Você quer ser meu?

17 Um editor cruel e uma decisão


Notas iniciais
Olá minha gente. Corri o final de semana inteiro para trazer esse capítulo para vocês. Na verdade, essa semana era para eu atualizar a Sex, mas eu tô meio empacada com o shipp. Espero que vocês gostem.

POV Claude



Fiquei olhando pela varanda o taxi amarelo estacionado em frente ao prédio, minutos depois Alois surgiu saindo da portaria com aquele andar apressado dele, entrou no taxi e saiu.

Devia ter parado ele, devia ter falado tudo o que eu sentia por ele e o quanto eu estava sofrendo, devia tê-lo abraçado e beijado e mostrado o quanto eu o quero. Mas não fiz nada disso e agora ele estava indo direto para o Andrew. Para um jantar de família…

Alois tinha razão: eu o estava perdendo ou melhor, eu já o tinha perdido. E não posso nem me lamentar quanto à isso. Eu mesmo o havia empurrado.

Andrew era um cara de sorte. Alois era perfeito.

“Nada como um coração jovem e sem traumas” — pensei. Eu estava destruído mas tinha esperanças que o Andrew pudesse fazer o Alois feliz.

Meu estômago começou a doer novamente e eu entrei, saindo da varanda, e tomei o analgésico receitado pelo médico. Respirei fundo algumas vezes e tomei toda a água do copo, tentando me acalmar. Eu tinha que me acalmar, do contrário, a dor iria piorar muito; o médico mesmo disse para mim antes de me dar alta há alguns dias, que muita dessa minha gastrite era por causa do meu nervosismo.

Voltei para a sala e olhei em volta. Aquele apartamento vazio estava me sufocando. Pensei no que fazer para matar o tempo mas não achei na interessante; poderia tentar escrever alguma coisa mas a experiência me dizia que nada de bom ia sair no papel comigo naquele estado de espírito. Tristeza, ciúme, inveja e um imenso arrependimento tomava conta de mim.

Sem ter mais nada para fazer, peguei o telefone e liguei para o Daniel, a intenção era apenas conversar um pouco e conseguir passar alguns minutos sem pensar no Alois.

_Alô — atendeu a voz do outro lado da linha.

_O-oi Daniel .

_Oi Claude. tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

É claro que ele estranhou a minha ligação. Normalmente era ele que ligava para mim: para saber se eu estava vivo ou para me cobrar os capítulos atrasados.

_Não aconteceu nada. E você, como está?

_Tudo bem aqui. E o Alois, está bem?

_Deve estar ótimo.

_Deve? — consegui perceber o estranhamento na voz do Daniel.

_Ele não está em casa. Saiu.

Acho que a minha voz estava péssima porque ele parou alguns segundos e falou:

_Você está sozinho?

_Sim.

_Vem para cá então. A gente pode comer uma pizza, eu até serei misericordioso e pediremos uma de vegetais por causa do seu estômago.

_Ah não. Eu só liguei para saber como estão as coisas — desconversei.

_Você nunca liga, Claude. Eu te conheço muito bem. Onde está o Alois?

_Saiu — falei simplesmente.

_Não saiu sozinho?

_Não.

_Entendi — finalmente Daniel havia entendido a real — Venha para cá. Estamos te esperando.

_Obrigado, Daniel.

_Deixa disso. Venha logo.

Desliguei o telefone. Daniel era o mais próximo de um amigo que eu tinha. Na verdade ele era o único amigo meu e sempre me apoiou, além de ter sido a minha salvação quando aconteceu tudo aquilo comigo. Não sei o que teria acontecido caso Daniel não tivesse me levado para a sua editora.

Me vesti rapidamente com uma roupa decente porque eu estava todo largado em casa, peguei a chave do carro e saí.

Ele morava meio longe, levou trinta minutos para eu chegar lá. Sua casa era grande, com um amplo gramado na frente, era uma casa de dois andares, toda branca. Grande demais para apenas duas pessoas e três cachorros. Logo que Daniel e James se casaram, Daniel pensou seriamente em adotar uma criança mas depois de um tempo chegaram à conclusão que seriam mais felizes só os dois.

