Visões
29 XXIX. Morte?
Notas iniciais
Alexia jogou-se nos braços do vampiro e deixou com que as lágrimas caíssem naturalmente. Ao contrário do que ela pensava, Lion não a envolveu num abraço que sempre lhe acalmava. Então afastou-se e o fitou com olhos trêmulos. Ele estava com uma expressão fria, assim como quando o conhecera. Na sua mão direita, estava sua adaga negra.
– Li... Lion? – Ela gaguejou.
O rapaz sentiu seus olhos ficando mais intensos. Ele estava sentindo sede. Era isso que Demian queria. Os copos de sangue que havia lhe dado era para provocar-lhe ânsia por mais, talvez também fosse por isso que não o oferecera nada desta vez, mas não podia ter certeza. Ele apertou os punhos, obrigando-se a segurar sua sede.
– Esse é o seu plano, Demian? – Murmurou para si mesmo. – Não é nada mal.
– O... O que? – Ela gaguejou novamente.
Lion engoliu em seco e a encarou, fazendo-a se afastar ainda mais.
– Você... Você está trabalhando para ele?! – Ela disse aumentando o tom de voz. – Traidor! – Acusou ela com lágrimas de raiva saindo de seus olhos. – Eu confiei em você! Dei meu sangue! E era... Era tudo parte de seu plano?!
Lion guardou a adaga de volta na gaveta da cômoda e aproximou-se da jovem rapidamente, encostando-a na parede.
– Demian te mandou para me matar... – Murmurou ela com ódio nos olhos.
– Você realmente acha que estou aqui para lhe matar? – Perguntou sentindo o odor do sangue dela, que borbulhava em cada canto de seu corpo.
– Que outra razão lhe traria aqui? – Perguntou sem poder se mover.
– Esperança. – Disse afastando-se dela. – Eu vim lhe salvar. – Terminou a frase olhando em seus olhos.
– O que?
– Demian acredita que estou aqui para ajudá-lo a acabar com os darkangels. – Murmurou.
– Onde está Darc? Por que não veio com ele? – Perguntou acalmando-se e baixando seu tom de voz.
– Darc está louco. – Murmurou. – Ele estava obcecado para vir te resgatar, arriscando a vida muitos. Ele não sabe no que está envolvido. Disse para Demian que ele ainda estava planejando ataca-lo, quando na verdade ele já estava a caminho. É provável que Darc matara os homens que Demian enviara, mas isso não ameniza o tanto de aliados que ele tem aqui.
– Eles estão em perigo? – Ela perguntou.
– Isso não importa agora, você está muito mais. – Murmurou.
– Por que?
– O ritual será amanhã sob a luz da Lua Vermelha. – Murmurou.
Alexia abaixou a cabeça e sentou-se na cama macia que tinha ali. Lion observou seu gesto e depois levou seu olhar para o chão, pensando. Notou que havia uma chave ali, a pegou observando que era de algemas. Sentou-se ao lado da jovem e segurou suas mãos frias. Ela o encarou. Lion levantou as mangas da jaqueta dela e observou seu braço ferido, vindo-lhe à cabeça a cena de uma jovem que quase morreu por sua culpa.
– Me perdoa. – Sussurrou ainda fitando o ferimento.
– Não foi culpa sua. – Ela sussurrou de volta.
Ele encarou seus olhos por um tempo. Logo desviou o olhar para a algema e a destrancou, liberando os pulsos da jovem. Ela girou-os, sentindo um leve formigamento neles.
Lion levantou-se e colocou a algema e a chave que as abriam em cima da cômoda, junto ao bilhete, e ficou por ali, com as mãos apoiadas na mesma. Sentiu todo o seu plano ter sido em vão.
Alexia andou silenciosamente até ele, fazendo-o sentir o calor de seu corpo. Ela o abraçou por traz, encostando seu rosto em suas costas largas. Lion soltou-se do abraço, virando-se para a jovem e segurando seus pulsos. Ela o encarou.
– É melhor não se aproximar de mim. – Ele murmurou.
Lexie viu seus olhos mudando para um vermelho mais intenso. Ela soltou um de seus braços, delicadamente e levou sua mão ao rosto dele, acariciando-o e fitando seus olhos.
– Prefiro morrer com você do que ser morta por Demian. – Ela sussurrou.
