Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)
98 Capítulo 98 - Além da consciência...
Notas iniciais
Rachel permanecia sentada observando Quinn. Era estranho saber que ela apenas dormia. Não havia qualquer razão fisiológica para aquilo estar acontecendo. Os sinais vitais de Quinn estavam normais, demonstrando apenas que ela se encontrava em um estado de sono profundo.
R: Eu sinceramente não sei qual a dificuldade de vocês em entender que eu não vou para nenhuma audição em Juilliard enquanto a Quinn não acordar.
A morena estava irritada. Ela queria ficar ali o tempo que fosse necessário até a Quinn acordar, mas as pessoas continuavam tentando convencê-la a sair um pouco...
H: Ela não vai gostar de saber que você não foi.
R: Papai... Nós sequer sabemos o que está havendo. O que ela tem? Você sabe? Você é médico, afinal... Porque eu não sei. Não faço a menor ideia! Eu não vou sair de perto dela. Nem sairia mesmo se soubesse o que está acontecendo...
H: É cedo pra dizer... Mas, na psiquiatria, conhecemos um estado de inconsciência profunda que talvez tenha a ver com o que a Quinn está passando. Os exames não indicam qualquer problema. Aparentemente ela está apenas dormindo profundamente.
Rachel ergueu os punhos e mostrou ao pai as marcas feitas por Quinn inconscientemente:
R: As unhas dela são curtas. E mesmo assim ela me machucou. Eu tentei acordá-la e ela me segurou com tanta força que machucou minha pele. [disse angustiada] Ela não está apenas dormindo profundamente, papai...
A morena se levantou e se aproximou mais da namorada, acariciando a testa:
R: Ela está sofrendo. Ela está tendo um pesadelo e eu sei que tem a ver comigo... Eu sinto isso...
H: Talvez ela só esteja apagada...
R: Eu sei que não está... Eu senti o desespero dela... [respirou fundo] Ouvi o grito estridente, o copo estourando, a calma momentânea quando a segurei...
Rachel voltou a olhar para o pai e ele pôde sentir o coração se despedaçar ao ver o olhar arrasado da filha:
R: Sabe o que é frustrante? Já estivemos nessa situação, com ela hospitalizada e vocês tentando me convencer de que eu tinha que fazer algo lá fora. E eu tendo que convencer a vocês que nada mais me importa. Que ela é mais importante do que tudo pra mim... Mas antes, a culpa disso era de outra pessoa. Ela estava indefesa no meio de dois malucos com armas. Só que agora ela estava comigo... [começou a chorar] Só comigo. Na nossa cama, ao meu lado. E ela deveria estar protegida. Ela deveria se sentir protegida. Ela estava dormindo ao meu lado e mesmo assim ela sofria. Ela teve pesadelos várias vezes nos últimos dias e eu disse que eram “apenas” pesadelos. Eu diminuí a importância daquilo, mas eu não podia imaginar que isso poderia ser mais forte do que ela...
H: Você está se precipitando, filha... Só saberemos ao certo o que houve quando ela acordar.
R: E quando isso vai acontecer? Quando ela vai acordar? Me diz!
Rachel exigia uma resposta. Ela exigia entender. Era surreal demais estar ali no hospital novamente. Surreal demais ver Quinn inconsciente sem saber ao certo a razão.
R: Esse tal estado de inconsciência tem nome? Tem tratamento? O que eu posso fazer para acordá-la? [começava a se irritar]
H: Eu não posso precipitar um diagnóstico psiquiátrico, minha filha. Eu sequer sou o médico dela.
R: Então seja! Seja um sogro, um amigo, um pai. Seja qualquer coisa, mas a ajude. Me ajude, papai! [voltava a chorar] Me ajude a entender. Me ajude a acordá-la... Eu sei que a mente dela está em algum lugar fora daqui e eu sei que ela está sofrendo...
