Você é muito estranha!
2 Segunda parte
Notas iniciais
Paulo colocou o prato com um pedaço de bolo sobre a mesa. No mesmo minuto, Claribel apareceu na cozinha e se sentou para comer.
— Você tem algum radar para doces, ein? Sempre na hora certa.
— Claro, papai! Afinal, eu amo seus bolos.
Claribel comeu com vontade enquanto seu pai a observava com um sorriso satisfeito no rosto. Os dois conversaram por alguns minutos até que o celular da garota vibrou, avisando que havia mensagens. Ela leu e se sobressaltou.
— Wooo! Me esqueci que tinha que encontrar o Steve.
— Steve? De novo o Steve? Filha, sabe bem que eu não gosto desse seu namoradinho.
— Qual é, pai? O que ele te fez? Ele é legal.
— Bem, ele não me parece ser tão legal assim. Sabe como são esses caras estrelas da escola, não? Eles têm o costume de ter mais de uma namorada. Eu não quero te ver desapontada com algo que ele faça.
Claribel sorriu, se levantou e deu um beijo no pai.
— Eu sei, pai. Não se preocupe, eu vou me cuidar.
Paulo suspirou. A garota correu até seu quarto, pegou sua bolsa e saiu apressadamente.
No parque, Claribel avistou Steve de longe. Ele estava acompanhado de dois dos membros do time de basquete e três garotas, o que ela estranhou, afinal, ele não havia mencionado que haveria outras pessoas.
— Oi. — Claribel o cumprimentou.
— Oi, gracinha. Tudo bem?
— Sim. Por que eles estão aqui?
— Resolvi convidar a galera para sair também. Então, aonde vamos? Alguém tem alguma ideia?
— Que tal o karaokê? — sugeriu uma das garotas.
— Perfeito — o capitão do time falou. — Vamos lá.
Todos caminhavam e falavam ao mesmo tempo, exceto Claribel. Ela ficou desapontada, pois pensava em passar um tempo a sós com o namorado.
Enquanto caminhavam, Claribel avistou Benjamim sentado num banco debaixo de uma enorme árvore, com um livro em mãos. Ele tinha um leve sorriso no rosto, parecia embriagado pela leitura e seus olhos corriam pela folha como se fosse um animal a perseguir seu alimento.
Claribel sorriu ao notar como ele estava em paz. Não parecia assustado nem triste, mas estava em sua própria zona de conforto, fazendo uma das coisas que mais gostava de fazer e isso iluminava seu belo rosto. Uma brisa fina bateu fazendo balançar seus cabelos brancos.
Toda a cena bonita que Claribel não queria parar de observar se desfez quando seu namorado falou:
— Olha lá, é o idiota da sala d. Ha ha ha, ele e seus livrinhos.
Os garotos começaram a fazer piadas e Benjamim os ouviu. Ao vê-los ali, o rapaz corou e baixou a cabeça, envergonhado. Claribel abaixou um pouco a cabeça e notou que ele mordia os lábios. Ela ficou triste com a situação.
— Ei, parem com isso. Deixem ele em paz.
— Deixa de besteira, Clari — Steve falou.
Eles continuaram andando e a garota foi a contragosto. Olhou para trás a tempo de ver o rapaz suspirar e voltar para sua leitura, fingindo que nada acontecera.
Durante todo o passeio, Claribel não se enturmou e não pareceu alegre. Sequer cantou no karaokê, algo que não condizia com seu comportamento sempre animado e efusivo. Steve notou sua indiferença e a abraçou.
— O que foi, gatinha? Qual o problema?
— O problema? — O tom de voz da moça estava levemente alterado — Por que trouxe toda essa gente? Pensei que seríamos só nós dois.
— Ah, é só isso? Relaxa, na próxima eu não trago ninguém. Na verdade, se você quiser, eu dispenso todo mundo e ficamos sozinhos o resto do passeio, até a noite. Podemos ir para minha casa também, se quiser.
Aquela última frase soou um pouco maliciosa e Claribel logo percebeu as segundas intenções de Steve no olhar dele. Irritada, ela virou o rosto, o que deixou seu namorado confuso.
— Qual é, Clari!
— Também não gostei da forma como vocês trataram o Benjamim. Vocês não deviam caçoar dele daquela maneira.
