Você não entende...
8 Capítulo 7: Felicidade.
Notas iniciais
Chego cedo novamente hoje, esperar o sinal bater é um saco. Lembro-me de Lorena chorando, eu preciso falar com ela...
A aula começa e ela chega uns dez minutos atrasada e senta distante de mim, merda, vou ter que esperar o recreio.
Quando bate o sinal pra próxima aula somos informados pela estagiária que a professora Elsa faltou por um motivo de saúde, todos vibram e então ela acaba com nossa alegria informando as páginas que ela deixou pra nós fazermos em casa, bosta.
Intervalo adiantado, eu vejo Lorena sair da sala junto de suas amigas e sigo-a, quando estou perto dela, pego-a pelo braço e quando ela vê que sou eu franze a testa.
– O que você quer? — ela diz tirando minha mão.
– Falar com você — eu olho pra amigas dela — a sós.
– O que é tão importante assim pra você querer falar comigo? Se for se declarar pra mim, saiba que eu te rejeito — ela cruza os braços irritada, batendo o pé no chão.
– É algo importante, sua retardada. Ou quer que suas amigas saibam sobre Augusto?
Ela apenas abaixa a cabeça e me pega pelo braço, me guiando em direção à quadra de basquete. Vejo suas amigas fofocarem no meio do pátio e Camila olhando pra nós.
Quando chegamos, ela me olha com os olhos brilhantes de lágrimas.
– O Murilo te contou, não foi? Aquele maldito linguarudo! — ela chuta freneticamente a parede.
– Ele não contou porque quis, não o culpe.
– Como não culpar!? Se ele não soubesse... — agora ela soca a parede.
– Lorena, — eu ponho a mão em seu ombro — dá pra ficar calma, porra?
– Nossa, que gentil — ela revira os olhos tirando a minha mão de seus ombros. — Parece ele. – minha cara esquenta de raiva.
– Por que você não conta pra sua mãe? Você tem algum problema mental!?
– Cala a boca! — ela grita virando-se pra mim. — Você... — ela começa a chorar. — Você não entenderia... — ela se deixa cair no chão de joelhos.
– Lorena... — eu abaixo perto dela e a abraço. — Se você estiver precisando de ajuda, eu estou sempre aqui.
Ela não fala nada e apenas ficamos ali abraçados por alguns segundo até que ela me empurra e se levanta apontando pra mim.
– N-Não me abrace como se fosse m-meu... Amigo! — ela diz vermelha.
Ela sai correndo e eu corro atrás dela e consigo pegar seu braço.
– Me larga! — ela diz tentando tirar minha mão, mas eu seguro firme dessa vez.
– Sua idiota, eu quero te ajudar.
– Você não pode.
– Dá pra pelo menos me falar por que caralhos você não conta pra sua mãe?
– Se eu contar você me deixa em paz? — ela diz com a cabeça baixa.
– Não, mas se você não me contar eu vou hoje mesmo na sua casa espancar aquele filho da puta do Augusto — digo fazendo a pior cara que posso fazer e vejo ela tremer por dentro.
– Ok — ela bufa.
Sentamos no banco dos reservas e ela começa a falar:
– Minha mãe entrou em depressão depois que meu pai morreu, porém continuou a trabalhar. Ela amava meu pai mais que tudo nessa vida... Até mais que eu. Eu sempre senti ciúmes dele, mas eu também o amava muito — vejo lágrimas caírem do rosto dela freneticamente. — Eu nunca desisti de tentar fazer minha mãe sorrir naturalmente, era sempre aquele sorriso torto e um seco: "Obrigada Lorena". Ela simplesmente não ligava e eu já estava ficando igual a ela. Um dia minha mãe saiu à noite com minha tia e no outro ela estava namorando Augusto, eu finalmente fiquei feliz quando ele entrou em minha vida, ele fez minha mãe sorrir como nunca e ela o amava tão ou mais que meu pai, e o melhor de tudo: ela começou a se importar mais comigo. Eu gostava muito dele, ele brincava comigo e me dava vários presentes, eu até contei sobre isso pra ele, era um "melhor amigo" pra mim. Quando minha mãe foi promovida, uns três meses depois, que tudo começou, ela começou a viajar e me deixar sozinha com ele que começou a... A abusar de mim... – ela estremeceu.
– E você não contou pra sua mãe ainda por causa disso? Existe muita gente melhor por aí pra fazê-la feliz — digo puto da vida.
– Você não entende... — ela diz ainda chorando.
– Me diz agora um motivo pra eu não ir lá e começar a espancar esse cara até eu estar satisfeito? — me levanto.
– Aquele cara tirou minha mãe da depressão, — ela diz pondo sua mão em meu ombro. — e ela ficou feliz novamente... Se ela descobrisse, tudo voltaria e... Eu não quero, eu estou cansada disso tudo... — ela põe as duas mãos em seu rosto e mesmo assim consigo ver as lágrimas escapando entre seus dedos.
– Você não quer mesmo ajuda? — pergunto suspirando.
– Eu preferia não existir ao estar nessa situação... — ela diz ainda com a mão no rosto. — Eu só queria reviver como outra pessoa, eu odeio... Odeio minha vida.
