Você sabe quem eu sou?

7 Capítulo 7. O Belo Ahjussi (parte 1)


Notas iniciais
Oi , capítulo estava ficando muito grande (43 paginas!!!), por isso optei por dividir em duas partes. O que voces acharam do ultimo capítulo?? Fiquei curiosa, mas poucas pessoas comentaram... e esse novo? Grandes emoções e confusões... Com sorte, posto a segunda parte ainda essa semana.

Capítulo 7. O Belo Ahjussi (Parte 1)

Eu acordei com o barulho da chuva. Abri os olhos e olhei para fora pela janela ampla do quarto. O dia estava cinza, frio, escuro e triste. E de repente eu me vi consumida por um desespero equivalente a intensidade daquela tempestade.

Eu sabia que estava num hospital antes mesmo de acordar. Talvez fosse a perna que eu não conseguia mexer. Talvez fosse o cheiro forte e inconfundível do antibactericida, com as superbactérias dos nossos tempos, aquele cheiro era um aviso que estávamos seguros. Era muito mais por uma questão psicológica que de fato necessidade, o “cheiro de hospital” era confortável para algumas pessoas.

Não a mim. Eu não suportava estar naquela cama, naquele lugar.

Talvez eu soubesse que estava num hospital simplesmente por causa da minha intuição. Mesmo inconsciente, eu reconheceria o lugar onde passei parte da minha vida. Uma parte dolorosa.

Eu conhecia também a sensação de desconforto provocada por um desmaio. Como se por alguns momentos fossem roubados de nossa vida. Um pulo no tempo e no espaço... a sensação de parar de existir por alguns instantes. Fechar os olhos e abrir no momento seguinte, para descobrir que algum tempo se passou e sua compreensão sobre isso foi alterada.

Daquela vez, entretanto, não era exatamente minha presença ali que me incomodou, quando percepção do dilúvio lá fora invadiu os meus sentidos, o hospital, minha perna dolorida, ou meus familiares preocupados deixaram de ter importância. Os pingos de chuva batendo contra a vidraça trouxeram uma agonia tão profunda em meu coração que lágrimas inundaram meus olhos.

Algo estava errado, muito errado, mas... o quê?

— Você está bem?

Minha mãe, nervosa, segurava minha mão, enquanto meu pai, próximo à janela apenas assistia a cena com uma ruga na testa. Ele tinha essa capacidade de guardar as suas impressões apenas para momentos em que ele achava que elas seriam necessárias. A ruga em sua testa era um indício que logo, elas seriam partilhadas e talvez não fosse agradável a ninguém.

Eu não respondi à pergunta de minha mãe. Meu olhar ainda estava fixo lá fora, no temporal.

— Yeon Woo? Você está sentindo alguma coisa?

Quando olhei para o rosto preocupado dela, pela primeira vez em anos, eu não consegui esconder minhas emoções. E eu sabia o que acontecia quando eu não conseguia esconder, ainda assim não consegui me controlar.

— O que foi meu amor? Fala para mamãe, o que você está sentido?

Mas eu não consegui falar, eu só chorava. Meu pai preocupado se aproximou e abraçou a nós duas.

— Querido, chame um médico... ela precisa de um tranquilizante.

No mesmo instante eu me afastei.

— Nã... na-aão...

Os soluços me impediam de falar e eu sabia que seria apagada em poucos instantes.

— Amor, rápido. — Minha mãe insistiu no auge do desespero.

Mas para a surpresa de nós duas, meu pai se recusou a obedecer.

— Não. Ela não precisa de tranquilizante algum.

— Querido, ela está descontrolada.

— Nossa filha sofreu um acidente, NaNa. É natural que ela acorde nervosa, chorar um pouco ocasionalmente faz bem.

— Mas ela...

— Se a situação sair de controle, chamamos o médico.

Levei 63 horas para recuperar a fratura na perna e dois dias para entender o que havia acontecido. Dona NaNa estava preocupada que qualquer mínima coisa fizesse meu “parco” equilíbrio perder-se, logo, bastava alguém tocar no assunto e era expulso de minha presença. Mesmo minhas amigas, não tiveram autorização para me visitar. A sorte era que meu pai, normalmente omisso nas questões que me envolviam, estava reivindicando a sua autoridade em minha vida.

Eu não poderia estar mais feliz com isso.

