Você quer ser meu?
2 Uma ida ao Juizado
Notas iniciais
Finalmente consegui achar a rua correta graças ao GPS, estacionei de frente ao prédio baixo, ele era antigo e tinha uma cor amarelada feia, coisa de prédio público e ainda por cima do interior; ao lado ficava a Casa de custódia, era o local para onde as crianças ficavam até resolverem para onde iam — se voltavam para casa, iam para a casa de parentes ou iam para adoção.
Tranquei o carro e subi rapidamente os poucos degraus da entrada. A recepção era a mesma, tanto do juizado como da casa de custódia. Tinha dois bancos inteiriços de madeira cujo verniz estava descascando, as paredes internas eram pintadas da mesma cor pavorosa das de fora e o piso era de pequenas pastilhas brancas e pretas. Estava tudo vazio, exceto por uma pessoa que estava sentada de jeito desleixado no banco, vestia uma velha calça jeans esburacada e suja e um blusão de moletom que um dia deve ter sido branco ou bege mas me parecia agora cinza e era grande demais. A pessoa estava com o capuz puxado sobre a cabeça que era mantida abaixada — acho que estava cochilando — e as mãos dentro dos bolsos.
Ignorei a figura e me encaminhei para o balcão.
_Oi… Boa tarde — chamei.
Vi uma mulher sair de trás de um computador. Depois do balcão, a sala era ampla com seis ou sete mesas com computadores e pilhas e mais pilhas de pastas de processos sobre elas, mas não tinha mais ninguém trabalhando, somente o raio da mulher.
_Ah. Boa tarde — ela se levantou e sorriu amistosa — Em que posso ajudá-lo?
Estendi o papel para que ela pudesse vê-lo.
_Parece que eu tenho uma audiência. Pode me orientar para onde eu tenho que ir?
Ela passou rapidamente os olhos no papel. Vi que ela olhou direto por mim para a pessoa no banco, mas foi de relance. Depois falou baixinho:
_O senhor é o parente do Alois?
Balancei a cabeça.
_Não sei quem é Alois — não sei porquê mas eu também estava cochichando.
_O menor de Hannah.
_Ah sim.
Ela abriu um sorriso caloroso. A mulher parecia ser boa, sabe, tipo mãezona.
_Que bom. O senhor vai levá-lo, não é? O pobrezinho… — pôs a mão sobre a boca numa expressão de pena.
Eu não devia falar nada já que não era da conta dela.
_Não vou ficar em ele.
_Não??? — ela tentou disfarçar o choque.
Balancei negativamente a cabeça, confirmando a resposta.
_É uma pena — comentou triste.
_Ele pode ser adotado — falei tentando dar esperança
Ela negou.
_Na idade dele….? Pobrezinho…
_Mas ele foi pego roubando — argumentei, estava muito incomodado, parecia que o errado era eu!
_Ele foi pego roubando comida — ela falou.
Fiquei chocado, roubar comida é muito triste. Mas agora ele estava sendo bem cuidado, não é?
Cansei da conversa. Aquilo parecia um complô para amolecer meu coração.
_Onde vai ser a audiência?
Ela pegou uma pasta que continha uma etiqueta onde se lia 1514-AT, devia ser o número do caso e abriu.
_É o caso dele?
Ela afirmou com a cabeça, depois franziu o cenho e eu pensei — “Ho-ou, o que tem de errado?”
_O senhor é o Claude Faustus?
_Sou.
_Estranho...Não tem audiência marcada para o menor.
_Mas a assistente social falou que tinha. E esse papel? — balancei a folha que ela havia me entregue mais cedo.
_Isso não é uma intimação. É só uma cópia da folha de rosto do processo, tem alguma data? Não né? Só tem o número do processo e o endereço daqui.
Me senti um trouxa. Continuávamos cochichando, e eu nem sei porquê. Mulher doida...
_No caso dele, é só assinar esse documento abrindo mão da guarda.
Ela me estendeu o papel e pegou uma caneta com a carga pela metade e presa na ponta por um barbante.
Peguei o papel e li. O nome do garoto era Alois. Alois Trance, estranhei pois não tinha o sobrenome da Hannah. Peguei a caneta e a pus sobre a linha destinada à assinatura. Então o bichinho da curiosidade me mordeu. Eu podia pelo menos ver a foto do moleque.
