Você quer ser meu?

12 Uma mudança e dois convites


Notas iniciais
Oie pessoal. Demorei muito? Juro que eu não tive culpa. Semana difícil. Serei sincera. Achei esse capítulo meio parado mas ele dá os ganchos necessários para coisas que vão acontecer mais para frente. Então tenham boa vontade e não me abandonem. Boa leitura.

Quando o Alois entrou em casa naquele sábado, quase na hora do almoço eu tive a certeza que algo havia acontecido. Ele estava diferente e parecia aéreo.

_O que vamos almoçar? — perguntei quando ele saiu do banheiro de banho tomado.

Tinha lavado os cabelos e eles pingavam na camiseta roxa que estava usando. Ele nunca seca os cabelos direito. Chamei ele para que se aproximasse.

_Não sei. Vou ver o que vou preparar — respondeu e sentou-se no tapete entre as minhas pernas onde eu havia indicado, comecei a massagear o seu cabelo com a toalha, tirando o excesso de água.

Já fazia um tempinho que ele se encarregava da cozinha, principalmente quando ficou provado que eu nunca ia conseguir cozinhar algo decente.

_Nós podíamos almoçar fora. Que tal? — tirei a toalha que cobria os seus olhos. Eles me pareceram tristes — O que aconteceu?

Ele deu um meio sorriso.

_Nada. Está tudo bem.

Mas ele não me olhou nos olhos. Nós estávamos muito próximos e ele não tentou roubar um beijo meu, nem falou nada para me constranger.

_Ei, que desânimo é esse? — cutuquei seu ombro.

Ele apenas sorriu e negou com a cabeça.

Fiquei preocupado, se eu descobrir que aquele Andrew fez alguma coisa com o Alois eu bato nele. Não quero nem saber se eu sou um adulto e ele não; vou esperar ele se afastar da escola e dar uma surra naquele garoto. Só a ideia de alguém maltratando o Alois já fazia o meu sangue borbulhar de raiva.

Não podia deixar ele continuar daquele jeito. Tinha que dar um jeito de animar o Alois.

_Vamos almoçar fora, está decidido — afirmei — Deixa só eu tomar um banho e me arrumar.

Levantei do sofá e fui ao banheiro. Ouvi a voz do Alois gritar lá da sala:

_Quer companhia?

Sorri comigo mesmo. Talvez fosse apenas impressão minha. Talvez ele estivesse normal.

_Nem pense nisso, Alois.

Fechei a porta e só por segurança, tranquei.

Fomos à um restaurante do outro lado da cidade, ele ficava numa área bem arborizada e tinha mesinhas ao ar livre. Escolhemos uma mesa externa: o dia estava lindo demais para ficarmos num lugar fechado.

Pedimos uma massa: molho vermelho para mim e molho branco para ele.

Mas eu percebia que Alois não estava bem, corava do nada e evitava olhar nos meus olhos, mantendo sua vista longe.

_Aconteceu alguma coisa. O que foi?

Ele pareceu acordar de um sonho.

_Hã… Ah, nada. Não foi nada. Está gostoso, não é? — disfarçou e enrolou mais um pouco de macarrão no garfo.

Tomei um gole do vinho da minha taça. Queria descobrir o que tinha acontecido mas respeitei o seu silêncio.

Vários minutos se passaram antes do Alois quebrar o silêncio.

_Claude — chamou — Você acredita nos meus sentimentos?

Quase engasguei com a comida.

_A-acredito. Eu sei que você gosta de mim.

Ele apertou o talher com mais força, mas não me olhou no rosto.

_É mais do que gostar — corrigiu e eu tomei mais um gole do vinho tinto.

_E-eu sei, Alois. Eu acredito.

Ele tomou metade do refrigerante do copo antes de voltar a falar.

_Eu te irrito muito com as minhas provocações?

_Bem…

_Você odeia quando eu te provoco? Se sente mal?

Suspirei e ajeitei meus óculos.

_Não, eu não odeio. Nem me irrito. Mas sim, eu passo mal com elas.

_Passa?

_Claro. Você vive me provocando, testando meu auto-controle.