Mamãe havia tirado dois dias de folga e estava me enlouquecendo com tantos cuidados, mas papai também estava em casa e fazendo oposição direta aos exageros dela.

Foi ele quem me contou o que minha memória tinha apagado. Um acidente de trânsito na volta do aeroporto. Eu levei a pior. Yuna, Eun-Ha e o motorista tiveram machucados superficiais, meu joelho precisou ser reconstruído. A minha sorte é que nem mesmo ficaria uma cicatriz. Nascer em uma família economicamente estável tinha grandes vantagens.

O grande problema é que eu dormi por quase dois dias após o acidente e apesar dos médicos garantirem que não havia nada de mais comigo, apenas cansaço, isso colocou em volta de mim uma rede de superproteção maternal.

E havia também o problema de simplesmente não me lembrar do acidente, mas depois de exames detalhados ficou comprovado que não havia danos físicos e me foi dado a escolha de tentar ou não recuperar aquela memória através de terapia.

Eu recusei veementemente, mas ficaria em observação.

Minhas crises de choro desapareceram com a chuva.

Quando recebi alta já estava completamente recuperada. Pronta para voltar a minha vida. Dona NaNa tinha outros planos.

— Acho que você deve descansar ao menos uma semana.

— Eu estou bem, mãe. E preciso estudar para o vestibular...

— Eu já conversei com o médico e ele concorda que...

— Mas conversou comigo? — Perguntei irritada. Não aceitaria tão facilmente suas ordens daquela vez. — Perguntou o que eu acho?

— Querida, você teve um surto...

— Surto?! Surto, mãe?! Tem mesmo que classificar, categorizar e diagnosticar tudo o que eu sinto, faço ou penso?

— Querida, é para o seu bem. — Minha mãe insistiu, mas visivelmente incomodada com minha rebeldia.

Foi quando meu maior aliado dali em diante, interviu.

— Desculpe discordar, mas não acho que você esteja fazendo nada para o bem de Yeon Woo, NaNa. Você tem feito o que acha que será mais fácil. E parece que essas medidas não estão surtindo um efeito positivo em nossa filha. Penso que é hora de uma mudança.

— Mas querido...

Ignorando minha mãe, papai se dirigiu a mim.

— Filha, quero que você escute com atenção. Seja sincera, você está pronta para ir à escola?

Respondi em hesitar.

— Sim!

— A escolha se voltará à escola ou não é sua. Você deve pensar com cuidado se tem ou não condições. Não veja a escola como uma fuga de sua família. Se a gente não tiver confiança que você fará a escolha mais acertada, será difícil acreditar que você tem maturidade para fazer escolhas no futuro.

Eu sabia o que papai queria dizer: ele estava comprando briga por minha causa e seria mais difícil negociar com mamãe no futuro se eu a desobedecesse agora e passasse mal na escola.

— Eu estou bem, pai. Confie em mim.

Minha mãe conhecia bem seu marido e percebeu que aquela era uma briga perdida.

— Muito bem, mas eu comprei um celular novo para você, só precisamos configurá-lo para o uso.

Eu nem reclamei, seria um gasto de energia desnecessário, voltar ao controle parental era apenas uma questão de tempo.

Uma vez mais, entretanto, meu pai mostrou que as coisas seriam diferentes.

— Querida, eu acho que nossa filha já tem idade para ser independente. Logo ela estará na faculdade. Eu não vejo motivo para trata-la como uma criança. Ela não vai usar o aparelho que você comprou. Na verdade, quero que amanhã Yeon Woo vá com as amigas ao shopping após o colégio e escolha pessoalmente um modelo que atenda melhor as suas necessidades.

Eu deveria estar vivendo numa espécie de céu.

Finalmente era uma adolescente normal. Saía com minhas amigas, desde que obedecesse rigorosamente ao horário “toque de recolher”. Não precisava dá satisfação de tudo ou explicar meus pensamentos. Pela primeira vez eu tinha espaço para eu ser eu mesma. E isso era mágico.

Não houve remédios ou sessões de terapia após o acidente que sofri um mês antes. Sem sequelas de um possível trauma além da ausência da memória do acidente, não havia justificativas para eu me tornar a prisioneira de um divã.

