Você Sempre Esteve Em Mim (parte 2)

33 Capítulo 33 - Castelo de cartas...


Notas iniciais
Música do Capítulo: Beck - Everybody's Gotta Learn Sometimes

Era incrível a habilidade de Beth com o piano sem nunca ter tocado antes. Seguia facilmente as lições de Quinn sem nenhuma dificuldade. Para as duas, aquilo parecia muito natural, mas para Rachel e Shelby era uma cena espetacular. Quinn estava tão concentrada na filha, que não percebeu a presença das duas, que de tão encantadas, permaneceram em silêncio, desfrutando daquele momento tão singular.


As mãozinhas de Beth deslizavam pelas teclas e seu sorriso era enorme ao ouvir o som que produzia. Quinn observava os movimentos dos dedinhos e se encantava com aquela proximidade, com o momento único que dividiam. Volta e meia Beth soltava uma gargalhada e aquele era o som mais perfeito do mundo... Assim que terminaram de tocar, foram surpreendidas pelas palmas das duas morenas emocionadas com a cena:


B: MAMÃE! [gritou animada] Eu “sabe” tocar piano! [havia orgulho em sua voz]

Shelby: Eu ouvi! [aproximou-se dela] Foi lindo!


O olhar de Quinn cruzou com o de Rachel e a morena identificou todos os sentimentos impressos ali. Ela queria levar sua garota para o quarto e beijá-la sem parar...


Shelby: Como foi seu dia? Você se comportou?

B: Me “comportou eu”. [assentiu freneticamente] Foi “pefeito”!


O sorriso de Quinn se expandiu, principalmente porque Beth não se mexeu para sair de seu colo.


B: Eu “ganhou” muitos presentes da “Kim”! [disse animada]

Shelby: Muitos?

B: Muitos! [assentiu]

Shelby: Quer me mostrar?


Beth virou a cabeça para olhar pra Quinn, esperando que ela a autorizasse. Era uma situação complexa onde sem entender o porquê, a garotinha esperava a aprovação de Quinn para fazer alguma coisa. A loira demorou a entender que ela esperava por uma resposta, até que lhe sorriu e a viu se mexer para descer de seu colo. Beth correu para as sacolas e começou a tagarelar contando cada detalhe de cada brinquedo visto e comprado. Shelby ficou um pouco assustada com a quantidade. Ela não teria como levar todos no avião...


Aproveitando a distração de Beth, Rachel se aproximou de Quinn e lhe deu um selinho rápido:


R: Senti sua falta... [murmurou]

Q: Eu também! [sorriu] Como foi seu dia com sua mãe?

R: Muito melhor do que eu pensava! Muito! [sorriu feliz]

Q: Que bom, meu amor! [puxou-a para sentar ao lado dela no piano] Eu tive um dia fantástico! Seria melhor se você estivesse conosco...

R: Eu posso saber o que deu em você pra comprar aquela montanha de brinquedos? [sorriu arqueando a sobrancelha]

Q: Er... [corou] É difícil dizer não pra ela... [desviou o olhar]


Quinn sentiu os dedos de Rachel tocarem seu queixo delicadamente, puxando-a para um beijo um pouco mais intenso do que o primeiro, mas a loira não conseguiu levá-lo adiante:


Q: Não na frente da Beth. Ainda... [disse sem graça]

R: Desculpe...

Q: Depois a gente mata a saudade. [piscou-lhe]


Ainda entorpecidas em si mesmas, não escutaram o celular de Shelby tocando. A bolha em que se encontravam só se desfez quando ouviram o grito de “papai” que Beth deu. Seus olhares logo desviaram para a garotinha animada contando tudo o que tinha feito com “Kim” nos últimos dias. Das brincadeiras aos lanches. O piano... Logo a garotinha estava voltando ao mesmo piano segurando o celular junto ao ouvido, estendendo para Quinn:


B: Papai quer falar com você, “Kim”.

Q: Comigo? [surpreendeu-se]

B: É!


Assim que lhe entregou o telefone, Beth voltou correndo aos brinquedos para continuar mostrando à Shelby. Quinn levou o telefone à orelha e não percebeu que Rachel havia ficado desconfortável de repente:


Q: Hey, Noah! [atendeu sorrindo]

N: Hey, baby mama! Como você está?

