Regina abre seus olhos e sente-se sonolenta. Olha para os lados e reconhece o ambiente frio de um quarto de hospital. Mais uma vez, ela se sente sozinha e com tanto frio, que começa a chorar, tentando ser discreta e não atrair a atenção da pessoa que estava sentada numa poltrona.

Olhando com atenção, reconhece os cabelos curtos e escuros de Mary e isso provoca a fuga de mais lágrimas.

– Regina, você está sentindo dores?

– E-estou...há uma...dor em m-minha alma...eu quero q-que passe...

Mary segura a mão da madrasta e sorri para tranquilizá-la.

– Por que tem de ser assim? P-por que t-todos são felizes e eu tenho de ficar condenada à solidão?

– Mas você não está condenada a isso! Você tem a nós!

Regina mistura choro com riso. Inacreditável era ouvir aquilo! Alguma piada entre amigos? Só poderia ser, porque ela não havia achado graça.

Um tempo depois quando acorda de mais um período de sono, Regina permanece quieta, observando o teto branco do quarto. Perguntas surgem em sua mente tumultuada. Como alguém que não existe pode sentir amor? Como alguém que não existe pode acabar com um espaço de solidão, usando sua presença corpórea? Como alguém que não existe, consegue criar uma empresa e lidar perfeitamente com pessoas reais? Mas as pessoas daquela cidade eram mesmo reais? Já que elas criaram vidas de acordo com a vontade de um autor, por que Vasco não teria o direito de ser criado também? Amar uma personagem é muito fácil para explicar, porém como explicar que essa personagem pudesse dar vida real a um ser humano?

Regina protege a barriga com ambas as mãos e alarga o mais bonito dos sorrisos. Por que ela, uma personagem criada por um autor, não poderia dar vida a outra personagem? E por que as duas personagens não poderiam dar vida a uma terceira personagem? Ela gargalha com as respostas para as suas perguntas.

No início daquela noite, ao despertar pela terceira vez, Regina percebe a presença de uma pessoa adormecida na poltrona num dos cantos do quarto. Um sorriso surge involuntário em seus lábios ao reconhecer os cabelos escuros e curtos de Vasco. Ele estava protegendo-se do frio, com sua jaqueta que cobria parcialmente seu rosto bonito.

Ele era todo seu! Todos os centímetros dele! Era seu amigo, seu protetor, seu amado, seu amante, seu marido e sua criação. Alguns detalhes precisavam ser melhorados para que ele não vivesse em função da vida da esposa, mas isso seria um trabalho para os próximos meses e anos. O que importava era a certeza de que ela havia acertado em cheio em sua escolha. Sua decisão estava tomada!

Lento e sonolento, Vasco movimenta-se e percebe que a esposa está acordada. Levanta-se e aproxima-se da cama, inclinando-se para beijar os lábios que tanto amava.

– Fiquei preocupado com seu sono. Reclamei com o médico sobre a quantidade de calmante dado a você, meu amor.

– Eu precisava dormir. Estava certa de que você ficaria velando meu sono.

– Sempre. – outro beijo é dado nos lábios de Regina. – Sempre cuidarei de você. Essa é minha função nesta vida.

Regina prende o rosto de seu jovem marido entre as mãos e beija-lhe os cílios longos.

– Quando consegui despertar as lembranças sobre sua criação, tive muito medo. Eu me senti tão fracassada por ser obrigada a criar alguém para me amar, que pensei em desistir de tudo.

– Caso você desistisse, eu morreria, Regina. Amo estar vivo, apenas porque estou ao seu lado. Minha existência não teria sentido, caso você desistisse de mim. Eu não poderia retornar às páginas de meu conto, porque o Cavaleiro Inexistente é um homem adverso de mim.

– Vasco...

– Ele é aquele que o autor criou. Eu sou aquele que sua alma criou e não haveria lugar para mim, naquela história. Percebe?

– Vasco...

– Eu existo, Regina. Toque em mim e saberá que existo realmente. Meus beijos, meus abraços e minha admiração por você são reais, vindos de um coração real. Não sou perfeito, apenas aprecio as coisas corretas e luto para viver como você me determinou viver!

Regina busca os lábios do marido e acaricia os cabelos que caiam em uma franja longa, deixando-o quase infantil.

– Fique comigo, Vasco. Não desejo ficar em companhia de espaços vazios. Quero espaços cheios!

Ele sorri e encosta o rosto ao rosto dela.

– Vamos para casa!