Houve também um acontecimento inusitado: pela primeira vez eu de fato aceitava que não havia uma Eun Tak, ou um duende do qual eu fui esposa. Na verdade, quanto mais eu pensava sobre isso, mais ficava difícil entender qual a razão de eu ter acreditado por tanto tempo que todas aquelas coisas eram reais. Eu tinha lembranças das lembranças que povoaram meu imaginário por anos, mas as lembranças em si estavam borradas. Se antes via com clareza o rosto do suposto homem de minha vida, mas agora essa era uma memória vaga.

Aparentemente eu estava curada... ou pelo menos era isso que eu estava satisfeita em acreditar. Havia apenas dois problemas na nova e mentalmente são Yeon Woo: eu não apenas havia esquecido as feições de meu noivo de fantasia, mas também depois de algum tempo, percebi que havia outros buracos em minha memória e vivia com a impressão que estava esquecendo de algo muito importante.

Eu estava preocupada?

Pode acreditar, mas se revelasse esse meu problema entraria num novo ciclo de tratamentos. De qualquer jeito, eu estava bem, me sentia bem e esse problema não era de fato um problema.

Ou pelo menos eu queria muito me apegar a isso.

Outra coisa boa dessa minha nova fase era o meu novo relacionamento que eu tinha com meu pai. Fazíamos coisas juntos, como sair para o cinema, ou ir para o teatro, ou passeios ao ar livres. Conversamos mais nos últimos dias que em toda a nossa vida. Ele falava sobre o seu trabalho, seus livros favoritos e eu sobre minhas amigas, minha escola, minhas músicas. Estávamos estabelecendo uma relação de confiança tão boa, que às vezes eu me perguntava por que não aconteceu antes.

Mais que pai e filha, éramos amigos.

Apesar da facilidade que proporcionada pelos e-books, eu e meu pai tínhamos uma paixão em comum: livros impressos. O nosso passeio favorito era ir as livrarias, muito em moda ultimamente por conta da onda retro, e passar horas, escolhendo novas aquisições para nossa biblioteca. Aliás, a biblioteca de meu pai era um verdadeiro achado com quase dez mil títulos, muitos deles raros.

Numa tarde, num desses nossos passeios, eu estava escolhendo os livros que compraria enquanto meu pai, muito mais prático que eu sobre suas escolhas, tomava um café numa cafeteria que ficava dentro da loja. Uma das maiores qualidades do senhor Kim, era que ele não me apressava ou questionava meus comportamentos. Não importava o tempo que eu levasse para me decidi, ele esperaria e me receberia com um sorriso no rosto. Não, ele me receberia com um livro nas mãos. Provavelmente estava mergulhado em alguma leitura enquanto me esperava.

Após finalmente me decidi, paguei minhas compras e segui para a cafeteria. Daquela vez, meu pai não estava sozinho. Conversava com outro homem e parecia muito animado. O companheiro de meu pai estava sentado de costas para a entrada, muito bem vestido era obviamente alguém de posses. Um colecionador? Apostava que sim.

Notei que o desconhecido tinha um porte bonito e por algum motivo, isso acelerou meu coração.

Papai percebeu minha aproximação rapidamente. Com um sorriso orgulhoso, falou algo e se levantou. O outro homem se levantou também e virou-se em minha direção.

Foi nesse instante que tudo pareceu congelar a minha volta. Mesmo eu estanquei.

Se me perguntassem o que me impressionou tanto naquele sujeito, eu não saberia ao certo o que responder. Ele era bonito? Deus, e como! Mas não era só isso. Tinha algo no olhar dele que me deixava ansiosa, nervosa. Meu primeiro desejo foi correr até ele e me tirar em seus braços. O que me segurou foi a certeza que tal comportamento iria garantir uma camisa de força.

Buscando acalmar meu coração, fechei os olhos um instante e quando abri, havia um sorriso afável em meu rosto.

Quando dei o primeiro passo, o mundo pareceu voltar a se mover junto comigo.

— Olá. — Cumprimentei o desconhecido com uma pequena reverência. — Papai.

— Olá, querida, deixe-me apresenta-la ao senhor Kim Shin. O nome apagou momentaneamente o sorriso do meu rosto, mas eu logo me recuperei.

— Como vai senhor Kim?

Era estranho chama-lo assim, afinal quando estava de birra, era assim que chamava meu pai.

— Bem, Agassi. E você?

Eu estava à beira de uma síncope, mas ainda com um sorriso no rosto, respondi.

— Muito bem, obrigada.