Q: Estou bem! Muito bem!

N: E a Rach?

Q: Está bem! Aqui ao meu lado!

N: Diz que estou mandando beijo!


Quinn afastou o telefone:


Q: Noah manda beijo.

R: Manda outro pra ele. [tentava disfarçar o desconforto]


A conversa fluiu normalmente e Rachel se levantou para não deixar transparecer o incômodo que sentia. Sabia que era sem fundamento. Mas quando Quinn se levantou para continuar a conversa em particular, a morena não conseguiu não se sentir pior. Não pensou em nenhum momento que a loira havia se afastado para conversar sem que Beth ouvisse. Só o que lhe passava pela cabeça era que ela estava buscando um local onde pudesse conversar com privacidade. Sua expressão se fechou. Antes que Shelby percebesse, ouviu a porta abrir. Santana e Britt entravam no apartamento segurando algumas pizzas:


A latina mantinha um sorriso travesso no rosto, enquanto Brittany não conseguia esconder a ansiedade em conhecer Beth:


S: Uns “oopa loompas” deixaram umas pizzas lá em casa e uma delas é de chocolate, mas eu acho que ninguém gosta. Acho que vou jogar no lixo.


Os olhos de Beth arregalaram e ela logo se levantou:


B: Eu “gosta”! [ergueu o bracinho agoniada]

S: Você ouviu alguma coisa, Britt? [fez uma divertida cara confusa]

Britt: Não tenho certeza, San! [entrou na brincadeira da namorada]

B: Eu “gosta”! [disse mais alto, ainda mais agoniada]

S: Estou ouvindo uma voz, mas não vejo ninguém, Britt!

B: “É” eu! Aqui embaixo! [tocou a perna da latina, puxando pela calça]


Shelby ria, enquanto Santana olhava, enfim, para a garotinha:


S: Aaaaaah... Então era você o tempo todo?

B: O tempo todo! [assentiu com a cabeça freneticamente]

S: Então você gosta de pizza de chocolate?

B: Eu “gosta” muito! [assentiu animada]

S: Então você pode ficar!

B: Êêêêêêêêê! [vibrou animada]


Rachel olhou para elas com um olhar de agradecimento, recebendo uma piscada terna de Santana.


Beth sentou animada com sua pizza, sendo repreendida por Shelby:


Shelby: Tem que lavar as mãos, Beth.

B: Tá... Eu “vai” lavar. [disse desanimada]


Britt fez questão de levá-la, enquanto Rachel foi chamar Quinn para comer. Ao se aproximar do quarto, viu que a porta não estava fechada completamente, o que lhe possibilitou ouvir parte da conversa.


Q: Fico pensando como teria sido se tivéssemos ficado com ela...


O coração de Rachel apertou. Em sua cabeça, Quinn imaginava uma vida com Noah.


Q: Ela sabe que você é o pai dela. Mas ela não faz ideia de que eu sou a mãe...


A cabeça da morena começava a dar voltas. Então Quinn se arrependia de não ter ficado com Beth. Isso ela já sabia. Mas não tinha pensado que Noah estava nesse contexto. Que talvez Quinn se arrependesse de não ter continuado com ele.


Q: Ela tem muita coisa minha, mas eu vejo muita coisa sua nela também. O sorriso, o jeito de dormir. Ela deita como eu, mas ela mantém os bracinhos largados, igual a você. É incrível como ela é uma mistura nossa nos mínimos detalhes...


Rachel se sentia cada vez pior. Então Quinn tinha vivos em sua memória detalhes sobre a forma como Noah dormia. A morena tinha consciência de que estava exagerando de alguma maneira, mas não conseguia não sentir ciúmes. Mesmo que fossem ciúmes de memórias. Também doía não ter controle sobre o que vivia dentro de Quinn. Era algo contra o qual não poderia lutar... Ela e Noah dividiam uma realidade que ela jamais poderia dividir com ela. Eles tinham um elo eterno e que ela nunca compreenderia da mesma forma. Ela sempre estaria de fora...


Respirou fundo e abriu a porta, recebendo o imediato olhar carinhoso da namorada:


R: Santana e Britt trouxeram pizza. Estamos esperando você pra comer.