Suspendi a caneta no ar, afastando-a do papel.
_Tem uma foto dele? — perguntei como quem não quer nada.
_O senhor não o conhece?
_Perdi o contato com a mãe há muito tempo. Não o conheço.
Ela assentiu com a cabeça, um sorriso tímido se formou — acho que ela estava com esperanças de que eu o tirasse de lá, mas isso estava fora de cogitação. Era só curiosidade mesmo.
_Quer vê-lo?
_Quero — falei achando que ela tiraria uma foto da pasta. Mas ela olhou por cima do meu ombro.
_Alois? Ei, Alois — chamou.
Me virei para trás, tinha até esquecido que tinha um ser sentado no banco. A pessoa levantou a cabeça e puxou o capuz para trás revelando uma cabeça loira com os cabelos escondendo o rosto.
_Tire o cabelo do rosto. Tem alguém que quer te ver.
Ele chacoalhou a cabeça e os cabelos lisos foram para trás expondo um rosto delicado com a pele clara. Achei num primeiro momento que fosse uma menina, os cabelos estavam longos, batendo quase nos ombros, percebia-se que estavam sujos e emaranhados. Ele passou os dedos na franja e eu pude ver melhor os olhos: duas enormes íris azuis claras, quase cristalinas — eram olhos bonitos, circundados por fartos cílios escuros, o nariz era delicado e os lábios eram cheios sem serem muito carnudos, eram bonitos também e tinham uma cor rosada como se estivesse usando brilho labial, mas era somente a sua cor natural.
Fiquei pasmo, tinha imaginado uma criança pequena, com a pele morena e os cabelos claríssimos iguais ao da Hannah e não um adolescente loiro, tão diferente da mãe.
“Deve ter puxado ao pai” — pensei.
O garoto ergueu os olhos para mim, aquele olhar desconfiado, meio de baixo para cima. Seu olhar era triste, muito triste e agora eu podia ver um corte longo indo da bochecha até quase o queixo — um corte feio maculando um rosto tão bonito. Bonito e triste.
_Você é o filho da Hannah? Hannah Annafellows?
Ele fez uma careta quase imperceptível quando ouviu o nome da mãe; não falou nada mas assentiu com a cabeça.
Aqueles olhos…
Nunca tinha visto olhos mais bonitos, talvez apenas os de um jovenzinho que mora na cobertura do meu apertamento mas o tom é diferente. Ao contrário daqueles, os do rapaz na minha frente eram tristes.
Aquilo mexeu comigo, afinal era meu sobrinho…
Comecei a imaginar pelo que ele passou para que ficasse com essa expressão.
“Que tipo de mãe a Hannah havia sido?”
“O que aconteceu para que ele precisasse roubar comida?”
“E quem fez esse corte no seu rosto?”
O papel com a liberação para a adoção ainda estava na minha mão, parecia que queimava. Olhei para o garoto, ele olhava para mim também, imensos olhos azuis.
Olhei para a atendente, ela também me olhava, com olhos esperançosos.
Engoli em seco.
_Sou seu tio — me apresentei.
Ele me olhou com mais interesse.
_Tio Claude? — sua voz era bonitinha também, meio infantil.
“Quantos anos será que tem? Doze? Treze?”
_Sim — respondi e ele deu um pequeno sorriso. Com certeza a Hannah falou de mim para ele — Quantos anos tem?
_Catorze.
Ficamos nos olhando por alguns minutos.
A atendente me chamou discretamente.
_Senhor Faustus? O documento… o senhor vai assinar?
_Ah, claro.
Desviei os olhos do loiro e peguei a caneta, encostei na linha tracejada pronto para assinar.
Algo me impediu. Um aperto no peito…Bobagem...
Escrevi meu primeiro nome…
Dei uma última olhada no garoto. A expressão triste havia voltado, o pequeno sorriso que momentos antes se desenhara naqueles lábios rosados havia sumido por completo.
Desenhei o F do meu sobrenome e larguei a caneta, ela rolou pelo balcão e bateu na parede sem cair no chão por causa do barbante.
Peguei a folha e a rasguei.
O som do papel rasgando atraiu a atenção do Alois que fixou os olhos em mim.
_Quais são os procedimentos para a guarda? — perguntei.
Ela pareceu feliz, pediu um instante e saiu da sala.
“Espero que não me arrependa de ter um adolescente na minha casa…”
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