Notas iniciais
Pois bem, aí está a primeira parte. A história será dividida em duas partes.

Claribel se sentou na cadeira e deixou sua cabeça cair sobre os braços cruzados sobre a mesa. Sua amiga, Letícia, se sentou na cadeira em frente e a observou por um tempo, enquanto ela permanecia imóvel. Por fim, ela levantou a cabeça e encarou a garota com desespero.

— Lê, o que eu faço?

— Sobre o quê?

— Algo terrível aconteceu — respondeu, massageando as têmporas com os olhos esbugalhados.

— Menina, fala de uma vez!

— Eu sai com o Steve ontem.

— Não creio! — Letícia falou alto. — Tá falando do Steve? Tipo, um dos caras mais lindos dessa escola? Oh my...

— Pois é, pois é. E estava tudo perfeito, a gente conversou um pouco, depois ele me levou para uma lanchonete, então caminhamos um pouco e, quando chegou na hora h, ele tava quase me beijando... Meu celular tocou!

— Que droga! Quem era?

— Meu pai querendo saber que horas eu ia voltar. Fala sério! Ele teve a tarde toda para me ligar e fez isso na hora mais importante.

Letícia riu do modo como Claribel manifestava a sua raiva. Ela apertava os punhos e fazia bico, de forma que suas bochechas rosadas pareciam mais cheias, o que de certo modo era muito fofo.

— Então você teve que voltar para casa?

— Pois é! O Steve disse que me encontraria outro dia para gente sair de novo, mas ahh! Que droga!

Claribel voltou a deitar a cabeça sobre os braços enquanto Letícia se pôs a acariciar o cabelo azulado dela. A menina ficou assim por mais algum tempo até que o sinal tocou. Todos os alunos pegaram suas mochilas e deixaram a sala de aula para o almoço. Letícia a cutucou e ela se levantou de mau humor. Foram para o refeitório.

Depois que pegaram seus pratos, as duas se sentaram numa mesa próxima à janela. Claribel não havia acabado suas lamúrias e Letícia sabia que teria que ouvi-las por mais alguns minutos.

Subitamente, o semblante de Claribel mudou ao avistar os rapazes do time de basquete se aproximarem. Entre eles estava Steve, seu atual namorado. Os cabelos curtos estavam úmidos, o colete vermelho grande, a bermuda preta e sua altura o destacavam.

— Ai, lá vem ele. Que lindo ele tá hoje.

— Ele sempre tá lindo pra você — falou Letícia. — Olha só como todas as meninas babam por ele e pelos outros caras do time.

— Claro, mas eu sou a namorada dele agora. Chorem, perdedoras! — Claribel falou com um sorriso triunfal no rosto.

Ao passar pela mesa delas, Steve se aproximou e beijou Claribel. As bochechas de Letícia ficaram vermelhas, mas não tanto quanto as de Claribel. Ela parecia terrivelmente envergonhada e notou rapidamente que todos a olhavam.

— Nos encontramos depois da escola, ok? — Steve falou e piscou para ela, depois se afastou acompanhado do resto do time.

— Minha nossa! — exclamou Letícia. — Isso foi tão... Por que ele fez isso na frente de todo mundo?

— Ai, que vergonha! — Claribel falou quase chorando. Alguns alunos ainda a encaravam, mas ela não gostava daquela sensação.

Embora gostasse de ser a namorada de um dos garotos mais bonitos de toda a escola, Claribel não queria chamar a atenção para si. Não namorava Steve para parecer a princesa da escola, mas porque gostava dele. Aquela atração de atenção para si era uma das consequências indesejáveis de namorá-lo.

Ao terminar a refeição, Letícia voltou para a sala de aula, mas Claribel resolveu caminhar um pouco, pois estivera sentada por muito tempo e as pernas pareciam atrofiadas. Ela andou até os fundos do prédio onde havia uma pequena área verde e lá se deparou com Benjamim, um garoto de outra turma, que lia algo.

O garoto, ao perceber sua presença ali, se levantou e tentou organizar rapidamente alguns papeis que estavam no chão. Ele parecia querer fugir e se atrapalhou um pouco, o que chamou a atenção da garota.

— Ei, por que a pressa? Foi por minha causa? Não se incomode, eu já saio.

O garoto olhou para ela com um olhar desconfiado, então se agachou devagar e se sentou.

— Você está com algum problema? — Claribel perguntou com certa irritação.

— É que você...

— Você é o Benjamim, não é? Do segundo ano d.

— Sim.

— Eu sou Claribel, do segundo ano c. Por que você está tão apressado? Eu não vim te importunar.

— Pois eu achei que era exatamente isso que você ia fazer.

Surpresa, Claribel se aproximou mais, até se sentar ao lado dele.

— Eu não sabia que você era tão desconfiado assim. O que há?

— As pessoas, em geral, me importunam. Acho que eu não sou o tipo que se enquadra no que elas têm como legal ou aceitável.

— Por que não? Você é tão fofo.