— Já pedi o seu café, querida, eles devem trazer logo. — E virando-se para o senhor Kim, muito orgulhoso meu pai informou. — Minha filha também compartilha da nossa paixão por livros impresso. Querida, o senhor Kim Shin é um dos maiores colecionadores da Coreia. Ele nos convidou para conhecer o seu acervo a hora que quisermos. Que tal um passeio para TaeBaek em janeiro?

— TaeBaek?

— É onde guardo meu acervo principal. É aberto a visitação de pesquisadores.

Confesso que não prestei muita atenção nas palavras, mas no timbre perfeito do outro senhor Kim.

— Querida, ele tem uma edição da Divina comédia do século XVI.

Diante da animação do meu pai, eu apenas mantive o sorriso no rosto.

— Então não podemos perder papai. Basta marcar. Já estou ansiosa.

Ver uma cópia do século XVI da Divina Comédia deveria ser algo incrível, mas eu estava mesmo ansiosa para garantir um novo encontro com aquele belo Ahjussi. Mesmo que ele fosse quase cinco meses depois daquele.

A conversa entre os dois amantes de livros seguiu o curso esperando. Meu pai estava muito entusiasmado. O senhor Kim era mais polido, porém era inegável que ele estava satisfeito com a conversa.

Ele era atencioso e profundo conhecedor de livros raros.

Durante a conversa eu tive a oportunidade observa o homem. Um Ahjussi na casa dos trinta. Alto, bonito, elegante... fazia meu coração bater descompassadamente e minhas pernas ficarem bambas. Era uma sorte que eu estivesse sentada.

Ele era circunspecto. Normalmente eu gostava de garotos sorridentes, mas eu simplesmente não conseguia tirar os olhos daquele Ahjussi sério.

Papai o havia encontrado há poucas semanas pessoalmente, mas já o conhecia por fama há anos. O sujeito era um patrocinador cultural aclamado.

— Parece que estamos aborrecendo minha filha.

De repente eu era o centro das atenções na mesa que ocupávamos. Sorri sem graça sabendo que estava ficando vermelha. Ainda assim, não consegui desviar o olhar do colecionador.

— Eu estou bem, pai. Podem continuar conversando. Quero apenas algo para comer.

Na verdade, eu não estava com fome, mas sabia que aquela era a “deixa” para meu pai interromper a conversa com o amigo e me levar para casa. Ainda não. Eu a não estava pronta para me despedi.

Enquanto papai chamava alguém para anotar o meu pedido, o celular dele tocou.

— É da clínica, preciso atender.

E para ter maior privacidade, ele levantou e foi para um canto mais isolado.

O senhor Kim Shin me deu um meio sorriso e enquanto eu fazia o pedido, ele voltou à atenção um livro antigo em suas mãos. Era uma das aquisições do dia de meu pai. Possivelmente o motivo pelo qual os dois homens pararam para conversar.

Quando a moça foi embora, aproveitei para analisar o homem com mais cuidado. Meu olhar caiu sobre as mãos que moviam as páginas do livro. Mãos grandes, dedos longos. Conseguia me imaginar acariciada por eles.

— Por que você está me encarando?

Ele não olhava diretamente para mim, estava supostamente concentrado no livro em suas mãos.

— Eu acho você bonito, Ahjussi.

Não sei de onde veio tanta sinceridade, mas era como se eu não conseguisse mentir para ele.

O Senhor Kim levantou os olhos e me olhou fixamente por um instante. Depois voltou a atenção ao livro antes de falar:

— Você tem uma atitude muito atrevida Agassi. Eu sou um homem bem mais velho que você.

— Mas não olha para mim como um Ahjussi deve olhar para uma jovem Agassi. Então, não finja que não sabe porque eu o estou encarando.

O olhar dele, onde encontrei um quê de culpa e surpresa foi à confirmação que o nosso encontro não foi impactante apenas para mim.

Sorri satisfeita, a espera da resposta a minha impertinência.

O retorno de meu pai com a triste notícia que precisava atender uma emergência pôs um fim prematuro ao nosso encontro e na possibilidade de uma paquera entre eu e um amigo dele.

Eu mesma estava um tanto chocada com minha ousadia, mas o que dizer? Yuna e Eun-Hwa ficaram orgulhosas de mim quando soubesse de minha atitude.

