Você quer ser meu?
8 Uma mentira e um bilhete
Notas iniciais
A primeira coisa que eu percebi naquela manhã quando abri os olhos, foi que eu não estava no meu quarto. Então a memória da noite passada voltou: eu estava no quarto do Alois, nós havíamos transado.
Passei os dedos pelos meus cabelos, tentando pôr as ideias em ordem. Olhei para o lado e a cama estava vazia. Era uma cama de solteiro o que quer dizer que tivemos que dormir abraçados o que foi bom.
Bom mas errado!
Sentei-me na cama e ouvi o barulho do chuveiro cessar, logo depois Alois entrou pela porta do quarto usando apenas uma toalha branca enrolada no quadril, tinha lavado os cabelos e eles escorriam água pelo seu pescoço e peito.
_Bom dia, Claude! Estamos adiantados, vou preparar o café daqui a pouco.
Era uma sexta-feira, dia de aula. Passei a mão pelo rosto. Devia ser perto das seis horas da manhã, ainda estava escuro lá fora.
Alois sentou-se ao meu lado e inclinou-se sobre mim, deu um selinho rápido nos meus lábios e eu correspondi mecanicamente.
_Está tudo bem? — perguntou, inclinando o rosto para o lado. Ele estava adorável.
_Tudo — respondi — vou tomar um banho também — disse procurando os meus óculos com o olhar, visualizei-o no chão, debaixo da escrivaninha.
Talvez o meu tom de voz tenha sido um pouco frio, porque quando eu me levantei ele me segurou pelo pulso.
_O que foi? — insistiu.
_Nada.
_Você não parece bem — comentou.
Seus olhos se entristeceram. Eu não queria que ele ficasse triste mas não tinha jeito.
_Eu estou bem — acariciei de leve o seu rosto — E você?
Ele balançou a cabeça, afirmativamente, sorriu. Um pouquinho de animação na voz.
_Então...nós estamos adiantados… podemos ficar ainda um pouco mais na cama — comentou virando aqueles olhos cristalinos para mim — era um convite, um convite tentador.
_Melhor não.
Seu sorriso murchou um pouco.
_Por que não?
Passei novamente a mão pelo rosto, sentei-me na cama, ao seu lado.
_Alois, isso não vai mais acontecer. Nunca mais — falei calmamente. Graças à um curso de oratória eu consigo controlar o meu tom de voz, do contrário ele perceberia que não era nada daquilo que eu sentia.
Alois estreitou os olhos e baixou o olhar para as próprias mãos que estavam pousadas no seu colo. Ele ainda estava semi nu e as gotas que caíam do seu cabelos escorriam pelas costas e molhavam o lençol.
_Você não gostou de mim? Eu fiz algo errado? — sua voz era baixa.
Aquilo doeu em mim, ele achava que eu não tinha gostado. Eu tinha adorado cada minuto que passei com ele, amei cada beijo, cada carícia, cada gemido. Por um minuto eu pensei em jogar tudo para o alto novamente e amá-lo como nunca. Mas eu não podia, tinha errado uma vez e não podia me deixar levar.
“Ele é o meu sobrinho. É uma criança” — mentalizei.
_Não é isso, Alois. Eu gostei — vi ele sorrindo um pouquinho — Mas nós não podemos. Não é correto.
_De novo essa história, Claude? Por que não podemos? Eu quero, você quer… O que nos impede?
_Você é o meu sobrinho.
_Meio-sobrinho.
_Que seja. É parente do mesmo jeito.
Ele balançou a cabeça negativamente.
_Primos se casam, você sabia?
“Garoto danado!” — pensei. Fiquei alguns minutos em silêncio — ele havia me pego de surpresa.
_Mas tio e sobrinho não.
Ele bufou, frustrado.
_Não quero casar com você, não ainda — e ficou muito corado quando disse isso — Só quero uma chance.
_Eu não posso dá-la a você. Desculpe.
Alois segurou o soluço quando a primeira lágrima desceu pelo rosto e eu me senti péssimo.
_Não chore, Alois. Eu não quero te ver sofrer. Por favor, me esqueça. Isso não pode mais acontecer — eu também estava profundamente triste.
“Por que nós tínhamos que ser parentes? Por que ele não podia ser mais velho?”
Eu estendi o meu braço e sequei a lágrima que descia, queria abraçá-lo mas tive medo que ele entendesse errado.
_Olha — falei e ele olhou nos meus olhos — Eu tenho que te pedir desculpa. Eu devia ter me controlado, nem sei direito como isso foi acontecer. Sinto muito — falei por fim, se eu tivesse me segurado agora ele não estaria chorando.
_Sente muito?
Fiz que sim com a cabeça mas percebi que tinha algo errado quando vi o jeito que me olhou.
_Sente muito? — repetiu — Você se arrependeu, Claude?
