Você quer ser meu?
3 Nada como um Mc Donalds para quebrar o gelo.
Notas iniciais
O caminho de volta foi tenso, um silêncio constrangedor se instalou no carro. Tirei os olhos da rodovia e olhei de relance para o garoto ao meu lado. Ele estava encolhido no banco do passageiro com as mãos por baixo das coxas, olhava para fora do vidro da janela, admirando a paisagem que se resumia numa longa e chata planície com arbustos baixos, tinha chovido e os vidros estavam fechados, pequenas gotinhas ainda caíam no pára-brisa e logo eram empurradas para trás pela velocidade do veículo.
Alois continuava com o capuz puxado então eu só via aquela coisa redonda e cinza que seria a cabeça virada para o outro lado. Ele precisava de um banho urgente. Pelo jeito não estavam cuidando dele tão bem assim.
Resolvi puxar assunto:
_Então Alois, o que você costumava fazer? — eu estava me referindo antes dele sair de casa mas acho que ele não entendeu assim.
_Sobrevivia.
Pisada na bola número um.
_Não. Estou falando quando estava com a sua mãe.
Ele olhou de relance para mim. Eu alternava meu olhar entre a estrada e ele, atento aos dois.
_Sobrevivia — repetiu e voltou a virar o rosto para a janela.
Pisada na bola número dois.
“Vai ser difícil” — pensei, mas eu não ia desistir fácil.
_Hum...você não trouxe nada né?
_Eu não tenho nada — respondeu seco.
Pisada na bola número três. Desisto.
Voltamos ao silêncio.
Depois da cena dramática de eu rasgando o papel, a atendente chamou a assistente social (que não era a estátua fria da senhorita Whisper) e a psicóloga. Elas conversaram longamente comigo e eu respondi a várias perguntas e fiz várias também. Descobri que o Alois estava vivendo na rua há quase um ano, elas disseram que a Hannah fez coisas horríveis com ele mas não disseram exatamente o quê, mesmo quando eu perguntei diversas vezes. Disseram que isso era confidencial e poderia atrapalhar a adaptação à nova casa e família, revelaram apenas que ele era espancado frenquentemente. Para mim, isso já era um motivo e tanto para fugir de casa
Entreguei cópias de vários documentos pessoais meus, que foram tirados na fotocopiadora de lá mesmo, o restante dos documentos seriam enviado por mim quando chegasse em casa. No fim, me deram a guarda provisória dele pelo período de oito meses. Então nós seríamos convocados novamente, passaríamos por uma nova conversa com a assistente social e psicóloga para ver se a dariam por mais oito meses, se dariam em definitivo ou se o tirariam de mim.
Não sei bem o que pensar, não sei se tomei a decisão correta. Não sei lidar com crianças e pelo jeito nem com jovens, nem consigo conversar direito com ele!
Estávamos nos aproximando de Nova York e já começavam a surgir os primeiros comércios — postos de combustível e paradas de beira de estrada. Eu não estava com fome mas imaginei que talvez ele estivesse. Pela falta de banho que ele apresentava, imaginei que talvez não o estavam alimentando direito também.
_Está com fome? — olhei mas ele nem se virou.
Ele não tinha condições de entrar na lanchonete, não naquele estado.
_Tem um Mc´Donalds aqui perto, podíamos comprar no drive thru e ir comendo no caminho. O que acha?
Dessa vez ele se virou e eu pude ver seus olhos brilhando de contentamento. Sorriu meio tímido e voltou os olhos para baixo. Ri comigo mesmo.
“Qual adolescente resiste à um hamburguer?” — pensei dando sinal para a direita e diminuindo a velocidade do carro para entrar no corredor do drive thru.
Comprei um milk shake de chocolate para mim e um big mac completo para ele. Consegui colocar um sorriso maior no seu rosto quando abriu o saco de papel pardo e tirou de lá algumas batatinhas fritas e as enfiou na boca.
Pela rapidez que comia, devia estar com muita fome.
Num instantinho acabou o lanche, as batatas e o refrigerante.
Era um rapaz calado, difícil tirar algumas palavras dele, mas conforme atravessávamos a cidade e nos aproximávamos do bairro nobre, percebia que ele dava rápidas olhadas descrentes para mim. Virei na avenida principal e segui reto até chegar na frente do prédio de apartamentos de luxo. Então ele se virou para mim.
_Você é rico? — os olhos estavam admirados, uma admiração infantil, e a bochecha tinha uma mancha de ketchup.
_Rico, RICO, não. Mas sou bem de vida — respondi apertando o controle remoto do portão da garagem subterrânea.
Sim, eu sou rico mas não gosto de ficar falando. Riqueza essa que me custou a úlcera estomacal e a estafa que eu estava tentando curar.
_Parece rico — comentou pensativo — Ainda bem que a Hannah não sabia sobre você, senão viria até aqui fazer uma limpa.
Me incomodou um pouco aquela fala, que tipo de relação eles tinham afinal de contas? Quer dizer que ela era uma ladra? E qual filho não chama a mãe de mãe?
Entramos no elevador e eu apertei o botão do oitavo andar. Assim que as portas se fecharam, perguntei.
_Por que você não chama a Hannah de mãe?
Eu sou um curioso nato, eu sei.
_Ela nunca permitiu que eu a chamasse assim — deu de ombros como se não se importasse com isso.
_Você acha que ela iria me roubar? — perguntei, é difícil imaginar que a sua irmã faria uma coisa dessas, quer dizer, ela nunca foi boa peça, mas é estranho imaginar que o seu parente poderia te roubar — Ela era uma ladra, mesmo?
Alois estava olhando para o visor que mostrava os números dos andares passando rápido conforme o elevador subia.
_Só nas horas vagas.
