Você De Novo?
10 Deixe a Chama Arder
Notas iniciais
Eu recebi 15 comentários no total, muito obrigada para todos esses leitores e aqui vai esse capítulo para vocês! Espero que gostem! E a votação deu como 5x1 votos para que eu postasse as fotos, então aqui vai! Quem não quiser ver, é só passar a última parte sem olhar! hahahaha!
Espero que os leitores continuem postando e que gostem desse capítulo, eu francamente amei escrever.
Boa leitura!
Moradia No Purgatório – Dia 15
Já havia se passado uma semana desde o meu beijo com Nicholas, e uma semana em que minha vida, pareceu quase boa. Eu nem acreditava no ritmo em que as coisas estavam caminhando, era como se pela primeira vez na vida a sorte estivesse ao meu lado. Meu pai, Jessica e eu estávamos conversando normalmente. A mulher me chamou para acompanha-la no mercado e com dó, eu me senti simplesmente incapaz de dizer não. Isso deu alguns pontos com meu pai que ficou bem encantado quando voltamos e que olhou para a gente, como se fossemos a melhor coisa do mundo, e que me fez pelo menos uma vez, me sentir bem como Nicholas deveria se sentir o tempo todo. Nicholas foi outro ponto alto também. Nós conseguimos conversar e até mesmo dar algumas risadinhas juntas sem brigar o tempo todo! Tudo bem que uma vez ou outra nós discutimos por, por exemplo ele aparecer em meu quarto sem avisar e pegar minha caneta e depois não devolver. Coisas bobas e normais... Eu só ainda não suportava que tocassem em minhas coisas.
Christian, Felly e eu estávamos saindo o tempo todo. Christian estava contando como havia chegado um rapaz novo no bairro e como ele era uma gracinha. Realizada, Felly contou que ele jogava para o mesmo time que o ruivo, e que provavelmente perderíamos nosso amigo por um namorado. Puto Christian protestou dizendo que nunca, mas nunca no mundo abandonaria as duas coisinhas feias que ele mais amava. Eu andei falando com Callie também que estava mais ansiosa do que nunca para vir me visitar. Disse que no feriado que teria no mês seguinte era viria para Washington e que iríamos para várias festas e ficaríamos juntas o tempo todo. Eu estava morrendo de saudades da loira e já havia falado com meu pai, que por conta do meu bom comportamento da semana, deixou sem problemas minha amiga ficar em casa quando viesse. Acho que agora eu entendia o que Nicholas havia me dito. Era muito mais fácil quando papai confiava na gente, mas ao contrário do meu irmão, ser boa o tempo todo para mim era extremamente cansativo.
Já era meu décimo quinto dia em Washington e eu não estava fazendo o que minha psicóloga havia me pedido. Ela havia dito para eu cortar meu remédio durante uma semana, mas logo na primeira noite quando senti medo de não conseguir dormi, desobedeci, os tomando e não desapegando das pílulas que me acompanham desde pequena. Ela teria que me perdoar uma hora ou outra por isso. O dia estava claro lá fora e muito ensolarado. Era uma sexta-feira e eu tinha absolutamente nada para fazer. Felly ia sair com a família para um almoço na casa da avó em outra cidade e Chris havia conseguido finalmente um primeiro encontro com o garoto novo, Troy. Ou seja, eu estava sozinha e abandonada... Se é possível estar os dois ao mesmo tempo.
Havia planejado passar o dia inteiro deitada em minha cama com meu pijama de cupcakes vendo uma maratona inacabável de filmes do Johnny Depp, quando ouvi as duas batidinhas na porta e uma fresta se abrir em minha porta, quando permiti a entrada de seja quem for que estivesse do lado de fora. Um dos olhos azuis de Nicholas apareceu, hesitantes em entrar, como se certificassem de se eu estava descente. Revirei os olhos.
-Pode abrir, imbecil. Se eu falei que pode, eu obviamente não estou pelada.