Alois me encarou. É incrível como os olhos dele podem mudar rapidamente, são dois poços de sinceridade, você pode saber exatamente o que Alois está sentindo apenas lendo os seus olhos e eles me diziam agora que ele começava a ficar furioso mas eu sempre fui sincero também e não havia porque eu mentir para ele. Não sobre o arrependimento.
_Arrepender é uma palavra muito forte, Alois. Não me arrependo do ato em si, fui eu que fui para cima de você e eu gostei muito de tudo. Eu me arrependo de mim, de ter sido fraco e não resistido à você. Eu fiquei cego de ciúme, achando que você estava afim de outro. Foi burrice minha. Fui um idiota, fiquei com ciúme quando na verdade tinha que ficar feliz por você estar se interessando por outro. Andrew é quase da sua idade, vocês combinam.
Aquilo me dilacerou. Como eu podia mentir tanto sobre os meus sentimentos??? Nem eu acreditei que estava falando aquilo. Estava mesmo dando a minha permissão para o Alois procurar o Andrew? Mesmo depois de ter um ataque de ciúme e ter transado com ele?
A próxima coisa que aconteceu foi um estrondoso tapa que eu tomei na cara. Ele tinha a mão bem pesada pois eu senti meu rosto latejando e queimando. Olhei para ele e o vi na minha frente, os olhos frios e furiosos para mim.
_Você tem razão, Claude. É um burro e idiota também. Saia do meu quarto agora!
Seu tom de voz não deixou margem nenhuma para que eu tentasse acalmar a situação. Me levantei da cama e caminhei para a porta, não sem antes ficar quase de quatro para pegar o meu óculos debaixo do móvel. Assim que eu saí ele bateu a porta do quarto do força. Eu me sentia horrível.
“Acho que dessa vez não tem mais volta!” — pensei e me surpreendi o quanto aquilo me deixou triste.
Fui para o banheiro tomar um banho antes que desse a hora de levar o Alois para a escola. Foi um banho rápido mas quando saí de lá, já vestido com uma calça jeans escura e blusa preta, Alois estava com a mochila nas costas e se preparava para sair.
_Espera, eu vou te levar — eu sempre levo ele, mesmo que a escola fique a três quadras de casa.
_Eu vou sozinho — falou baixo sem olhar para mim.
_Pára de bobeira. Eu te levo — falei procurando meus sapatos.
Alois negou com a cabeça.
_Você me dispensa por um motivo fútil e ainda vem falar que é bobeira? — Ele olhou para mim e eu vi o quanto seus olhos estavam vermelhos — Você é patético, Claude.
Ele abriu a porta e saiu, batendo-a nas suas costas. Depois de alguns segundos, abriu-a novamente e colocou a cabeça para dentro.
_E não vá me buscar. Eu volto sozinho!
A porta bateu novamente e eu fiquei igual à um idiota, parado no meio do corredor e me sentindo quebrado por dentro.
POV Alois
Saí pisando duro. Peguei o elevador e desci até o térreo, respondi o cumprimento do porteiro com um aceno de cabeça e ganhei a rua. A escola não fica longe e eu andava depressa.
Não queria ver nunca mais a cara do Claude. Mentira, eu quero ainda vê-lo, mas estava muito puto com ele. Eu não planejei nada daquilo e olha que eu venho o provocando há meses, se eu soubesse que Claude ia perder a cabeça e que nós íamos fazer sexo por causa de uma crise de ciúme de mim com o Andrews eu já teria fingido que tinha algo com o meu amigo há muito tempo. Mas ontem, eu e ele só estávamos brincando mesmo e eu tinha riscado a sua camisa do uniforme.
Não foi exatamente como eu tinha imaginado a nossa primeira vez. normalmente o Claude é muito controlado e sempre está me afastando, então eu pensei que isso só fosse acontecer — e se fosse acontecer — mais para o futuro. Eu nunca imaginei que ele fosse agir daquela maneira, num minuto estávamos discutindo e eu sei que agi errado, pensei que ele estaria furioso comigo, então ele me beija daquela forma e...uau...me deixou sem fôlego e depois me abraçou forte e aquelas mãos passeando pelo meu corpo. Era o meu sonho se tornando realidade — de novo.
Foi muito bom, ele agiu tão natural e estava com tanta paixão… Infelizmente ele não foi o meu primeiro parceiro mas foi o primeiro com quem eu cheguei ao orgasmo, isso porque ele foi gentil, e fez coisas que nunca ninguém tinha feito comigo. E eu gosto dele.
Nas mãos do Claude eu fui às nuvens. Pena que nada dura para sempre e agora ele tem a coragem de me dizer que é para eu ir procurar o Andrew!
Que ódio!!!
“Eu sei que ele gosta de mim. Eu sei” — pensei enquanto subia as escadas e entrava no pátio.
_Ei, Alois — ouvi a voz e me virei para trás a tempo de ver o Andrew terminando de subir as escadas. Ele sempre vem à escola a pé, diz que isso faz bem à saúde — ele é todo metido a saudável mas nunca faz as aulas de educação física, diz que não gosta de esportes coletivos, prefere se exercitar sozinho.
