Você quer ser meu?
6 Uma história - POV Alois
Notas iniciais
Eu estava sentado naquele banco duro de madeira desde a manhã daquele dia mas até aí, nada de novo. Já fazia um mês que eu estava naquela casa de custódia e desde a primeira semana eu tinha conseguido permissão para ficar ali na recepção. No começo tinham ficado com medo que eu fugisse mas eu não tenho para onde ir e ali pelo menos eu tenho um teto e não preciso usar caixas de papelão para me cobrir em algum beco que me serviria de quarto naquela noite. Na noite seguinte eu procuraria outro beco num outro quarteirão — era assim todas noites, eu nunca ficava mais de dois dias no mesmo local, nunca se sabe quem pode te encontrar e o que vão fazer com você. Mas depois se acalmaram, e acabaram me deixando passar os dias ali.
Muitas vezes eles achavam que eu estava cochilando mas na verdade eu estava atento à tudo e quando, naquele fim de tarde o homem entrou no saguão da casa de custódia que era o mesmo do Juizado de menores, o fato não me passou desapercebido. Olhei a figura masculina que olhava para os dois lados, meio perdido, sem saber para onde se dirigir, por baixo do meu capuz — ele não veria o meu rosto, muito bem escondido — mesmo assim, eu não dei importância. Diariamente iam e vinham muitas pessoas para resolverem seus problemas ou para resgatarem os seus filhos.
Eu não tinha ninguém para me resgatar e se a Hannah aparecesse, aí sim eu iria fugir, com toda a certeza do mundo.
Sabe quando você se sente tão sozinho que tem vontade de sumir?
Sabe quando você não tem esperança nenhuma de ser feliz?
Sabe quando você sabe que não tem ninguém e que se você morresse, ninguém iria sentir a sua falta?
Era assim que eu me sentia. Eu fugi de casa aos treze anos, fugi de verdade para nunca mais voltar, porque eu já vinha de um período de dois anos em que eu fugia por alguns meses e depois voltava. Eu não podia dar chance que ela me vendesse de novo. Nenhum carinho ou beijo que ela me desse valiam à pena eu ter que fazer aquilo de novo.
Embora que quisesse desesperadamente que a Hannah me amasse, acabei me conformando com a verdade: a Hannah nunca iria me amar, eu nunca seria o seu filho amado e ela nunca seria uma mãe carinhosa. Desde pequeno ela sempre me disse que eu era um estorvo, um empecilho, mas ela nunca tinha me posto para fora e eu servia para limpar a casa e cozinhar e à noite, quando ela começava a receber os seus clientes, eu me fechava no quarto e punha os fones no último volume para não ter que ouvir os barulhos que escapavam pela porta.
Era difícil ter uma mãe daquela. Ela era violenta e drogada e por muitas vezes me espancava de modo que eu tenho várias cicatrizes, mas ainda estou feliz porque nunca fraturei nenhum osso e as cicatrizes não são tão aparentes — acho que tenho uma cicatrização boa.
Quando eu saí de casa, foi para nunca mais voltar. Eu me lembro como se fosse hoje, saí de manhã, como se estivesse indo para a escola, a Hannah estava dormindo então não me viu, mas ela nunca via mesmo. Preparar o café da manhã para o filho não ir para a escola de barriga vazia? Imagina. Dar um beijo de despedida e entregar o lanche para a hora do intervalo? Nem em sonho ela faria isso. Se eu quisesse comer, eu que me virasse. Então, naquele dia, eu saí com a minha mochila nas costas como se estivesse indo para a escola, mas dentro dela estava algumas roupas minhas, meu celular (que era muito velho e não funcionava direito pois eu tinha achado no lixo) e um pouco de dinheiro que eu tinha conseguido poupar da compra de comida. Se eu tivesse acesso à todo o dinheiro que ela ganhou me vendendo eu com certeza teria bem mais, mas duvido que ela ainda tivesse algum, provavelmente fumou ou cheirou todo o meu dinheiro.
