Vive Le France
1 Bonjour, Brasil!
#Sophie
Ah, maravilha começar o dia lembrando da maldita prova de matemática que tem ocupado minha mente desde o começo da semana passada. Já acordei pensando seriamente em me suicidar, mas eu ainda tinha uma linda e cheirosa Itália pra visitar no fim das semanas restantes de prova. Enquanto sonho com essa viagem, me arrasto até o guarda roupa, pego uma roupa qualquer(http://ak1.polyvoreimg.com/cgi/img-set/cid/104236381/id/-q7U6sJP4xGp-k4IFYJoxg/size/y.jpg) e me arrasto novamente até o banheiro. Tomo banho, me arrumo e ando até a sala. Seria um caminho pacífico, se eu não tivesse sido atropelada pelo meu irmão saindo do quarto com um copo enorme de suco e um casaco na mão. Peste. Enquanto encho a tigela com leite e Froot Loops, meu cereal favorito, minha mãe tagarela:
– Pierre, larga esse suco. Você não vai beber isso tudo. Sophie, anda logo, você já acordou atrasada e ainda se dá ao luxo de comer nessa lerdeza? Nossa. Deus me ajude. E vem cá, eu já não te disse que eu não quero que você vá toda largada assim pro colégio?
– Todo começo de semana eu vou pro colégio assim, você nunca reclamou, mulher. São 07:30, a prova começa 08:50. E vai até 11:00, ou seja, temos tempo de sobra.
– Temos nada, seu pai saiu mais cedo porque tinha uma reunião urgentíssima na empresa, eu também tenho uma reunião daqui a pouco lá, ou seja, ninguém aqui tem tempo de sobra. Anda logo. Ah, filho. Sua avó perguntou se você não quer ir à missa com ela.
No alto dos seus 12 anos(embora pareça ter 16 ou mais), Pierre respondeu:
– Odeio essa coisa de você trabalhar na mesma empresa que o papai. E eu não preciso de religião, eu preciso de dinheiro.
– Que é isso, menino. Você tem 12 anos de idade, Pierre. Se não quiser ir, tem que passar pelo menos a tarde na casa dela.
– Tudo bem, pra lá eu vou.
Terminei de comer, esperei a peste e a minha mãe e fui pro colégio. 30 minutos depois, cheguei na escola e fui voando pra sala. Era a terceira prova, só faltavam mais 6, vamo lá. Algumas das fórmulas fugiam da minha mente e eu fazia caretas pra lembrar. O professor deve ter achado que eu tenho problemas mentais. Demorei uma hora e meia naquele inferno, e quando saí da sala, liguei pro meu pai imediatamente:
– Papai? Onde cê tá?
– Tô no trabalho, filha. Acabei a reunião, mas tô cheio de trabalho e só vou sair mais tarde hoje. Porque? Aconteceu alguma coisa?
– Não, é porque eu já terminei a prova e mamãe ainda tá na reunião, pelo que ela me falou no Whatsapp. Precisava de alguém pra me buscar, mas deixe pra lá, eu trouxe dinheiro, posso pegar um táxi.
– Ah, então tudo bem, mas qualquer coisa me ligue, estou em horário de almoço ainda. Beijo, te amo.
– Tá, beijo, te amo.
Desliguei e olhei para todos os lados, desejando que um santo táxi aparecesse. Parece que minha macumba funcionou, porque 5 minutos depois apareceu um. Quando cheguei em casa, achei que teria paz. Mas não.
– Que diabos você tá fazendo aqui? Não deveria estar na escola?
– Mãe, eu tô em semana de prova, tô quase de férias, minhas aulas acabaram semana passada. E você, não deveria estar na reunião?
– Ah, é mesmo, desculpe. Ah, acabou mais cedo, uma das pessoas fundamentais na reunião teve um problema em casa e teve que sair, e a maldita não pôde ser terminada. Foi remarcada ou continuaremos com problemas. Vai querer ir pra casa da sua avó?
– Acho que sim. É bom que lá eu tenho meus biscoitos. Por que você não compra mais os meus biscoitos?
– Não é culpa minha, tá em falta no mercado, ué. Quer que eu faça o quê? Nem sei onde sua avó consegue eles.
– Ela deve comprar pelo e-Bay. — rimos juntas.
Fui arrumar minhas coisas e buscar a peste no colégio, que ficou até meio dia na prova, teve uma hora a mais pra terminar. Garoto burro. Do colégio, casa da vovó. Acontece que a casa da minha avó não é uma casa proporcional à ela. Ela era uma senhora de 67 anos, vovozinha tradicional, daquelas que tricotam, fazem comidas maravilhosas e recebe os netos com quilos e quilos de bolos, tortas, doces e salgados com uma baita casa gigante e luxuosa(http://25.media.tumblr.com/fa0fd413049a51beef3d9baa9f84a414/tumblr_mw7cr6pzj71r6n238o1_500.jpg) com um jardim de inverno e um laguinho com carpas artesanais numa parte de trás da casa. Vovozinhas tradicionais deveriam morar em casinhas fofinhas, cheias de flores e mimos e todas aquelas coisas que a gente só encontra em casa de vó. Chegando na casa da dita cuja, saí correndo pra abraçá-la. Pô, seis meses sem ver ela não é muito legal não.