Sorri para ele e ele abriu um sorriso lindo. O sorriso que eu amo ver.

_Você sente alguma coisa por mim?

Dessa vez ele me olhou nos olhos. Os grandes olhos cristalinos que eu queria mergulhar.

_Eu gosto de você, Alois.

_Gosta????

Alois se iluminou com esperanças.

_Claro. Você é o meu sobrinho.

_Ahhhh.

Ele murchou mas eu sorri para ele e segurei a sua mão por cima da mesa. Entrelaçamos os nossos dedos e terminamos a refeição de mãos dadas. Com certeza não era uma atitude de tio e sobrinho mas eu fiz, e gostei da sensação dos dedos finos e mornos do Alois nos meus, sua mão era pequena e macia.

Só nos separamos quando chegou a sobremesa: mousse de três chocolates para mim e um gigante petit gateau com direito a muito sorvete para Alois. Tive que comer olhando para o outro lado — Alois e a mania dele de tomar sorvete de modo indecente!

Terminamos nossa refeição e voltamos para casa. Alois precisava terminar um trabalho de escola e eu tinha que adiantar o meu livro, do contrário Daniel comeria meu fígado.

Nos dias que se seguiram, eu percebi o mesmo comportamento no Alois, ele realmente estava diferente: mais calado, mais na dele, muitas vezes eu percebia que ele estava conversando por Whats com alguém e quando eu perguntei quem era ele me respondeu que era com o Andrew.

Me peguei sentindo falta das provocações do Alois, das insistências dele, das tentativas de sedução e de beijos roubados. Até os selinhos que eu meio que tinha me acostumado com eles e já nem tentava fugir muito, diminuíram bastante.

Juntei A + B e o ciúme bateu feio. O Alois estava envolvido com o Andrew, por isso estava se afastando de mim.

Eu estava perdendo o Alois.

Daí para frente minha cabeça virou uma bagunça, não conseguia escrever mais nada, parei de responder os e-mails do Daniel novamente e desliguei o celular para ele não me encontrar; mas eu sabia que isso era impossível: mais cedo ou mais tarde ele iria vir aqui em casa. A única coisa que eu pensava era no Alois junto com o amigo, que agora não era mais amigo. E me torturava porque fui eu que falei para ele se envolver com o garoto.

“Cara burro!!!” — eu me xingava mentalmente.

Ele também percebeu que eu tinha mudado. E num sábado de manhã ele bateu na porta do meu quarto. Era nove e quarenta da manhã e eu ainda estava na cama, não tinha conseguido dormir quase nada depois de um pesadelo horrível do Alois com o Andrew, meu estômago doía terrivelmente por causa da gastrite nervosa e, deve ter sido por isso que eu assustei o Alois quando abri a porta.

Alois até deu alguns passos para trás quando viu o meu estado.

Abri a porta e voltei para a cama.

_Você está bem?

_Estou — menti — Um pouco de dor no estômago.

Alois entrou no quarto e sentou na beirada da cama. Cobri meus olhos com a curva do braço.

_Quer algum remédio?

_Não precisa.

Alois já se encarregava de não me deixar perder os horários das medicações. Não havia o que fazer, a dor tinha fundo emocional: ciúme.

_Está com fome. Vou preparar algo.

_Não. Deixa.

Ele segurou minha mão e eu tirei o outro braço de cima dos olhos. Olhei para ele mas o quarto ainda estava no escuro então não pude vê-lo bem. Apenas um pouco do reflexo dourado dos seus cabelos mas sentia o cheiro do Alois, cheiro de shampoo e o perfume suave que ele usava. Tão bom!

_O que você tem, Claude? — me perguntou e eu consegui ver um pouquinho o cenho franzido dele.

Neguei com a cabeça.

_Nada — falei baixo.

_Eu não acredito. Você está estranho. O que está acontecendo?

“Estou morto de ciúme de você. Não queria que estivesse com o Andrew e agora é tarde. E eu não posso fazer nada porque eu não posso ficar com você” — era o que eu queria gritar para ele.

Mas não falei, fiquei em silêncio e neguei com a cabeça.