Quinn não era boba. O tom, o olhar... Tudo deixava claro que Rachel não estava nem um pouco feliz com aquela ligação. Assim que a morena saiu do quarto, ela se despediu de Noah e se juntou a todas na sala. Percebeu o olhar perdido de Rachel, que fazia de tudo para não encará-la. Sabia que não conversariam naquele momento, mas não poderia permitir que a morena continuasse naquele clima. Aproveitou que Beth continuava animada com a pizza de chocolate e seguiu a namorada até a cozinha:


Q: Está tudo bem?

R: Hum hum... [respondeu sem olhá-la, mexendo na geladeira]

Q: Você está chateada comigo? [perguntou temerosa]

R: Tenho motivo para estar? [para Quinn, isso foi um sim]

Q: Não tem! [garantiu]

R: Então eu não estou. [disse seca]

Q: Podemos conversar depois? Seja lá o que for, não faz sentido. [tentava se manter calma, já sabendo que eram ciúmes]

R: Se não faz sentido, não vejo razão pra conversar.

Q: Rach...

R: Está tudo bem, Quinn! [disse cortante] Não se preocupe.

Q: Então você vai continuar com essa cara?

R: Que cara?

Q: Agora há pouco seu ânimo era outro.

R: Como eu disse, está tudo bem!

Q: Ok... Tem certeza?

R: Eu já disse que sim! [disse ríspida, assustando Quinn]


A loira não disse nada. Entendeu que não adiantava falar nada mais naquele instante. Saiu da cozinha antes de perceber o arrependimento no semblante de Rachel.


Beth fez questão de que Quinn sentasse ao seu lado no chão. A loira assim o fez. Do outro lado da garotinha estava Britt, encantada com a versão em miniatura da amiga. Santana e Shelby conversavam sobre várias coisas, enquanto Rachel mantinha-se calada. Em um determinado momento, Beth ficou pensativa. Olhava para Quinn, logo depois para Britt. Repetia o mesmo movimento, olhando de uma para a outra. Todas perceberam e ficaram atentas à garotinha, que se levantou e estendeu as mãos para as duas:


B: Vem! [disse sorrindo]


Sem entender nada, Britt e Quinn obedeceram e se levantaram para seguir Beth até o corredor. Todas observavam atentas, até que ela parou em frente ao espelho e pediu para as duas sentarem no chão, para ficarem numa altura mais próxima à dela. Beth olhava para o reflexo das três, repetindo o que já havia feito mais cedo no espelho da loja, com Quinn. Seus olhos iam de uma à outra, passando por ela.


B: Você... [apontou pra Britt] Parece, mas “num” é “igal” a gente! [apontou pra ela e pra Quinn]


Todas ficaram sem palavras. Com sua inocência, Beth percebia que, mesmo loira, Britt era diferente dela e de Quinn. Em sua inocência, ela queria dizer que ela e Quinn se pareciam. Ela só não sabia o porquê...


Normalmente, o olhar de Quinn teria buscado o de Rachel naquele momento, mas dadas as circunstâncias, a loira se segurou. Um nó havia se formado novamente em sua garganta, e foi difícil segurar.


Rachel sentiu-se péssima. Sua pequena crise de ciúmes havia arruinado os pequenos momentos de cumplicidade que dividia com Quinn naquele fim de semana...


Shelby sentia, mais uma vez, que não demoraria a ter que contar à Beth que Quinn era sua mãe. A garotinha era esperta demais e percebia coisas que ninguém precisava explicar a ela. Ela se via em Quinn, mesmo sem entender...


Santana e Britt estavam encantadas com Beth. Seguravam-se para não chorar. Sabiam como era importante para Quinn conviver com ela e estavam felizes por Shelby permitir aquilo.


Beth dava sinais de sono. Quinn a levou para o banho. Santana e Britt voltaram pra casa, deixando Rachel e Shelby a sós:


Shelby: Aconteceu alguma coisa? [percebeu a mudança de humor da filha]

R: Eu destratei a Quinn por ciúmes do Noah. [respondeu sem pudor]

Shelby: Ciúmes do Noah? [surpreendeu-se]

R: É... [respondeu constrangida]

Shelby: Por quê?

R: Como por quê? [olhou-a surpreendida] Não é óbvio?

Shelby: Me desculpe, mas não é.

R: Essa cumplicidade toda que eles têm. [disse incomodada] Que eles dividem por causa da Beth.