– Lexie... Eu não quero lhe machucar. – Respondeu.
– Eu não tenho mais medo, Lion. – Soltou seu outro braço e se aproximou ainda mais dele, encostando-o na cômoda.
Ele a encarou. Ambos não tinham nada a perder. Morreriam antes que pudessem pensar numa escapatória. Lion colocou uma das mãos nas costas dela e a outra em seu rosto, levando esta lentamente até sua nuca. Seus rostos aproximaram-se lentamente e Lion sentiu suas presas crescendo, não hesitou. Ele a queria. Seus lábios encontraram-se num espasmo de saudade. Lion sentia a boca macia de Alexia e cada vez a desejava mais. As mãos da jovem foram até o pescoço dele, intensificando ainda mais aquele beijo. Sentiu as presas de Lion fazer um pequeno corte em seu lábio inferior.
– Ai. – Sussurrou a jovem, afastando seus rostos.
Lion a encarou com desdém. O gosto do sangue do oráculo estava impregnado em sua boca. Voltou a beijá-la, sugando aquele sangue, tão saboroso que era impossível comparar com qualquer outro.
A menina não hesitou. Voltou a beijá-lo como se nada tivesse acontecido. Sentiu as mãos de Lion descerem até suas coxas, erguendo-a. Ele a colocou em cima da cômoda e pressionou seu corpo contra o dela.
Ele não aguentava de desejo. Sua sede de sangue, misturou-se com a luxúria, embaralhando seus sentidos. Sugou mais o lábio da garota e depois desceu para seu pescoço, depositando um beijo.
– Eu não quero lhe machucar, Lexie. – Suplicou num sussurro, tentando ao máximo segurar-se.
Alexia sentiu um arrepio súbito em seu pescoço e então, respondeu:
– Não tenho mais medo.
Lion depositou vários beijos em seu pescoço, sentindo que não poderia segurar-se de desejo pelo sangue da jovem. Trouxe-a para mais perto de seu corpo, de forma que ela não tivesse como fugir. Selou seus lábios com um beijo calmo e por fim, mordeu seu pescoço, fincando suas presas na pele macia.
– Ah! – Ela gritou tentando afastar-se dele.
O vampiro sugou o sangue com força, sentindo a jovem bater nele para se afastar. Ela gritava, mas não podia ouvi-la. Começou a sentir algo a mais. Seus olhos arregalaram-se contra a sua vontade e então pôde ver:
Era a Lua Vermelha. Ela estava completamente contrastada com o céu. Lion sentiu-se presente ali. Voltou seu olhar para o chão, vendo um pentágono desenhado com pedras e a pobre Alexia deitada no centro dele:
– SOCORRO! – Gritava. – Lion me ajude! Me ajude! – Esperneava enquanto Demian aproximava-se com uma adaga negra, cheia de pedras incrivelmente brilhantes e vermelhas, cravadas em si. – LION!
Ele se movimentou rapidamente e tentou empurrar Demian para longe, mas seu corpo atravessou o do demônio, enquanto Alexia continuava a encarar o mesmo ponto onde ele estava segundos atrás, fixamente. Lion levou seus olhos para onde ela estava olhando. Ali estava ele. Podia ver seu próprio corpo parado observando cada detalhe do ritual.
Ele não faria nada? A deixaria morrer assim?
Lion observou cada detalhe atenciosamente. Todos observavam o sacrifício com rostos frios. Demian murmurava algumas palavras em qualquer outra língua, cuja ele desconhecia. Todos estavam num círculo. As principais pessoas encontravam-se nas bordas do pentágono. Luk encarava o pai de frente, parecia planejar alguma coisa.
– LION!
Ele voltou a encarar a garota.
– Lion... – Ela murmurou deixando o corpo cair frouxo em cima dele.
Lion a segurou antes que pudesse caísse. O que acabara de acontecer ali? Ele sentiu um gosto amargo em sua garganta. Sangue.
– Droga. – Sussurrou para si mesmo.
Ele a pegou nos braços e a deitou na cama. Tirou a jaqueta da menina lentamente e a cobriu. Em seu pescoço havia dois furos recém feitos. Ainda escorria sangue dali.
Lion sentou-se ao lado da jovem e baixou a cabeça. Ele não queria machuca-la, fizera o máximo para não morde-la, mas estava tão fácil. Era como se fosse um prato já entregue.