_O-oi — falei quando ele me alcançou.
_O que aconteceu? — perguntou preocupado quando viu meus olhos vermelhos, pôs a mão no meu ombro — Ele não te bateu, não é?
_Ah não. Claude jamais me bateria — falei enxugando uma lágrima teimosa.
_Parem de namorar, suas bichinhas — um idiota do terceiro ano passou e bateu com força no ombro do Andrew, desequilibrando-o e como nós estávamos próximos, me desequilibrando também, o cara continuou andando como se não tivesse feito nada e eu tive que segurar o braço do Andrew que já dava impulso para ir tomar satisfação.
_Deixa. Isso não tem importância.
Eu já estava acostumado com esse tipo de provocações. Passei toda a minha vida ouvindo isso, até mesmo da minha mãe. Mas o Andrew não, ele sempre ficava bravo, e com razão, quer dizer, eu acho que ele não é gay, afinal quando eu falei, ele apenas assentiu e me chamou para tomar o lanche junto com ele. O Andrew é um desses caras com a cabeça aberta, sem preconceito, ele vê as pessoas e não os rótulos que a sociedade coloca.
_Esse cara é muito imbecil! Que raiva! — ele deslocou os olhos para o meu rosto — A briga foi muito feia?
Me lembrei de como tinha sido a noite e senti o rosto ficando vermelho. Tentei me controlar.
_O pior foi hoje de manhã — falei enquanto caminhávamos até os nossos armários, logo daria o sinal para a primeira aula.
_Desculpe. Acho que causei problemas para você.
Joguei minhas mãos para o alto.
_Ahhhh — gritei, não muito alto — Chega de me pedirem desculpa. Você não fez nada de errado, relaxa.
_Não mesmo? — me perguntou, nós abríamos os armários e pegavámos o livro de geografia que seria a primeira aula e depois inglês.
_Não — respondi — De certo modo foi até bom.
_Sério? — nós caminhávamos para a sala de aula, tentando nos esquivar do fluxo de alunos.
Sorri para ele em resposta. A raiva do Claude já estava passando e eu tendia a me lembrar apenas da noite que tivemos, deixando de lado a discussão matinal.
_Então? Vai me contar o que houve?
Andrew sabia que eu nutria sentimentos nem um pouco puros pelo meu meio-tio. Ele se abstinha de dar a opinião sobre o relacionamento, mas ouvia atentamente todas as provocações que eu fazia e as situações que eu criava. Acho que era um fetiche dele, então, todos os dias eu narrava o que eu tinha feito no dia anterior e como Claude escapava de mim.
_Você não vai acreditar no que houve quando você saiu — falei dando um sorriso torto e sabendo que meus olhos brilhavam de malícia.
_O quê? — ele mal segurou a saliva na boca. Então eu aproveitei os minutos antes da aula começar e resumi o que tinha acontecido.
_Não acredito!!! — exclamou quando terminei de contar, Andrew pôs a mão na boca.
_Não disse que você não ia acreditar?
_E agora? Vocês estão namorando?
Andrew sentava-se na cadeira de frente à minha, nossa fileira era a da janela que era enorme mas não abria por causa do ar condicionado, tinha insulfilm em tudo para não deixar o sol atrapalhar; ele estava virado para trás, com a mão apoiada na minha mesa.
_Acho que não. Ele me deu o fora hoje de manhã.
Ele torceu a boca.
_Que droga! — lamentou solidário à minha dor, ele sabia o quanto eu gostava do Claude.
_É — encolhi os ombros — Não foi dessa vez que ele deu o braço a torcer. Sabe o que ele disse?
_O quê?
_Que eu devia me envolver com você. Que a gente combina.
Percebi que Andrew arregalou um pouco os olhos e deu um suspiro. Nossa amizade era recente mas muito forte, eu podia falar isso sem correr o risco dele achar que eu estava dando em cima.
_O que você vai fazer? Quer dizer… em relação ao Claude.
_O que eu sempre faço — dei de ombros — Continuar provocando até ele perceber que gosta de mim.
_Ah…
Nossa conversa foi interrompida pela entrada do professor na sala de aula. Andrew virou para a frente.
Alguns minutos depois ele me passou um bilhete por baixo do braço sem nem virar para trás. Estendi a mão e peguei o papel dobrado, escondi no meu colo, olhei para os lados para ter certeza que ninguém estava vendo e o abri.
“É uma droga o Claude ter te dado o fora. Eu, no lugar dele, jamais teria dispensado alguém como você.”
“Wooooww, o que foi isso?” — senti meu rosto pegando fogo. Olhei para as suas costas, não podia ver seu rosto mas as pontas das suas orelhas estavam tão vermelhas como o meu rosto deveria estar.
_Senhor Trancy? Está passando bem?
_Tudo, professor.
Dobrei o bilhete e o coloquei no bolso, sem saber o que fazer.
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