Você quer ser meu?
5 Uma revelação e um amigo
Notas iniciais
No dia seguinte, eu quis trocar o PSP por outra coisa, tinha certeza que toda hora em que eu visse aquele aparelho eu iria lembrar do ocorrido, mas o Alois não deixou dizendo que aquilo era bobagem e que ele mesmo já tinha esquecido. O que eu não acreditei pois demorou uma semana para que a gente pudesse voltar a conversar normalmente e se sentir confortável um com a presença do outro. Mas isso finalmente aconteceu e eu me senti aliviado, acho que ele também se sentiu assim.
Estava envolvido com uma nova história então tinha pouco tempo para conversar com ele — mais uma nova trama de suspense policial começava a surgir na minha mente, algo relacionado à uma horrível criminosa que roubava crianças e as vendia para grupos de mafiosos. Nada ligado à realidade, é claro.
Numa tarde, Alois entrou no escritório, trazia uma caneca que a substituiu pela minha que estava ao lado do meu computador, ao alcance da minha mão. Eu a peguei e ele tinha feito de novo! Substituiu meu café por um chá sem gosto, dei uma olhada meio de lado para ele que tinha se apoiado no batente da porta.
_Você sabe que não pode tomar café. Faz mal para o seu estômago — me repreendeu quando viu meu olhar bravo.
“Mas eu amo café!” — tive vontade de reclamar mas de nada ia adiantar. Depois que ele soube que eu andei meio doente, resolveu bancar a enfermeira e não me deixava comer o que eu quisesse, nem tomar o meu querido café. Tudo bem que eu devia tomar um litro por dia e isso talvez fosse um pouco exagerado mas sem cafeína eu ficava meio irritado. Isso sem falar nos horários dos remédios que ele não me deixava esquecer de jeito nenhum.
Fiz um muxoxo e tomei um gole daquela água suja, não era nem chá inglês, era de camomila. Eu odeio camomila.
Uma careta se formou no meu rosto quando engoli o líquido.
_Que exagero, Claude! Quer que eu coloque açúcar? — falou estendendo a mão para pegar eu entregasse a caneca.
Eu tentava sempre tomar puro, mas nunca conseguia.
_Adoçante — o corrigi.
Ele deu de ombros.
_Você não precisa tomar adoçante. Tem o quê? Medo de engordar? — ele pegou a caneca e pingou algumas gotas do adoçante.
Fiz que sim com a cabeça enquanto pegava a caneca estendida.
_Estou com vinte e seis, tenho que me cuidar — argumentei e voltei a provar o líquido, estava um pouco mais tragável mas nem de longe era igual ao café.
_Bobagem. Você está bem desse jeito, seu corpo é muito bonito.
Corei, como se eu fosse o adolescente.
“Então ele fica reparando no meu corpo?”- sorri timidamente, meus lábios escondidos pela caneca.
“Não, espera. Por que eu estou ficando assim? Por que eu gostei do elogio?”
“É meu sobrinho. É só uma criança” — forcei meu cérebro a se lembrar. Alois era proibido para mim.
Alois não esperou por resposta nenhuma, deu as costas e saiu do escritório me deixando para que eu continuasse a escrever meu livro.
Mas agora já era tarde. Tinha perdido toda a minha concentração por causa daquele loirinho.
A verdade era que a lembrança daquele beijo estava me assombrando. Eu me sentia terrivelmente culpado por ter gostado de sentir os lábios dele nos meus — foi tudo muito errado, desde o motivo por ele ter me beijado até o fato dele ser muito mais novo que eu e ser meu sobrinho.
“Por que eu tinha gostado tanto?” — era a pergunta que ficava martelando na minha cabeça. Seria por eu estar sem ninguém há um bom tempo?
Mas o fato era esse — eu tinha gostado do beijo e várias noites adormecia lembrando da sensação da boca do Alois na minha e muitas vezes eu tinha fantasiado o que viria depois, numa outra situação em que ele me quisesse o tanto que eu o queria e não por gratidão como a Hannah tinha ensinado.
“Peraí!!! O tanto que eu o queria????”
“Que droga!!! Estou ficando maluco!”
“Ele é meu sobrinho. É só uma criança” — repeti novamente até me conscientizar.