As bochechas de Benjamim ficaram vermelhas de repente e ele baixou um pouco a cabeça. Sua franja branca ocultou seus olhos azulados. Claribel percebeu como o deixara desconfortável e pensou que ele era muito tímido, por isso as pessoas o incomodavam. Nas salas de aula, sempre há um eleito para preencher um estereótipo comum a todas as salas de aula; o mais popular, o valentão, o galã, a garota mais popular, a mais bem vestida, o nerd, e por aí segue. Benjamim fora eleito o alvo das piadas e brincadeiras de mau gosto. Talvez por sua personalidade mais retraída e diferente.

As diferenças de Benjamim começavam por seu cabelo. Ele era louro, mas de um louro praticamente branco, com cabelos nem muito curtos nem muito longos. Chegavam ao pescoço. A franja chegava ao nariz. Outro motivo era seu rosto delicado como de uma garota e os olhos inclinados e de coloração acinzentada.

Todas essas características físicas de Benjamim o tornavam um garoto muito fofo para Claribel, mas era motivo de piadinhas para os garotos da escola. Aliado à sua aparência, sua paixão por livros fornecia material para que as pessoas caçoassem dele como se isso fosse algo ruim.

— Então — Claribel falou por fim — o que estava lendo?

— É uma... Partitura.

— Partitura? Você toca o quê? Piano?

— Também. Toco violoncelo.

— Sério? — Claribel se aproximou mais de Benjamim e seus olhos brilhavam de entusiasmo. O movimento súbito dela assustou o rapaz. — Eu nunca conheci alguém que tocasse esse instrumento. Eu quero ouvir.

— Ma... Mas... E-eu...

— Eu quero ouvir. Você toca para mim?

Benjamim não teve reação e parecia desnorteado, o que pareceu perfeitamente normal para ela, já que ele não estava muito acostumado em conversar com as pessoas na escola, ainda mais com alguém tão animado.

— E-eu não toco tão bem. Com licença, eu tenho que ir.

Benjamim pegou suas coisas e saiu correndo antes que Claribel pudesse impedi-lo. Ela observou enquanto ele se afastava e sentiu pena. Queria poder ajudá-lo de algum jeito, além de estar muito curiosa sobre ele.

A casa era um sobrado pequeno, mas bonito. O muro que o cercava era completamente coberto de hera japonesa e o portão era todo preto. Claribel confirmou mais uma vez o endereço. Aquela era sem dúvidas a casa de Benjamim. Ela tocou a campanhia e rapidamente foi atendida por uma mulher muito bonita e bem arrumada.

— Olá, senhora Faureate?

— Sou eu.

— Meu nome é Claribel. Eu estudo na mesma escola que o Benjamim, ele está?

— Oh! Você é amiga dele? — A mulher sorriu. — Entre, entre, por favor.

A senhora Faureate abriu o portão rapidamente e deixou que a moça entrasse. Claribel se maravilhou com o pequeno, mas colorido jardim. No meio dele havia um caminho que levava até a varanda do sobrado.

Assim que entraram na sala, a senhora Faureate fez com que Claribel se sentasse num confortável sofá e lhe serviu um copo de suco e biscoitos que ela mesma fizera.

— Benjamim nunca recebe amigos aqui em casa, então estou muito feliz em te ver. Ele não me disse que você viria.

— Ele não sabia, eu vim fazer uma visita surpresa.

De repente, Claribel ouviu o som de uma música que ela conhecia muito bem. Era fade to black[1] sendo tocado no violoncelo, o que a maravilhou. Aquela era uma de suas músicas favoritas.

— Ora parece que ele está praticando. — A senhora Faureate falou. — Se você quiser, pode subir.

— Por favor.

A senhora Faureate a guiou até o andar de cima e lhe indicou a porta. Claribel a abriu com calma, temendo que Benjamim parasse de tocar. A essa altura, a senhora Faureate voltara à sala.

No quarto, Claribel viu a cama muito bem arrumada, estantes flutuantes repletas de livros, uma mesa de estudos com vários papeis e livros abertos e um pufe com algumas partituras sobre ele.

A garota ouviu com maior nitidez a música e notou que havia uma divisória de vidro. No cômodo ao lado, ela viu Benjamim sentado numa cadeira tocando o violoncelo. Seus olhos estavam fechados como se ele mergulhasse naquela composição. Ele tocava o instrumento com uma graça que Claribel apreciou no instante em que ouviu.

Naquele mesmo cômodo havia também um piano de cauda, um violino, um violão e uma flauta sobre uma escrivaninha. Num terraço mais ao fundo, ela notou uma guitarra sobre a poltrona.

Quando a música terminou, Benjamim abriu os olhos que se esbugalharam ao notar a garota parada a olhá-lo intensamente. Ele corou e ficou sem palavras por um tempo.

— É maravilhoso. Como pode me dizer que não toca bem?

— O-O que você... Co-Como você...