-Não pensei que estivesse pelada. –Nicholas deu de ombros enquanto abria dessa vez direito, a porta. –Eu só tenho medo do que você esconde nesse quarto. Tipo isso... –Apontou para meus filmes do Johnny sobre a cama. –Sabe que é doentio, certo?
-O que você quer?
Revirei os olhos enquanto abria um leve sorriso, ganhando a atenção do garoto. Adentrou meu quarto calmamente enquanto olhava para um porta retrato meu e de Callie sobre a cômoda.
-O pai e a mãe. Eles querem fazer um programa de família hoje.
-Jura?
Perguntei desanimada. Nicholas ergueu uma sobrancelha olhando para mim, meu pijama de bolinhos e para a televisão. Cruzou os braços.
-E você por acaso tem algo melhor pra fazer?
-Golpe baixo. –Fiz biquinho. –Vou me trocar, encontro vocês lá em baixo.
-Coloque um biquíni por debaixo das roupas.
-Por quê?
Franzi a testa confusa. Nicholas deu de ombros.
-Sei lá. Ordens do pai. Sou só o pombo correio.
-Obrigada, Edwiges.
-Nesse caso, coruja.
Piscou antes de se retirar do quarto e me dar privacidade para me trocar. Soltei uma risadinha, enquanto caminhei em direção ao closet e olhava bem que roupa que eu poderia colocar para aquele dia. Optei por um short jeans que eu tinha, com uma camisetinha rosa de renda e um biquíni listrado de cores diferentes na parte de cima, que eu adorava combinar com a cor roxa na parte de baixo. Me troquei rapidamente, enquanto colocava meus chinelos de dedo favorito e desci as escadas correndo, com uma animação repentina inexplicável de poder sair de casa. Acho que algo como sair para nadar em um dia quente, sempre me animou muito. Eu só não imaginava para onde poderíamos ir, porque até onde eu sabia, em Washington não havia praia.
-Bom dia filha.
-Bom dia pai.
Cumprimentei lhe dando um beijo na bochecha. Papai sorriu enquanto eu me sentava ao seu lado da mesa e enchia meu copo com um pouco de suco de laranja. Olhei com água na boca as torradas com geleia no centro da mesa.
-Olha só quem acordou. –Sorriu Jessica para Nicholas, que aparecia pela porta, caminhando até a mesa, se sentando com nós. –Bom dia filho, bom dia Sid.
-Bom dia Jessica.
-Bom dia mãe.
Falamos em uníssono. Nicholas colocou o dobro de torradas que eu havia pego em seu prato e com a boca boa, devorou-as. Olhei boquiaberta a cena ainda sem conseguir entender onde toda aquela comida ia parar. Era incrível.
-Jessica teve uma ideia brilhante hoje. –Papai anunciou com um sorriso. –Queremos levar vocês para um lugar... Mas é um pouco longe. Estão dispostos a andar de carro?
-Ué... Pode ser. –Nicholas falou animado. Abri a boca para falar, mas Nicholas me interrompeu ao continuar. –E Sidney não tem nada melhor para fazer, então...
-Obrigada, porta voz.
Resmunguei o olhando torto enquanto Jessica e meu pai davam risada. Papai alisou meus cabelos, assentindo satisfeito.
-Ótimo. Garanto que não vão se arrepender.
***
-Puta que pariu!
-Olha a boca.
Repreendi boquiaberta o comentário de Nicholas, na medida em que o carro se aproximava do nosso destino. Eu não podia acreditar. Como um lugar daqueles poderia estar a só duas horas da casa e eu nunca sequer ouvi falar dele? Estávamos diante de um enorme lago, e quando eu digo enorme, eu quero dizer muito grande. Em volta do lago havia árvores altas, que abriam espaço para uma mata que abria a enorme clareira, cercando de um pouco de areia a água cristalina que estava movimentada por crianças e famílias que nadavam, brincavam e faziam piqueniques pela área. Meus olhos brilhavam. Eu nunca havia ido a um lago antes... E aquele era mais do que maravilhoso.