Esse virou o meu mantra. Todas as vezes que eu me pegava pensando no Alois, ou admirando a cor e o formato dos seus lábios ou me lembrando do beijo ou o seguindo com os olhos enquanto ele se movia pelo apartamento, eu repetia mentalmente essa frase até que o pensamento fosse embora.
Se bem que isso não adiantou de nada quando, depois de uns quinze dias daquela noite, ele me fez uma revelação.
Estávamos sentados no sofá assistindo mais um episódio do seriado preferido dele quando, num intervalo ele falou:
_Claude? Eu queria falar uma coisa.
Olhei de relance para ele e voltei meus olhos para a tela.
_Hum.
_Sabe aquela noite?
_Que noite? — perguntei ainda olhando a TV, já estava voltando dos comerciais e eu apontei com o controle para que ele também voltasse sua atenção para a tela. Mas não foi isso que ele fez, se aproximou um pouco mais de mim.
_Aquela do PSP.
_Ah — falei constrangido — O que tem? Eu já te pedi desculpas, ainda está chateado? — deixei de olhar o aparelho e olhei para o loiro.
Ele negou com a cabeça.
_Não é isso. Queria falar outra coisa…
_Fala.
Ele parecia um pouco constrangido.
_É que… — respirou fundo — Ok, lá vai: eu lamento o jeito que tudo aconteceu naquela noite mas eu queria dizer para você que eu não me arrependo de ter te beijado.
Arqueei minhas sobrancelhas em surpresa. Acho que ele esperava que eu dissesse alguma coisa mas eu estava surpreso demais e sim, um pouquinho feliz. Mas ele continuou:
_Eu queria tentar de novo.
Consegui falar depois de quase engasgar em seco.
_O quê?
_Queria te beijar de novo.
Então Alois escorregou no sofá, sentando-se muito próximo e virando-se pra mim. Percebi que ele viria para cima e o segurei.
_Espera Alois. Acho que você está confuso — falei.
“Ele é meu sobrinho. É só uma criança” — mentalizei.
Alois suspendeu o movimento.
_Não estou confuso — respondeu.
_Não precisa fazer isso — o empurrei levemente quando percebi que fazia peso sobre meus braços tentado se aproximar mais.
_Mas eu quero! Você não quer? — perguntou e piscou aqueles olhos cristalinos.
Aqueles olhos ainda seriam a minha perdição. Eu tinha certeza! Mas eu não podia me deixar levar por eles.
“Ele é meu sobrinho. É uma criança”. Eu tenho que ter juízo.
_Você não sabe o que está dizendo — finalizei, fazendo-o sentar-se de jeito normal do sofá.
Alois pareceu entender, fechou a cara e ficou calado o resto da noite até a hora de ir dormir.
O coloquei na cama e puxei o edredom por cima. Tinha virado um hábito o pôr na cama.
_Por que você não me quer? — perguntou na lata, olhando diretamente para mim.
_Você não sabe o que está dizendo. Não tem por quê me beijar. Fora que você é uma criança.
_Não sou criança — falou contrariado — E eu sei muito bem o que estou dizendo.
_Boa noite, Alois — cortei já saindo do quarto.
_Claude — chamou e eu olhei para ele — Eu sei o que eu quero. E você? Sabe?
Saí rapidamente do quarto antes que ele me pressionasse por uma resposta.
“E você? Sabe?” — a pergunta reverberou na minha mente.
“Sim, Alois, eu sei. Só não posso” — respondi mentalmente e fui para o meu quarto.
****
Depois desse dia, percebi uma mudança no comportamento do Alois, ele já não estava mais tão arredio e muitas vezes eu percebia que ficava me olhando quando achava que eu estava distraído. Em várias oportunidades Alois encostava em mim, eram toques sutis, uma mão no ombro, um toque no rosto, nos cabelos. E claro, o fato de agora sempre assistir televisão comigo quase sentado em cima, quer dizer, ele sentava-se ao meu lado mas muito grudado e ás vezes até colocava as pernas sobre as minhas.
