Vive Le France
2 Meu Novo Mundo
#Sophie
O colégio era enorme. Não tanto quanto o meu lá na França, porém chegava perto. Mais ou menos. Minha sala era grande e cheia de gente animada, conversando alto e rindo. Alguns sentados literalmente na mesa do professor, mostrando fotos das férias e/ou conversas com seus amores de verão e outros em pé, em pequenos grupinhos. Acho que eram mais ou menos, 40 pessoas. Agora imaginem esse bando de vozes brasileiras todas falando ao mesmo tempo. Pra alguém que não sabe nem dar um bom dia direito é complicado. Como toda novata que não sabe falar a língua do país em questão, eu caminhei até o fundo da sala procurando um lugar pra sentar. Por sorte, tinha um bem no canto e foi lá que eu fiquei. Enquanto eu olhava o Instagram, percebi que um monte de gente me olhava como se eu fosse uma celebridade de Hollywood. Primeiro eu pensei que era porque eu sou ruiva, mas depois eu vi uma ruivinha com umas amigas num canto e descartei essa possibilidade. Tentando entender o porquê de tantos olhares, eu coloquei o fone de ouvido e aumentei o volume do Imagine Dragons. Tava viajando tanto na música que nem percebi que uns 5 garotos aparentando 16 anos ou mais estavam ao meu redor.
– Ei, Terra chamando novata. — brincou um deles, bem bonitinho.
– Oi, desculpe. — respondi, toda vermelha, tirando o fone.
– Tudo bem. Qual é seu nome?
– Sophie..
– Que fofa. Resta saber se seu jeito é fofo também — disse ele, com cara de safado.
– Para com isso Gabriel, vai assustar a menina. Provavelmente ela não é daqui. — reclamou outro. Não era tão bonito quanto o tal do Gabriel, mas era bem fofinho.
– Verdade, foi mal. Você não é daqui não né? É de onde?
– Sou da França.. não sei falar o português daqui muito bem..
– Tá falando o de Portugal né? Percebi. Vou apresentar os pivetes pra você. Esse do olhinho verde que reclamou comigo é o Noah, mas pode chamar ele de Dunga. Ele não é daqui não, é americano. Mas fala português direitinho, então não parece muito que ele é gringo. Esse é o Fernando e esses dois aqui são João e Gustavo, respectivamente. De todos nós, João e Gustavo são os únicos repetentes, os dois com 16 anos. Eu, Noah e Fernando temos 15.
– Ah.. — respondi, olhando pra cara de cada um deles, tipo "aham, legal e daí?"
– Bom, se precisar de alguma coisa, tamo aí. Pode chamar.
– Ok, obrigada.
Achando que teria paz quando eles se afastaram, eu voltei a ouvir música. Depois de uns 5 minutos, 3 garotas chegaram na minha mesa. Uma delas era a ruivinha.
– Oi, meu nome é Nathália. Como cê se chama?
– Sophie..
– Ah, oi. Você não é daqui não né?
– Não, sou da França.
– Ai, que sonho — disse ela, apertando os olhinhos e as mãos contra o rosto. — Olha, essas duas se chamam Giovana, só que tem apelido, pra não confundir. A loira é Gi e a morena é Mônica. A gente chama ela de Mônica porque quando ela era pequena, parecia a Mônica dos quadrinhos, mas acho que você não conhece, acho que na França não tem essas coisas.
– Já ouvi falar disso, mas lá acho que não vende mesmo.
– Pois é. Qualquer coisa pode chamar, viu? A gente tá naquelas cadeiras lá na frente — disse ela, apontando pros lugares.
Disse que sim com a cabeça, sorri e elas saíram. Depois das primeiras 2 aulas, chegou a hora do intervalo e fui voando pra cantina. Puxei 10 reais do bolso e comprei uma coca de 600ml, um cachorro quente e com o troco comprei chocolate. Sim, eu como muito e a minha mãe sempre reclamou. Mas não porque eu como muito. É que eu como muito e consigo manter o corpo que sempre tive, sem fazer nenhum exercício. Sentei debaixo de uma árvore no pátio e me pus a comer. Só depois da quinta mordida eu percebi o quanto aquele cachorro quente era enorme. Mas eu comi ele todo. Comi, bebi e coloquei os fones de ouvido, procurando sossego. Sem sucesso. Os "pivetes" la da sala logo se manifestaram:
– Você come muito, cara. — admirou-se Gabriel.