Eu mal esperei o carro parar antes de saltar dele como uma criança, e me surpreendi mais ainda, quando vi que Nicholas estava logo atrás de mim. O sorriso em seu rosto era maravilhoso e assim que se aproximou do lago, parou de correr, apenas observando o local, maravilhado, como se fosse uma coisa que lhe trazia milhões de memórias. Papai e Jessica chegaram logo em seguida, achando graça da nossa reação. Nicholas olhou para eles e depois para mim. Franzi a testa, olhando confusa para eles.
-Não acredito que voltamos aqui depois de tanto tempo...
-Queríamos trazer Sidney para conhecer. –O pai deu de ombros, apoiando a mão em meu ombro. –Pensei que fosse gostar.
-O lugar é maravilhoso, pai!
Exclamei animadíssima, fazendo-o dar uma risadinha. Jessica olhou-me com o mesmo sorriso no rosto.
-Tem que ver como é o sol daqui. Não é como o de Washington que não queima. Até da para pegar uma corzinha.
-Jura?
Perguntei quase emocionada. Como eu sentia saudades de um sol que esquentasse realmente! Jessica assentiu dando uma risadinha.
-Wow! –Nicholas exclamou apontando para um ponto do outro lado do rio. –A casinha ainda existe?
-Não sei. –Papai admitiu, coçando a cabeça. –Por que não vai lá para dar uma olhada depois?
-E dar uma volta no rio? Acho que alguém vai ter que me alugar um jet ski.
-Acho que me lembrei agora porque paramos de trazer você aqui, filho.
Riu Jessica, fazendo papai sorrir também.
-Depois de velho essa criança só piora.
Brincou fazendo-me abrir um sorriso. Nicholas deu de ombros.
-O quadriciclo é metade do preço.
-Fechado.
-Leve Sidney com você.
Papai pediu, fazendo Nicholas fazer uma leve caretinha quase imperceptível... Mas eu percebi. Assentiu enquanto me olhava em silêncio, perguntando se eu realmente queria ir. Fiz uma careta, balançando a cabeça em negativo para meu pai.
-Eu gosto de aventuras e tudo mais, mas acho que prefiro pegar o meu solzinho.
-Ah, vá lá querida. –Sorriu Jessica, simpática. –Teremos tempo para pegar o sol. Vá dar uma voltinha com o seu irmão.
Abri um sorriso amarelo com o que ouvi e soltei um suspiro.
-Ok.
Era tão estranho ouvir alguém chamando Nicholas em voz alta de meu “irmão”. Era como se ele não fosse, mesmo sabendo no fundo que partilhávamos de metade do mesmo sangue. Acho que eu ainda tinha nojo de mim por ter o beijado duas vezes e pior, por ainda não ter tirado aquelas cenas da minha cabeça. Era nojento, mas é claro que eu ainda tinha uma pontada de sentimento por ele... E eu me odiava por pensar aquilo. Eu tinha até mesmo vergonha de olhar para a mãe dele e meu pai.
-Tudo bem... Pai.
Nicholas sorriu, erguendo a mão para papai, com aquela expressão danada. Papai suspirou com um sorriso enquanto se inclinava para pegar a carteira no bolso traseiro.
-Ah esses filhos que me quebram.
E tirando uma nota de cem dólares, entregou nas mãos de Nicholas. Arregalei os olhos pela quantidade de dinheiro.
-Valeu pai!
-E é para durar o dia todo. Para você e Sidney.
-OK.
Sorriu Nicholas animado enquanto com um gesto pedia para que eu o seguisse. Caminhamos até um quiosque onde havia um rapaz, bronzeado e em seus vinte e oito anos, que nos abriu um sorriso assim que nos viu chegando perto. Tirou os óculos escuros, me dando uma olhadinha especial... E em seguida se voltou para Nicholas.
-Olá.
-E aí cara. –Nicholas cumprimentou olhando os quadriciclos que estavam estacionados ali. Todos pareciam grandes e rápidos demais para o meu gosto. –O que tem de mais rápido aí pra chegar do outro lado do rio com duas pessoas?
