Você quer ser meu?

16 Um jantar e uma sombra do passado


Notas iniciais
Olá, Eu queria muito chegar nesse capítulo porque ele é um marco para começar a desenrolar a história. Espero que gostem.

A minha relação com o Claude ficou estranha depois daquele dia. Eu percebia que ele tentava se aproximar, tentava puxar conversa ou me fazer um agrado, comprando chocolate ou livros. Mas eu estava muito bravo com ele ainda.

Eu e o Andrew continuávamos na mesma, nunca mais eu fui na casa dele e ele quase não ia mais na minha, obviamente por causa do Claude e os olhares assassinos que ele lançava. Na escola continuávamos juntos mas também não nos livrávamos dos olhares, o Alexy muitas vezes ficava nos encarando, quando eu olhava de volta ele tentava disfarçar mas eu percebia muito bem. Não sei o que aquele cara quer. Pelo menos ele não fica nos provocando como o Anton.

O fim de junho chegou, minhas notas saíram e ainda bem, eram todas azuis. Eu não era um aluno exemplar mas consegui boas notas. Os outros alunos estavam todos animados por causa da festa que seria no final da semana. O que quer dizer que o jantar na casa dos pais do Andrew seria na sexta feira.

Quando eu falei para o Claude que iria jantar na casa do Andrew ele fez uma cara como se eu o tivesse apunhalado mas não falou nada. Depois se trancou no quarto e eu o ouvi chorando.

Rolei meus olhos nas órbitas.

“Vai se entender…”

A sexta feira chegou. E a tarde chegou mais rápido ainda.

O jantar estava marcado para as vinte horas.

Eram dezoito e meia quando entrei no banheiro. Tomei um banho demorado tentando aliviar a tensão e o nervosismo. Parecia que eu ia me apresentar aos pais do meu namorado. Mas Andrew não era o meu namorado, não é?

Não sabia responder à essa resposta. Lavei o cabelo e saí do chuveiro.

Fui para o meu quarto me vestir. Tentei ignorar o Claude andando de um lado para o outro na sala. Ele estava nervoso eu podia ver, e estava com um pouco de medo de uma nova crise de gastrite mas não podia fazer nada.

Ele fez a escolha dele. Ou melhor, não fez. Ele não me escolheu, podia ter admitido que me amava mas não ficou nesse chove e não molha. Eu ainda o amava, muito. Mas estava bem inclinado a dar uma chance ao Andrew.

Vesti uma calça preta e uma camiseta verde escura, ambas justas. Calcei meus tênis e peguei uma jaqueta.

_Estou indo, Claude.

Ele veio da varanda gourmet.

_Já??

_Sim. Já são sete e meia.

_Quer que eu o leve? — a voz triste quase me cortou o coração.

_Não. Eu chamei um táxi.

_Tudo bem, então. Tome cuidado, qualquer coisa me ligue.

Assenti com a cabeça.

_Seu jantar está no microondas.

Ficamos naquela coisa de não saber como se despedir. Normalmente eu me despedia dele com um beijo no rosto mas agora não.

_Então… tchau.

_Tchau…

Estava quase fechando a porta quando o ouvi me chamar.

_Alois.

Abri novamente e pus a cabeça para dentro.

_Eu…- ele respirou fundo — Alois, eu…

Franzi meu cenho, esperando ele completar a frase e parar de gaguejar.

_Ah, deixa para lá. Divirta-se.

Senti minhas esperanças murcharem.

“Não. O Claude nunca ira admitir”

Fechei a porta e desci. O táxi já me esperava na rua. Ainda parei na casa de pães para comprar umas tortinhas de chocolate.

Achei que seria deselegante aparecer por lá sem nada nas mãos.

Minutos depois o táxi parava na porta da casa do Andrew.

Respirei fundo. Meu coração estava acelerado e eu não queria estar assim.

Paguei o taxista e saí do veículo.

Fiquei ainda alguns minutos parado na frente da porta, segurando com as duas mãos a caixa com as tortinhas.

Então tomei coragem e toquei a campainha, ouvi a voz do Andrew lá de dentro.

_”Mãe, deve ser o Alois. Abra a porta, por favor!”.

Sorri um pouco.

Segundos depois a porta se abriu e uma mulher de cerca de quarenta e poucos anos abriu a porta. Era uma versão feminina e mais velha do Andrew: os mesmos cabelos lisos e negros, eram longos e bem penteados e caíam cascateando pelos ombros, os olhos também eram negros e transmitiam alegria e contrastavam com a pele branca. Estava muito bem maquiada e vestia uma camisa fina champagne e saia até os joelhos preta. Abriu um sorriso quando me viu.

_Boa noite — cumprimentei.

_Boa noite. Você deve ser o Alois, não é? — sua voz era melodiosa.