Enquanto Rachel tentava encontrar uma resposta, Quinn permanecia mergulhada nas profundezas da própria mente. Ela ainda estava no mesmo cenário. Estava no chão, agarrada ao corpo do amor de sua vida. Ela ainda prendia a morena em seus braços e cantarolava para ela... Ela ainda sentia o cheiro forte de sangue. Ela ainda via Russel também morto no outro canto da sala...
Todos tinham ido embora do hospital, exceto Judy, Frannie, Hiram e Rachel. A morena não sairia dali por nada no mundo, nem trocaria de lugar com ninguém. Mais uma vez ela reclamava seu lugar ao lado de Quinn e ninguém seria capaz de impedi-la...
Ela sentou à beira da cama e colocou a mão de Quinn entre as dela, acariciando...
R: Eu pensei que nunca mais estaríamos numa situação como essa... E me pergunto quando vamos finalmente ter alguma paz...
A voz era triste e acompanhada por algumas lágrimas que deslizavam quase silenciosas...
R: Por que nem comigo você consegue se sentir segura?
Ninguém poderia entender o que Rachel sentia naquele momento. Ninguém estava lá quando tudo aconteceu. E ninguém conhecia a loira como ela. Rachel estava com Quinn todas as vezes em que ela teve pesadelos. Ela sabia como ela acordava, ela sabia como ela reagia. Ela sabia... Mas daquela vez ela não acordou. Tudo foi igual ao mesmo tempo em que foi diferente. O grito, as unhas curtas cravadas em sua pele... Como se pedisse ajuda... Como se não quisesse largá-la nunca mais... E diante disso tudo era mais doloroso ainda pensar que nas profundezas onde a mente de Quinn estava, ela estava também. Ela sabia que tinha a ver com ela. E se sentia culpada por isso...
R: Eu deveria ser seu porto seguro, como você é o meu. Mas eu me tornei sua ruína, não é mesmo?!
Um sorriso triste se apossou dos lábios carnudos... Talvez o sorriso mais triste que ela já deu na vida...
R: Se fizermos uma retrospectiva de tudo o que aconteceu a nós duas desde que começamos a namorar, a balança do sofrimento vai pender para o seu lado. E eu sou o peso que a faz balançar... Eu sei que estou na sua mente agora. Eu sei que onde quer que você esteja, tem a ver comigo. Acordada ou dormindo, sua vida está sendo regida por mim e não de uma forma boa... Mas tudo o que eu queria era te fazer feliz. Feliz como você me faz...
O choro veio forte. Rachel se sentia sozinha como há muito tempo não havia se sentido... Aquela consciência de que ela era o ponto principal de todos os problemas na vida de Quinn estava doendo... Doía muito...
R: Eu só queria te fazer feliz...
As horas seguiam e Quinn continuava monitorada. Nada mudava. A saúde estava ótima. Não havia nenhuma evidência clínica que justificasse aquele estado. Rachel continuava a seu lado. Apenas ela...
Hiram foi para casa e levou Judy e Frannie com ele. Pegou alguns livros e se debruçou sobre eles. Precisava estudar o caso de Quinn. Ele precisava encontrar alguma resposta que pudesse ajudar. Não podia ser leviano e dar à Rachel respostas só porque ela as exigia. Ele precisava ter a resposta certa. Ele precisava encontrar o caminho para fazer Quinn despertar...
Um movimento estranho fez Quinn abrir os olhos. Não na realidade, mas em seu sonho. Naquele universo paralelo onde ela mantinha uma Rachel morta em seus braços... Os olhos verdes se depararam com Russel sentado, observando-a com um sorriso cínico. Ele tinha um buraco na têmpora e sangue escorrido por toda a extensão do rosto...
Russel: Este terno foi muito caro... Eu deveria ter pensado nisso antes de atirar em mim mesmo... Agora ele está todo manchado de sangue...
A loira fechou os olhos tentando ignorar aquela figura asquerosa ao lado dela...
Russel: Não adianta fingir que eu não estou aqui. Porque eu estou. Eu sempre estarei... Aonde quer que você vá, eu estarei com você... Porque eu estou em você. Porque você é igual a mim...
Quinn apertou Rachel ainda mais a seu corpo. Com toda força que ela tinha.