-Hm... Um passeio de casal, interessante. Não é toda mulher que topa isso.
Sorriu para mim mais uma vez, fazendo-me corar. Nicholas olhou para mim e depois para o rapaz, tirando seus óculos escuros e estreitando os olhos azuis. Abriu um sorriso frio.
-O quadriciclo, amigo.
-Ah sim. –Sorriu o rapaz, sedutoramente. –Eu acho que você vai ficar satisfeito com esse...
Falou certo apontando para um amarelo que estava parado na ponta da fileira. Nicholas assentiu, entregando para ele a nota de cem dólares e recebendo o troco, guardando em seu bolso logo em seguida. Abriu um sorriso para mim enquanto pegava a chave que o rapaz bronzeado jogou para ele. Agradeceu enquanto subia no veículo ajudando-me a fazer o mesmo. Abracei sua cintura antes mesmo de o quadriciclo entrar em movimento, mas assim que fez, agradeci por ter sido mais rápida, pois se não fosse pelo corpo de Nicholas, o quadriciclo teria ido e eu teria ficado, com minha linda bunda no chão.
Eu não posso negar ou dizer que a sensação foi ruim. O vento frio alisava meus cabelos e era até que uma boa adrenalina sentir o veículo correndo conosco pela pequena trilha de barro ao lado do rio, pulando com alguns desníveis e fazendo-me apertar ainda mais forte o corpo de Nicholas que eu usava como suporte. Ele estava quente e eu sentia seus músculos por debaixo da flanela da camisa polo. Sim, ele ainda estava com a polo, o que me fazia querer dar risada e morrer ao mesmo tempo. Eu havia feito aquilo nele. E eu me sentia enjoada só de lembrar. Eu não sabia exatamente onde nós estávamos indo, só sabia que estávamos. O passeio era delicioso e o lago parecia brilhar mais ainda agora com o sol de meio dia. Eu via casais juntos na água e crianças brincando na areia. Haviam algumas famílias dando risada e a energia que esvaia do lugar era simplesmente muito boa. Depois de um tempo correndo pela trilha e observando como os cabelos lisos de Nicholas que voavam seriam de se dar inveja, se não fossem assombrosamente exatamente como os meus, o quadriciclo parou, exatamente do lado oposto onde Jessica e meu pai estavam, e com o diâmetro do rio, tornando impossível ver qualquer pessoa que estava lá, por terem o tamanho de formigas nanicas. Nicholas foi o primeiro a descer. Eu fiquei por um tempo olhando em volta, tentando ver onde estávamos e porque havíamos ido parar ali... E não posso mentir, não demorou muito para eu perceber.
Haviam algumas árvores altas espalhadas pela área, todas elas super bem cuidadas, cercadas de uma grama aparada verdinha, e com seus topos enfeitados por casinhas na árvore, cada uma de uma cor diferente que deixava o lugar ainda mais lindo. Haviam casinhas tanto no topo das árvores, como no chão, pequenos chalés de madeira. Nicholas franziu a testa enquanto parecia procurar por alguma coisa, e quando achou, o sorriso em seu rosto foi indescritível.
-Vem.
Falou, provavelmente involuntariamente me puxando pela mão, enquanto atravessava o campo e caminhava em direção a um pequeno chalé que ficava exatamente na beira do lago. Se abaixando, tateou o tapete de “Bem-Vindo” que havia na frente da porta, e o levantando, puxou um pedaço do piso que estava solto, tirando de lá de dentro uma pequena chave, que adivinhei ser do chalé que provavelmente pertencia a ele. Me dava inveja saber que Nicholas frequentava aquele lugar quando mais novo, e eu sequer conhecia um lago. Mas eu não podia reclamar. Agora eu conhecia, e não estava arrependida de sair para fazer esse programa de família.
Empurrando a porta de madeira, o garoto de cabelos negros conseguiu fazer a porta se abrir, e tateando algum espaço sobre sua cabeça, puxou uma cordinha que acendeu todas as três lâmpadas fracas da construção de madeira. Um sorriso satisfeito se abriu em seu rosto.