Eu também achava que a felicidade era ser solteiro e morar sozinho — eu teria toda a liberdade que morando com outra pessoa eu não teria, ainda mais se fosse uma criança. Mas isso foi antes de ter o Alois, agora só a ideia de passar os dias naquele apartamento silencioso já me deixava nervoso.

Estacionei o carro na frente da casa e assim que saí do veículo e cheguei na varanda, ouvi os latidos dos cães, um latia bem mais que os outros;

_Quieta, Lola — era a voz do James brigando com a lulu da Pomerânea.

Logo depois ele abriu a porta sem nem eu precisar tocar a campainha.



_Então quer dizer que o Alois saiu? — Daniel perguntou, voltando ao mesmo assunto. Se serviu de mais uma fatia de pizza de corações de alcachofra e cogumelos — Está crescendo, hein?

_É. Ele saiu — falei sem ânimo. Tudo que o eu queria era esquecer por alguns minutos o loiro.

_Ele foi aonde mesmo? — perguntou como se não quisesse nada.

Suspirei.

_Foi convidado para um jantar na casa do Andrew, para conhecer os pais dele.

James arqueou as sobrancelhas mas não disse nada e deu mais uma mordida gigante na pizza.

Quem falou foi o Daniel. Sempre ele.

_Hummmm. Isso quer dizer alguma coisa?

_Acho que sim — dei de ombros tentando me fazer de durão.

_Você sabe que foi você que causou tudo isso, não é?

_Sei sim — bufei.

Daniel encheu a taça de vinho tinto, depois encheu a minha de suco de uva e eu me senti como uma criança que não pode comer tudo que os adultos comem.

_Jantar para conhecer os pais é muito importante. Não acha, James?

_Muito — confirmou o moreno.

_Pelo jeito o Andrew não perde tempo — comentou.

Eu sabia o que ele estava fazendo: me batendo moralmente para eu me sentir pior do que já estava.

“Filho da puta. Sádico miserável”.

_Alguém tinha que ter atitude nesse triângulo — atalhou James e eu olhei com raiva para ele por estar entrando no jogo do companheiro.

_Dá para parar?? — pedi e mastiguei um pedaço da pizza.

_Se você não fosse um banana, poderia estar com o garoto.

_Agora é tarde — falei me sentindo repentinamente sem fome.

_É mesmo — concordou o meu editor — Agora ele deve estar sendo apresentado aos pais. Fique calmo, provavelmente o Andrew só vai apresentá-lo como amigo. Para ir preparando o terreno.

_Você é um trouxa, sabia?

_Sabia. Se não fosse, estaria em Hogwarts — riu.

_Você não está muito velho para fazer piadinhas sem graça sobre livros juvenis???

_Sério que você está me falando isso? — se fez de ofendido — Refresque a minha memória: você não está escrevendo um livro para esse público???
“Droga!”

Tomei todo o copo de suco e James voltou a enchê-lo.

_Parece até que eu estou vendo. Um jantar em família...Andrew deve estar ansioso para os pais aprovarem o seu “amigo” — Daniel falou a palavra amigo sinalizando aspas com os dedos — E depois vai ser o quê? Festas?

Acho que tive vontade de vomitar mas não sei direito.

_Eles vão para uma festa amanhã — falei derrotado.

_Mas já??? Ora, eu não falei que o garoto era rápido? Você deveria aprender algo com o Andrew, Claude.

_Cala a boca — mandei.

_Calma, calma meu amigo. Alois volta hoje, não volta?

_Dez da noite é o limite dele.

Daniel sorriu.

_Tá vendo? Ele vai voltar! À não ser que ele ligue para você falando que vai passar a noite lá na casa do Andrew. Já imaginou?

_Ele não vai fazer isso — falei bravo. Uma pontada espetou o meu estômago.

_Não vai não — dessa vez foi James que falou — Amanhã eles vão estar numa festa. Todo mundo sabe o que acontece nessas festas.

