpo acaba guardando na memória alguns movimentos, era mais fácil voltar a dançar do que aprender algo novo.
_Depois eu quero ver você dançando.
_Ah não. Tenho vergonha — declarei e pus mais uma colherada na boca.
_Que bobagem!
Alois desistiu da colher e pegou uma das quatro cerejas que coroavam a taça, segurou-a pelo cabinho e a mergulhou no chantilly, depois a elevou na boca, inclinando a cabeça um pouco para trás e lambeu o creme branco, rolando a língua sobre a superfície vermelha da frutinha. Suspendi a colher com o meu sorvete à meio caminho entre o potinho e a minha boca. Alois deu pequenas mordidas na cereja e a comeu. Ele não havia percebido que eu o olhava, era algo natural dele, dessa vez não estava me provocando.
Pegou a segunda e a lambuzou no chantilly novamente. Dessa vez ele viu que eu o olhava e estava travado, agora aproveitou para fazer a sua travessura. Pegou mais chantilly com a cereja e lambeu novamente, dando pequenas lambidas, fazendo a língua rolar sensualmente na fruta, fechou os olhos e sugou levemente a bolinha vermelha, dando pequenas mordidinhas.
Senti meu rosto pegar fogo e minha respiração mudar de ritmo. Era impossível não imaginar aquela língua em mim. E o pensamento do Alois me chupando, ajoelhado para mim era excitante demais. Mas eu tinha que ser forte.
_Você não vai conseguir me seduzir desse jeito, Alois.
Larguei o potinho sobre a mesa e peguei vários guardanapos para limpar o sorvete que tinha derretido e caído na minha roupa enquanto eu estava hipnotizado vendo o Alois lamber a cereja.
_Oh, que pena, Claude! Eu tenho tantas ideias sobre você, uma cama e um monte de chantilly! — finalmente ele começou a comer com a colher.
“Alois, a boca de Alois, a língua de Alois, chantilly” — comecei a ficar duro, ainda bem que estava sentado e a mesa cobria o meu quadril.
_Alois!!!!
Ele riu e continuou a lamber a colher com o doce.
Fiz uma nota mental: nunca ficar observando o Alois tomar sorvete, isso pode causar reações corporais muito constrangedoras.
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