Você quer ser meu?
4 Um erro e um arrependimento
Notas iniciais
Os dias foram passando e nós dois nos adaptávamos à nova rotina. Voltei ao trabalho mas, na verdade, nada mudou muito. Como sou escritor, eu trabalho em casa, no meu escritório, então eu estava sempre por ali. Alois sempre estava por perto, não pediu para sair nenhuma vez e parecia satisfeito em ir da cozinha para o sofá e de tomar posse do controle remoto.
Depois de três dias, numa manhã em que estavámos tomando café da manhã juntos eu o olhava disfarçadamente, mas ele percebeu.
_O que você tanto olha para mim? — perguntou enquanto colocava mais uma colher de cereal matinal na boca.
Ele estava bem humorado, o que é relativamente raro de manhã. Tentei ser cuidadoso.
_Estava...é... hum...observando esse ...seu corte — gesticulei para o corte que atravessava a sua bochecha — Quem fez isso?
Ele levou os dedos ao corte, tocando-o delicadamente.
_ Uns caras que eu briguei na rua. Tá muito feio, né? — falou triste
_Um pouco mas a gente pode ir ao médico — falei sincero, na verdade o ferimento estava com as bordas avermelhadas e infeccionadas — Tenho certeza que dá para consertar.
_Não quero dar trabalho. É só um corte.
Ele ficou em silêncio. Só o barulho do cereal sendo mastigado.
_Pode ser só um corte. Mas eu acho que está infeccionado, pode ser perigoso. Fora que você é bonito demais para ficar com uma cicatriz dessa.
Ele sorriu e abaixou a cabeça.
Duas horas depois estávamos no hospital. A ideia era só verificar o corte mas quando a médica perguntou do histórico de doenças dele e descobriu que foi morador de rua acabou fazendo um check-up geral, a lista de exames era enorme.
_Você segura minha mão? — pediu baixinho quando viu a enfermeira se aproximando com a agulha.
Entrelacei meus dedos nos dele e ele fechou os olhos com medo.
“Ele é só um garoto, afinal de contas” — falei para mim mesmo, por isso que eu estava sentindo tanto essa vontade de protegê-lo, porque era só um garoto.
No final, todos os resultados dos exames foram normais a não ser uma anemia e baixo peso. E o corte foi desinfectado e receitada uma pomada. A médica disse que não ia ficar nem com cicatriz
Cinco dias depois eu o matriculei na escola aqui do bairro — o que quer dizer que é uma excelente escola — como ele passou um ano na rua, estava atrasado em relação à sua idade. Mas fora isso, ele estava até animado. Tão animado quanto qualquer um em voltar a estudar.
Mais uma ida às lojas para comprar o material escolar e uniforme. Ainda bem que estamos em abril então ele perdeu poucas aulas.
_Tem certeza que eu tenho que usar isso? — me perguntou fazendo uma careta e se olhando no espelho.
_É claro que tenho. É o uniforme da escola. É bonito — falei olhando o seu reflexo.
Ele se virou de perfil e olhou as costas pelo espelho.
_Eu não acho — fez uma careta.
_É sim — argumentei — Você fica bem nele, olha só: a camisa branca e a calça social azul marinho te dão um porte distinto, fica elegante, e o paletó com esses detalhes dourados ilumina o seu rosto.
Ajeitei os ombros do paletó nele.
_Você está bonito, Alois — falei encorajando-o. Ele me olhava atentamente pelo reflexo e quando eu o elogiei ele se virou, seu sorriso estava resplandecente.
_Você me acha bonito, Claude?
Eu já tinha percebido que ele era extremamente carente, era sedendo por elogios. Sorri complacente.
_É claro que você é bonito — falei e ajeitei o seu cabelo, que continuava longo demais, atrás da orelha.
Seus olhos brilhavam muito e sorriu ainda mais quando eu confirme o elogio.
“Pobre menino carente”.
Fizemos uma visita também ao cabeleireiro e Alois saiu de lá com um novo corte de cabelo, agora estavam repicados e atingiam somente até as orelhas. Eu ainda achava que parecia cabelo de menina mas não falei nada, afinal meu cabelo embora seja mais curto também é todo repicado.
Algumas vezes ele ficava triste e calado, eu aprendi que nessas horas, o melhor era deixá-lo quieto. E era o que eu fazia todas as vezes que isso acontecia. Muitas noites eu o ouvia chorando no quarto mas ele nunca me deixou chegar perto.