Todo mundo sabia. Lá pelas tantas da noite, todo mundo ia estar meio bêbado e então tudo podia acontecer. Eu havia feito o Alois jurar que não ia beber álcool, mas não confiava 100% que ele fosse me obedecer.

_O que acontece nessas festas, James? — Daniel perguntou com a maior cara de pau.

_Ah, você sabe, amor — James havia voltado para o estado de timidez, tomou um gole de vinho.

_Sei mesmo. Parece até que eu estou vendo o Alois e o Andrew chegando de mãos dadas na festa. Eles vão entrar, conversar um pouco com os amigos, o Andrew vai pegar uma bebida para os dois...Vão começar a beber…

Daniel falava pausadamente, dando tempo para que as imagens se formassem vívidas na minha mente.

_Vão começar a dançar… primeiro afastados um do outro...mas você sabe né, Claude? Conforme a festa avança eles vão beber mais… vai começar a tocar uma música mais sensual...eles vão dançar mais próximos...se abraçando...se roçando…

_Pára Daniel. Isso não tem graça!

_Para eles vai ter muita! Vão se beijar com toda certeza. Você sabe o que acontece quando rola um beijo no meio de uma dança, não sabe? — Daniel olhava diretamente para mim com um prazer sádico mas eu via no fundo dos seus olhos que ele não estava feliz em fazer isso. Então não entendi a razão disso tudo.

Daniel continuou.

_Acaba em amassos. Eles vão começar a se esfregar um no outro. Então vai rolar aquela pergunta.

_Aquela pergunta??? — James resolveu voltar para o jogo.

_ÉÉÉ, aquela pergunta. “Você não quer ir para um quarto?”, já imagino o Andrew sussurrando a pergunta para o Alois, bem perto do ouvido do garoto.

Eu já tinha desabado. Estava com o rosto abaixado e escondido na curva do braço. Apoiado na mesa.

Minutos de silêncio.

_À não ser que — Daniel falou tocando o meu ombro e eu ergui o rosto, fazendo força para não deixar as lágrimas rolarem.

_À não ser que o quê? — falei muito bravo, acho que nunca tive tanta raiva do Daniel como agora — Eu já perdi o Alois.

_Ora, Claude. Não seja idiota. O jogo não acabou. Alois mora com você. Além do mais, eu acho que você deveria se declarar para ele e deixar de ter idiota.

_Amanhã é a festa. Já era! — falei.

_Então você tem essa noite.

Olhei para ele e nossos olhos se encontraram. Então eu entendi porquê ele fez isso. Me machucou de propósito para que eu pudesse cair na real e ver se tomava alguma atitude.

O resto da noite foi isso: Daniel e James tagarelando no meu ouvido mil e um modos de seduzir o Alois.

Voltei nove e quarenta para casa e Alois ainda não tinha chegado.



****

POV ALOIS

No caminho de casa não consegui me controlar. As lágrimas desceram copiosamente pelo meu rosto.

_Você está bem, garoto? — preocupou-se o taxista.

_Sim, estou — menti e limpei as lágrimas dos olhos mas elas voltaram a descer, descontroladamente.

Era muito azar, muito azar mesmo. Quem iria pensar que o Andrew, aquele ser fofo, teria um pai tão horroroso daquele?

Minha chance de tentar algo com o Andrew tinha morrido de uma vez por todas. E o pior: aquele monstro havia me encontrado, sabia onde me encontrar e tinha deixado claro que não ia me deixar em paz! Me sentia péssimo.

Cheguei no condomínio às nove da noite, paguei o taxi e entrei. Tinha um jardim entre o portão da rua e o hall de entrada. Sentei debaixo de um arbusto e tentei me controlar. Achei que eu estaria escondido ali.

“Não posso entrar assim e deixar que o Claude me veja nesse estado” — pensei mas eu me sentia tão derrotado que tudo o que eu fiz foi puxar minhas pernas em direção ao peito e esconder o rosto deixando o pranto correr solto.

Fiquei chorando por vários minutos.