_Sim — sorri de volta e ela me deu passagem.

Dei alguns passos para dentro do hall de entrada.

_O Andrew está terminando de se aprontar. Já já ele desce.

_Trouxe tortinhas de chocolate para a sobremesa — forcei um tom de voz que não demonstrasse o tanto de nervoso que eu estava sentindo.

A mãe do Andrew, Silvya, sorriu e veio pegar a caixa das minhas mãos.

_Oh, que gentileza, Alois. Não precisava se incomodar com isso.

_Não foi incômodo, senhora Silverfox.

Antes que ela conseguisse pegar a caixa, ouvimos o som dos passos na escada. Era Andrew. Estava bonito, com os cabelos semipresos, duas mechinhas laterais presas atrás da cabeça, a camiseta azul e uma calça jeans bem clarinha.

_Alois — falou alegre.

Percebi que ele queria me dar um abraço mas se conteve e apenas acenou com a mão para mim, acenei de volta.

_Ele já chegou? — ouvimos uma voz masculina.

“Deve ser o pai do Andrew”

Então eu vi um homem alto vir dos fundo da casa, trazia uma caixa de madeira e eu presumi que fosse um jogo de jantar.

_Sim, pai. Esse é o Alois, o meu melhor amigo.

O homem se aproximou e a caixa cobria o seu rosto. Então ele pôs a caixa no chão.

_Ora. Sabe que eu também conheci um Alois, uma ve… — ele parou de falar quando me viu.

Senti meu sangue fugir, um arrepio frio correu pela minha espinha e eu achei que fosse desmaiar. Ouvi um baque que depois descobri que foi a caixa de tortinhas caindo e Andrew me amparou.

_Alois? Alois? Tudo bem? — ouvi a voz do Andrew falando comigo.

Me senti sufocar e tentei controlar o pânico e a vontade de fugir dali.

“Senhor Dawson. O pai do Andrew é o senhor Dawson… O cara que comprou a minha virgindade anos atrás. Aquele homem horrível que me deixou de cama por quatro dias e que continuou me comprando ao longo dos anos…”

Não acreditei. Era muito azar, justo o pai do meu amigo ser aquele homem.

Ele também se surpreendeu quando me viu mas neutralizou a expressão rapidamente.

Andrew me colocou sentado no sofá e a mãe dele me trouxe um copo de água.

_Você está bem, querido? — perguntou preocupada.

Tentei me controlar.

_Sim. Acho que não comi direito, por isso passei mal. Estou bem agora — menti tomando alguns goles.

_Deve ter sido isso — o pai do Andrew comentou como quem não quer nada.

_O jantar já vai sair — a mãe dele foi até a cozinha — Andrew, venha me ajudar. Deixe que o seu pai faz companhia para o seu amigo.

Andrew me olhou, eu segurei sua mão, em pânico.

_Calma, não fique nervoso. Meu pai não morde — sorriu inocente e eu tive que deixá-lo ir.

Me encolhi no sofá. E o senhor Dawson que nessa altura eu nem sabia se era o seu nome verdadeiro se sentou na poltrona ao meu lado. Sorriu bondosamente para mim, o mesmo sorriso que ele me dava quando eu entrava no quarto, depois que eu fechava a porta é que ele mostrava o verdadeiro sorriso.

Quando Andrew já estava na cozinha, ele falou:

_Mundo pequeno hein, Alois?!

Só olhei para ele.

_Você está tomando toda a mesada do Andrew?

_O quê?

_ Ele não ganha muito, você deve estar cobrando uma ninharia. Eu está tentando laçar um bom partido?

_Não é nada disso. Eu não faço mais isso — falei bravo.

_Não??? E o que você faz agora? — perguntou irônico.

_Não é da sua conta.

O senhor Dawson se inclinou para frente e murmurou.

_Quanto você está cobrando?

_Não faço mais isso — repeti.

_Ora. Pode falar. Você sabe o quanto eu te procurei?? Você sumiu de casa, a Hannah ficou doida atrás de você, aliás todo mundo ficou, noventa por cento dos clientes dela na verdade eram seus…

Aquilo só poderia ser um pesadelo. O passado veio me assombrar. Mas o homem continuou falando.

_Vai… Pode pôr o seu preço. Eu pago o que você quiser — ele piscou para mim e eu comecei a me sentir enjoado — Alois… não queira me enganar. O Andrew não tem dinheiro, fora que nem deve saber fazer direito, é um moleque. Por que ficar com o filho se pode ficar com o pai?

Ele se levantou e sentou-se ao meu lado agora, eu pulei para o lado, pondo um pouco de espaço entre nós.

“Andrew… venha logo” — pensei desesperado.

_Olha, senhor Dawson..