Russel: Ela é só um pedaço de carne agora... Você vai ter que soltá-la. Vai ter que deixá-la pra trás... Ela é um estorvo... Uma pedra no seu caminho...
Quinn a apertava mais. Mais... Mais... Até Russel começar a gargalhar ao lado dela...
Fora de sua mente, no hospital, o corpo de Quinn continuava inerte, mas seu rosto estava banhado em lágrimas. Rachel havia cochilado na cadeira, com a cabeça encostada na mão de Quinn. Despertou ao ouvir algo. Ela ergueu a cabeça e se assustou ao ver que a loira estava chorando. Levantou-se bruscamente:
R: Quinn? Meu amor, fala comigo! Quinn?
Quinn chorava no pesadelo. Quinn chorava na realidade. Rachel tentava despertá-la. Aproximou o rosto do dela e passou a chamá-la mais alto. Mas ela não acordava. E chorava cada vez mais.
Rachel apertou a campainha do quarto, chamando alguém... Ela começava a se desesperar quando sentiu as mãos de Quinn agarrando seu braço.
Q: Não me deixa! Não me deixa, Rach! Não me deixa!
Os olhos de Rachel se arregalaram. Quinn estava falando. Ela estava falando... Ela falou com ela. A morena sentia as unhas curtas cravarem em sua pele de novo. Então ela entendeu: Quinn não estava acordada. Ela continuava presa no pesadelo.
Rachel tentou encará-la, mas os olhos verdes permaneciam fechados.
Q: Não me deixa, Rach... Pelo amor de Deus! Volta! Volta pra mim!
Então a morena soube que tinha razão. Onde quer que a mente de Quinn estivesse, ela estava lá também. Ela era o amor da loira. E talvez a maior dor da vida dela...
O silêncio tinha voltado ao quarto. Quinn tinha sido examinada. Nem a luz da lanterna direcionada a seus olhos a fez despertar. Rachel estava acuada no canto, sem entender... Sem saber o que fazer... E no meio daquele silencioso caos, uma lembrança lhe veio para lhe acalmar:
[FLASHBACK ON]
Quinn estava deitada de bruços com um sorriso suave no rosto. Era fim de tarde e o sol se preparava para se pôr. Rachel beijava suas costas, deslizando as mãos por todas as partes que alcançava do macio corpo nu sob ela... Tinham feito amor. Tinham aproveitado a tarde inteira para se amar sem pressa...
Os lábios da morena chegaram ao ouvido da loira e lá ela sussurrou:
R: Por que você é tão gostosa?
Quinn não se preocupou em responder. Ela se moveu rapidamente, pegando Rachel de surpresa e se colocou sobre ela, encarando-a de forma completamente apaixonada. Ela ficou alguns segundos apenas observando o rosto que tanto amava, enquanto a morena sorria para ela.
Q: Eu te amo tanto! [disse intensamente] Tanto!
Rachel corou. Apesar de toda a intimidade que elas já dividiam por tanto tempo, ela ainda era capaz de corar diante da intensidade com a qual Quinn se declarava para ela. De repente...
R: Eu te amo mais!
Quinn sorriu de lado enquanto negava com cabeça:
Q: Ninguém no mundo ama alguém mais do que eu amo você. E isso te inclui.
R: Seu argumento é injusto! [protestou]
Q: É a mais pura verdade.
R: Não importa! Se você quiser me comer de novo, vai ter que aceitar o fato de que eu te amo mais.
Q: Eu mais.
R: Eu mais.
Q: Eu mais...
Elas sorriam. Elas brigavam para amar mais. Elas discutiam por amar demais...
[FLASHBACK OFF]
Rachel saiu do cantinho onde estava e foi até Quinn. Demorou alguns segundos para decidir se era a melhor coisa a fazer. Então ela fez... Retirou os sapatos e subiu na cama. Segurou o braço esquerdo da namorada e se colocou sobre ele, de modo que fez a loira a abraçar mesmo inconsciente. Deitou a cabeça no ombro dela e pôs o braço sobre o seu abdômen, aspirando o cheiro que tanto amava, sentindo-se um pouco mais relaxada por estar no lugar que considerava seu lar: o corpo de Quinn...