Peguei um ônibus para o outro lado da cidade. Era uma cidade pequena, nos arredores de Nova York, para onde eu queria ter ido mas não tinha dinheiro para a passagem então o máximo de distância que eu consegui da minha casa foi o outro extremo da cidade. Lembro que quando desci, no ponto final, pensei:
“E agora?”
E agora que eu não sabia o que fazer, sentei num banco de uma praça e fiquei lá o dia todo. Tinha levado alguns biscoitos e uma garrafa de água e isso foi o meu almoço e a minha janta. Meu celular não tocou nenhuma vez naquele dia e eu fiquei tentando lembrar se ela se lembrava que eu tinha um. Dormi naquele banco e no dia seguinte também.
Depois de três dias meu celular tocou. Não identifiquei o número mas atendi assim mesmo. Era ela, reconheci pela voz quando falou:
_Alois?
_Hannah?
_Oh, graças à Deus, Alois. Onde você está, meu filho?
“Uau, até parece uma mãe de verdade” — pensei.
_Não vou dizer onde estou. Eu..eu não vou voltar, Hannah.
Meus olhos ardiam com as lágrimas represadas.
_Mas por quê?
_Eu não quero mais ter que passar pelas coisas que você me faz passar.
Ela ficou um tempo em silêncio.
_Que coisas? — seu tom de voz mudou, de doce para irritado, ela nunca conseguiu manter a máscara por muito tempo — Eu sempre te dei tudo: casa, comida, escola — tudo!
_Me deu também socos, chutes, murros e ultimamente outras coisas também. Eu não quero mais! Já tinha dito que eu odiava fazer o que você faz.
Eu falei com calma, não tinha raiva na minha voz. Eu não tinha raiva da Hannah, só muita tristeza.
_Você sempre fez por merecer as surras, Alois. Agora pare de imbecilidade e volte para casa já.
_Não vou voltar.
_Por quê?
_Porque não quero ser uma puta como você.
_Seu cretino. Seu viadinho de merda. Eu sei muito bem que você gosta de dar o cú. Tá fazendo manha por quê, hein???
_Hannah… — tentei dizer mas ela me interrompeu quase gritando no telefone.
_Hannah, o caralho. Pára de fazer doce e vem logo. Eu não sei porquê eles querem tanto você, seu merdinha. Deve ser porque tem essa carinha doce mas é um putinho, não é? Eu descobri que você vale muito, é a minha mina de ouro, Alois — seguiu-se alguns segundos de silêncio e voltou a falar -Venha logo senão eu vou mandar uns amigos meus te procurarem. E vou dar você de brinde para eles, uma noite inteira com cada um. Então se você não quiser ser arrombado, volta agora.
As lágrimas já desciam descontroladas pelo meu rosto, abafei um soluço com a mão e então desliguei o telefone. Guardei o aparelho desligado dentro da mochila, puxei minhas pernas para o peito, escondi o rosto no espaço formado e chorei.
Depois desse dia, passei a circular pelo bairro, sempre morrendo de medo que os tais amigos da Hannah me achassem. Por duas vezes eu vi uma van preta circulando, com vários homens dentro, passavam devagarinho pelas ruas, com os integrantes olhando para o lado de fora. Não sei se eram eles, se estavam procurando outra pessoa ou se era só paranóia minha, mas eu não podia me arriscar. Sempre me escondia quando via essa van.
Meu dinheiro acabou depois de uma semana. Tentei arranjar um emprego, mas quem dá emprego para um adolescente sujo e com cara de esfomeado como eu estava? Um carinha de uma lojinha de conveniência, era um mini mercado. Eu vi a placa de Precisa-se de ajudante e entrei. Ele me olhou desconfiado quando eu disse que queria o emprego. Me perguntou onde estavam meus pais e eu menti que tinham morrido, contei a maior história, que estava na rua porque meus parentes não me queriam, que tinham tentado me matar por causa da pouca herança; no fim quase implorei pelo emprego, então ele me deu um dia para provar que eu conseguia dar conta.
