Você quer ser meu?
1 Uma surpresa no meu último dia de férias
Notas iniciais
Espero que vocês gostem, primeiro capítulo sempre é meio parado mas acho que tá valendo.
Como eu disse no disclaimer: personagens com personalidades diferentes porque não dá para escrever um romance com o Claude daquele jeito, não dá. Ele é muito filho da P***.
Beijos
Acordei com o som estridente da campainha, me virei para o lado e pus o travesseiro sobre a cabeça na tentativa de abafar o som.
O barulho parou e eu estava quase adormecendo quando voltou a tocar.
_AAARRGGGHHH!!! Que droga! — gritei frustrado, joguei o travesseiro no chão em sinal de protesto.
Olhei para o relógio: eram 8:40. Era o meu último dia de férias, eu não esperava visita nenhuma, aliás, ninguém nunca me visita a não ser meu editor e isso quando eu atraso muito a entrega de um trabalho, o que não é o caso.
Joguei minhas pernas para fora da cama e me levantei bufando. No meio do caminho, percebi que o som não era da campainha e sim do interfone da portaria. Tirei o fone do gancho.
_Pois não?
_Senhor Faustus? — era a voz do porteiro diurno.
_Sim. O que foi?
_Ah, sim. Tem uma senhora aqui, Ela disse que tem que subir para falar com o senhor. Me desculpe.
Eu tinha orientado tanto o porteiro diurno quanto o noturno para não deixar ninguém subir nesses trinta dias de férias e que se alguém aparecesse, era para dizer que eu tinha ido viajar. Eram as minhas primeiras férias em cinco anos e eu as tinha conseguido depois de ficar três dias internado por estafa mental. Quem não é do meio não acredita que escrever livros é um processo extremamente desgastante, mas é. E eu vinha de um período em que escrevia livros e contos na média de quatro por ano. O que me rendeu fama mas também uma gastrite crônica por causa de tanto café e uma crise de pânico acompanhada de estafa.
_Eu não estou esperando ninguém. Dispense-a — falei.
_Eu tentei, senhor. Mas ela disse que é do Juizado de menores.
“Juizado de menores…” — pensei — “O que o Juizado quer comigo?”
“Será que é alguma doida falando que eu sou pai de alguém?” .Repassei mentalmente quando tinha sido a última vez que havia saído com uma mulher. Foi há muito tempo, mais de dezessete anos… .E foram apenas algumas vezes, durante a minha adolescência, só até eu me conscientizar que aquela não era a minha praia. No final da adolescência eu já tinha me aceitado, parei de lutar contra a minha orientação e nunca mais saí com mulher nenhuma.
“Sem chance de filhos. Só pode ser algum engano”.
_Senhor Faustus? — a voz me tirou da distração e o tom mostrava que ele já tinha me chamado algumas vezes.
_Mande subir — desliguei o interfone e corri para o quarto.
Procurei rápido uma roupa antes que a mulher tocasse a campainha. Vesti uma calça esportiva cinza e estava terminando de enfiar os braços nas mangas da camiseta branca quando ouvi o toque.
Abri a porta apenas o espaço que a correntinha de segurança permitia. Do outro lado estava uma mulher de cerca de quarenta anos, alta e muito magra, tinha os cabelos pretos cortados curto e estavam cheios de gel, penteados para trás e presos num rabo de cavalo bem puxado, usava óculos de aro preto que combinava com o tailleur. Tinha a cara fechada e segurava com força a pasta de couro.
_Pois não?
_Senhor Faustus? Claude Faustus?
_Sim.
Eu não devia nada para a justiça mas não tem como não ficar apreensivo quando um agente do governo bate na sua porta. O governo nunca te procura para te dar um presente então quando alguém deles aparece, é melhor você se preparar.
_Eu sou a senhorita Whisper, sou assistente social da Vara da Infância e Juventude. Posso entrar para falar com o senhor?
_Ah, claro — fechei a porta na cara da mulher, mas foi só os segundos necessários para soltar a corrente e reabrir a porta. Dei dois passos para o lado, dando espaço para que ela entrasse.
_Com licença — pediu entrando na minha sala, seu andar era rígido.
_Toda. Sente-se — falei me adiantando e empurrando meu casaco e algumas revistas do assento do sofá e liberando espaço.
Ela sentou-se emperdigada, acho que essa mulher nunca relaxou na vida.
_A senhorita quer um café? — ofereci.
_Não, obrigada.
Ela tinha me acordado cedo, no meu último dia de férias, eu precisava muito de um café.
_Se importa se eu… — apontei para a cozinha.
_Oh, não. Pode tomar.
Dei um sorrisinho, que ela não retribuiu.Corri para a cozinha e pus o pó e a água na cafeteira elétrica. Voltei para a sala.
_Senhor Faustus. Serei direta, tudo bem?
_Claro, por favor.
Sim, eu estava apreensivo. Me sentei no sofá, dando um espaço seguro entre mim e ela.
_O senhor tem uma irmã?
_Irmã? Bem, eu tenho uma meia-irmã.
Ela tirou um papel da pasta e leu:
_Hannah Annafellows?
_Sim — respondi novamente — O que aconteceu? Não estou entendendo.
E não estava mesmo. O que eu tinha a ver com minha meia-irmã por parte de pai, que eu não via há mais de dez anos? A Hannah sempre foi a ovelha negra da família, era mais velha do que eu. E era uma adolescente revoltada, fazia o que bem queria e não respeitava ninguém. Fugiu de casa com um namorado, meus pais ficaram desesperados, mas ninguém sabia direito com quem ela andava então nem dava para perguntar para os amigos se eles sabiam onde ela tinha ido. Demorou um ano para mandar uma carta dizendo que estava bem e nunca mais ia voltar. E não voltou mesmo.