O destino foi bondoso comigo, no mês seguinte encontrei com o senhor Kim três vezes. Na primeira vez foi na mesma livraria do nosso primeiro encontro e confesso que foi de propósito. Foi rápido por que quando cheguei, ele já estava de saída. O ponto alto? Com satisfação, percebi que ele ficava nervoso em minha presença.

E aquilo me fez perceber que precisava ser mais ousada se quisesse chamar sua atenção.

A segunda vez foi no meu aniversário de dezenove anos. Estávamos, eu e minhas amigas, num parque perto do colégio e a Yuna resolveu comprar um bolo para comemorar a ocasião.

Após soprar as velas, eu o vi sentando num banco mais adiante, lendo um livro.

— O que foi? — Eun-Hwa perguntou quando me percebeu congelada diante do bolo — Você conhece aquele Ahjussi? — Perguntou quando seguiu o meu olhar.

— Aquele é o senhor Kim? — Dessa vez quem perguntou foi a Yuna.

— Você o conhece? — Perguntei surpresa.

— Claro, ele é o presidente do grupo Chunwoo. O tio do Yu Deok Hwa, você o Deok Hwa lá em casa, lembra?

Eu lembrava vagamente.

— E como você o conhece? — Ela me perguntou curiosa.

— Ele é um conhecido de meu pai. Um colecionador de artes e livros.

— O Ahjussi que você paquerou? Uau, ele é bonitão mesmo! — Exclamou Eun-Hwa, já animada.

— Acho que vou lá cumprimenta-lo.

E antes que minhas amigas respondessem, ou tentassem me impedir, coisa que certamente não aconteceria, eu segui em direção ao homem.

— Ahjussi, parece que destino tem trabalhado a nosso favor.

Kim Shin levantou os olhos do livro e me encarou com estudada indiferença.

— Está me seguindo, Agassi atrevida?

Sei que aquilo deveria soar como uma repreensão, mas eu achei fofo a forma como ele me chamou de atrevida.

— Uoo, pode parar! Dessa vez foi o Ahjussi que veio atrás de mim. Eu estudo ali. — Apontei o prédio do meu colégio.

— Ah... entendo. Parece que terei de mudar o meu local de leitura. Uma pena, eu gosto desse parque.

— Oh, não faça isso por minha causa. Eu vou observá-lo só de longe. Nunca me aproximarei.

Ele olhou fixamente, antes de perguntar.

— Você promete?

Eu sabia que deveria mentir, mas...

— Não. Estaria mentindo se prometesse.

— Ah, uma pena. Eu realmente gosto desse parque no fim de tarde.

— Então não abra mão dele por minha causa.

Enquanto esperava por uma resposta, notei que no banco onde ele estava sentado havia um buquê de flores.

— Você está esperando alguém?

Ele me olhou outra vez.

— Sim.

Meu coração parou ante a sua resposta fria.

— Uma mulher? — Perguntei, sem esconder que não estava satisfeita com aquilo.

— Sim. Uma mulher.

Não esperava que ele fosse tão sincero. Sem confiar em minhas pernas, decidi me sentar.

Peguei o buquê e o examinei.

— Que flores são essas?

— Trigo sarraceno.

— Você é casado Ahjussi?

— Não.

— Tem namorada?

— Não.

— Mas vai dá flores a uma mulher?

— Sim.

— Por quê?

— Hoje é uma data especial para ela.

— Hoje também é uma data especial para mim. É o meu aniversário.

— Então fique com as flores.

Olhei chocada para ele. A pergunta escapou quase instantaneamente.

— E sua amiga?

— Eu acredito que cada coisa encontra o seu lugar... talvez essas flores desde o começo fossem suas. Fique. É meu presente.

O nosso terceiro encontro foi em minha casa. Papai o convidou para um jantar.

Meu nervosismo naquele dia foi tamanho que troquei de roupa umas três vezes. Normalmente eu não me importava com os amigos de meu pai. Era educada, mas os evitava se pudesse.

— Você parece ansiosa.

Minha mãe comentou quando veio ao meu quarto verificar se eu estava pronta.

— Pareço?

— É obvio. Devo me preocupar? Sei que você já encontrou esse homem antes e segundo seu pai, ficou meio apaixonada, mas ele é pelo menos quinze anos mais velho que você.

Como sempre minha mãe teve o poder de me surpreender. Eu poderia perguntar como ela sabia sobre Kim Shin e o meu pai disse. Ele percebeu que eu fiquei impressionada com o colecionador? Essa era nova.