E foi moleza, o trabalho consistia em limpar os corredores e as prateleiras com os produtos, repôr as mercadorias conforme acabavam e só. Ele me deu comida e me fez tomar um banho no quartinho dos fundos do mercadinho. Aquele quartinho se tornou a minha casa por quatro meses. O cara era bem legal e eu guardei um dinheirinho pois ele não me cobrou o aluguel, então eu só gastava com a comida.
Até que num dia um cliente do mercadinho me abordou. Ele era um cliente assíduo então não estranhei quando ele veio falar comigo, ele sempre vinha. Perguntava onde estava tal ou tal produto, comentava sobre o clima ou o jogo de futebol americano da noite anterior, essas coisas. Mas naquele dia, o dono do mercado estava do lado de fora, varrendo a calçada e eu estava repondo algumas latas de refrigerante na geladeira quando ele veio na minha direção, achei que ia perguntar sobre algum produto mas não, chegou muito próximo de mim e passou a mão no meu traseiro, me assustei e o empurrei.
_Que isso, cara???!! Tá louco??? — exclamei.
_Ah, vai dizer que você não gosta? — sorriu safado.
_Não, não gosto. Cai fora.
_Ah, mas você é quase uma menina. Vem cá, vem. Me deixa ver o que você tem aí — apontou para o meio das minhas pernas e veio na minha direção de novo.
Pensei em correr mas ele foi mais rápido. Me agarrou e me arrastou para os fundos do mercado onde ficava o pequeno depósito. Gritei e esperneei mas ele era mais forte que eu e me segurava pela cintura. Estávamos no corredor das bebidas e eu consegui passar a mão numa garrafa de vinho, era um vinho barato, peguei a garrafa pelo gargalo e a quebrei na sua cabeça. Ele me largou imediatamente.
_Seu filho da puta. Agora você vai ver, seu viado.
Ele veio para cima de mim e eu agarrei uma nova garrafa, pronto para me defender. Nessa hora o dono entrou correndo, muito provavelmente por causa da barulheira. Fiquei aliviado pois agora eu estava a salvo, então o cliente se virou para o dono.
_Cara, esse teu empregado é louco. Olha o que ele fez comigo? — falou ofendido.
Arregalei os meus olhos — era muita cara de pau!
_É mentira! — exclamei — Ele tentou me agarrar. Queria me levar para o depósito.
_Que isso?! Olha, você me conhece — o cliente falou para o dono — Acha que eu sou o quê? Esse teu empregado é doido. Disse que me queria, que era para a gente ir ali que ia fazer uma coisa que eu ia gostar. Eu falei que não curtia essas coisas e ele ficou doido e me atacou.
Fiquei maluco com aquilo.
_Seu mentiroso desacarado!!! Você é um viado enrustido. Fala a verdade para ele, fala!
Ele não falou nada mas olhou para o dono com aquela cara de “tá vendo como ele é doido?”
Eu tinha esperanças que o dono acreditasse em mim, mas não foi isso o que aconteceu. Ele me despediu do emprego e me despejou do quartinho. Estava de novo na rua.
Mudei para outra região, indo um pouco mais para o centro da cidade. Mas depois de dois dias um cara apareceu. Fiquei na defensiva depois do que tinha passado mas ele chegou na calma, perguntou qual o meu nome e o que eu estava fazendo ali — ele tinha me visto dormindo na rua.
_Então Alois. Eu estou vendo que você está numa pior. Você precisa de um emprego cara!
_Eu sei. Eu vou procurar amanhã — falei.
_Ah, cara. Vai procurar do quê? Vendedor? Manobrista? Atendente? Eles nunca vão dar um emprego para um adolescente como você.
_Por quê?
_Porque é encrenca na certa. Menor de idade não pode trabalhar.
_Tô ferrado — falei desanimado, por isso que eu não conseguia nada.
_Olha, eu tô vendo que você é um carinha legal. Eu tenho um emprego para você.
_Tem??? — tentei parecer apático mas não consegui, estava muito animado. Um emprego era tudo o que eu precisava.
_Tenho sim — ele puxou um cartão do bolso interno da jaqueta e me entregou — Me procure às vinte horas nesse endereço, ok?