Exceto pelo primeiro dia, que eu ganhei um abraço ou outras raras vezes, ele nunca deixava que eu o tocasse por muito tempo. Nada de abraços apertados, nada de carinho nos cabelos. Por mim tudo bem, eu também não gosto muito disso mas eu sabia que ele era carente, muitas vezes eu via essa necessidade nos seus olhos mas na mesma hora ele se afastava. A Hannah deve ter sido uma péssima mãe, muito diferente da minha que nos enchia de amor e carinho. Eu tinha muita dó do Alois, não tinha a mínima ideia pelo que ele tinha passado, mas ia descobrir de um pedaço da sua história jeito muito, muito ruim.
Havia se passado dois meses que Alois estava em casa. Ele tinha até se adaptado bem à escola e eu o estava ajudando com as matérias que ele tinha dificuldades. Estava tudo indo ótimo, ele mais parecia um bichinho de estimação — era só alimentá-lo na hora certa, dar atenção e pronto — ele não me incomodava. Não que eu o esteja comparando à um bicho, não é isso, é que ele é muito na dele. Então eu resolvi fazer uma surpresa e dar um presente à ele.
Aproveitei a hora que ele estava na escola e comprei um PSP e alguns jogos. Mandei a vendedora embrulhar num papel dourado com um grande laço vermelho feito de um material laminado e brilhante.
Fui buscá-lo na escola e fomos almoçar juntos, ele estava muito feliz pela quebra de rotina, depois assistimos à um filme no cinema com direito à um balde de pipoca e um copo gigante de refrigerante.
_Você vai aguentar comer tudo isso? Mesmo depois do almoço? — perguntei estupefato.
Ele me olhou como se eu estivesse falando um absurdo.
_Mas é claro! Cinema sem pipoca não tem graça.
Sorrimos um para o outro e, aquilo foi esquisito. Então ele baixou os olhos — a maldita onda de tristeza ameaçava voltar.
_Talvez seja caro...Me desculpe, posso assistir o filme sem — falou.
_Deixa de bobagem. Mesmo se fosse caro, compraria quantos baldes de pipoca você quisesse, só volte a ficar alegre, ok?
Alois voltou a sorrir, mas eu via a tristeza ali, rondando… . Tratei de distraí-lo, falando qualquer bobagem até entrarmos na sala do cinema.
Na volta para casa Alois falou.
_O que aconteceu?
_Por quê?
_Não sei. Me levou para almoçar fora, passeamos, fomos até ao cinema — ele comentava animadamente.
_Não é nada. Quis apenas mudar um pouco a rotina — ri — E você tem sido tão esforçado, nunca reclama de nada. Eu pensei que ia ter muito mais trabalho com você. Parece perfeito demais.
Ele sorriu também e pareceu que queria falar alguma coisa mas se segurou.
_O que foi? — perguntei
_Nada.
_Pode falar — insisti em tom de brincadeira.
_Não é nada — ele sorriu mas eu via alguma coisa ali.
_Fala, cara. Eu tô vendo que você quer falar.
_Você falou que eu não reclamo de nada e parece muito perfeito… Mas eu tenho que te falar, Claude.
Seu tom mudou para um tom sério e meu estômago se apertou.
“Será que ele vai falar que eu sou horrível? Que está infeliz e que ele quer ir embora?” Não que eu fosse sentir muita falta mas...sei lá.
_Espero que você consiga lidar com isso — ele falou e eu esperei o pior.
_Pode falar, eu aguento — falei sério também, tinha até estacionado o carro de tão nervoso que eu estava.
Ele respirou fundo.
_Você cozinha muito mal. Pronto, falei.
Olhei para a cara ele e vi que ele estava segurando o riso.
_Seu idiota! Quer me matar do coração? Pensei que era algo sério! — dei um soquinho de leve no seu braço e ele explodiu na risada.
Depois que me recuperei do susto, acabei rindo também.
Chegamos no apartamento, joguei as chaves na mesinha perto da porta e sentamos no sofá.
_Espera aí que tenho uma última surpresa. Mas — fiz um suspensezinho — não sei se você merece depois do seu comentário sobre meus deliciosos pratos.
Eu sei que cozinho mal pra caramba. Poxa, eu sou um escritor solteiro, sobrevivia à base de comida congelada e pizzas. Estou aprendendo agora a fazer comida de verdade e a primeira fruta que entrou aqui em casa foi no dia seguinte à vinda dele.