-Ainda funciona.
-Onde estamos?
Perguntei curiosa, só então ganhando a atenção de Nicholas que pareceu se lembrar apenas naquele momento que eu estava ali. Abriu um sorrisinho enquanto adentrava a construção.
-O pai e eu construímos isso quando eu era pequeno. É impressionante ver que está tudo aqui ainda.
Meus olhos voaram impressionados pelo local. Nicholas e meu pai haviam construído aquilo? Meu pai parecia ser mais atencioso do que eu imaginava... O pequeno chalé não era grandes coisas, para falar a verdade. Tinha a porta de entrada por onde havíamos passado, na minha frente havia uma pequena mesa, onde várias caixas de jogos já empoeiradas estavam empilhadas, e ao longe uma escada de madeira que levava a um segundo andar, que nada mais era do que uma varanda interna, onde havia provavelmente o chão coberto por alguns colchonetes.
-É incrível ver que está tudo aqui. –Repetiu, encantado. –Você tinha que ver. Quando eu era mais novo aqui era o meu quartel general. Eu vivia a maior parte do tempo nesse chalé. Era tão maior antigamente.
-Você cresceu.
Dei de ombros falando o obvio. Nicholas assentiu com um sorriso enquanto caminhava em direção a escada de pau. Pisou no primeiro degrau.
-Será que isso ainda me aguenta.
-Rezaremos para que sim.
Falei observando bem a madeira, duvidando um pouco que fosse capaz de suportar o peso de Nicholas... Mas suportou. Logo o garoto estava sentado na varandinha interna, sobre os colchonetes que ali estavam. Me abriu um sorriso grandioso.
-Sou um engenheiro. Fala sério.
-Certo.
Revirei os olhos com um sorrisinho, enquanto o via descer. O brilho nos olhos de Nicholas eram quase emocionantes. Parecia uma criança diante do seu melhor brinquedo.
-Eu adorei o lugar... Devia ser realmente ótimo quando você era menor.
-Ainda é. –Deu de ombros. –Eu sempre tinha alguma coisa para fazer, sempre brincando, nenhuma preocupação ou abobrinha na cabeça em relação a nada... Sem me preocupar com garotas.
-Ah sim, as garotas. –Abri um sorriso. –Sempre um problema.
-Eu precisava falar com você, aliás.
Falou agora sério, fazendo-me congelar de uma só vez. Merda. Eu não poderia simplesmente sair correndo, poderia? Estávamos indo tão bem... Mas para ser sincera, eu sabia que aquele momento ia chegar, e estava na hora de Nicholas e eu conversarmos sobre que merda estava acontecendo com ambos.
-O que precisava falar?
Perguntei me fazendo de boba. Nicholas me encarou com uma expressão não muito legal, mas não perdeu tempo me insultando pela reação. Apenas soltou um suspiro e levou a mão até a nuca, como eu sabia que ele fazia quando ficava nervoso. Abaixou a gola da blusa mostrando a marca roxa que estava em seu pescoço. Arregalei os olhos ao ver como havia ficado forte. Isso porque já havia mais de uma semana desde que eu havia lhe dado o chupão... Imagino como teria ficado nos primeiros dias.
-Pelo jeito o seu problema é o mesmo que o meu.
-Nós somos irmãos.
Disparei. Nicholas bufou praticamente, se apoiando contra a parede e cobrindo o rosto com as mãos. Voltou a me observar.
-Você acha que eu não sei? Eu tenho nojo de mim mesmo por ter feito o que eu fiz... Duas vezes. É que eu... Eu não sei. É como se eu pudesse de agarrar a qualquer momento...E fazer o mais completo sentido.
Prendi a respiração observando-o cuidadosamente. Merda. Eu não poderia xinga-lo ou dizer que ele era doente, porque eu sentia exatamente a mesma coisa. Quando nós estávamos nos beijando, tudo parecia natural, maravilhoso, delicioso. Mas quando os olhos se abriam e a razão voltava, o horror caía sobre os dois. Por isso, ignorância no fim das contas é uma benção, e os burros são felizes.