Olhei para o cartão preto com o nome dele escrito em branco, no verso do cartão tinha uma pimenta impressa.
_Já vou indo, então. Até lá — se despediu e saiu caminhando enquanto acendia um cigarro.
Eu devia ter seguido o meu instinto que dizia para não procurá-lo mas estava desesperado por dinheiro, eu precisava trabalhar. Eu topava até limpar banheiros.
Então eu me aproximei do prédio pintado de preto e sem janelas, o endereço e o número estavam corretos, só podia ser ali. Na porta de entrada, dois seguranças estavam de pé, usando óculos escuros de noite.
_O que quer aqui, pirralho? — rugiu um quando me aproximei.
_Quero falar com o Tony.
_Dê o fora. Ele tá muito ocupado — falou o outro.
Puxei o cartão do bolso de trás do meu jeans.
_Ele me deu o cartão dele. Disse para eu procurá-lo.
Os dois seguranças se entreolharam.
_Tudo bem. Entre pela lateral — me indicaram o beco do lado do prédio e eu me encaminhei para lá.
Não tinha nem ideia do que era aquilo e qual seria o meu emprego. Mostrei o cartão para o outro segurança dali e ele chamou o Tony pelo walkie talkie. Logo o homem abria a porta e me recebia com um sorriso no rosto.
_Alois!!! Você veio. Garoto esperto.
Tentou me abraçar mas eu me esquivei.
O Tony abriu a porta e me fez entrar. Estava tudo meio escuro e algumas luzes em neon brilhavam numa pista de dança. Acho que era uma danceteria, fiquei pensando no que eu poderia fazer numa danceteria, mas estava animado, eu já me via trabalhando no bar, preparando coquetéis e aproveitando para dançar uma música ou outra.
_Aqui é uma danceteria? — perguntei caminhando alguns passos atrás do Tony.
_É uma espécie — ele olhou brevemente para trás e sorriu.
_É sua?
_Oh não. Eu sou só o gerente, mas qualquer problema que você tiver, é comigo que vai resolver.
Senti uma leve ameaça, mas achei que tinha sido somente uma impressão.
_E o que eu vou fazer aqui? — perguntei animado.
_Ora, você não sabe? — fiz que não com a cabeça e ele completou — Você vai servir os clientes.
_Ah, serei um garçom? Que legal!
_HAHAHAHA você é uma comédia, Alois. Venha, vou te mostrar o seu quarto e depois os seus colegas de trabalho.
Ele apoiou a mão no meu ombro e me conduziu para o fim do prédio. Passamos por várias portas, eu ouvia algumas vozes por trás delas, mas nenhuma se abriu. Agora, tudo era pintado de vermelho escuro e iluminado por luz negra, um longo corredor com dez portas de cada lado. O Tony me conduziu até a penúltima e a abriu. Era um quarto já todo mobiliado. Pintado de roxo, tudo estava na penumbra mas eu consegui ver uma cama de casal com uma colcha de babados no meio do cômodo, não havia janelas e nas paredes havia quadros mostrando corpos de pessoas nas mais variadas posições eróticas.
Lembro de ter pensado que eu precisaria mudar logo a decoração do quarto.
_Nós cobramos dez por cento pelo aluguel.
“Dez por cento do salário? Era um preço até justo”
_E quanto eu vou ganhar?
_Depende de quanto trabalhar. Se gostarem de você pode até conseguir uma boa grana.
Vi uma porta abrir e uma mulher usando um robe sair dali. Achei estranho.
Ela fechou a porta e nos viu no corredor.
_Boa noite Tony — cumprimentou — Nova aquisição?
Não gostei nada do tom dela. Eu não era um objeto, estava sendo contratado, não comprado.
_Boa noite, Judy. Sim, ele não é lindo?
“O quê????” — comecei a ficar nervoso e me dei conta do perigo que estava correndo. Eu não conhecia direito o Tony, estava dentro de um lugar mal iluminado. A mão dele ainda estava no meu ombro e eu me movi, saindo um pouco do seu alcance.
A mulher se aproximou e se inclinou na minha frente.