– É. Tem quantos anos? Tem namorado? — perguntou Dunga.
– 14, tinha, mas terminei antes de vir para cá.
– Hum. Beleza. Tamo indo pra quadra. — disse Gabriel, se afastando. — Não vem não, Dunga?
– Hoje não.
– Hummmmmm. Falou.
Tentando entender o significado daquele Hum prolongado, eu tirei os fones, quando percebi que o Dunga ia passar um tempo comigo.
– Ei, me dá atenção. — brincou ele, rindo fofamente e ficando vermelho.
– Ué, por quê você não foi jogar com eles? Vocês não são amigos?
– Somos. Mas quando o assunto é futebol, amigos à parte.
– Ah..
– É.
Conversamos pra caramba. Passamos o intervalo juntos, fomos pra sala juntos, ele mudou de lugar com uma menina pra ficar junto de mim e até saímos da sala juntos quando as aulas do dia acabaram. Enquanto eu esperava meu pai na saída, ele veio falar comigo:
– Ei, moça. Vai ter uma social lá em casa sábado.. Se quiser se enturmar com a galera.. Tá convidada.
– O que é social?
– Tipo uma... festa.
– Ah. Precisa levar presente?
– Bom, se você for já é um mega de um presente. — disse ele, vermelho.
Dei uma risadinha e entrei no carro do papai. Sim, meu pai não quis vender o carro e mandou uma empresa aérea de cargas trazer o carro dele até o Brasil. Quando cheguei no hotel(mamãe ainda não tinha comprado casa), fui direto no quarto da mamãe perguntar da festa, antes do papai subir.
– Mãe.
– Oi.
– Vai ter uma festa na casa do Noah, um garoto lá da sala. Ele me chamou porque ele disse que seria legal pra eu me enturmar.
– Bom, se você quiser ir tudo bem. Você só precisa do endereço, né?
– Sim, mas eu peço a ele.
Feliz porque iria, finalmente, fazer amigos, fui pro quarto e dei graças a Deus pelo Pierre estar no quarto de dois amigos que ele tinha feito no hotel, que coincidentemente também eram franceses e estavam morando no hotel com os pais, sabe diabos porque. Dormi o dia todo. Quando chegou o sábado, acordei 16:00 da tarde, desesperada, porque já achava que era hora de me arrumar. Me vi sozinha no quarto de novo(oba), tomei um banho de banheira(inclusive cochilei nela) e comecei a me arrumar 17:30, porque a tal social começava 19:00 e eu ainda não sabia o que vestir. Liguei o skype no MacBook e pedi ajuda à Eva, minha amiga meio estilista.
– Eva, pelo amor de Deus, me ajuda!
– O que foi, mulher? Calma.
– Eu tenho uma festa pra ir daqui a pouco e não sei o que diabos vestir!
– Calma, vou ver o que tá na moda aí no Brasil e você me manda fotos das suas roupas, pra eu te ajudar.
– Ai Eva, ainda bem que eu tenho você.
É, só que a Eva às vezes esquece que eu não posso vestir coisas.. curtas demais.
– Tá maluca? Não vou usar isso! O que a mamãe vai pensar?
– Claro que vai. Põe seu gorro preto na cabeça, seu vans preto no pé e acabou. Essa roupa tá perfeita, se você não usa pra que comprou?
– Não fui eu que comprei. Meu avô tem uma loja da Forever 21 num shopping e toda vez ele me dá umas roupas de lá! Nem sempre eu uso todas, às vezes eu vendo!
– E porque não vendeu essa blusa?
– Ah, porque eu gostei dessa.
– Então pronto. Vai usar, tá linda. Você combina sim com o jeito meigo de se vestir, vintage e essas coisas. Mas cá pra nós, seu jeito, no fundo, é esse daí.
Já que o conselho da Eva sempre dá certo, fui me arrumar. É, eu realmente tava linda. Peguei o papel com o endereço do Noah, entrei no táxi que eu tinha pedido e só liguei pra mamãe pra avisar que eu já estava indo. Ela chiou porque eu estava indo sem ela, que era perigoso e aquilo tudo. Mas eu só saí sem ela por causa da minha roupa. Cheguei no prédio do Noah 10 minutos depois, e já tinha gente lá.
– Nossa, você tá muito linda! — disse ele, me puxando pra dentro da festa e me apresentando pra tudo quanto era gente.
Aquele era o meu novo mundo.
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