— Eu descobri seu endereço sondando uma das moças da secretaria que gosta muito de mim e é muito descuidada também. Ela se esquece dos sigilos.

— Por que...

— Eu queria te ouvir tocar.

Benjamim suspirou pesadamente e se levantou. Suas faces estavam coradas e ele não parecia nem um pouco a vontade. Agora, ele tinha mais medo dela do que simples desconfiança, afinal, pensava consigo, quem sonda uma secretária para descobrir o endereço de uma pessoa que mal conhece?

— Você... Quer beber algo?

— Sua mãe já me ofereceu um copo de suco e biscoitos deliciosos.

Claribel se aproximou do piano escuro e ficou a observá-lo. Desde pequena queria aprender a tocar, mas seu pai não podia pagar aulas, muito menos comprar um para ela. Talvez fosse por isso que admirasse tanto as pessoas que o sabiam tocar, ela pensou.

— Então, já te ouvi tocar fade to black no violoncelo. Agora me mostre algo no piano.

— O que... O que, por exemplo?

— O que você sabe tocar?

Benjamim olhou para o terraço por um momento com ar pensativo. Então se voltou para a garota que fixara nele seu olhar castanho e sorriu timidamente. Puxou uma poltrona para que Claribel se sentasse, ao que ela aceitou, e se sentou ao piano. Pôs-se a tocar a sonata de Lestat, que ela também conhecia e apreciava muito.

— Você toca todos esses instrumentos? — a moça perguntou quando ele terminou.

— Sim. Não domino muito bem a flauta e estou aprendendo a tocar violino, mas toco muito bem piano, violoncelo e violão.

— Que incrível! Você tem um dom maravilhoso para a música, Benjamim. Devia tocar na escola. Ninguém lá deve saber que você é um artista, não é?

— Ninguém lá precisa saber. Já basta as piadinhas que fazem com minha aparência e com meus livros.

Claribel suspirou e sorriu para o rapaz. Ela ficou um pouco triste ao se lembrar das brincadeiras de mau gosto, mas, numa tentativa de fazê-lo se esquecer, passou a andar pelo quarto e perguntar por cada livro que havia ali.

Benjamim tinha livros muito bons e seu gosto pela leitura era voltado para clássicos que ela jamais pensara em ler, como obras de Dostoiévski e de Victor Hugo.

— Além de música e de livros, o que mais te interessa? — ela perguntou enquanto folheava um livro de Edgar Allan Poe.

— Eu... Pratico karatê uma vez por semana. Para relaxar.

— Você? — Claribel pareceu surpresa. — Minha nossa! Você pratica artes marciais? Eu nunca imaginaria.

— Pois é. Eu também gosto de escrever contos e gosto de fazer bolos.

— Sério? — Claribel se sobressaltou e novamente assustou o garoto que ainda não se acostumara com a animação exacerbada dela. — Meu pai faz bolos. Ele é confeiteiro.

— Oh! Eu bem que queria aprender a fazer bolos bem bonitos. Os meus ainda são simples demais.

— Ora, não se faça de rogado. Você vai um dia na minha casa para conversar com meu pai. Ele pode te levar até a confeitaria e te ensinar várias coisas, se você quiser.

— Isso seria muito divertido.

— Claro que sim. Meu pai gosta de ensinar tanto quanto gosta de fazer bolos. Ele sempre aceita gente nova que quer aprender. Ele se sente tipo um sensei.

Benjamim riu com a comparação e Claribel riu por poder vê-lo sorrir e por notar que seu sorriso era muito bonito. Desejou que pudesse vê-lo assim mais vezes, ao invés daquela aparência tristonha.

— Sabe, minha mãe gosta de cultivar várias flores. Você viu o nosso jardim, não?

— Sim, é lindo.

— Venha ver o dos fundos.

Benjamim guiou a garota até os fundos da casa e ela ficou sem palavras quando chegou à varanda. Havia ali um grande jardim, tão colorido quanto o frontal, com um chafariz de pedra talhada. A água fluía da boca de um querubim e caia por vários níveis da pedra.

— Mas que obra-prima! — Claribel falou, sem fôlego.

— Minha mãe é mesmo apaixonada por isso. Ela é paisagista por excelência.

Benjamim a guiou em meio ao jardim e lhe falou do que aprendera sobre cada tipo de flor e de planta que havia ali. Falou também sobre o chafariz que seu falecido pai havia esculpido como presente para a esposa.

Os dois passaram a tarde toda conversando, ora no jardim, ora sentados numa rede na varanda.

— Você é uma pessoa estranha — Benjamim falou de repente, entre risos.

— Por quê?

— Porque você é uma stalker. Descobriu meu endereço e veio me ver só porque é muito curiosa.

— Mas eu quero te conhecer melhor.

Benjamim a olhou e tanto sua boca quanto seus olhos sorriram naquele momento.



[1] Fade to Black, da banda Metallica.

Notas finais
Obrigada por ler. Comentem o que acharam, o que precisa ser melhorado... Enfim, comentem. ^.^