Você Sempre Vale a Pena
18 Capítulo 18: Stiles
Notas iniciais
Três meses e meio depois...
Todos juravam que eu ia melhorar com o passar nos meses, mas a verdade é que eu não melhorei. Para ser bem sincero, há essa altura, estava fazendo uma bela festinha de auto piedade. Eu não comia direito, acho que na verdade tinha uns três dias que não tomava um banho, meu cabelo estava maior e minha barba... Bem eu não fazia a barba a um tempo.
Como eu não queria que Scott fosse cuidar de mim eu fui para o sótão do nosso apartamento que tinha o meu antigo piano, na verdade era o piano da minha mãe e eu tinha mantido durante todos esses anos. Era a minha herança e o seu legado para mim. Quando eu tocava nele era como se ela estivesse falando comigo, me confortando e me dando a direção correta a tomar da minha vida.
Resolvi tocar uma canção que eu tinha aprendido recentemente e que me lembrava da situação que eu estava. Lembrava da minha situação com Derek e o quanto eu sentia a sua falta. Broken Ones – Jacquie Lee.
“Cross your heart and say you're never giving up
That you'll carry on when every door will shut
That you'll live, you'll live with no regret!
We wear a smile to hide that we've been hurt before
Keep our disasters in a suitcase by the door
Cause you know, you know we're only human!
Comprometa-se e diga que você nunca irá desistir
Que você vai continuar quando todas as portas se fecharam
Que você vai viver, você vai viver sem arrependimento!
Nós usamos um sorriso para esconder que fomos feridos antes
Mantemos nossos desastres em uma mala perto da porta
Porque você sabe, você sabe que nós somos apenas humanos!
So lay your hands on the left behind
We all know how it feels to be forgotten for a while
In a crowded place trying not to feel alone
Just remember that we've all been broken once!
Let's love the broken ones, yea, yeah!
Love the broken ones!
Então coloque suas mãos sobre o que deixou para trás
Nós todos sabemos como é se sentir esquecido por um tempo
Em um lugar lotado tentando não se sentir sozinho
Basta lembrar que todos nós já fomos feridos uma vez!
Vamos amar os quebrados, sim, sim!
Ame os quebrados!
Eu terminei a música e senti alguém olhando para mim, quando me virei dei de cara com a pessoa que eu menos achava provável de estar aqui por mim. Allison me olhava com uma cara que não era de pena como as pessoas costumavam a direcionar para mim.
“Eu já estava de saco cheio daqueles olhares e na empresa tinha sido o mais difícil.”
As pessoas olhavam para mim com pena, como se eu fosse alguém para se ter piedade, mas eu não ia me tornar esse tipo de pessoa e não é como se Derek tivesse me ajudando muito. Se não bastasse a separação eu ainda tinha que ver como ele tinha ficado mais gostoso.
Era uma afronta a ordem natural das coisas, ele atravessava a empresa com aquele ar de superioridade e um poder macho alpha exalando dele que hipnotizava todo mundo. Ele devia estar malhando mais, porque os braços e músculos dele ficaram mais pronunciados. Mas com certeza o pior de tudo era ter que vê-lo naqueles ternos feitos sob medida que chegavam a marcar um pouco os contornos dele, ver aquele abdômen escondido pelas camisas de botão brancas dele e eu morria por não poder tocar aquilo mais.
“Será que as outras partes do corpo ficaram maiores também? Bom, era um músculo também.”
Saí dos meus devaneios para dar atenção a minha convidada tão ilustre. Allison não me olhava com dó, ela me olhava com compaixão, como se ela entendesse o que tinha acontecido e quisesse me ajudar.
Eu me virei para ela e perguntei:
— O que você está fazendo aqui?
— Bom, eu vim ver como você estava. Mas acabei de descobrir que você está querendo se candidatar para arquiteto das obras finais da mansão do meu irmão.
— O quê? — Perguntei confuso.
— Bem, Stiles, só isso para explicar a construção que você está fazendo com caixas de pizzas do lado do colchonete. Quantas foram até agora?
Eu rosnei para a piada dela, mas ela não se deu por vencida e se sentou do meu lado no piano.
“Ainda bem que ela não tem acesso ao meu computador. Acho que ter recriado a mansão Hale no The Sims não é sinal de superação. Pior ainda é ter criado a versão dele no jogo,” pensei, enquanto despistadamente fechava meu notebook que estava em cima do piano.
— Senhor Stiles! Você precisa tomar um banho meu filho. Desse jeito nem o Derek vai te querer.
— Cala a boca, Allison! Se você veio aqui para me chatear pode ir embora, eu consigo fazer isso por conta própria.
— Não, Sti. Eu não estou aqui para isso. Eu vim realmente te dizer que você está sendo um idiota e que você deveria ir conversar com meu irmão.
— Eu não vou fazer isso, ele não quer mais nada comigo. Ele não me procurou e...
— Ele não te procurou porque ele achava que não era bom o suficiente para você. — Ela me interrompeu.