Apesar de tudo, engoli as várias perguntas que me inquietavam e segui com minha nova postura de impor limites.

— E porque a senhora se preocuparia?

— Querida, sei que nos distanciamos nos últimos tempos e você não me conta tudo, mas algumas coisas eu preciso saber.

O tom conciliador não me enganava, minha mãe preparava outro golpe contra minha recém adquirida autonomia.

— Como o quê?

— Eu sei que você perdeu a virgindade em sua viagem ao Canadá.

— Como é?

— Amor, após o acidente você foi examinada, então...

— E o que um exame ginecológico tem a ver com uma fratura no joelho?

— Eu só...

— Passou dos limites mais uma vez. Estamos falando da minha privacidade! Eu contaria se quisesse...

— Eu sei querida, eu só me preocupo.

— Não. Eu não vou falar sobre isso, eu me recuso!

— Sua mãe fez o quê?!

— Nossa, quando eu chegar em casa vou dá um big beijo na minha ahjuma. Sua mãe é assustadora, Yeon Woo.

Eu entendia a reação de minhas amigas. Eu mesma estava furiosa;

— O pior é que esse não é o principal problema.

— E qual é?

— Eu não me lembro como aconteceu. As lembranças dos dias antes do acidente estão meio confusas.

— Ah... pensando bem, você estava saindo com um carinha do hotel. Fugiu um dia para encontrar com ele, mas não chegou a falar muito coisa. Na verdade, não achei que fosse tão sério. — Confessou Yuna.

— É mesmo! Que malvada você, como pede não contar para a gente sobre seu grande dia?

— Eu não sei. Não lembro.

A noite não foi tão agradável como eu pensei que seria. Minha mãe estava mais alerta que nunca. O senhor Kim Shin, mais distante que nunca. Ainda assim, havia a satisfação única de tê-lo ao alcance de meus olhos. A noite passou sem novidades e quando percebi, ela estava encerrada.

Depois disso passei meses sem encontrar com o amigo de meu pai. E olha que criei todas as oportunidades que pude para que isso acontecesse. Eu estava desapontada e irritada. Principalmente com minha mãe, pois desconfiava que sua pouca hospitalidade naquele jantar foi a principal causa do desaparecimento do novo amigo de meu pai.

No começo de novembro com a primeira neve, Yuna nos convidou para um final de semana na estação de esqui dos pais dela, localizada no extremo oriente do país, em uma cidadezinha ainda bem rustica e cuja principal atração era proporcionar uma aventura longe da vida moderna. Era oportunidade de relaxar antes de vestibular e da minha mãe.

Deveríamos viajar juntas, mas acabei me atrasando por conta de Dona NaNa. E teimosamente seguindo depois, sozinha.

A cidade era de fato bem rústica e como estávamos com previsão de uma nevasca, o transporte para a montanha estava suspenso.

De repente, vi na estação, cheia de malas e sem saber ao certo o que fazer. O próximo trem para Seul sairia em dez minutos. Eu ainda podia voltar para casa... ou podia procurar acomodações na cidade até o dia seguinte, quando pensaria no que fazer.

— Eu me sinto incomodado com o fato de você ficar me seguindo, Agassi atrevida.

Eu sei que não deveria parecer tão feliz, mas eu quase saltitei diante do recém-chegado.

— Ahjussi!

Indiferente a minha alegria ele apenas perguntou.

— Como você descobriu que eu estava aqui?

— Foi o destino, estou a caminho da estação de esqui.

— Mas o transporte para estação está suspenso por conta das tempestades.

— Eu sei. Vou procurar um hotel e esperar até amanhã.

— Sozinha?!

A maneira como ele falou me fez sorrir.

— Não tenho outra opção.

Ele me encarou por um instante e depois decidiu.

— Eu levo você.

— Mas, e a tempestade?

— Meu carro tem rodas especiais. Chegaremos lá em segurança.

É claro que eu não ousei discutir. Se tivesse sorte, eu faria um passeio muito romântico pelas montanhas com aquele ahjussi. Se tivesse mais sorte ainda, aquele bendito carro iria quebrar.

Agora eu mal podia esperar para saber se eu era sortuda ou muito sortuda.

Notas finais
Ahjussi = senhor Agassi = senhorita Ahjuma = senhora