Assenti com a cabeça. A cada hora era uma novidade diferente, e não eram coisas boas. Eu devia ficar calado, mas não fiquei.
_E o seu pai?
Ele ficou tenso e eu senti que pisei num terreno perigoso, se ele não gostava de falar da mãe, percebi que gostava menos ainda de falar sobre o pai.
_Não tenho pai.
Novamente, eu deveria ter ficado calado. Ter me contentado com a resposta e simplesmente ficado de boca fechada.
_Todos têm pai.
Ele me olhou, estava sério e vi seus olhos brilharem, raiva e rancor estavam ali.
_Minha mãe era uma puta. Nem ela sabia quem era o pai. Eu sempre perguntava e ela nunca dizia nada até que me revelou que na noite em que provavelmente eu fui feito ela tinha transado com quinze e estava drogada. Então…- deu de ombros mais uma vez — impossível saber.
Fiquei chocado. Realmente eu devia ter ficado calado. Alois tentava se fazer de durão mas eu vi que eu o tinha machucado fazendo aquele monte de perguntas estúpidas.
_Eu sou literalmente um filho da puta — concluiu e deu uma risada triste, me senti péssimo.
O elevador chegou no oitavo andar e as portas se abriram, eu tentei tocar o seu ombro num pedido de desculpas silencioso mas Alois se esquivou e saiu primeiro, parando na porta do apartamento.
_Um apartamento por andar… e ainda diz que não é rico — comentou como quem não quer nada.
Dei um breve sorriso e abri a porta.
_Á vontade — abri espaço para que ele entrasse o que ele fez com passos lentos, observando tudo.
Entrei e sentei no sofá.
_Que tal tomar um banho? — ofereci — Depois vamos ter que comprar coisas novas para você — roupas e essas coisas.
_Tudo bem — ele respondeu lendo distraidamente os títulos dos livros na estante.
Me levantei.
_Vem, vou te mostrar o banheiro.
Levei ele até o banheiro e deixei-o lá. Depois fui à caça de alguma roupa no meu armário que pudesse servir no Alois. Ele é muito menor do que eu, então toda camiseta que eu pegava ou calça parecia que ia ficar gigante nele.
Consegui encontrar uma camiseta um pouco menor e uma calça, acabei pegando uma boxer nova que eu ainda nem tinha usado. Afinal emprestar cueca usada não dá!
_Alois? — chamei quando o som do chuveiro cessou — Achei umas roupas…
_Ah, sim, deixe aí. Já pego — a voz dele estava abafada por causa da porta fechada.
_Não vou deixar no chão. Não é higiênico.
Demorou um pouco e ouvi o barulho da tranca da porta abrindo, logo o braço pálido e fino foi posto para fora por uma fresta. Foi tudo o que eu vi dele — não que eu quisesse ver alguma coisa mais: ele é o meu sobrinho! Pus a pilha de roupa na sua mão e logo ele fechou a porta novamente. Esperei no sofá. Estava com sono por ter acordado cedo e tinha uma dor de cabeça chata — muitos acontecimentos para um dia só.
Ele saiu do banheiro — a camiseta verde até que não ficou muito grande mas a calça jeans estava e ele precisou dobrar a barra diversas vezes para não pisar — sentou-se ao meu lado.
_E então? Tudo bem? — perguntei.
_Tudo. O chuveiro é ótimo, obrigado.
_De nada.
O cabelo ainda estava emaranhado, mas estava limpo assim como seu rosto que tinha adquirido um tom rosado por causa da temperatura da água. Ele cheirava a shampoo e sabonete e agora eu podia ver a cor real do fios — eram de um loiro dourado muito bonito e parecia que o azul cristalino dos olhos estavam realçados.
Esfreguei meus dedos no topo da cabeça dele, num carinho desajeitado e ele sorriu timidamente mas seus olhos brilharam.
_Vamos às compras? — ofereci.
_Vamos — me respondeu e se levantou.
Passamos o resto da tarde no shopping, compramos coisas básicas mas foram muitas pois ele não tinha nada. Voltamos tarde para casa e eu quase me sentia pai de primeira viagem, com várias e várias sacolas com o enxoval completo do meu novo “filho”: camisetas, shorts, calças, roupas de baixo, meias, dois blusões de moletom, uma jaqueta, pijamas e uma escova de dentes.
Alois estava muito mais animado e comunicativo. Conversava alegremente sobre as coisas que tinha visto nas lojas. Descobri que ele gostava de ouvir pop e rock e odiava rap e funk embora soubesse dançar — era o que tinha me dito.
Preparei algo rápido para comer, uma macarronada simples que ele comeu com a mesma voracidade do hambúrguer. Depois ficamos assistindo TV, ele acabou se acalmado e voltou a ficar no seu normal, mais calado.
_Acho que já vou dormir — ele me disse depois que o episódio do seriado acabou.
Eu já tinha mostrado o seu quarto — ainda bem que eu tinha um quarto de hóspedes montado, se bem que eu nunca recebo ninguém e nas raras vezes que recebo nós acabamos no meu quarto então o de hóspedes estava um pouco bagunçado.
_Vou trocar os lençóis para você — falei e me encaminhei para o quarto sendo seguido por ele.
Troquei a roupa de cama, não estava suja realmente mas fazia uma semana que estavam lá.
_Pronto — falei mostrando a cama recém-feita — Boa noite.
Ele veio na minha direção e me surpreendeu com um abraço apertado.
_Obrigado, Claude.
_Ora, ora… De nada — falei meio constrangido. Não estou acostumado com demostrações de carinho.
Esperei ele deitar na cama e o cobri com o edredom. Sei que ele está grande demais para ser posto na cama como uma criancinha e que ele sabe se cuidar sozinho, mas algo me impelia a mimar aquele garoto.
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