— Mas o problema não era ele, fui eu que surtei com a dimensão do que eu sentia por ele e de como as coisas estavam saindo do meu controle. — Eu não queria revelar tanto para a irmã do meu ex, mas eu simplesmente não consegui manter a minha boca fechada.
— Não é essa razão para ser submisso, Stiles? — Ela me olhou com olhar inquisidor e eu me perguntei como ela sabia disso, não que isso tivesse importância agora. — Deixar o poder e o controle das coisas na mão do outro. Confiança acima de tudo e saber que ele vai fazer o melhor para você.
— Sim, esse é o ponto Allison, mas não quer dizer que é fácil. Eu sou um submisso natural, mas ser disposto a ceder o poder não quer dizer que seja fácil.
— Ele fez tudo por você e para proteger tudo aquilo que você preserva.
— Sim, eu sei disso. — Disse mal-humorado.
— Até depois que vocês terminaram! — Ela me repreendeu.
— Como assim?
— O motivo que você terminou com ele e você nem lembra mais. — Ela zombou da minha cara, mas pelo visto eu merecia. — A foto do clube nunca foi publicada Stiles. No dia seguinte Boyd achou o cara e destruiu a câmera e todas as fotos tiradas por ele. Depois disso ele o levou para o Mestre Zane que tomou as providências com ele dentro da regulamentação do clube. Pelo que parece, ele foi punido severamente e banido de todo clube BDSM do estado.
— Como você sabe disso?
— Derek me contou pouco tempo atrás.
— E só agora você me conta? — Perguntei revoltado.
— Teria adiantado eu te contar antes?
— Não, eu acho que não.
— Alguém tem que ceder Stiles.
— Por que tem que ser eu? — Eu a olhei com uma carranca e ela me respondeu algo que eu nunca esperava.
— Por que não você?
Fiquei calado apenas esperando ela continuar, mas ela não o fez e depois de um longo tempo respondi com um sussurro:
— Eu sinto falta dele Ali.
— Eu sei, ele também sente muita a sua falta.
— Duvido. Ele parece melhor agora que a gente está separado. — Senti o gosto amargo do ciúme na minha boca.
“Para com isso rapaz! Ele não é nada seu para você ter direito de sentir ciúmes dele! Suas escolhas foram feitas, agora lide com as consequências!”, minha mente rosnou. Nos últimos dias, tinha desenvolvido o hábito de conversar comigo mesmo e deixar que minha voz interior acabasse comigo verbalmente.
— Ah sim, se você contar que para não correr o risco de correr atrás de você ele dobrou a hora na academia e está lutando mais, isso sem mencionar as horas no Castelo, sim ele ficou mais gostoso.
Nós rimos disso, mas eu ainda sentia um vazio no meu peito.
— Ele estava escutando essa música esses dias antes de dormir. -- ela sussurrou docemente.
— Qual música?
— Essa que você estava cantando e tocando. — Eu olhei para ela surpreso e ela continuou. — Esse tipo de ligação e sentimento a gente não deixa escapar assim não Stiles. A gente corre atrás e toma posse dele, porque algo assim tão raro e único nós preservamos independentemente da situação.
— Eu sei... ou vai ver ele apenas ligou o rádio em uma estação qualquer e a música começou a tocar. Você sabe... ela está sempre tocando. — Disse e voltei a tocar uma música no piano, dessa vez, I Know You – Skylar Grey. Allison meu deu um tapa na cabeça e depois rosnou.
— Vá atrás dele. Ele está louco por você e vai te receber. Se você não fizer o que eu, educadamente estou te pedindo, vou destruir seu castelo de caixa de pizza! — Ela disse, se aproximando da minha obra de arte e o observando como os vilões de desenho animado observam suas vítimas.
Eu continuei a tocar a música, relembrando nossos bons momentos. A primeira vez que eu toquei para ele, quando percebi que eu o amava e daria tudo para vê-lo sorrindo. Eu nunca havia colocado meu coração em jogo. Nunca havia deixado ninguém, nenhum outro entrar nele. “Baunilha ou Dom”. Derek foi o primeiro. Não o primeiro a ter meu corpo, mas o primeiro a ter meu coração. Me lembrei da primeira vez que nós saímos junto para tomar um café:
“— Eu posso não ser o primeiro a tomar o seu corpo, mas com certeza serei o primeiro e único a tomar posse do seu coração.” Ele tinha dito isso antes mesmo de ficar comigo e ele não poderia estar mais certo.
“Então por que você jogou tudo para o alto? Seu estúpido!”
E à medida que me aproximava do fim da música minha decisão só se fortalecia.
Eu estava prestes a terminar a música quando ouvi um barulho de várias latas caindo no chão e papelão sendo amassado, e mesmo sem olhar soube que Allison havia destruído meu “Castelinho da Depressão”.
— Sinto muito... — Ela pediu, sem realmente sentir, quando eu me levantei do piano e me aproximei dela.
— Obrigado. — Disse dando um abraço nela e a deixando completamente confusa.