– Eu comprei seus biscoitos.
– Normal, obrigada vó. A mamãe disse que não achou no mercado, a senhora compra aonde?
– Seu avô que traz caixas e mais caixas quando vai trabalhar. Mas aonde ele compra eu já não sei.
– Tá explicado. E cadê ele?
– Quem? Seu avô? Tá viajando, menina.
– Não vó, esse eu sei que tá fora. Tô perguntando do biscoito.
– Ah. Tá na cozinha, tem um prato cheinho deles lá.
Peguei o prato e mais uma caixa e subi pro meu quarto. Enquanto assistia um filme americano chamado Amizade Colorida, eu senti um mau pressentimento. "Bobagem, deve ser o filme".No fim do mesmo, recebi uma mensagem do meu pai."Precisamos conversar com urgência, avise ao seu irmão que passarei ai às sete da noite. Te amo." Eu sabia, mulher realmente tem sexto sentido. Ansiosa com a chegada do meu pai, eu me debrucei na varanda do meu quarto e fiquei só observando os carros que passavam. Até que eu finalmente avistei a BMW nada humilde do papai, gritei o Pierre e desci correndo, arrastando os dois pro jardim de inverno. Lá, ele soltou a bomba.
– Quando eu estava no banco hoje, logo após a reunião, me chamaram por conta da atual situação financeira da empresa. E infelizmente... ela está falida.
Um minuto de silêncio. Mas como assim? Semana passada ele tava feliz, nadando em dinheiro, organizando minha viagem com a tia Julia e o Pierre pra Itália e a dele com a mamãe pra Grécia... muito estranho.
– Isso significa exatamente O QUE, pai? — perguntou Pierre, com expressão preocupada no rosto.
– Significa, meu filho... que teremos que deixar a França. Eu poderia vender nossa casa e cortar alguns gastos para quitar as dívidas da empresa e vir morar com a dona Anne, no caso a sua avó, né... mas o seu avô já trabalha muito pra manter a mulher e essa casa, então o trabalho seria quadruplicado... então vamos partir.
Inconformado, meu irmão abraçou meu pai, eu abracei os dois e assim ficamos por algum tempo. Duas semanas depois, quando meu ano escolar já tinha acabado, lá estávamos nós, partindo para o Rio de Janeiro, Brasil. Mamãe e papai com novas propostas de emprego, eu e o Pierre com um novo colégio, pago pela vovó. Ia ser no mínimo estranho, já que eu e o resto da família só sabíamos um português mais ou menos, e ainda era o de Portugal. Chegamos no Rio às oito da noite e fomos direto para o hotel dormir. Meu pai e minha mãe num quarto e eu e meu irmão em outro. Tomamos banho, colocamos nossos pijamas e deitamos na cama, na esperança de dormir rapidamente, para no dia seguinte acordar e ver que tudo aquilo tinha sido um pesadelo, e que eu continuava na minha boa e velha França. É, não consegui. Fiquei até 3 da madrugada me revirando debaixo dos lençóis da cama, até que finalmente consegui pegar no sono. Antes tivesse passado a noite toda acordada né, porque o meu pai bateu lá no quarto às sete da manhã pra, segundo dele, aproveitar o hotel.
– Eu tenho um jeito muito melhor de aproveitar o hotel, sem ficar lá embaixo, fritando nesse sol que já tá forte a essa hora da manhã e sem suportar guris brincando na piscina, jogando água pra tudo quanto é canto.
– Como?
– Ficando no quarto, no ar condicionado, debaixo dos lençóis, dormindo. Agora vai lá fritar na área da piscina, vai pai.
– Não, é sério, moça — riu ele. — Vamos lá, vai ser legal.
– Ai, pai. — disse isso e cochilei por 20 minutos. Quando eu acordei, ele ainda tava lá, sentado na ponta da cama do Pierre, que não tinha acordado ainda, nem de leve, pra ver o que tava acontecendo.
– Você ainda tá aqui? — gritei, sonolenta.
– Claro. Só saio daqui com você e seu irmão.
– Pai, para de coisa. Posso ir na hora do almoço?
– Promete?
– Prometo.
– Então tudo bem.
Quando já estava saindo do quarto, meu pai se virou e gritou:
– TRAZ O PIERRE.
– TÁ PAI, TCHAU.
Ele bateu a porta do quarto e eu dormi o dia todo. Depois de algumas semanas, finalmente era o primeiro dia de aula, no Colégio Anglo-Americano. É, pelo que eu fiquei sabendo era um colégio muito bom. Botei minha calça preta, meu casaco que eu usei na maldita prova de matemática e parti, pro meu novo colégio, pra minha nova vida.
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