Nessas vezes eu ficava parado, travado, mentalizando o meu mantra “ele é meu sobrinho. É uma criança” e tentava controlar minha vontade de passar a mãos naquelas coxas branquinhas e bem torneadas. Sim, porque ele sempre fazia isso quando estava vestindo shorts, e seus shorts estavam diminuindo de comprimento paulatinamente. Os primeiros que eu comprei eram quase bermudas mas agora, que ele recebia uma gorda mesada, as roupas que comprava eram notadamente diferentes. Como a roupa que ele usava quando o conheci era grande, achei que ele gostava de usar roupas largas e as primeiras que compramos juntos seguiram essa diretriz mas agora, suas camisetas eram bem menores e mais ajustadas no corpo e seus shorts eram beeeemmm mais curtos, até mesmo as calças jeans eram justas.
Num dia, quando eu fui buscá-lo na saída da escola, ele entrou no carro e perguntou:
_Claude, eu tenho um trabalho da escola, é em dupla. Eu posso levar um amigo lá em casa?
_Claro — respondi — Mas não façam muito barulho.
_Pode deixar — falou sorrindo e pegou o celular começando logo a digitar.
Eu estava entrando novamente na neura, o livro estava emperrado, não conseguia escrever um capítulo decente, meu editor mandava e-mails quase diários para saber do andamento da obra e há três dias eu deixei de respondê-los. Então eu precisava de toda calma possível e imginável para ver se conseguia pôr as ideias no lugar e escrever uma trama boa e não ficar pensando no meu sobrinho gostoso andando pela casa.
No dia seguinte o tal amigo veio junto com a gente. Ele se chamava Andrew e era um repetente assim como o Alois, e parecia até mais velho do que ele sendo alguns centímetros mais alto. Tinha cabelos pretos, longos na parte de cima e raspados na parte de baixo e era mantidos presos num rabo de cavalo pequeno, seus olhos também eram pretos e ele parecia bastante tímido durante o percurso entre a escola e a casa.
O resto da tarde correu bem, eles almoçaram, fizeram o tal trabalho e depois ficaram jogando videogame. Acabei simpatizando com o garoto, tirando o cabelo muito moderninho para o meu gosto, ele era um cara legal e bem educado e o Alois parecia bem à vontade com ele.
Mas quando fui dormir naquela noite, fiquei pensando e achei que o Alois sorria muito para o Andrew. Sorria demais. E cheguei à conclusão que eu não gostava mais tanto assim desse amigo do Alois.
Principalmente quando ele se tornou uma presença constante lá em casa. Era comum ele aparecer por lá de duas a três vezes por semana. Assistiam a filmes na TV, conversavam sobre o raio do seriado que pelo jeito era o preferido dele também, riam, jogavam e estudavam juntos. Eu não tinha nada do que reclamar realmente, eles eram silenciosos, o Andrew era sempre muito educado e eles tinham o cuidado de sempre deixar tudo arrumado.
Mas a cada dia eu gostava menos do garoto.
Tomei coragem e perguntei para o Alois numa hora em que ele veio surrupiar meu café que eu tinha a muito custo conseguido pegar escondido na cozinha.
_E esse Andrew?
_O que tem ele? — devolveu a pergunta, surpreso.
_Vocês parecem muito amigos.
_Ele é um bom amigo — respondeu com um menear de ombros.
_Só isso? — arrisquei.
Ele sorriu mais e arqueou a sobrancelha.
_Está com ciúme, Claude?
_Não — respondi rápido, rezando que ele acreditasse na mentira. Eu estava me mordendo de ciúme.
_Eu acho que você está sim — e riu.
_É claro que não — me apressei em responder — Só quero saber.
Alois andou até a cadeira de escritório onde eu estava sentado e sentou-se no meu colo.
“Ele é meu sobrinho. É uma criança” — comecei com meu mantra.
_Relaxa, Claude. Eu só quero você! — e me deu um selinho.
Eu acho que foi um selinho porque assim que senti os lábios dele, o empurrei para fora do meu colo, ele escorregou e se levantou.
Saiu rindo e mandando um beijinho no ar.
E eu fiquei ali, sentando de frente para o computador sem ideia nenhuma para a minha história — tudo por causa desse loiro — tentando controlar meus batimentos cardíacos e as reações involuntárias numa certa parte do meu corpo.
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