Eu tinha um objetivo agora e eu iria atrás dele. Hoje era domingo ainda, mas amanhã era um novo dia. Um novo dia na empresa. Okay que eu tinha aceitado ir atrás do Derek, mas não queria dizer que eu tinha mudado por causa dele. O garoto nerd, com gostos estranhos e com uma língua sarcástica que ele se apaixonou antes continua o mesmo, só que agora eu tenho um nível a mais em experiência com relacionamentos.
Me preparando para sair Allison virou com um sorriso sacana no rosto e disse:
— Por mais que eu ache que Derek adore tomar banho com você, acho que é melhor você fazer isso primeiro. E tem que ser um baita banho viu.
Eu comecei a descer as escadas do sótão rindo quando escutei ela gritar lá de cima com um sorriso na voz.
— Lave bem detrás das orelhas! E tira essa barba! Seu Mendigo!
Depois de tomar um longo banho no domingo, literalmente longo, pois fiquei mais ou menos uma hora para poder completar todo o processo, incluindo retirar minha barba.
Saí do banho e recebi uma salva de palmas de Allison que ainda estava ali, provavelmente esperando que eu saísse do banho.
— Agora sim, parece o meu cunhadinho nerd, estranho que eu amo tanto! — Ela disse enquanto se aproximava de mim e me cheirava. — Tá cheirosinho, hein?!
— Scott, dá um jeito nessa sua namorada! — Rosnei, mas acabei rindo quando ela se pendurou em mim.
— Eu não... antes ela te atormentar do que ficar em cima de mim! — Ele disse rindo. Passamos o resto da noite juntos, eu fazendo cosplay de fogueira enquanto Scott e Allison fingiam ver o filme, mas que na verdade estavam se agarrando.
Naquela noite fui dormir com um pouquinho mais de esperança.
“Eu iria correr atrás do prejuízo. Eu iria ter Derek de volta!”
Na segunda, assim que entrei na empresa estava renovado. Era como se aquela pequena chama de esperança estivesse se transformado em uma enorme fogueira. Depois que soube que Derek havia chegado fui até o andar dele e parei na mesa de Érica.
—Érica, eu preciso de uma reunião com o Sr. Hale.
Ela me olhou de cima a baixo e depois sorriu.
— Vocês voltaram? — Ela sussurrou, quando uma pequena horda de loiras passou e todas me encararam.
— Não. E a senhorita pare de ser atrevida. Mas preciso que você agende uma reunião com ele. Ou vou fazer ele precisar realmente do departamento de T.I. — Disse com um sorriso afetado.
— Credo! Vocês dois jogam muito baixo, hein?! — Ela parecia chocada. — Ele está em reunião com alguns investidores por toda a manhã, mas assim que terminar aqui eu te aviso e peço para você subir.
Como todas as outras manhãs, permaneci fazendo reparos nos computadores da empresa, mas meu trabalho não estava tendo progresso por causa da conexão de internet do prédio que estava muito lenta.
Eu procurava pelo motivo da baixa conexão quando Érica entrou na minha sala.
— A internet está uma droga! — Érica reclamou comigo. — Pior do que sua cara. O que foi que você fez com nossa rede?
— Como você consegue fazer amigos? — Rosnei. — Me deixe em paz.
— Não fui eu quem ameaçou fazer o poderoso chefão precisar dos seus reparos! Fala o que você fez! Eu preciso da minha internet funcionando.
— Ironicamente eu não fiz nada. Devemos estar com algum problema no servidor. Agora faz o favor de me dizer o que a senhorita faz aqui embaixo? Ou veio aqui apenas demonstrar todo seu amor por mim?
— Tenho um recado do Chefe para você. — Ela cantarolou e balançou um papelzinho entre seus dedos. Ao ver minha cara de alegria ela soltou uma risada alta.
Abri o correio interno, mas quando li meu sorriso desfez.
“Senhor Stilinski, como você é nosso melhor funcionário da área de informática, eu preciso que você conserte a internet desse estabelecimento.”
— Não foi dessa vez. — Disse mais para mim mesmo do que para ela. Érica pegou o papel das minhas mãos e o leu.
— Derek terá mais duas reuniões ainda, então não dei o seu recado. Assim que ele cruzar minha mesa eu o aviso. Sala dos servidores fica no subsolo, aperte S no elevador e caminhe até a Área TI – S704. Eu te acompanho.
Saímos juntos da sala e ela me levou até a sala onde estava o sistema de conexão de todo o prédio. Era uma sala enorme e basicamente era o coração da empresa. Ali estava os controladores do ar condicionado de todo o prédio, cabos de conexão de todos os computadores e telefones e vários armários de arquivos.
Fui até o computador central e comecei a fazer os reparos técnicos. Depois de constatar que o problema não era de software, fui verificar todos os hardwares e percebi que um dos cabos de conexão havia sido cortado e isso sobrecarregava todo o sistema que estava funcionando com um cabo a menos. Ainda estava concentrado em descobrir como aqueles cabos haviam sido cortados quando senti uma forte pancada na cabeça e tudo escureceu.
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