_Não devia chorar assim em público. — ouvi a voz e levantei o rosto inchado.

Era o garoto da cobertura.

“Qual era mesmo o nome dele?”

“Acho que é Ciel”.

_Isso não é da sua conta — falei irritado.

Ele me olhou com um olhar arrogante. Logo atrás dele estava o outro cara, carregava uma caixa de uma confeitaria bem famosa.

_Você está quase no hall de entrada do prédio onde eu moro. Acho que é da minha conta sim. E você está me irritando.

Limpei o nariz na manga da blusa mesmo.

_Oh, desculpe se eu te irrito — falei cínico — Nem todo mundo tem a sua vida perfeita — ataquei.

Não ia ficar parado ouvindo provocações de um garoto que tinha a minha idade e tinha tido a sorte de encontrar um cara lindo e ser correspondido. Além da raiva que eu estava sentindo do garoto, uma inveja imensa também tomava conta de mim.

Ciel pareceu se surpreender.

_Vida perfeita?? — ele olhou brevemente para o outro e depois para mim — Você não sabe de nada.

Baixei a cabeça novamente.

_O que aconteceu? Brigou com aquele cara?

_Com o Claude? — falei levantando o rosto — Não, não briguei.

_Claude??? Sério que ele se chama Claude? De novo? — o garoto deu um risinho. O outro, acho que é Sebastian o nome, se manteve sério.

Não entendi nada do que Ciel falou.

“Como assim? De novo?”

_É o nome dele — respondi.

_Só falta você me dizer que se chama Alois! — falou como se fosse algo absurdo e eu comecei a achar que ele era louco.

_Eu me chamo Alois. Como você sabe?

_Longa história — falou, depois me estendeu a mão — Venha.

_Para onde?

_Minha casa. Podemos tomar um chá enquanto você se acalma — falou, mas como eu não me movi, ele recolheu a mão — Ou pode ficar aí, nessa terra úmida e fria e ficar chorando sozinho.

Diante dessa possibilidade, me levantei e limpei o traseiro da terra.

Seguimos os três para o elevador e logo estávamos no décimo oitavo andar. Eu estava meio envergonhado, o Sebastian me olhava meio desconfiado e o Ciel não tinha exatamente um olhar amistoso.

Sebastian abriu a porta apenas encostando o polegar no leitor digital.

“Caramba! O apartamento do Claude era à chave ainda”

Entramos no apartamento e Ciel estalou os dedos. A luz da sala se acendeu imediatamente.

_Sente-se, Alois — Ciel falou, me acompanhando até o sofá.

_Wow! Aqui é tão moderno — exclamei.

Sentei-me no sofá champagne e Ciel se sentou na outra ponta, encostou as costas no espaldar e cruzou as pernas. Ele tinha um porte distinto, como se fosse um nobre, acho que é essas coisas de gente rica.

_Sebastian gosta dessas coisas tecnológicas. Está fascinado com isso — explicou.

Sebastian foi imediatamente para a cozinha e depois de um tempo voltou com uma bandeja com alguns doces e duas xícaras de chá. Até parecia um mordomo.

Ciel pegou uma xícara cheia e passou para mim, depois pegou a outra e levou aos lábios.

_Saudades dessa época, Sebastian? — perguntou enigmaticamente — Você não perdeu o jeito.

Sebastian sorriu para o Ciel.

_Obrigado, bocchan.

_Bocchan? — perguntei curioso.

_É um apelido. Eu já falei que ele não precisa me chamar assim, mas ele insiste.

Os dois trocaram um olhar apaixonado.

_Vocês formam um casal bonito — falei quebrando o clima de flerte dos dois — Estão juntos à muito tempo?

_Tanto tempo que parece que são séculos — respondeu o garoto e sorriu para o outro, sendo prontamente correspondido. Um sorriso de quem está escondendo algo, mas eu não me importei.

_Isso deve ser ótimo — falei baixinho — Ter um amor… uma vida perfeita… é muita sorte.