— Tá falando sério? — Steve riu. — Quem se importa com aquele moleque?
— Eu me importo!
Claribel pegou sua bolsa, se levantou e saiu do lugar mesmo sob os protestos de Steve. Os outros amigos apenas observaram a cena sem dizer nada.
Claribel desceu do ônibus e correu. A saia de seu vestido balançava avidamente. Ela ignorou os sapatos novos que seriam gastos com aquela corrida e chegou até o sobradinho de Benjamim. Tocou a campainha duas vezes com certa pressa e enquanto esperava se concentrou em tentar não ofegar tanto.
A senhora Faureate abriu o portão e sorriu ao ver Claribel ali, mas seu sorriso diminuiu ao perceber que ela parecia muito agitada.
— O que houve? Você está bem?
— Eu estou. É que corri um pouco. Posso ver o Benjamim?
— Claro. Ele está no quarto dele, pode subir.
Claribel subiu as escadas o mais rápido que pode e ao chegar ao primeiro andar, bateu repetidas vezes na porta do quarto de Benjamim. Logo ele a abriu e ficou surpreso ao vê-la.
— O que faz aqui?
— Oi. Ufa!
— Você veio de alguma maratona ou algo assim?
— Algo assim. Eu só queria... Ufa! Queria te pedir desculpas.
— Pelo quê?
— Pelo que houve no parque hoje.
— Está tudo bem — Benjamim disse com um sorriso no rosto. — Você não tem que se desculpar.
— Mas você ficou quieto — ela falou e antes que Benjamim respondesse, ela o abraçou. — Eu não quero mais te ver triste.
Benjamim ficou sem reação por um momento, mas, devagar, relaxou um pouco e a abraçou também.
— Você é realmente muito estranha — ele falou depois de um tempo em silêncio.
No dia seguinte, na escola, Claribel estava novamente com a cabeça caída sobre a mesa. Letícia se sentou em frente à amiga e observou a cena com uma sensação compreensível de deja vu.
— O que é dessa vez?
— Eu saí ontem com o Steve, mas ele levou uma porrada de amigos — ela falou, batendo na mesa com os punhos. — Eu não acredito nisso, achei quer seríamos só nós dois.
— Que triste! Mas você aproveitou do mesmo jeito, não?
— Bem... — Claribel levantou a cabeça devagar. — Eu meio que... Não! Eu fiquei emburrada o passeio todo e ainda deixei ele no karaokê depois.
— Por quê?
— Porque, no parque, nós passamos pelo Benjamim, aquele garoto fofinho da classe d, e todos começara a importuná-lo com piadinhas ridículas.
— Você fala daquele garoto pelo qual você está obcecada agora?
— Eu não estou... Bem, tá eu fiquei um pouco curiosa sobre ele.
— Você está é maluca! Você descobriu o endereço dele. Não acha que já o assustou bastante? Ele deve te achar uma tarada psicótica.
— Ele certamente me acha estranha, mas não psicótica! De todo jeito... Eu não sei se quero sair com o Steve de novo. Acho que vou terminar com ele.
— Por causa do Benjamim? — Letícia perguntou, surpresa.
— É... Não. É por que o Steve... Não é o cara que eu esperava que ele fosse. Ele é tão legal, joga basquete e é lindo, mas também é desnecessariamente cruel. Não sei, eu ainda gosto dele... Bem, eu ainda estou é impressionada com ele, mas...
— Já entendi tudo — Letícia falou passando a mão no queixo como se fosse uma investigadora que acaba de juntar as pistas de um importante caso.
— Já?
— Sim. Você está apaixonada pelo Benjamim, mas está indecisa entre ele e o Steve.
— Isso é sério? — Claribel a olhou com cara de pouco caso. — Eu nem o conheci ainda e essa é a conclusão que você aceitou como explicação?
— Mas eu sei que é. Garotas de quinze anos são estranhas, Clari. Nos apaixonamos em menos de uma hora de conversa com um garoto interessante e o Benjamim é interessante para você. Eu posso compreender, ele é realmente muito fofo e acho que por trás daquele garoto assustadiço há um homem muito atraente esperando para encontrar a garota que não vá agir de forma idiota com ele.