O aroma de café se espalhou pela casa.
_O filho dela, o seu sobrinho foi preso e está sob a nossa custódia.
Fiz uma cara de “e daí?”, o problema era dela que era a mãe, eu não tinha nada a ver com isso. Nem sabia que ela tinha um filho.
A cafeteira apitou mostrando que o processo tinha terminado. Me levantei e me servi de uma caneca. Pelo jeito iria precisar de uma dose extra de cafeína. Voltei para a sala assoprando o líquido escuro e dando pequenos goles.
A mulher, virou a página e leu por alguns segundo. Fiquei em silêncio aguardando que ela continuasse, mas diante do silêncio, resolvi falar.
_Se o filho dela foi preso, vocês deviam entrar em contato com ela, não é?
_Impossível.
_Olha, faz mais de dez anos que nós não nos vemos. Ela abandonou a família eu nem sei onde ela mora. Perdi qualquer contato com minha meia-irmã — expliquei.
_Nós a achamos, mas não adianta de nada.
“Será que ela também está presa? Céus, uma família de bandidos…”
_Por quê?
_Senhor Faustus, vou contar o que aconteceu. A polícia prendeu o menor há cerca de quinze dias, ele estava roubando mas como é menor de idade foi encaminhado para a casa de custódia. Nós do Juizado fomos acionados como é comum nesses casos e tentamos encontrar a família — ela ajeitou os óculos no rosto e eu por reflexo fiz o mesmo com o meu — Há quatro dias, descobrimos que a mãe está morta.
Mesmo com todos os anos de distanciamento, saber que a Hannah estava morta me chocou. Ela era apenas uns cinco anos mais velha do que eu. “O que poderia ter acontecido com ela?”
_E o pai?
_Não sabemos quem é. Nem o menor sabe e ele nem tem documento. Estamos providenciando a segunda via.
_E o que eu tenho a ver com isso? — realmente eu não estava entendendo.
_É o seguinte. O menor não tem nenhum parente vivo. Ele não tem mais ninguém. Só senhor. Nesses casos, é nossa obrigação oferecer o garoto para o parente mais próximo. O senhor quer ficar com ele?
“Ficar com uma criança?”. Imaginei um pirralho de cerca de oito ou nove anos, mal criado e deliquente correndo pela casa, gritando e fazendo barulho. Eu teria que arranjar escola, acordar cedo para levá-lo, dar educação… criança fica doente, dá trabalho, é irritante…. Eu sou um gay solteiro de trinta anos, não sei cuidar de criança, nunca nem quis ter um filho. Família não é comigo. Sou sozinho por opção…
Não é como se eu não gostasse de crianças, eu até gosto mas não sei lidar com elas. Não levo jeito.
_E então? — ela pressionou.
_Eu não sei cuidar de criança — declarei — O que acontece se a criança não tiver parente?
_Ela vai para a adoção.
Respirei fundo.
_Então acho melhor ele ser adotado.
Ela apertou os lábios e ajeitou os óculos de novo. Irritada.
_O senhor tem certeza? Não quer ver uma foto dele? — ela procurou dentro da pasta mas eu não dei chance, sabia muito bem que ela queria amolecer meu coração.
_Não. Não precisa. A melhor coisa é ele ser adotado. Vai ter uma família e tal.
Ela suspendeu a procura.
_O senhor sabe que quando mais velha for a criança menor as chances de ser adotada.
Balancei a cabeça, eu sabia sim.
_Mas eu não tenho condições de criar ninguém. Não tenho culpa se a mãe dele não o educou e ainda fez o favor de morrer.
Eu sei que fui mal educado mas odeio ser pressionado.
_O menor tem menos culpa ainda.
Fiquei num silêncio que se estendeu por vários minutos. Já estava me sentindo desconfortável quando ela cedeu.
_Tudo bem então. Entendi. Obrigada por me receber, senhor Faustus.
Ela se levantou e eu a acompanhei até a porta.
_Aqui está o auto de intimação. A sessão será hoje à tarde, é só ir lá no juizado e falar para o juiz que não quer ficar com o menor, assim o meritíssimo pode colocá-lo para a adoção.
Ela me estendeu o papel timbrado, acabei segurando o documento mas estava em choque. “Eu teria que ir no juizado? No meu último dia de férias???”
_Tão em cima da hora? Você poderia ter vindo mais com mais tempo, antes do prazo final… — reclamei.
_Olha senhor Faustus — como ela gostava de ficar repetindo o meu nome, parecia uma gravação, mas agora ela estava mais azeda ainda — O senhor tem ideia de quantos casos eu tenho que resolver? De quantas famílias eu tenho que ir atrás? Cada caso pior que o outro: crianças abandonadas, mal tratadas, espancadas, abusadas… São histórias de terror. E quando a gente encontra algum familiar que tem condições sabe — ela abriu os braços, mostrando o meu apartamento — tenho que ouvir que ele não quer o menor, prefere deixar lá, abandonado numa instituição. Vou te falar a verdade: aquilo é um depósito de gente, o garoto não vai ser adotado.
Ela não esperou pela minha resposta, abriu ela mesma a porta e saiu.
_Passe bem, senhor Faustus.
Eu fechei a porta, me sentia meio mal, talvez eu devesse ter pelo menos visto a foto, afinal era meu sobrinho. Me dei conta que nem perguntei a idade do moleque. Olhei para o papel e xinguei novamente: não era nem o juizado daqui de Nova York, era de uma cidadezinha mais do interior — uma hora de viagem de carro.
“Que merda!” — joguei o papel sobre o sofá e fui tomar um banho para tentar clarear a mente e me preparar mentalmente para dizer para o juiz que não queria assumir a guarda de pirralho nenhum.
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