_Qual o seu nome, belezinha?
_Alois — falei desconfiado.
_Oh, um garotinho, Tony? Ele vai fazer muito sucesso aqui. Não vá roubar os meus clientes.
“Clientes????”
Prestei atenção na mulher e me toquei de tudo. Eu conhecia muito bem o jeito que ela estava vestida porque minha mãe se vestia quase da mesma forma que ela. Aquilo não era uma danceteria, era um puteiro.
Comecei a andar para trás, tentando me afastar da tal da Judy mas bati de encontro com o Tony. Ele pôs as duas mãos nos meus ombros.
_O que foi, Alois? — perguntou.
_Eu, eu não vou fazer isso. Eu não quero o emprego — falei.
_Agora é tarde — falou ele e riu alto sendo acompanhado pela Judy.
Então eu corri, corri muito, corri tudo o que minhas pernas permitiam e não sei como consegui fugir do lugar. O segurança do beco não esperava que alguém saísse correndo do local e quando se deu conta eu já ía na outra esquina, ainda consegui ouvir o Tony gritando para que me seguissem e os passos pesados dos sapatos dos seguranças atrás de mim.
Busquei fôlego não sei aonde e corri até que minhas pernas não aguetaram mais e eu caí no chão mas então eu já estava longe demais e eles tinham desistido da perseguição. Fiquei vários minutos deitado de barriga para cima no chão, tentando respirar. Depois me levantei e caminhei até debaixo de uma ponte, passei a noite ali.
E no dia seguinte me dei conta que tinha largado minha mochila no puteiro.
Depois disso, cada dia eu estava num lugar. Quando a minha roupa ficou velha, suja e rasgada demais, consegui outras num centro de caridade que atendiam moradores de rua, peguei as maiores que consegui para que não vissem nada do meu corpo. Andava sempre de cabeça baixa, escondida pelo capuz. E comecei a roubar comida de mercadinhos e bancas, nunca dinheiro, somente comida. Eu não era um ladrão mas fui tratado como um quando um atendente me pegou roubando um pacote de salgadinho. Ainda tentei lutar com ele mas o cara tinha um canivete e cortou o meu rosto. A polícia logo chegou e então eu fui preso.
Então a gente volta para aquela tarde em que o tal homem apareceu, meio perdido, na casa de custódia. Eu o olhei por baixo do capuz. Era um homem alto, pele clara e cabelos pretos, cortados curtos e repicados, usava um terno preto com camisa branca e sapatos muito bem engraxados. Nem dei trela para ele, devia ser um advogado, então ele chamou a atendente da casa de custódia e falou que tinha uma audiência com o juiz, ele entregou o papel para a senhorita Gibbs e eu voltei para o meu mundinho, esquecendo totalmente ele.
Só me dei conta que ele continuava ali quando a ouvi me chamando. Falou que tinha alguém que queria me ver.
Ergui a cabeça e tirei o capuz mas ela mandou eu tirar o cabelo do rosto. Olhei para o homem e uau, ele tinha impressionantes olhos dourados! Contive minha surpresa.
Ele falou que era o meu tio. Puxei pela memória e me lembrei da Hannah falando do irmão fracassado dela. Para ela, todos eram fracassados, menos ela.
Acho que ele se surpreendeu quando viu que eu sabia o seu nome. Fiquei curioso, o que ele estaria fazendo ali? Quer dizer, eu sabia que provavelmente eu ficaria preso por alguns meses, depois seria encaminhando para adoção. Tinham me dito que a Hannah, havia morrido e a polícia ainda estava investigando quem tinha assassinado ela.
“Provavelmente algum traficante que ela devia” — eu pensei quando me falaram do crime. Eu devia me sentir triste e chorar pela morte da minha mãe mas eu acho que minhas lágrimas haviam secado há muito tempo.
A senhorita Gibbs chamou a atenção do Claude para o papel me liberando para a adoção. Entendi na hora, ele estava ali para me liberar. Voltei à minha posição inicial. Eu nem sabia que tinha um parente, nem sei como eles o encontraram. Por que um cara como ele, que devia ter uma esposa e filhos em casa, iria querer assumir a guarda de um sobrinho podre?