_Senhor Silverfox, aquele era um nome falso — me corrigiu.

Pigarreei.

_Que seja, senhor Silverfox, eu não faço mais isso. Eu só fazia por causa da Hannah, sempre odiei. Vamos esquecer isso. Eu...eu vou embora, tá bom?

Eu tentava controlar as lágrimas, não ia chorar na frente dele de jeito nenhum.

_Que coisa...eu sempre achei que você gostava. Gritava tanto… — sorriu, um sorriso reptiliano.

_Gritava de dor — falei com ódio, me levantei para ir embora, depois eu me explicaria para o Andrew, mas o homem me segurou pelo pulso.

_Pare de fazer doce. Ponha o seu preço, quer quanto? Mil dólares, mil e quinhentos?

Ele se ergueu e me puxou para ele, travei meus pés para não sair do lugar e puxei meu braço tentando me livrar.

_Vamos fazer o seguinte. Controle-se. Vamos jantar, depois eu digo que irei te levar para casa e nós vamos para um motel. Te dou três mil.

_Você é nojento! Eu não quero. Nunca quis — puxei minha mão que só se soltou porque o Andrew entrou na sala.

_O que está acontecendo? — perguntou.

O pai de Andrew se apressou.

_Acho que seu amigo ainda está passando mal. Queria ir para casa.

_Ah não, Alois. Fique. Quer algum remédio?

_Não. Não. Acho que vou embora, Andrew.

_Andrew, já ver se o jantar já está pronto. Eu converso com o Alois — eu odiava aquela voz…

Andrew voltou para a cozinha e o homem se aproximou.

_O Andrew já sabe desse seu passado sujo?

_Não.

_Então vocês só são amigos mesmo?

_Sim.

_O Andrew é um garoto muito bom. Acho que seria muito triste para ele saber do passado do amigo que ele gosta tanto, não é?

A ameaça estava clara ali. Engoli em seco.

_Jante conosco. Depois eu quero conversar direito com você — sorriu e piscou para mim.

Assenti com a cabeça e foi o tempo da mãe do Andrew anunciar que a refeição estava pronta.

Sentamos à mesa, o homem na cabeceira, a mãe do Andrew do seu lado direito, Andrew ao lado esquerdo e eu ao lado do Andrew.

A comida parecia ótima: ervilhas, purê da batatas, rosbife e arroz branco. Mas meu estômago estava revirado.

A senhora Silverfox nos serviu e eu pus uma porção na boca forçando a garganta a engolir.

_Então você mudou para essa escola esse ano, Alois? — puxou assunto a senhora Silvya.

_Sim. Entrei nesse ano.

_Igual a mim — comentou Andrew sorrindo para mim, sorri fracamente — Fizemos amizade depois de uns dias do início das aulas.

_E antes disso? Onde você estudava? — perguntou o pai do Andrew, como quem não quer nada.

_Numa outra escola, na cidade onde seu morava antes.

_Ah, então você não é daqui de Nova York? — perguntou novamente.

Ele sabia muito bem que não.

_Não. Sou se uma cidadezinha perto.

_E lá era legal? — insistiu.

_Mais ou menos — tentei pegar umas ervilhas mas elas escapuliram do garfo e caíram na toalha de mesa, me apressei em pegá-las antes que sujasse o tecido.

_E o que você fazia lá?

Virou um diálogo entre eu e o homem. Eu sabia que ele queria me constranger.

_Coisas normais — menti.

_Normais??? — deu uma pequena risada que acabou por chamar a atenção do Andrew e da Silvya — Sabe, eu li que nessas cidades dos arredores de Nova York, tem muitos jovens que se envolvem com drogas e com prostituições…

_Ora, meu bem — interrompeu Silvya — Mas é claro que Alois não é desse tipo. Olhe, para ele… tão educado. É claro que é de família.

O homem limpou a boca com o guardanapo.

_Eu sei. Tenho certeza que o Alois é um garoto de boa família — sorriu — Me diga Alois. No que seus pais trabalham?

Gelei. Eu tremia por dentro de raiva, medo ...tudo junto fazendo meu coração acelerar.

_Eu não tenho pai — disfarcei o nervosismo tomando alguns goles de suco de laranja da taça.

_Morreu? — perguntou preocupada a mãe.

Fiz que sim com a cabeça, mentindo e ganhando um sorriso de deboche do pai do Andrew. Este por sinal não percebia nada, me olhava interessado nas respostas.

_E a sua mãe? Trabalha no quê? — perguntou novamente colocando um pedaço grande de rosbife na boca.

Como eu odiava esse homem. Como o Andrew que era um cara tão legal, tão decente, poderia ter um pai assim? Como esse monstro pode ter feito isso comigo, quer dizer, eu tenho quase a mesma idade do Andrew, sou mais novo um ano. Quando ele me comprou a primeira vez, o Andrew era somente um ano mais velho…

_Ela também morreu. Sou órfão — respondi sem dizer no que ela trabalhava.