_Ah Claude, por favor. O que é? Estou tão curioso!
_Não sei não — me fiz de ofendido e virei o rosto para o lado — Você vai ter que dizer que eu sou um ótimo e maravilhoso cozinheiro.
_Sem chance — riu.
_Ah então esquece — cruzei meus braços sobre o peito.
_Não faça isso, Claude. Não vou conseguir dormir sem saber. Me diz vai, por favor — me pediu com as duas mãos em súplica.
“Aqueles olhos brilhantes… Como dizer não àqueles olhos brilhantes?”
_Tudo bem. Eu te desculpo pelo insulto — me fiz de ultrajado e me levantei indo até o escritório pegar o presente.
Escondi-o nas costas para fazer a surpresa.
_Feche os olhos — pedi, me sentia tão bobo e tão...feliz.
Ele os fechou e eu depositei o pacote no seu colo. Sentei-me ao seu lado, displicentemente, todo largado no sofá.
Assim que ele sentiu o peso do embrulho, abriu os olhos. Pegou o presente e o desembrulhou rapidamente. Seus olhos brilharam de contentamento quando viram o videogame.
_Oh, Claude.
Alois retirou o aparelho da caixa. Não sabia se já o ligava ou lia o verso das caixinhas dos chips de jogos.
Adorei vê-lo tão feliz. Ele fica...luminoso.
Então eu estraguei tudo. Mas não tinha como eu saber. Não tinha.
Me ajeitei no sofá e apoiei meus braços no encosto e falei.
_Não vai me agradecer? — perguntei.
Ele nem me olhou.
_Obrigado! — disse.
_Ah, não. Você tem que me agradecer direito. Sua mãe não te ensinou não?
Minha intenção era que ele me falasse o que eu tinha pedido antes, coisa besta, sem importância — só para provocá-lo. Mas não foi assim que ele entendeu.
_Minha mãe? — me perguntou e sua voz tremeu um pouco, na hora eu não me toquei disso.
_É. Sua mãe deve pelo menos ter te ensinado a agradecer direito quando te dão um presente, não é?
Alois olhou para mim chocado, estava lívido e sua boca se abriu sem sair nenhum som. Eu devia ter percebido que tinha algo errado. Talvez meu editor tenha razão, eu sou tão solitário que não sei ler as reações das pessoas.
_V-você qu-quer q-que e-e-eu agrade-ça c-como mi-nha mãe e-ensinou?
_Sim — falei contente, virei minha cabeça um pouco para o alto numa pose meio arrogante e fechei meus olhos esperando os elogios sobre os meus terríveis talentos na cozinha.
Mas não foi isso o que aconteceu. Num segundo, senti o peso do Alois sobre as minhas pernas, abri meus olhos e ele estava sentado de lado no meu colo, franzi o cenho mas não consegui falar nada, Alois cobriu meus lábios com os seus.
“Céus! Como os lábios deles eram macios e quentes” — pensei enquanto ele apoiava as mãos nos meus ombros, suas mãos tremiam.
Eu não devia, não devia, mas abracei ele. Eu tinha Alois no meu colo, estava me beijando e eu não consegui resistir à vontade de apertá-lo nos meus braços e foi o que eu fiz.
A língua dele tocou suave nos meus lábios e eu dei passagem. Ele beijava muito bem, tocando a minha língua em movimentos sensuais, senti as mãos dele começando a desabotoar minha camisa e certa parte minha começou a ganhar vida.
Então a ficha caiu.
“O que eu estou fazendo??? Ele é meu sobrinho, é uma criança!”
O segurei pelos ombros e o empurrei.
Assim que ele se afastou pude ver as lágrimas descendo pelo seu rosto.
“Como eu pude não ver que tudo estava errado? Que aquele comportamento dele não era normal?”
Quer dizer, o garoto era arredio e quieto e de repente eu o tinha no meu colo, me beijando. Mas eu não tinha percebido, não até ele estar em cima de mim.
_O que foi isso, Alois? — perguntei ainda o segurando pelos ombros.
_Não quer que eu o agradeça como minha mãe ensinou? — falou chorando ainda.
Tentou se aproximar de novo mas eu o segurei no lugar.
_Vou parar de chorar, não se preocupe — falou baixinho enrolando os braços no meu pescoço mas não conseguiu se aproximar.
_Pára, Alois. Não quero isso! — o empurrei, fazendo que ele escorregasse até que se sentasse ao meu lado.