_Claude… — ele passou os dedos nos meus cabelos — Não fique assim. O que está acontecendo? Estou ficando preocupado… Passou a semana inteira desse jeito.

Nossas mãos estavam entrelaçadas desde que ele a havia segurado. Apertei mais seus dedos nos meus.

_Você também anda estranho.

Eu queria que ele tivesse negado, dito que não estava não e que tudo não passava de impressão minha mas Alois desviou os olhos dos meus e os fixou no chão.

Foi a minha vez de perguntar.

_O que está acontecendo?

Ele deu um sorrisinho torto e negou com a cabeça.

Éramos dois péssimos mentirosos.

Eu queria perguntar. A pergunta estava queimando na minha garganta mas não tinha coragem de questionar se ele estava tendo alguma coisa com o Andrew.

_Você está distante de mim — comentei e massageei os nós dos dedos dele.

_Você sente falta? — perguntou com voz suave.

Demorei um pouco pensando no que eu deveria fazer. Resolvi falar a verdade.

_Um pouco.

Percebi na penumbra que Alois mordia o lábio inferior, mas ainda não olhava nos meus olhos. Levei minha mão ao seu rosto e acariciei sua bochecha, ele encostou mais o rosto na minha mão numa atitude super doce.

_Mas você não me quer.

Afastou um pouco o rosto, interrompendo o carinho e eu deixei minha mão cair no colchão.

_Eu não posso, Alois. É diferente. Querer e poder não são as mesmas coisas.

Eu estava me abrindo demais para o garoto. Muito provavelmente foi uma insensatez deixar subentendido que eu o queria. Talvez eu estivesse alimentando um sentimento que eu não poderia corresponder. Até nisso eu era culpado, porque eu não o tomava para mim mas também não o deixava livre. Era egoísmo eu sei, mas não conseguia impedir.

Alois então soltou a minha mão e eu achei por um segundo que ele sairia do quarto mas logo ele se jogou sobre mim e me abraçou. Envolvi meus braços ao redor do tronco magro de Alois e o apertei contra mim. Ele afundou o rosto no meu peito e eu acariciei seus cabelos.

Ele estava todo torto, então eu me ajeitei na cama, dando espaço para que ele também se ajeitasse ao meu lado. Alois se encaixou perfeitamente em mim: a cabeça sobre o meu peito, uma mão sobre meu abdome e uma das pernas flexionada sobre as minhas. Achei muito bom o contato do corpo dele juntinho ao meu. Continuei acariciando, ora seus cabelos ora suas costas cobertas pela blusa do pijama.

Senti ele suspirar profundamente.

_Que azar nós sermos parentes, não é?

_Sim. Muito azar — lamentei também.

_E eu ser bem mais novo…

_Isso também não facilita — respondi olhando para o teto. Estava começando a ficar incômodo ter o Alois assim tão perto de mim. Seu cheiro...seu calor… os dedos delicados traçando desenhos sobre o meu abdome…

_Se não fosse isso. Você teria olhado para mim? -perguntou e levantou a cabeça para me olhar.

Ainda que estivesse penumbra, vi os reflexos dos seus olhos brilhantes.

_Talvez. Você é bonito demais para passar desapercebido.

Alois sorriu e voltou a deitar no meu peito.

_Mas eu estou feliz que sejamos parentes — comentou.

Estranhei porque achei que ele não quisesse que tivéssemos nenhum laço sanguíneo, talvez assim pudéssemos viver nossa história juntos.

_É mesmo???

Ele voltou a se levantar e me olhar.

_Sim. Porque assim eu te conheci.

Acariciei seu rosto, estávamos tão próximos…

“Será que eu devo?” — pensei.

_Também estou feliz por ter te conhecido — falei baixinho e puxei lentamente o Alois para mim.

Ele não mostrou resistência nenhuma, deitou-se sobre mim e apoiou as mãos no meu peito.

Seus lábios se encaixaram perfeitamente nos meus, a boca dele era quente e tinha um gosto doce muito bom.

O beijo foi ótimo. Calmo e cheio de sentimento. Não aquele cheio de luxúria que nós trocamos no dia da briga. Movemos nossos lábios em sincronia, cada um dando espaço para que o outro explorasse a boca.