– Perdoe-me... – Murmurou sentindo uma lágrima cair.
~
– Quero que tudo esteja preparado para amanhã. – Ordenou Demian à um vampiro. – Agora saia!
– Sim, demônio. – Murmurou e retirou-se da sala.
– Pai, conte-me mais sobre como será o sacrifício do oráculo. – Luk pediu à Demian.
– Você ficou interessado nisso de uma hora para outra... – Demian murmurou. – Quase vejo que você tem segundas intenções sobre o ritual.
– Apenas não quero fazer errado quando for a minha vez. – Ele disse encarando o pai com um sorriso.
– Levamos o oráculo algemado até aqui. – Murmurou mostrando a mansão num mapa e levando o dedo até um local da floresta onde as árvores faziam um círculo perfeito, onde a lua estaria grande e visível, como se fossem os olhos do Diabo. – Depois, desenharemos um pentágono com pedras, prenderemos o oráculo deitado dentro do mesmo e terminamos o ritual, com a parte que eu mais gosto... – Disse sentindo a boca encher d’água. – Dizem que o sangue de um oráculo tem o melhor gosto do que qualquer sangue mortal, e sem esquecer da melhor parte, comer o coração dela. – Terminou bebendo o resto de sangue que havia em uma taça.
– Entendi. – Murmurou Luk. – Mas, aonde eu ficarei enquanto você faz o sacrifício?
– À minha frente. – Falou.
– Perfeito. – Murmurou o jovem.
– O que disse? – Demian perguntou.
– Perfeito. – Repetiu num tom mais alto. – Assim poderei ver exatamente cada detalhe. – Terminou a frase com um sorriso macabro no rosto.
– Eu tenho orgulho de você meu filho.
~
– Quero que se espalhem por toda a floresta e escondam-se. – Disse Darc.
– Não acha perigoso? – Perguntou um darkangel.
– Nada mais importa, rapaz. – Murmurou. – Precisamos do oráculo, ou vocês morreram. Pense que está lutando pela sua vida.
– No entanto, é o que todos estamos fazendo. – Murmurou outro.
– Devíamos ter trazido mais aliados nossos. – Falou outro.
– Não tem mais volta. – Murmurou Darc. – Façam o que mando e viverão.
– Estou começando a duvidar disso. – Disse um encarando-o de frente.
– Eu não tenho medo de nenhum de vocês. – Darc falou, forçando-se a não falar muito alto. – Afinal, nenhum de vocês pode me matar, não passam de míseros sugadores de sangue, coisa que eu não tenho mais. Eu posso matar cada um de vocês e acho que todos sabem disso. Considerem isso como uma ameaça. Agora façam o que eu mandei! Isso é uma ordem. – Terminou vendo todos sumirem num piscar de olhos.
Darc voltou seu caminho para a entrada da mansão, na qual se encontrava um tanto quanto calma. Conseguiria pega-los, sabia disso. Subiu numa árvore ali perto e ficou observando o movimento de lá.
~
Cate estava sentada numa cadeira, olhando para o lado de fora da caverna.
– Cate? – Ouviu alguém chamar.
Ela encarou a pessoa com olhos cansados.
– Você está aí desde que Lion foi atrás do oráculo. – Murmurou a jovem ao seu lado. – Você está esperando algo?
– Não, nada... Eu apenas sinto que deveríamos ir atrás deles. – Falou voltando o olhar para a entrada. – No entanto, eu não sei onde é mais seguro.
– Se eles perderem essa luta, os undeads virão atrás de nós. – Murmurou ela.
– Não importa mais. – Falou cuspindo no chão. – Já é tarde. Não conseguiríamos chegar lá antes do ritual do oráculo.
– Não precisamos chegar exatamente na hora. – Afirmou ela. – Seria uma surpresa para Demian encontrar Darc e seus homens... Imagine se depois tivesse ainda mais?
Cate encarou a garota e abriu um sorriso.
– Você está completamente certa. – Falou. – Chame todos para cá. Temos uma missão à cumprir.
A jovem garota abriu um sorriso e correu para o fundo da caverna chamar todos. Poderia ser um bom plano, não poderia?