_Isso não tem nada a ver com sorte nem com perfeição. Muito pelo contrário, minha vida com o Sebastian está repleta de sofrimento e perda. Aliás eu o conheci justamente num momento de desespero.

_Mas agora vocês estão bem — falei e peguei um doce da bandeja.

Sebastian estava sentado ao lado do Ciel e os dois estavam abraçados. O Sebastian com um braço sobre o ombro do garoto.

_Agora sim. Mas teve muito momentos em que achei que não fôssemos ficar juntos — os dois falaram quase a mesma coisa, quase ao mesmo tempo, achei fofo.

_E você e o Claude? — perguntou Sebastian, ele tinha uma voz bonita.

_Ele é meu meio-tio.

_Mas vocês não são só isso — falou Ciel.

Corei.

_Ele não gosta de mim. Não desse jeito.

Ciel balançou a cabeça negativamente, mas não falou nada.

_Eu vi vocês dois no elevador aquele dia… — comentei.

Dessa vez foi o Ciel que corou e Sebastian riu.

_Peço desculpas — falou o maior — Eu não resisto ao meu bocchan.

Fiquei meio embaraçado com a declaração.

“Queria que o Claude falasse isso pra mim”.

_Tudo bem, tem mesmo que aproveitar — falei só para não ficar no silêncio.

_Como vocês perceberam que estavam apaixonados um pelo outro? — perguntei. Eu me descobri admirando aqueles dois: pareciam perfeitos um para o outro, apesar do Ciel ter me dito que eles estavam há muito tempo juntos, não podia ser tanto assim — o garoto não parecia ser mais velho do que eu — mas havia ali uma cumplicidade que eu não tinha visto em ninguém; isso sem falar na intencidade dos olhares trocado.

Eles se olharam por alguns segundos, como se estivessem recuperando algo que estava no fundo da memória. Ciel foi o primeiro a falar.

_Foi quando o Sebastian sumiu por um tempo. Nós estávamos à pouco tempo juntos… — Ciel falava como se isso tivesse acontecido há muito tempo mas isso era impossível, ele devia ter a mesma idade que eu — Quase fiquei louco, procurei ele por todo canto.

_E onde ele estava?

_Foi sequestrado — Ciel terminou o chá e pousou a xícara na bandeja, depois se acomodou melhor no peito do maior — E ainda tinha um maldito que tentou se passar por ele. Foi um período difícil mas serviu para eu perceber que o amava perdidamente.

Sebastian o apertou nos braços e eles trocaram um breve selinho.

_Eu já estava apaixonado pelo bocchan há mais tempo, antes mesmo disso acontecer. Quando começamos, achei que seria apenas sexo, mas foi mais, muito mais.

_Isso é muito fofo — falei quase vomitando arco-íris com aqueles dois.

Ciel percebeu que eu estava melancólico.

_Fique calmo. Quem sabe Claude acorda? Quem sabe a história seja diferente dessa vez?

_Não entendo o que quer dizer — falei.

_Não precisa entender. Está melhor?

_Sim, obrigado. Acho que vou indo.

_Pode ficar — Ciel falou.

Olhei para o relógio do celular. Vinte e duas horas.

_Se eu não voltar agora o Claude me mata.

Ciel concordou com a cabeça e eu me levantei.

_Muito obrigado, aos dois.

_Não há de quê — Sebastian respondeu e Ciel sorriu concordando.

*

Desci até o oitavo andar e abri a porta do apartamento. Claude estava no sofá zapeando com o controle remoto na mão.

_Oi — cumprimentei indo direto para o meu quarto. Eu tinha parado de chorar mas o estrago no meu rosto ainda devia ser visível.

Claude se levantou e veio atrás.

_Oi. Como foi o jantar?

_Foi — dei de ombros e guardei a jaqueta no closet, depois sentei na cama e tirei o tênis sem desamarrar. empurrando-os pelo calcanhar com o outro pé.

_Não parece muito animado — comentou, ele estava parado na porta.