Claribel encarou a amiga com uma expressão de incompreensão no rosto. A boca estava um pouco aberta e seus olhos fixos de uma forma engraçada em Letícia. Isso fez com que a amiga precisasse se esforçar para não rir dela.
— Ok! — Claribel se limitou a dizer.
— Então vá lá. Termine com o galãzinho bobão e fique com o fofinho de olho inclinados. Gente, os olhos dele são realmente fofos.
Depois que Claribel pensou um pouco, se decidiu que realmente terminaria com Steve. Sabia que muita gente ficaria feliz com aquilo – seu pai, as garotas da escola -, mas sentiu principalmente que era o melhor para ela.
Mal a garota tomou a decisão, duas colegas de classe entraram e se aproximaram dela.
— Ei, Clari, seu namorado tá lá embaixo fazendo uma ceninha, ein! – uma das garotas falou.
— Como é? — Claribel se levantou.
— Pois é. Ele tava brigando com um garoto da sala d.
— Essa não! — Claribel e Letícia se entreolharam e as duas correram até o pátio.
Encostado a uma parede, Benjamim encarava Steve. Este estava muito perto dele e ameaçava dar um soco em seu rosto a qualquer momento.
— Então você tá afim da minha namorada, ein, miserável!
— Na-não é isso — Benjamim gaguejou um pouco.
— É sim. Eu to sabendo que você anda de conversinha com ela, idiota. Não dá pra negar!
Benjamim parecia um pouco mais controlado do que costumeiramente, embora ainda gaguejasse, mas certamente seria espancado ali se desafiasse Steve. Este parecia muito irritado até que sua expressão se transformou em deboche.
— Um nerdezinho como você... É melhor se colocar no seu lugar, moleque.
— Ei, Steve. — Claribel se aproximou e puxou o braço do namorado. — O que você tá fazendo?
— Só situando esse cretino. E você não devia ficar andando com esse tipo.
— Eu já disse pra deixar ele em paz. Eu não gosto de tipos como o seu, que ficam menosprezando os outros só pra se sentirem mais importantes.
Steve ouviu os murmúrios de todos os alunos que assistiam à cena aumentar. A maioria ria dele, o que o fez se sentir diminuído diante de todos.
— Qual é a sua, garota? Escuta aqui...
— Não, escuta você! — ela o interrompeu. — Você age como um idiota. Para de se sentir importante só por que fica correndo atrás de uma bola. Você não é melhor que ele ou que alguém aqui. Você nem se importa comigo ou se importou com garota alguma. Só quer levar pra cama. Eu odeio isso, acho nojento e não gosto de você. Então procure algum idiota que combine com essa sua personalidade desprezível, porque eu não sou essa garota!
Claribel cruzou os braços decididamente e encarou um estupefato Steve com ar de superioridade. O garoto olhou dela para Benjamim e de Benjamim para ela. Olhou em volta e percebeu que todos caçoavam dele, o que o fez se sentir envergonhado. Além de ser diminuído na frente de todos, ainda fora recusado por uma garota.
— ... Tá! Fica com esse nerdezinho... Se ele é tão melhor...
— Pode apostar. Ele toca seis instrumentos, lê livros de quinhentos anos atrás, conhece uma variedade de flores, sabe fazer bolo e ainda por cima tem uma coisa chamada educação. Quem você acha que eu prefiro? Idiota.
Aquele foi o golpe da morte que fez Steve se afastar sem palavras. Todos os olhares de chacota e deboche pesaram sobre ele, inclusive dos membros do time de basquete. Aquilo certamente o perseguiria por muito tempo.
Quando os alunos se afastaram, Claribel se voltou para Benjamim, que sorria para ela com admiração.
— O que foi?
— Você é realmente muito estranha!
Claribel sorriu, agarrou o braço de Benjamim e os dois caminharam assim pela escola.
— Agora terei mais tempo livre para aprender mais sobre quem é você, Bem.
— Então você agora me deu um apelido?!
— É. Ter que falar Benjamim o tempo todo é cansativo. Você é oficialmente Bem agora. Eleito o nome ideal pela guerreira Claribel, que defendeu sua honra e se sente muito irritada por você ter dito que não gostava dela.
— Desculpe-me — ele falou com as bochechas já vermelhas.
— No problem! Mas terá que remediar isso. Vamos... Você me ensinará a tocar violoncelo!
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