_Oh, que triste — lamentou a mãe do Andrew — E com quem você vive, querido?

Fiquei em silêncio por um tempo. Não queria falar porque seria dar informações para o pai dele, mas também não podia deixar de responder porque seria falta de educação. Mas o Andrew foi mais rápido.

_Ele mora com o tio.

_Tio?? — perguntou o homem.

_É — afirmou Andrew para o pai — O meio tio dele é aquele escritor famoso, Claude Faustus.

O homem arqueou as sobrancelhas admirado.

_Que bom, não é? — comentou.

Enfiei mais uma porção de comida na minha boca. Queria que aquele jantar acabasse logo.

_Ele é um bom homem para você, Alois? Te trata com carinho? — perguntou mordaz.

_Querido!!! O que você quer dar a entender? — repreendeu a esposa, estranhando o teor da pergunta.

Terminei a refeição e o suco e pousei a taça na mesa.

_Ele é ótimo — respondi — Claude é uma pessoa decente, que respeita todo mundo e trata todos muito bem.

_Bem, vou pegar a sobremesa — a mãe do Andrew se apressou em recolher os pratos e logo trouxe as tortinhas e o mousse que ela tinha feito.

Pedi licença e fui ao banheiro, liguei para o táxi vir me buscar. Saí do banheiro e dei de cara com o pai do Andrew.

Ele me segurou pelo braço e tentou me prensar na parede.

_Eu vou me oferecer para te levar para casa e você vai aceitar e a gente vai se divertir um pouco. Entendeu?

_Nem fodendo — falei e tentei me desvencilhar mas ele pôs mais força no meu braço.

_Senti tanta falta desse seu traseiro, Alois — comentou chegando mais perto.

Me debati e consegui escapar dele. Voltei para a mesa e logo depois ele voltou como se não tivesse acontecido nada.

Comemos a sobremesa em silêncio, o homem tinha conseguido pôr um clima pesado no jantar. Comi rápido e comentei quando terminei.

_Senhora Silverfox, estava tudo uma delícia. Muito obrigado pelo convite e pela refeição mas eu tenho que ir embora agora. Tenho hora para voltar para casa.

_Mas jááá?? — lamentou Andrew.

Ouvi uma buzina lá fora.

_Eu posso levá-lo, Alois — ofereceu o pai.

_Não precisa. O táxi já está me esperando na porta.

Todos se levantaram e me acompanharam até a porta.

_Foi um prazer te conhecer, Alois — a senhora Silvya me deu um beijo na bochecha.

_Igualmente — respondi lamentando mentalmente o marido horroroso que ela tinha.

_Venha nos visitar mais vezes — convidou o homem e eu olhei meio torto para ele.

Andrew abriu a porta e eu saí, ele me acompanhou e fechou a porta. Estávamos sozinhos novamente.

_Você parece estranho Alois? Não gostou do jantar? — perguntou segurando os meus ombros.

_Gostei. Acho que não estou me sentindo muito bem — menti.

_Adorei você ter vindo — falou e me puxou para um abraço.

Passei meus braços por baixo dos de Andrew e apertei suas costas, escondi meu rosto na curva do seu pescoço mas ainda consegui ver o homem olhando pela janela através da fresta da cortina. Estremeci involuntariamente e soltei o abraço.

Andrew ainda acariciou meu rosto.

_Quer que eu te acompanhe até em casa?

_Não precisa.

Andrew então se inclinou para me beijar e eu o interrompi colocando meus dedos sobre os seus lábios.

_Seus pais podem ver — o alertei.

_Eu não me importo — ele me respondeu.

_Mas eu sim — falei e comecei a andar até o taxi.

_Alois — ele me segurou pelo pulso — Nós estamos juntos não é?

A voz dele era tão ansiosa...Eu podia sentir o medo da minha resposta.

_Sim. Até amanhã, na festa.

Andrew abriu um enorme sorriso e me puxou colando os nossos lábios. Me deixei ser beijado.

Entrei no táxi e enquanto ele dava a partida e andava pela rua úmida pela chuva que havia caído recentemente; eu encostei a cabeça no vidro do carro e lamentei o enorme azar que eu tinha.

Eu não poderia ficar com o Andrew nunca. Não com o pai que ele tinha. Ia só esperar a festa porque o Andrew estava super animado com ela e depois eu terminaria tudo com ele e para sempre.

Notas finais
Beijos e não esqueçam de comentar. Ah, se quiserem favoritar ou recomendar, eu ficarei extremamente feliz. Bom finalzinho de Páscoa para vocês. Beijos