Eu só queria trocar de roupa e me enfiar na cama mas o Claude não saía de lá. Essa teria sido a chance perfeita para eu provocá-lo um pouco, poderia muito bem começar a tirar a roupa em alguma dancinha sensual. Mas eu não estava no clima para nada disso, muito pelo contrário.

Depois de tudo o que aconteceu comigo, cheguei à conclusão que eu não tinha sorte no amor e realmente talvez fosse melhor estar sozinho. Decidi que não queria mais nada com ninguém!

Então eu desisti de trocar de roupa e saí do quarto mas Claude me segurou pelo ombro quando passei por ele.

_Olhe para mim — falou e eu escondi mais o rosto, olhando para o chão.

_Olhe — Claude repetiu e segurou o meu queixo, erguendo meu rosto para ele.

Vi os olhos dele se arregalarem. Eu sabia que meu rosto estava arruinado.

_O que aconteceu??? — perguntou preocupado quando viu meus olhos inchados e as manchas vermelhas que se espalhavam pela minha face.

Balancei negativamente a cabeça.

_Brigou com o Andrew? — Claude me segurou com as duas mãos nos meus ombros e me virou de frente para ele.

Senti que queria chorar novamente e me segurei. Neguei com a cabeça mais uma vez.

_Foram os pais dele, então?

Neguei mais uma vez.

_A mãe dele é legal — respondi num fiozinho de voz. Ela saiu tremida e embargada pelo choro preso.

_Foi o pai, então? — pressionou e dessa vez não consegui me controlar. As lágrimas recomeçaram a descer e eu solucei.

Claude me abraçou imediatamente.

_Ah Alois. Eu sinto muito.

É óbvio que o Claude não sabia porquê eu estava chorando. No mínimo achava que o pai do Andrew era homofóbico e tinha achado ruim o filho levar um amigo para jantar. Mas eu não ia falar a verdade para ele, nunca eu iria falar. Então eu simplesmente o abracei de volta e escondi o rosto no seu peito.

Claude afagou os meus cabelos e beijou o topo da minha cabeça.

_Tudo vai ficar bem. Calma — falou baixinho.

Fiquei em silêncio.

_Vocês terminaram? — perguntou.

_Acho que nem chegamos a ficar juntos — murmurei.

Claude me abraçou mais apertado e senti ele suspirando.

Olhei para ele, erguendo o meu rosto e nossos olhares se encontraram. Então lentamente, Claude abaixou o rosto, inclinando a cabeça levemente para o lado, os olhos fixos nos meus lábios. Eu sabia o que ia acontecer, ele ia me beijar.

As mãos de Claude me seguraram com mais força e meu corpo reagiu. Meu coração acelerou e comecei a esquentar. Senti o hálito fresco de Claude no meu rosto e quase podia sentir a textura dos lábios dele nos meus.

Espalmei as mãos no peito de Claude e o empurrei. Ele se afastou sem entender.

_Alois — falou corando.

_Dessa vez não, Claude. Você não vai mais brincar comigo — falei sério. Não estava com raiva, apenas cansado de tudo.

_Não é brincadeira — Claude falou voltando a se aproximar.

_É claro que não. É só o seu jogo. Não precisa me beijar nem nada — falei olhando bem sério para ele e ignorando a expressão triste dele — Acredite: eu não transei com o Andrew e não fizemos nada de demais.

Aproveitei que o Claude estava paralisado pelas minhas palavras e fui até a cozinha, peguei um copo, enchi de água gelada e bebi; quando eu me virei para sair do cômodo, Claude estava lá. Olhei de relance para ele.

_Pode acreditar. Estou falando a verdade .

Claude entrou na cozinha e caminhou até mim, segurou as minhas mãos e eu comecei a estranhar a atitude.

_Alois… Eu me arrependi.

_O quê?

_Eu devia ter falado para você. Mas agora é tarde.

_Do que você está falando, Claude?

Claude me abraçou novamente. Se agarrando em mim.

_Alois… Eu...eu queria que você me desse uma chance.

Empurrei ele.

“Esse não é o Claude que eu conheço” — pensei.

_Como é que é?