Shelby: E por que isso te incomoda?

R: Porque eu não consigo não pensar que ela pode um dia querer voltar pra ele, já que eles dividem esse elo que eu nunca poderei ter com ela. Um dia a Beth saberá que ela é mãe dela e isso fará com que o Noah seja ainda mais próximo. Você é a mãe adotiva da Beth, ele é o pai e Quinn a mãe biológica. Eu estou sobrando nessa equação. [choramingava]

Shelby: Rachel... [chamou calma, atraindo o olhar triste da filha] Você está sendo ridícula! [disse com toda sinceridade]

R: O quê? [surpreendeu-se]

Shelby: Você está sendo ridícula! [repetiu com a mesma segurança de antes]

R: Mas...

Shelby: Você está certa quando reconhece que eles têm um elo que você nunca terá com ela. Mas você esquece que você tem um elo com ela que ele nunca teve, nem vai ter. O que liga os dois é Beth. Eles precisam de outra pessoa para construir essa ligação. Entre vocês há um elo sem intermediário. Vocês se ligam diretamente entre si. Qualquer pessoa percebe que a Quinn ama você.


Rachel continuava calada, absorvendo as palavras da mãe...


Shelby: Ter ciúmes dela é normal, mas ter ciúmes dela com o Noah chega a ser egoísmo da sua parte.

R: Egoísmo? [não entendia onde ela queria chegar]

Shelby: Entenda que através dele ela tem mais da Beth para si. Que ele tem sido o elo entre mim e ela. Por causa dele eu enxerguei que ela poderia conviver com a Beth. Ele tem sido um excelente amigo pra ela. E não há qualquer segunda intenção dele sobre ela. Porque uma coisa que eu aprendi a perceber no Noah é que ele é honesto demais. Ele ama você também e jamais faria alguma coisa para prejudicar vocês. Por que você acha que eu o deixei ter contato com Beth? Eu poderia ter impedido. Eu tinha esse direito. Mas não impedi porque sabia que ele era uma ótima influência e que se ela precisaria de uma figura paterna, nada mais justo do que ser o próprio pai.


Rachel ia se sentindo cada vez pior. A sinceridade de Shelby só lhe mostrava que ela estava sendo injusta, um pouco caprichosa, talvez...


R: Mas eu a ouvi se lamentando por eles não terem ficado com Beth. [tentava se defender]

Shelby: E o que isso tem a ver com o que vocês têm hoje?

R: Ela lembra detalhes dele, da forma como ele dorme. [tentava argumentar]

Shelby: E você esqueceu completamente dos detalhes do Finn?

R: Não... [a ficha caía]

Shelby: Eu tenho conhecido uma Quinn que me surpreendeu. Ela é madura e tem sido responsável. Não a provoque a deixar de ser assim.

R: O que você quer dizer?

Shelby: Não dê a ela razões para se afastar de você.


A conversa foi interrompida por Beth correndo na sala.


B: Mamãe, eu “quer” dormir com a “Kim” de novo. Eu “pode”?


Shelby buscou o olhar de Quinn e assentiu.


B: Êêêêêêê! [vibrou pulando com seu pijama de girafas]


Rachel se entristeceu pela total ausência de contato com Quinn. Em nenhum momento a loira olhou para ela. Estava claramente chateada. Quinn voltou ao quarto com Beth e começou a contar histórias para ela dormir. Na sala, Shelby continuava aconselhando Rachel que insistia em ter razão, mesmo sentindo que não tinha nenhuma. Cansada de conversar, Rachel deu boa noite à mãe e se dirigiu ao quarto para dormir. Temeu o olhar de Quinn ao se aproximar, mas descobriu que ela já dormia. Beth estava deitada tranquilamente sobre o peito da loira, e o livro de histórias estava largado ao lado delas na cama. Rachel o guardou. Tomou um banho quente e tentou dormir. Demorou a pegar no sono. A lembrança da conversa ouvida mais cedo ainda martelava em sua cabeça, assim como a conversa com Shelby. Dormiu com a consciência pesada. Acordou com a claridade em seu rosto, desorientada, sem saber a hora. Estava sozinha na cama. Ouviu a risada de Beth reverberar pelo apartamento. Foi ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes, temendo encarar Quinn após seu comportamento do dia anterior.