E o milagre foi feito. Minha dor de estômago passou num passe de mágica e eu nem me lembrava mais da noite mal dormida, nem do pesadelo. Eu tinha Alois na minha cama, tinha ele preso nos meus braços e estava beijando sua boca.

Dei um impulso e o virei, deitando-o na cama e ficando por cima dele.

Continuamos nos beijando, e isso era perigoso porque eu estava começando a ficar excitado. Mesmo tomando todo o cuidado para manter o beijo calmo, mesmo mantendo minhas mãos paradas e tentando não pressionar tanto o corpo do Alois contra o meu.

Mas...Caramba! Eu estava com o Alois… finalmente eu estava beijando ele, depois de tanto tempo, desde o dia em que nós transamos eu sonhava com o toque daqueles lábios de novo.

O problema é que eu estava me controlando mas o Alois não. Toda hora ele tentava aprofundar o beijo, indo com mais ímpeto, mordiscando meus lábios, passeando com as mãos pelas minhas costas, tentando puxar minha camiseta para cima e gemendo baixinho. Era uma tortura para mim e estava difícil contê-lo.

Eu não queria mas não teve jeito. Encerrei o beijo.

_Claude — Alois choramingou e tentou voltar a me beijar.

Afastei seus cabelos do rosto e encostei nossas testas. Estávamos ambos com a respiração acelerada.

_Não podemos — sussurrei.

Senti Alois bufar mas não fez menção de se afastar.

Voltei a deitar ao seu lado. Alois estava frustrado e eu também, é claro. Mas não havia o que fazer, se nós continuássemos, íamos transar com toda certeza, afinal estávamos os dois na cama e estávamos gostando demais do beijo, mais hora menos hora minha resistência seria vencida e eu iria me deixar levar pelo desejo.

Mesmo contrariado, Alois deitou-se ao meu lado e se aconchegou à mim. Liguei a TV para distrair e ajudar a baixar o calor que eu estava sentido.

Levantamos perto do meio-dia, meu estômago não doeu mais.

“Talvez o meu remédio seja Alois” — pensei e ri do pensamento bobo. Para isso eu teria que estar perdidamente apaixonado por ele.

“Talvez eu esteja” — e o pensamento me assustou. Fazia muito tempo que eu não me apaixonava e a última vez tinha sido traumatizante demais.

Afastei os pensamentos lúgubres e resolvi aproveitar o final de semana com Alois. Fomos almoçar fora, passeamos, comprei um jogo novo para ele e alguns livros também. Alois tomou um sorvete mesmo com o tempo não muito quente e é claro, eu passei mal novamente vendo o jeito que ele lambia o sorvete. Ele se limitou a rir da minha cara e piscar um olho.

Mas quando fui buscá-lo na segunda-feira, o Alois quieto havia voltado. Esse não era o Alois que eu conhecia. Como ele podia mudar tanto? O que estava havendo???

Não adiantou nenhuma das minhas tentativas de descobrir o que ocorria e eu comecei a pensar seriamente em interrogar o Andrew para saber.

Na terça-feira ele piorou, nem olhava direito no meu rosto e minha dor de estômago voltou com força total.

Na quarta-feira de manhã, eu deveria aproveitar que o Alois estava na escola e estar escrevendo mas estava largado no sofá, passando os canais de modo automático na televisão, poderia estar anunciando a Terceira Guerra Mundial que eu não prestaria atenção. Minha cabeça estava num certo loirinho. Tanto que quando a porta abriu eu nem notei.

_O que está acontecendo???

Desviei os olhos do aparelho televisivo para a porta.

_Oi Daniel.

Ele soltou um suspiro desolado e pôs as mãos na cintura.

_Por que você sumiu do mapa de novo, Claude?

Me levantei, sentando-me no sofá.

_Não sumi. Você sabia onde me achar.

Ele entrou e fechou a porta.

_Você não pode fazer isso, Claude. Você tem prazo de entrega. Escreveu alguma coisa?

Dei de ombros. Havia escrito oito capítulos antes de entrar na neura.