_Eu quero uma chance com você. A gente pode tentar…

_Isso não tem graça, Claude. Como não conseguiu fazer o seu joguinho com o meu corpo, vai querer brincar com os meus sentimentos?

As lágrimas não paravam de descer pelo meu rosto e eu passei as mãos por ele, tentando secá-las.

Claude voltou a me segurar pelas mãos, apertando os meus dedos. Olhei para ele, queria ter dado um olhar de raiva, mas acho que o que saiu foi um olhar confuso e melancólico. Eu não tinha a menor condição psicológica para enfrentar esses jogos do Claude.

_Alois, por favor, acredite: não estou brincando, não é jogo nenhum. Nunca foi. Eu só não sei lidar muito bem com o que estou sentindo — ele respirou fundo e eu vi o seu olhar para mim, me fazendo tremer por dentro — Eu só sei que eu quero consertar as coisas. Me dá mais uma chance?

_Eu não sei.

Escapei das suas mãos e saí da cozinha, voltando para o meu quarto. Tentei fechar a porta, porque eu estava seriamente desconfiado que Claude tinha sido sequestrado e um clone tinha tomado o lugar dele.

Claude me impediu de fechar a porta e eu desisti de tentar. Deitei na minha cama e comecei a ajeitar o edredom fingindo que eu ia dormir mas é claro que eu não ia — ainda nem tinha trocado de roupa.

_Por que não sabe? Não era o que você queria?

_Não sei mais o que eu quero, Claude. E afinal, o que aconteceu com você? Mudou de ideia?

_Eu aceitei melhor os meus sentimentos.

Olhei para Claude.

_E quais são eles? — perguntei

Claude abriu e fechou a boca várias vezes, como se estivesse tomando coragem.

_Eu… eu… bem…. eu…

Perdi a paciência.

_Ora, Claude. Faça-me o favor! Depois diz que aceitou — puxei o edredom por cima de mim e virei para a parede, dando as costas para o outro — Boa noite, Claude.

Seguiram-se alguns minutos de silêncio, então Claude falou.

_Boa noite, Alois — senti ele me dar um beijo nos cabelos e tentei ignorar o aperto no estômago — Pense direito, eu não estava mentindo. Eu realmente quero uma chance com você.

Ele saiu e apagou a luz do quarto, fechando a porta. Me virei e fiquei olhando o teto.

“O que está acontecendo????” — pensei sem entender nada.

Meu celular vibrou e eu olhei o visor, deslizando o dedo pela tela. Era um Whats do Andrew.

Que bom que você veio jantar aqui em casa. Meus pais estão encantados com você. Minha mãe disse que você é muito educado e gentil (acho que ela gostou das tortinhas — e eu também gostei, mas gosto mais de você) e meu pai disse que você é um rapaz muito bonito, acha que você deve ter muitas mulheres atrás. Ele nem desconfia de nada, kkk. Mas você ainda vai ser todo meu, não é? beijos”

Li a mensagem e fechei o aplicativo sem dar resposta. Ia responder o quê? Andrew era muito fofo mas eu estava uma bagunça por dentro.

Me levantei e me troquei colocando uma camiseta velha e curta e um shortinho mais curto ainda. Voltei para cama e o celular acusou mais uma mensagem. Desbloqueei com a certeza que seria mais uma mensagem melosa do meu amigo colorido mas o número era desconhecido.

“Olá Alois. Adivinha quem é? Acredita que o meu filho deixa o celular largado em qualquer canto e que ele não tem senha? Bom, passei só para falar boa noite e dizer que eu estou de olho”

Larguei o celular na mesinha de cabeceira como se ele fosse um bicho peçonhento. O monstro tinha conseguido o meu número. Comecei a tremer involuntariamente e a sentir falta de ar. O choro subiu pela minha garganta e me sufocou. Deixei as lágrimas rolarem, afundando o rosto no travesseiro para sufocar os soluços.



Notas finais
O que acharam? Não se esqueçam de comentar. Isso me faz feliz. Ah, estou postando o próximo capítulo agora. Beijos