Chegando à cozinha, Beth, Quinn e Shelby tomavam café. Mesmo chateada, a loira havia deixado o café da morena separado, como sempre o fazia. Não trocaram nenhuma palavra. Shelby lançou um olhar de repreensão para Rachel, mas o máximo que ela fez foi se encolher no lugar. Quinn dedicava toda sua atenção à Beth, tentando impedir que a chateação com Rachel estragasse seu momento com a filha. As horas passaram e a loira sentia que estava chegando o momento de se despedir. Shelby arrumava as malas e tentava explicar à Beth porque alguns brinquedos teriam que ficar. Mas não era isso que estava entristecendo a garotinha. Era ter que se despedir de Quinn o verdadeiro problema.


B: Eu “num quer” ir... [murmurou chorosa]

Shelby: Mas temos que ir, Beth... [disse calma]

B: Vem também? [olhou chorosa pra Quinn]


A loira se abaixou com um sorriso triste e puxou a garotinha para si:


Q: Eu não posso ir agora, mas eu prometo ir logo!


Beth se atirou em seus braços e a abraçou com força, chorando:


B: Eu “vai” sentir “sadade”.


Quinn não conseguiu se segurar e chorou, apertando a filha em seus braços. Não sabia o que dizer. Não poderia explicar a ela tudo o que precisava, mas não poderia mais se segurar para dizer o que sentia:


Q: Eu te amo, Beth...

B: Eu também “ama” você... [choramingou]


Em frente ao portão de embarque, Rachel se despedia de Shelby depois de ter enchido Beth de beijos:


R: Obrigada por tudo! [choramingou ao abraçá-la]

Shelby: Pensa no que falei. Não seja caprichosa! [beijou-lhe a testa] Eu te amo!


Enquanto isso, Quinn prometia à Beth que a veria em breve e que falaria sempre com ela por telefone. Prometeu cuidar bem dos brinquedos que ficaram sob seus cuidados e que eles a estariam esperando para que ela voltasse logo à Nova York.


Vê-la atravessar o portão de embarque fez o choro de Quinn se intensificar. Ela sabia que a saudade seria ainda maior dessa vez. Seu coração apertava e doía ainda mais ao perceber a presença de Rachel ao seu lado, mas senti-la tão distante. O normal seria a morena lhe dar força naquele momento, mas ela estava inerte ao seu lado, como se não estivesse ali. Assim que o avião decolou, Quinn se moveu para ir embora, sendo seguida por Rachel em silêncio. Nenhuma palavra havia sido dita. O clima no carro estava pesado e, para piorar, o trânsito estava intenso, garantindo que ficariam muito mais tempo do que gostariam naquela situação desconfortável. Era possível ver que Quinn ainda chorava, apesar dos óculos escuros. Sua respiração era pesada...


R: Desculpe... [não aguentou]


Quinn continuou calada...


R: Você não vai dizer nada? [perguntou com a voz falha]

Q: Eu não sei o que dizer...

R: Só me diz se me desculpa ou não desculpa.

Q: Primeiro me explique o que houve.

R: Eu fiquei com ciúmes. Você sabe disso.

Q: Eu te dei motivo para sentir ciúmes?

R: Deu!


Quinn a olhou confusa, sem saber o que exatamente tinha feito.


R: Você estava se lamentando por não estar com ele. Porque vocês não ficaram com a Beth. [acusava]

Q: Você ouviu a conversa? [perguntou confusa]

R: Ouvi. Por quê? Era segredo? [provocou]

Q: Hã?

R: Desculpe se invadi sua privacidade. Não sabia que tínhamos segredos uma com a outra. [disse irritada]

Q: Do que você está falando? [perdia a paciência] Eu não tenho segredo nenhum! Em nenhum momento eu me lamentei por não estar com ele.

R: Eu ouvi, Quinn! [rebatia]

Q: Você não pode ter ouvido isso, porque isso não foi dito.


E realmente não tinha sido. Rachel não entendia porque havia direcionado a conversa naquele sentido, mas parecia tarde demais para desfazer o que tinha provocado.


Q: Quer saber? Eu não vou discutir com você!

R: Não?! [irritou-se]

Q: Não estrague o fim de semana, Rachel!

R: Eu estragar?!