_Escrevi um pouco.

Me levantei e peguei o tablet, entregando-o para Daniel que o ligou me olhando meio de lado.

Mas Daniel não leu, pousou o aparelho ao seu lado no sofá; depois deu um tapinha no meu joelho.

_Ok. Pode falar.

_O quê?

_Vai logo, desembucha o que está acontecendo. Você e o Alois brigaram?

Olhei para o meu editor. Ele era a pessoa que melhor me conhecia no mundo. Não tinha como tentar enganá-lo.

_Não brigamos.

_Então o que foi?

_Ele está estranho comigo. Está distante, frio…

Daniel se encostou melhor no sofá.

_Está assim sem nenhum motivo? Você não falou nada com ele?

Fiquei em silêncio por um tempo.

_Não.

_Não mesmo?

_Não… Bem, a gente transou…

_O QUÊ?

Sorri vendo o espanto animado de Daniel, eu ainda não tinha contado para ele sobre aquela noite então eu narrei resumidamente tudo o que havia acontecido, inclusive o fora que eu tinha dado no dia seguinte. Contei também o episódio do elevador e tudo mais até eu perceber o modo estranho que ele vinha agindo nessas duas últimas semanas.

Daniel ouviu tudo atentamente com uma mão no queixo, analisando a narrativa.

_Beem, você devia estar feliz!

_Por que?

_Ora, não era isso que você queria? Não foi isso que você falou para o Alois? Não mandou ele se envolver com o amigo????

Baixei a cabeça derrotado.

_Claude, você tem que decidir o que fazer da sua vida. Converse com o Alois e decida.

_Decidir o quê? Eu não posso ficar com ele! — passei minhas mãos pelos meus cabelos, jogando-os para trás.

_Então deixe-o livre para ele namorar quem ele quiser. Esse seu jogo é sujo e imperdoável. Se você ama o garoto, assuma-o. Se não tem coragem, deixei-o livre e seja infeliz sozinho.

Eu estava chocado, Daniel sempre foi muito calmo e agora estava falando aquelas coisas duras para mim pela primeira vez.

_Daniel…

_Daniel nada. Não venha se fazer de chocado. Acha que está certo o que está fazendo? Transa com o rapaz, dá o fora nele no dia seguinte, manda ele procurar outro e na hora que ele resolve se afastar, fica falando que está com saudade e o beija???

_Mas…

_A próxima coisa seria o quê? Ia transar com ele de novo e dar um novo fora? Vai ficar brincando com os sentimentos dele?

_Não vou fazer isso…

Me dei conta que talvez eu fosse fazer isso mesmo. Inconscientemente mas ia.

_Acho bom mesmo. Isso não se faz!

Ficamos em silêncio por vários minutos. Daniel olhando a TV e eu olhando o tapete, me sentindo a pior pessoa do mundo.

_Olha, eu acho que você devia assumir logo que está apaixonado pelo Alois e assumir logo essa relação.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa ele me cortou.

_Sim, eu sei. Você vai falar que ele é seu sobrinho, mais novo, blá, blá, blá, blá. Você já sabe o que eu acho disso também. Então pára de frescura e vamos discutir esse livro que eu acho que não vai sair nunca. Você tem que trabalhar, Claude, desse jeito não dá.

“Puta merda, tô levando a maior bronca da minha vida!”.

Fiquei calado porque depois de ouvir tudo aquilo não tinha o que falar mesmo.

Daniel ligou o tablet e começou a ler os capítulos. Eu já tinha enviado os três primeiros para ele, então a leitura foi mais rápida ainda. Discutimos a trama e o destino dos personagens. Não era para ser um livro grande, no máximo vinte capítulos.

Servi um lanche rápido para ele e já na saída Daniel me entregou dois convites.

_O que é isso? — perguntei.

_Tentei falar com você a semana inteira. A editora vai dar uma festa em comemoração ao novo selo da empresa e você, como um dos escritores do staff, tem que ir.

Daniel indicou os envelopes na minha mão.

_Pode levar um convidado.

Abri o envelope e lá dentro estava o convite em papel com textura na cor creme, letras em dourado e preto sobre a marca d´água do logo do selo: a silhueta de dois homens se abraçando.