– Você é mesmo uma retardada, — eu digo tirando suas mãos de seu rosto e a olhando. — se você tivesse apenas aberto essa tua boca pra contar pra tua mãe, você poderia estar feliz e longe daqui uma hora dessas, olha sua situação, você tem dormido a noite? — ela treme os lábios, provavelmente com raiva. — Você odeia sua vida? Puta que pariu, sério Lorena? Tantos doentes desejando mais um ano de vida com seus familiares e você simplesmente odeia isso? Você tem noção disso?! Isso que você está desejando é...
– PENSEI QUE QUISESSE ME AJUDAR — ela grita furiosa.
– Estou tentando abrir essa sua mente oca, caralho. Já é uma puta ajuda.
Ela apenas fica em silêncio na minha frente, mordendo os lábios, tentando não chorar ou talvez controlando sua raiva.
– Lorena, eu vou te ajudar, mesmo você não querendo — vejo-a abrindo a boca para protestar. — Nem adianta negar, estou empolgado para dar uns belos socos na fuça desse Augusto.
Eu saio dali, deixando-a sozinha na quadra. Sento num banco perto da cantina, ainda fechada e vejo Lorena correr para o banheiro. Eu realmente queria ir na casa dela agora, mas já saí cedo ontem, minha tia desconfiaria ainda mais e a Tilde também.
– Johnny...
Quase pulo com o susto. Olho para o lado e é Camila.
– Ah, oi Camila, o que você quer?
– Queria saber sobre o que você estava conversando com a Lorena.
– P-Por quê?
– Você finalmente se confessou a ela? – os olhos dela brilham.
– C-CLARO QUE NÃO, TÁ DOIDA?
Ela ri e isso me irrita muito, caralho como eu quero uma Coca-Cola agora, maldita cantina inútil.
– Mas você gosta mesmo dela, certo? N-Não responda ainda! A Lorena tinha me dito que você ia tentar mudar de ideia sobre me corresponder, m-mas não precisa, — ela diz corada. — eu agora só gosto de você como amigo, ok?
– Ok... — caramba eu esqueci disso.
– Mas você gosta dela, né?
– Não — digo virando o rosto involuntariamente.
– Pode me falar, — ela sussurra mais perto de mim — eu não conto pra ninguém, juro!
– E se você estiver mentindo?!
– Ei! — ela faz bico. — Amigos não mentem um pro outro, certo? — Amigos? — Nem quebram juramentos!
– Tá bom, tá bom.
– E então...? — seus olhos voltam a brilhar.
– Eu gosto dela — digo baixinho cruzando os braços.
– Não entendi — ela só pode estar de zoação com a minha cara.
– Gosto dela! — eu digo um pouco mais alto.
– Não entendi ainda – ela sorri tentando parecer maliciosa, vai à merda.
– Eu gosto dela, caralho — digo irritado e um pouco alto demais e ela arregala os olhos e antes de eu me desculpar pelo palavrão ela fica toda animada e comemora.
– Eu sabia! Jorena existe, você é um tsundere — ela aponta pra mim.
– O que diabos é Jorena? E um tsun-não-sei-o-quê?!
– Ai meu Deus! — ela tampa a boca e arregala os olhos. – Desculpa, eu me empolguei um pouco...
– Então você na verdade é uma pequena barulhenta, hein?
– E-Eu não... — ela cora.
– Ei, ei, relaxa. Estou te zoando, mas você ainda não respondeu o que é esses trecos que você disse.
– E você ainda não me respondeu o que vocês estavam conversando lá na quadra! — ela incha as bochechas.
– É uma longa história idiota, — suspiro. — se você realmente quiser saber, pergunte diretamente a Lorena, se ela confiar em você te responderá.
– Okay...
– Agora me responde o que perguntei.
Ela começa a explicar e eu começo a descobrir como ela realmente é. Ela é mais legal do que parece afinal, ela me disse pra eu me confessar para a Lorena, como vou fazer isso?
~.~
O sinal do intervalo toca e vejo várias pessoas saindo da sala e a cantina finalmente abre.
– Quer algo?
– N-Não precisa!
– Você me deixou de bom humor, precisa sim. Hm... Você gosta de joelho?
– S-Sim, mas não precisa...
A ignoro e vou na cantina e compro dois joelhos e duas Coca-Cola.
– Toma — estendo o joelho e ponho o refrigerante no meio de nós.
– Eu disse que não precisava!
– E eu não estou nem aí.
Dou um gole na minha Coca e sinto um tapa nas minhas costas, que me faz cuspir o que acabei de tomar.
– E aí, J.
– Seu corno — digo pegando ele pela gola da camisa furioso.
– Ei, não briguem — diz Camila com uma voz tensa atrás de mim e eu me acalmo. Solto ele e volto a sentar.
– Você deveria ser mais amável com as pessoas, principalmente com alguém que sabe seus segredos mais sombrios — ele diz dando aquele sorrisinho intimidador.
– Calado.
– Oi Camila — ele diz se sentando ao lado dela.
Eles começam a conversar e eu meio que fico de vela. Ele dá em cima dela de um jeito escroto e eu só observo tomando meu refrigerante em paz, finalmente.
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