Q: Sim! Eu tive momentos incríveis com a minha filha e eu precisava sentir apenas isso. Mas você me vem com seus ciúmes sem sentido e desvia minha atenção.

R: Sem sentido?

Q: Completamente sem sentido!

R: Eu não gostei da forma como você falou com ele. Eu não gostei de você precisar ficar sozinha no nosso quarto para conversar.

Q: Eu não queria que a Beth ouvisse. Estávamos falando dela.

R: Tem certeza de que era só isso?


Quinn se virou para olhá-la sem acreditar na provocação que havia acabado de ouvir. Com dificuldade, parou o carro no acostamento e encarou Rachel:


Q: Você não pode estar me perguntando isso... [disse incrédula]

R: Eu não sei o que mais vocês conversaram. Eu não estava presente em toda a conversa.


Quinn respirou fundo e desviou o olhar. O trânsito parado indicava que aquela discussão duraria muito tempo e ela não estava com ânimo para aquilo. Levou a mão ao cinto de segurança e o soltou, movendo-se para sair do carro.


R: Para onde você vai? [assustou-se]

Q: Para o mesmo lugar que você, mas eu não quero ir com você. [disse magoada]

R: O quê?

Q: Eu estou chateada com você. Eu precisava de você comigo o tempo todo e você preferiu se deixar dominar por seu ciúme infantil a estar ao meu lado. Você, melhor do que ninguém deveria saber que não tem motivo nenhum para se sentir ameaçada pelo Noah. Não deve se sentir ameaçada por ninguém. E me ofende isso passar pela sua cabeça. Me ofende ser destratada por você por causa disso. Me ofende de uma forma que não consigo sequer explicar. [abriu a porta do carro e se pôs a sair]


Rachel a segurou pelo braço:


R: Você não pode me deixar aqui! [disse demandante]

Q: Pegue o volante e volte pra casa! Tente aprender a pensar menos em você durante esse tempo... [soltou-se dela e saiu de vez]


Rachel a viu atravessar entre os carros rapidamente, perdendo-a de vista de repente. Percebeu, tardiamente, a besteira que havia feito. Sabia que estava sendo infantil, sabia que não tinha razões para desconfiar de Quinn, mas não conseguia agir diferente. Havia perdido o controle. E quanto mais tentava agir da forma correta, mais se descontrolava. A simples ideia de perder Quinn a deixava desnorteada.


A loira andava a passos largos, chorando... As mãos enfiadas nos bolsos do casaco, tentando conter o frio que lhe dominava. Sentia falta de ar por ter se despedido de Beth e por ter brigado com Rachel. O fim de semana estava sendo perfeito, até que a morena fez as coisas desandarem. Quinn precisava ficar sozinha. Precisava não se sentir sufocada novamente. Sentiu o celular tremer em sua mão e tentou ignorar. Sabia que devia ser Rachel. Continuou ignorando até que na terceira vez resolveu ceder. Estranhou o número desconhecido no visor...


Q: Alô? [atendeu confusa]


“Oi Quinnie! Estou impressionado como a bastardinha parece com você! Ela é mesmo linda. Igual à minha Quinnie quando era criança...”


Os pés da loira cravaram no chão. Sentiu seu coração ir à garganta ao ouvir a voz de Russel no outro lado da linha. Não conseguia falar...


“Estou livre, filha! Quem sabe não nos encontramos a qualquer momento? Darei notícias...” [desligou]


O desespero voltava à Quinn. Sentia como se tudo pudesse desmoronar a qualquer momento. Sua vida parecia um castelo de cartas...


Notas finais
Desculpem demorar a atualizar, mas ainda continuo na correria. Vou combinar com vocês de atualizar semanalmente. Todas as três fics. Nas semanas em que eu tiver mais tempo, postarei mais capítulos, mas manterei a obrigatoriedade de postar pelo menos um de cada a cada semana. Espero que possam me entender. Estou me esforçando para não demorar.
Quanto ao capítulo, espero que gostem. No próximo haverá a explicação do porquê de Russel ter saído da cadeia antes do julgamento. Veremos, também, Rachel tentar se redimir da crise de ciúmes.
Espero que gostem!
Comentem! ;-)
Beijos!

P.S.: A música do capítulo foi uma indicação (pedido) de um(a) anônimo(a) no ask. Agradeço mais uma vez! :-)