_Não? M-mas você pediu!
_Era uma brincadeira. Eu queria que você dissesse que eu sou um bom cozinheiro, só isso.
A compreensão caiu como um bloco na cabeça dele. Alois ficou vermelho, muito vermelho, escondeu o rosto nas mãos e recomeçou a chorar. Se levantou do sofá e ia correr para o quarto quando eu o segurei pelo pulso.
_Espera!
_Me solta, Claude.
A situação estava horrível. Eu queria entender o que estava acontecendo.
“O que fez ele agir daquele jeito?”
Eu até havia pensado que talvez ele quisesse me beijar mesmo. Já tinha percebido certos trejeitos dele, mas nunca tocamos no assunto mas, se esse fosse o caso, por que estava chorando quando eu o afastei?
Mas eu não tinha nem que pensar nessa possibilidade: eu sou um adulto e ele uma criança.
Algo estava muito errado e eu precisava saber.
_Não vou soltar — falei e o puxei para o sofá, mas ele resitiu — Não até você se acalmar e conversar comigo.
Alois puxou o braço novamente mas ele era fraco e, claro, não conseguiu se livrar. Me levantei.
_Calma, Alois — abrandei meu tom de voz — Olha, eu sei que fiz alguma coisa errada — nós estávamos bem próximos e eu continuava o segurando — Eu só quero saber o que eu fiz.
_Você não fez nada de errado. Eu só entendi errado. Me deixa.
_Alois — passei os dedos nos fios dourados que caíam no lado do seu rosto — Eu só quero entender… Me diga.
Seus olhos estavam presos nos meus. Ou os meus é que estavam presos nos seus.
_Não há nada para dizer. Eu sou quebrado, Claude. Não há nada para entender.
_Eu quero te entender, Alois. Quero muito. Me diga.
Senti ele desarmar e lentamente o pus sentado no sofá, soltei o pulso mas escorreguei a mão até a sua, seus dedos estavam gelados e suados, ele tentou tirar a mão da minha e eu a segurei.
_Confie em mim — pedi com a voz baixa.
Alois permaneceu em silêncio, olhando o chão.
_Por que você me beijou? — perguntei.
_Você pediu para que eu o agradecesse como a Hannah havia me ensinado. Eu obedeci.
Comecei a me dar conta da burrada. Mas o problema era pior.
_A Hannah obrigava você a beijá-la? — perguntei sem acreditar.
Ele negou com a cabeça.
_Não.
_Eu não estou entendendo.
Alois respirou fundo algumas vezes, parecia que estava tomando coragem. Então começou a falar.
_A Hannah recebia os clientes lá em casa. Eu sempre ficava trancado no quarto e quando ela estava com eles eu punha os fones de ouvido e ligava a música no último volume. Sempre tinha sido assim, então eu nem me importava muito, desde muito pequeno era assim que ela punha o dinheiro dentro de casa. Então, teve uma noite, era cedo da noite, devia ser umas seis horas quando ela abriu a porta, eu estava lendo um livro e olhei para ela que já estava “vestida” para trabalhar, estranhei pois ela nunca aparece no meu quarto, a não ser quando está bêbada ou drogada e isso normalmente acontecia pela manhã, era a hora escolhida para descontar toda a sua raiva e frustração em cima de mim. Mas naquela noite ela estava feliz.
Alois falava sem olhar para mim, torcia as mãos nervoso e eu podia ver que ele suava muito.
_Ela sorriu para mim — Alois me olhou — Ela nunca sorria para mim. Então falou “Olha Alois, olha o que me deram” e mostrou um bolinho de notas de cem dólares, devia ter mais ou menos mil dólares ali. Era muito dinheiro para a gente que sempre estava contando os centavos mas não me surpreendi, talvez ela tivesse feito um programa com algum ricaço. Eu falei “Que bom” e voltei a ler, ela entrou no quarto e se abaixou ao meu lado, me assustei e esperei o golpe, mas ele não veio e quando a olhei ela ainda sorria para mim. Meu coração começou a acelerar, minha mãe nunca tinha sorrido para mim. Ela me disse “Alois, isso é por sua causa.”, encarei-a sem entender e ela continuou “O senhor Dawson o viu, o achou tão bonito…” ela fez um carinho no meu rosto e eu tive vontade de chorar, parecia que meus desejos estavam se realizando, numa noite só minha mãe tinha sorrido e feito carinho em mim, mas ela continuou “Ele resolveu te dar essa dinheiro, Alois, não é ótimo?”, pensei comigo que o cara devia ser muito bom para ficar dando dinheiro assim, só por achar uma pessoa bonita… Como eu fui inocente…
Eu estava paralisado, absorvia as palavras do Alois como uma esponja absorve a água. Pressentia algo muito ruim e meu coração batia descompassado.