R: Eu mais... Eu te amo muito mais... [murmurou]
Na mente de Quinn as coisas tinham mudado. Russel não estava mais sentado ao seu lado. O cenário estava um pouco diferente. Ela continuava deitada, com Rachel em seus braços, mas Shelby não estava mais lá. Nem Noah. Era como se eles sequer tivessem passado por ali. Não havia mais sangue no chão. Só sobre ela e Rachel. Russel ainda tinha um buraco na têmpora e segurava a arma novamente. Ele a estava engatilhando de novo:
Russel: Sabe de uma coisa, Quinnie? Nem tudo é o que parece... E você precisa ser muito atenta para perceber o verdadeiro significado das coisas... Isso aqui, por exemplo, parece o fim de tudo, não é?! [sorriu para ela] Engana-se... Isso aqui, isso tudo aqui... Isso é só o começo...
Um novo tiro. Definitivo. Na cabeça de Russel. Disparado por ele mesmo. E ele caiu. De vez. E Quinn apertou Rachel em seus braços novamente. Com força. Com muita força. Em seu pesadelo.
Em sua realidade...
Um aperto forte, muito forte, fez Rachel despertar. Ela havia cochilado nos braços de Quinn, sem perceber. Um abraço muito forte a fez entender o que estava acontecendo. Ela se moveu depressa e olhou para o rosto de Quinn. Abertos. Os olhos verdes estavam abertos. Apavorados. Encarando o teto do quarto do hospital.
R: Amor? Quinn?
A loira virou o rosto para ela e seu olhar ficou ainda mais assustado. Era real? Rachel estava viva? Onde ela estava? Que lugar era aquele? Onde estava Russel? Onde estava todo aquele sangue?
Judy acordou com o telefone tocando. Ela não conhecia o número. Mas deveria ser importante para ligar aquela hora. Ela atendeu. Levou a mão livre à boca ao ouvir o que era dito do outro lado da linha: Russel Fabray estava morto. Ele havia se enforcado na cadeia na noite anterior e ficado em coma durante algumas horas até falecer... Tudo aconteceu no mesmo intervalo de horas em que Quinn virou refém de sua mente adormecida...
Judy ainda não sabia que a filha havia despertado...
Rachel tentava manter a calma enquanto esperava Quinn dizer alguma coisa. A loira se sentou bruscamente e levou as mãos ao rosto da morena, olhando-a como se não acreditasse que era real. Ela não sabia se estava ali de verdade. Mas de uma coisa ela sabia, mesmo sem realmente saber: Russel não existia mais...
E talvez aquele fim representasse mesmo um começo. Um novo começo. Talvez... Mas ainda havia muito a se entender que ia além do simples despertar. Ia além da consciência sobre tudo. Ia além do olhar assustado de uma Quinn que não acreditava no que via.
Rachel fez o que sempre fazia para levá-la de volta ao eixo: levou as duas mãos ao rosto dela e a encarou:
R: Eu estou aqui, meu amor! [disse carinhosa] Está tudo bem! Você está bem. Você está aqui comigo!
Os olhos da morena estavam banhados em lágrimas de alívio, de felicidade... Quinn parecia um bicho acuado, assustada, ainda sem entender o que estava se passando. Ela fechou os olhos e levou as próprias mãos até as mãos de Rachel, sentindo a pele quente e macia que sempre a acalmava. E a calma parecia voltar. Aos poucos, bem devagar...
Q: Você não se foi... [murmurou aliviada] Você não se foi... Você está comigo... Você está comigo... Você está comigo...
A força com a qual ela segurava as mãos de Rachel fez a morena ter mais certeza de que ela era a personagem principal do pesadelo que se acabou...
R: Sempre, meu amor... [moveu-se rapidamente para abraçá-la] Eu sempre estarei com você...
[CONTINUA...]
Fale com o autor