Então ouvi o barulho de papel sendo rasgado e ele perguntando sobre os papéis da guarda.
“O quê???? — pensei — Alguém no mundo me queria????”
Disfarcei muito bem a alegria, mas também estava morto de medo. Ele não se parecia em nada com a Hannah, mas monstros também são bonitos por fora, a Hannah mesmo era muito bonita.
Ele tentou puxar assunto comigo o caminho todo mas acho que ele não leva muito jeito. Eu também não facilitei nada. Também tenho culpa nisso. Então ele ofereceu um Mc Donalds. Putz, fazia muitos anos que eu não comia um lanche de lá, sempre tinha sido muito caro para mim. Sorri e acho que esse foi o começo da amizade.
Depois descobri que além dele ser um cara bonito, também era rico. O apartamento dele era lindo, todo em tons claros e muito bem arrumado, embora tivesse algumas roupas jogadas no sofá e pratos sujos na cozinha.
Era uma realidade completamente diferente da minha. Parecia um sonho, mas sonhos são para pessoas boas, e eu não era uma pessoa assim.
Tomei um banho. O primeiro em quinze dias, pois descobri que o supervisor da Casa de custódia gostava de garotos e tinha tentado me agarrar no banheiro — esse era o motivo porque eu ficava na recepção e não no dormitório, morria de medo de não conseguir fugir do homem. Por isso, quando o Claude bateu na porta do banheiro e falou que tinha arranjado roupas para mim eu não quis abrir, mas ele insistiu e eu abri somente o espaço suficiente para pegar a roupa, ele não viu que eu segurava com a outra mão uma tesoura que tinha encontrado na gaveta do gabinete do banheiro. Ele não tentou nada e eu respirei aliviado.
O tempo passou. Eu descobri que ele era um cara super legal e decente. Cuidava de mim com um carinho que eu nunca tinha me achado merecedor, embora sempre tivesse desejado. Se preocupou com o corte no meu rosto e me levou num hospital de rico e mesmo quando eu pedi para ele segurar minha mão pois estava com medo da agulha, ele apenas sorriu e apertou os meus dedos. Senti meu peito aquecer naquele momento.
Então ele me matriculou na escola. Eu odiei o uniforme, eu parecia um coxinha mas ele falou que eu fiquei bonito. Foi a primeira vez que alguém falava que eu era bonito sem querer me levar para a cama em seguida.
A escola foi muito difícil. Era muito puxada e eu tinha ficado um ano longe, isso sem falar no tanto que eu faltava nos anos anteriores à minha fuga. No terceiro dia de aula eu conheci um cara, o nome dele era Andrew e parecia tão deslocado quanto eu naquele mar de riquinhos que nos cercavam e nos olhavam com nariz empinado. Ficamos amigos na hora, ele foi o segundo amigo que fiz na minha vida.
Claude sempre ia me levar e me buscar na escola, embora ela fosse perto do apartamento dele. E não me deixava sair de casa sem tomar o café da manhã e preparava o meu lanche. Ele cozinha muito mal, a comida saía salgada demais ou insossa demais. Mas eu não podia falar nada, vai que o meu sonho se quebra e ele me põe para fora de casa.
Eu não queria voltar para a rua de jeito nenhum. Pela primeira vez na vida eu tinha algo parecido com uma família e mesmo com todo a minha desconfiança, eu sentia que começava a gostar dele, gostar muito. Acho que ter um pai era mais ou menos assim. Alguém que cuida de você sem querer nada em troca.
Quando ele foi me pegar naquele dia e me levou para o shopping eu fiquei muito feliz. Quase não saía de casa e seria bom fazer algo de diferente. Almoçamos e fomos ao cinema. Eu amoooo pipoca e ele comprou um balde para mim. Me lembrei de todas as privações pelas quais eu passei...parecia que tinha sido numa outra vida mas, talvez eu estivesse abusando dele, usando o dinheiro dele como se fosse meu. Ele percebeu que eu tinha ficado meio triste e foi muito fofo, dizendo que compraria quantos baldes de pipoca eu quisesse eu só precisava ficar feliz. Nossos olhares se encontraram e eu senti meu coração se acelerar.