_Eu falei para ela “É ótimo” e estendi a mão para pegar as notas mas ela tirou do meu alcance. “Pode deixar que eu cuido do dinheiro, querido. Agora, você não acha que tem que agradecer o senhor Dawson?”, me lembro de ter olhado para ela e o seu olhar foi quase amoroso, dei de ombros “É só falar obrigado” comentei e me levantei. Ela segurou meus braços, as unhas longas se enterrando na minha pele. “Alois, faça o que ele quiser” me falou e eu não entendi o que ela quis dizer. Ela me levou até o quarto dela, onde ele estava deitado na cama.
Alois ficou em silêncio. Mas as lágrimas desciam copiosas por aquele rosto que eu gostava tanto de olhar.
_É irônico não é? Que um filho de uma puta, como eu, não soubesse o que era sexo e que estava sendo vendido? Só percebi o que iria acontecer tarde demais e não adiantou o tanto que eu gritei ou tentei escapar.
Aquilo era horrível demais, eu me sentia enjoado e terrivelmente arrependido do que tinha falado. Mas eu não sabia...não tinha como saber.
Não sei o que houve de errado com a Hannah. Quando foi que ela tinha se transformado naquele monstro que prostituía o filho? Era pavoroso demais.
Eu já tinha ouvido o suficiente mas Alois continuou.
_Eu tinha dez anos quando ela fez isso. Fiquei de cama por quatro dias e ela cuidou de mim nos dois primeiros, nos outros, tive que me virar sozinho com as dores e as marcas feitas. Pensei que ia parar por aí. Mas dali a um mês, ela apareceu de novo no meu quarto, estava tão feliz… me mostrou as notas novamente e eu comecei a chorar, falei que não queria fazer aquilo de novo mas novamente ela estava carinhosa, acariciou meu cabelo, até me deu um pequeno abraço, disse que eu tinha que agradecer corretamente pelo dinheiro ganho e eu fui novamente. Era um outro cara mas me machucou do mesmo jeito. Quem tem cuidado quando se está com uma puta? Era no que eu estava me transformando.
“Então era isso? Se eu não tivesse parado, Alois ia transar comigo por agradecimento? Era tão sórdido que eu tive ódio da Hannah. Como alguém pode fazer isso com um filho?”
_Chega Alois. Não precisa me contar mais nada — toquei seu ombro e ele estremeceu, suspendi o toque na hora.
_Todas as vezes eu falava que não queria. Todas as vezes ela me comprava. Eu não vendia meu corpo por dinheiro, esse ficava todo para ela. Eu vendia o meu corpo pelo amor da minha mãe. Eu queria que ela me amasse. Eu queria ter o carinho dela. Mas não consegui, cada vez ela queria mais, comecei a negar, a ficar fora de casa e quando voltava ela me esperava no portão com cara de preocupada, assim que eu entrava em casa ela mostrava sua verdadeira face e os espancamentos foram piorando com o passar do tempo.
Nessa hora ele irrompeu em choro. Eu o puxei para mim e o abracei, num primeiro momento ele se retesou e tentou se afastar mas depois enrolou os braços no meu tórax e apoiou a cabeça no meu peito.
_Eu sou uma puta igual à ela. Agora você vai me pôr para fora de casa!!!
“É com isso que ele está preocupado? Tem medo que eu o expulse de casa?”
Nunca me senti pior. Por minha culpa Alois estava sofrendo, sem querer mexi numa ferida dolorosa e profunda. E cabia a mim tentar curá-la.
Puxei seu rosto para cima e limpei suas lágrimas, tirei algumas mechas de cabelo do rosto. Seus olhos azuis sempre tão cristalinos estavam vermelhos agora assim como seu rosto, os longos cílios estavam em tufos, colados uns aos outros por causa das lágrimas.
_Eu nunca vou te pôr para fora de casa. Nunca!
_Claude — choramingou e voltou a me abraçar.
O levei para o quarto e o pus na cama, ele abraçou o travesseiro e eu fiquei com ele, acariciando seus cabelos até que caísse no sono.
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