-Eu... Quando eu te beijei pela primeira vez... –Continuou diante do meu silêncio. –Era como se fosse uma coisa normal, como se você fosse aquela menina de quem eu gostei desde a primeira série e que eu havia achado só então uma oportunidade de te beijar... E eu não podia perder ela. Faz sentido? Quando você me chama de monstro, fala que eu sou nojento, eu entendo perfeitamente. Eu sou, eu sei disso, mas... Mesmo sabendo eu continuo fazendo. E continuo pensando em você. E continuo querendo você. Eu não consigo ser seu irmão, eu não me sinto seu irmão. Eu tenho vontade de socar o filho da puta do quadriciclo que deu em cima de você, porque eu quero você pra mim. Mas o pai, a mãe, qualquer pessoa que um dia sequer sonhar com isso vai ter um ataque. É quase não humano o que eu estou dizendo, eu tenho certeza que eu tenho muitos parafusos soltos na minha cabeça e eu acho que se você me disser mais uma vez que eu sou perfeito, eu vou ter que te matar. Eu sou a pessoa mais suja que você já conheceu em toda a sua vida, Sidney. É só ouvir o que eu estou falando. O que eu penso em relação a você... O que eu quero com você.
Meu queixo caiu. Minha cabeça absorvia cada palavra que saía da boca de Nicholas, e cada coisa que ele dizia, fazia o meu coração acelerar. Por que a porra do meu coração estava acelerando? Eu não deveria estar morrendo de nojo naquele momento? Eu não estava. Parte de mim queria ouvir o que Nicholas estava dizendo e estava gostando. Eu estava completamente congelada, sentindo o conflito que estava dentro de mim, da minha consciência com a minha romântica incorrigível interior. Era tipo um amor proibido, tipo um cara inalcançável e que eu talvez conseguiria alcançar. Era nojento, mas era lindo. Eu estava entrando em um coma mental, eu não conseguia pensar. Os olhos de Nicholas estavam em tom quase piedosos para mim e meu silêncio parecia mata-lo... Mas eu não conseguia dizer nada. Qual era o meu problema?! Acho que eu deveria estar internada, não a minha mãe. Aquilo era coisa de louco! Sentimento de louco! Eu estava com vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. Eu tinha enlouquecido. Pronto.
-Fala alguma coisa?
Nicholas pediu em tom quase lamentável, enquanto aproximava alguns passos em minha direção. Eu abri a boca, mas nenhum som saiu. Eu estava com o coração a mil, a mente a mil, mas estava com o corpo em menos dez. Eu não sabia o que fazer, eu estava perdida, eu estava... Eu estava fodida com a vida. Era uma tragédia.
-Isso é muito errado.
Foi o que saiu da minha boca, assim que minhas mãos involuntariamente pousaram-se na nuca do garoto e com todas as minhas forças, puxei-o para perto de mim. O beijo que lhe dei foi calmo e delicioso, diferente de todos os outros que já tivemos. Nossas línguas ainda brigavam uma com a outra firmemente, mas dessa vez as respirações eram lentas e menos ofegantes, enquanto Nicholas segurava firme minha cintura com uma das mãos e a outra se arrastava por algum lugar de minhas costas. Eu segurava firme seus cabelos e o puxava para mais perto. O contato era incrível, e fazia todo o sentido. Eu sabia que quando nos separássemos do beijo tudo ia ser nojento e eu ia sentir o enjoo de novo, mas eu não queria pensar nisso. Não sei quanto tempo se passou, mas quando nossos lábios se separaram, minha boca estava em um tom avermelhado e eu a sentia latejar. Engoli em seco enquanto olhava fundo nos olhos azuis de Nicholas, azuis nos cinzas, e o silêncio demorou para ser quebrado.