Por isso que eu me assustei quando, no final daquela noite ele pediu que eu o agradecesse como a Hannah tinha me ensinado. O meu sonho tinha chegado ao fim. O monstro resolveu revelar a sua verdadeira face.
“Se eu não fizer isso, ele vai me pôr para fora”.
Então eu me sentei no seu colo e o beijei. Ele me abraçou, mas não foi como das outras vezes quando aqueles homens me agarravam como se eu fosse apenas um pedaço de carne. Havia carinho ali, eu acho. Mas ele era como todos os outros, apenas tinha esperado mais para dar o bote. E quando ele me empurrou eu achei que ele ia ficar bravo porque eu estava chorando mas não era nada disso. Ele não sabia porque eu estava fazendo aquilo e eu expliquei. Achei que era algum tipo de fantasia, alguns gostam quando a gente se faz de submisso — um brinquedinho sexual nas mãos de um pervertido. Mas não era nada disso, ele realmente não sabia. Foi tudo um grande engano e eu quis morrer de vergonha.
Tentei fugir para o meu quarto mas ele não deixou. Vi que ele era sincero na sua preocupação e então contei tudo o que a Hannah me obrigava a fazer. Vi o quanto ele ficou chocado e procurei por sinais de nojo na face dele mas ele só me olhava com carinho, preocupação e remorso.
Acabei chorando no seu peito e sendo abraçado por ele. E naquela noite, quando ele saiu do quarto eu chorei ainda mais, baixinho para que ele não me ouvisse.
Nos dias que se seguiram, depois que toda a vergonha pelo mal entendido tinha passado e eu comecei a conseguir lembrar dos fatos, passei a perceber que talvez o beijo tivesse sido bom. Numa outra situação, eu gostaria de beijá-lo novamente e sentir ele me abraçar daquele jeito que nunca tinha sido.
Mas ele se mantinha distante, mesmo quando me pegava olhando para ele. Mesmo quando eu comecei a procurar por mais contato. Pensei que talvez ele fosse hétero, mesmo que eu nunca tivesse ouvido falar de uma namorada, mas também não tinha ouvido falar de namorado. Mas ninguém que mantém as cuecas arrumadas por cor e tipo na gaveta pode ser hétero. Brincadeira, pode sim. Mas é difícil.
A prova veio quando eu estava passando aspirador de pó na casa e encontrei uma foto debaixo da estante de livros dele. Era ele abraçado com um outro cara. Estavam felizes e erguiam taças de champagne para a câmera. Eles pareciam muito próximos. Coloquei a foto dentro um livro e voltei a passar o aspirador, e não é que achei uma segunda foto? Mesmo cenário, mesmas pessoas — devia ter sido tirada na sequência — mas agora Claude e o cara se beijavam.
“Caramba! Então ele é gay mesmo!”
Guardei a foto no mesmo lugar da outra e terminei de arrumar o escritório.
“Quem era aquele cara? Devia ser um ex-namorado.”
Percebi que eu queria muito estar no lugar daquele cara e ter o Claude me beijando daquele jeito.
Comecei a me insinuar para ele. Ia com cuidado, porque não queria ser uma incisivo. Eu não sou uma vadia que sai dando para qualquer um. Eu realmente estava gostando do Claude e queria ter uma chance com ele.
Mas quando eu tomei coragem e disse que queria beijá-lo ele me dispensou.
Não porque somos homens mas porque somos parentes e aparentemente ele me acha muito novo.
Mas ele só é meu meio-tio. E eu posso ser novo mas já passei por muita coisa, sei exatamente o que eu quero e o que eu não quero.
Eu quero Claude. E não é um capricho, é algo maior. Eu sinto isso no meu coração e acho que ele também sente, só não se deu conta ainda.
E se ele ainda não se deu conta que também gosta de mim, cabe a mim mostrar isso à ele.
Fale com o autor