Sorri levemente e Daniel falou.

_Tenho que ir agora. Continue escrevendo, Claude — pôs as suas mãos nos meus ombros, segurando-os — E pense no que você quer da vida. Alois não é Peter, ele não vai fazer a mesma coisa que ele. Se dê uma chance e pare de ser idiota.

Só de ouvir o nome do Peter, senti uma pontada no estômago mas tentei me controlar.

_Vou pensar, vou pensar.

Abri a porta para o outro sair.

_Se cuida.

_Você também.



Meio-dia fui buscar o Alois na escola. Ele saiu atrasado e como sempre, acompanhado pelo moreno. Tentei controlar o ciúme, eles não estavam fazendo nada, somente andando lado a lado. Vi Alois acenar com a mão e dar as costas ao Andrew, então o garoto segurou o Alois pela mão e o puxou, senti como se tivesse tomado uma facada no estômago, achei que eles iam se beijar. Se isso acontecesse eu ia atropelar o moreno, mas ele se limitou a abraçar o loiro. Odiei a situação mas não foi tão ruim quanto a possibilidade de um beijo.

Alois correspondeu ao abraço brevemente e depois veio para o carro, caminhando de cabeça baixa.

Não falei nada, não conseguia. Tinha um bolo na minha garganta. Alois também se manteve em silêncio.

Passei o resto do dia com aquilo fervilhando dentro de mim. O jeito do Alois, tudo o que Daniel havia dito, a cena que eu havia visto hoje. Essas coisas tinham virado uma bomba e estava me sufocando.

À noite, enquanto eu estava pondo a mesa e Alois estava na cozinha terminando o jantar, aproveitei para falar da festa.

_Hoje o Daniel veio aqui.

_É mesmo? Deve ser porque você está fugindo dele.

Dei de ombros.

_E então? Aposto que levou um puxão de orelha dele.

_Levei. Mas não é isso que eu quero falar. Em julho vai haver uma festa dada pela editora. Tenho que ir pois vai ser o lançamento do selo de livros BL.

_Ah — comentou.

Peguei a travessa que ele me deu e levei até a mesa.

_Posso levar um acompanhante.

Vi um sorrisinho se formar nos seus lábios.

_Vai ser à fantasia — comentei e vi ele se iluminar — Você quer ir comigo?

_Claro, Claude — sorriu e se jogou nos meus braços. O abracei de volta.

_Mas eu também tenho uma coisa para te contar.

Soltei o abraço.

“Será que ele vai falar que está namorando o Andrew?”

Esse triângulo estava me matando. Eu tinha que tomar uma decisão.

Respirei fundo,

_Fala.

_Eu queria ir numa outra festa também — falou tímido e se sentou à mesa.

Me sentei também.

_Onde? Quando? — comecei o interrogatório.

“Já não bastava a minha festa?” — pensei enciumado,

_Vai ser na casa de uns garotos do terceiro ano. No final de junho. Vai ser em comemoração ao início das férias. Por favor, Claude, deixa eu ir.

_É perigoso.

_Ah não, Claude. Todo mundo vai.

_Você não é todo mundo.

_Que dia vai ser?

_No sábado depois do último dia de aula. Deixa, Claude.

Ele me olhava com olhos pidões. E meu coração começou a amolecer.

_Com quem você vai?

Senti na hora o clima pesar. Eu sabia com quem ele ia, só queria a confirmação.

_Com o Andrew — falou baixinho.

Fiquei em silêncio. A comida não descia mais.

_Você quer ir?

Alois assentiu com a cabeça.

_Então tudo bem. Mas não vai virar a noite na festa. E vai dormir em casa,

Alois sorriu feliz. E mesmo que eu estivesse morrendo por dentro, fiquei feliz porque ele também estava.

_Obrigado, Claude.

Depois do jantar, tomei um banho e fui direto para o quarto.

Coisas demais para pensar.

Decisões difíceis para tomar.

Coragem para encontrar.

Notas finais
Muito bem. É isso. Muito chato? Festas à vista. E elas prometem. kkkkk Beijos