-Vamos, por favor, fazer algo com isso? Essas mudanças de humor estão acabando comigo.
Um mísero sorriso se abriu em meu rosto enquanto eu sentia meu estômago embrulhar. Nicholas ainda estava perto de mim, perto demais, e suas mãos grudadas em minha cintura. Soltei um suspiro olhando para aquele rosto maravilhoso tão perto de mim, tão bonito... Prendi a respiração. Era estranho ver uma semelhança tão grande de Nicholas com meu pai. Seria tão mais fácil se ele tivesse puxado Jessica.
-O que podemos fazer com isso? Não é natural.
-Eu sei. –Assentiu. –Acredite. Mas eu não quero parar. Eu quero você.
Fechei os olhos sentindo o efeito que aquela palavras tinham sobre mim. Meu coração batia forte. Eu queria beija-lo de novo. Prendi a respiração.
-É um erro.
-Não, Sid. Uma vez é um erro. Já estamos nessa pela terceira vez. Três vezes é escolha. Só temos que... Facilitar.
-O que você sugere então?
Soltei um longo suspiro. Nicholas deu de ombros, parando por um momento pensativo. Uma de suas mãos escorregou por meu rosto, tirando uma mecha dos meus cabelos do meu rosto. Baixei os olhares.
-Tem noção de como isso é bizarro?
-Sim.
Dei de ombros. Nicholas assentiu.
-Então... Eu sugiro que a gente continue.
-O que?
Foi minha primeira reação ao escutar o que ele disse. Meus olhos caíram confusos sobre ele. Nicholas pirou de vez? Franzi a testa enquanto o olhava em tom quase indignado. Continuar? Ele só podia estar brincando e... E se alguém descobrisse?
-Sim. Eu acho que a gente deveria... Hm... Ficar até o momento que é bom, entende? Tipo, eu quero ficar com você, você comigo, mas nós dois sabemos que isso é loucura. Podemos aproveitar um pouco dessa loucura por um tempo até alguém achar outra pessoa a desapegar dessa maluquice... Assim um esquece o outro, mas não vamos ficar com a porra do “e se...” na cabeça.
Meu queixo caiu mais uma vez. Nicholas estava sugerindo o que eu achava que estava sugerindo? Ele queria que ficássemos juntos como se fosse algo natural, mas ao mesmo tempo continuássemos procurando por outros namorados. Tipo uma “amizade colorida” entre irmãos? Ele estava ficando louco, era certeza, mas... Ele tinha razão. Talvez, o melhor para duas pessoas que não podiam ficar juntas, era aproveitar o tempo que tinham para isso. E gostando ou não eu queria ficar junto dele. Mordi o lábio tentando achar alguma merda que isso poderia dar... Achei muitas, mas ainda poderia ser minha melhor opção.
-Eu devo estar ficando louca também.
Nicholas abriu um sorriso e mais uma vez o brilho em seus olhos me tirou do sério. Ele conseguia ser tão fofo... Nicholas puxou-me com força contra seu corpo e logo sua testa estava colada a minha, enquanto fitava fundo em meus olhos. Por um momento seus olhares se desviaram para meus lábios e sem conseguir disfarçar, o moreno umedeceu os seus com a língua, voltando-me a fitar os olhos.
-Vai parar de fugir de mim?
-Não prometo.
Abri um sorrisinho. Nicholas deu de ombros.
-Então vou ter que correr atrás de você.
Deu de ombros puxando-me pelos cabelos em direção ao seus lábios, pedindo espaço para mais um beijo que permiti ao abrir os lábios e sentir mais uma vez o gosto doce da sua língua. Sua mão me segurava firme enquanto ele tratava de explorar minha boca, mais solto e mais confiante do que nunca. Seu beijo era incrível e sem sombra de dúvida, era o melhor que eu já havia experimentado em toda a minha vida. Aquilo era um desastre pois, apesar de tudo, Nicholas era uma pessoa próxima a perfeição e achar alguém por quem compensasse deixa-lo, seria uma missão quase impossível.
Notas finais
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