~
“Alexia? ”
Ouviu alguém lhe chamar, mas mal podia abrir os olhos. Sentiu seu coração bater em espasmos e logo acordou. Aonde estava?
“Alexia! ”
– Ai minha cabeça... – Murmurou.
“Você está viva! ”
A jovem tossiu algumas vezes, engasgando-se com o ar que adentrava suas narinas. Imagens começaram a vir em sua mente: Lion mordera seu pescoço e não a soltara até cair em seus braços.
A jovem levou sua mão direita até o pescoço, sentindo ali dois furos presentes. Levou a mesma até a frente de seus olhos, observando o sangue que ficara em seus dedos.
Ouviu um barulho vir por trás. Era alguém tentando lhe agarrar pelas costas. Não olhou para trás e começou a correr. Corria o mais rápido que podia. Quem quer que seja não faria seu bem e ela tinha certeza disso.
“Alexia... “
Alexia ignorou totalmente seu anjo e continuou a correr por entre as árvores da floresta. Corria como se quisesse fugir da realidade. Só parou quando uma raiz exposta no chão a derrubou, fazendo cair de joelhos. A menina arfava e sentia as pernas tremerem de cansaço.
Arrastou-se até um tronco de árvore e se encostou. Com olhos de lince, procurou por qualquer coisa pontuda, mas nada ali serviria para algo. Teria de ser ligeira.
Levantou-se, ainda encostada no tronco e tentou diminuir a respiração. Cerrou os punhos e preparou-se pelo o que estivesse por vir.
– Estou sentindo o cheiro do seu sangue. – Falou em alto tom.
Era Demian. Conseguia reconhecer sua voz. Podia ouvir o som de seus passos lentos e calmos se aproximando cada vez mais e mais.
– Te achei. – Disse encarando a menina.
Alexia deu uma cotovelada em seu nariz, com toda a força que lhe restava, escutando o demônio murmurar algo. Voltou a correr. De repente escutara o som de água. Muito provavelmente, um lago. A menina apressou ainda mais os passos, na esperança de conseguir se esconder.
Aos poucos o som ficou cada vez mais alto, até ela se deparar com um lago com águas escuras. Colocou uma mão sob seu ferimento no pescoço e adentrou a água sem fazer nenhum barulho. Mergulhou o mais fundo que pôde. Conseguia sentir o medo lhe consumir novamente. Olhou para a superfície, vendo um vulto completamente negro olhar por todos os lados, e depois para o lago, jogando uma adaga na água, acertando em cheio o ombro esquerdo da menina. Ela arregalou os olhos e prendeu o grito, ou qualquer movimento que fosse lhe entregar para a morte.
Demian bufou e desviou seu caminho. Voltou a procurar o oráculo em qualquer outro lugar.
– Você pode sair agora... – Uma voz feminina e tranquilizadora veio da superfície.
Lexie forçou a visão e conseguiu ver a forma de uma mulher ali. Ela olhava para dentro do lago com os olhos fixos exatamente na menina.
– Não tenha medo, ele já foi embora... – Voltou a falar.
Por mais que quisesse ficar ali por mais um tempo, até que essa desconhecida saísse, não poderia. Ela já não tinha mais fôlego. Arrancou a adaga de Demian do ombro com força e começou a voltar para a superfície antes que morresse ali mesmo. Uma mão apareceu dentro do lago. Não importava quem fosse, a segurou e sentiu-se sendo puxada para fora.
Ao sair da água, Alexia tossiu várias vezes e tentou recuperar o fôlego, levantando-se, segurando a adaga na mão esquerda e com a mão direita no ombro ferido.
– Não se aproxime! – Falou alto apontando a adaga na direção da mulher.
– Acalme-se.
Ela tinha olhos acinzentados e seu cabelo era quase albino. A pele era branca como alguém morto e devia ter a mesma altura que a do oráculo. Vestia roupas em tons claros e estava descalça.
– Eu sou seu anjo. – Disse num tom calmo. – Meu nome é Diann.
– Diann... – Murmurou reconhecendo aquela voz que vivia aprisionada em sua cabeça.
A jovem abaixou a arma, ainda a segurando firme em sua mão. O anjo aproximou-se dela e a fez sentar-se.
– Acho que devemos dar um jeito nisso. – Disse referindo-se ao ombro da garota.
Ela rasgou um pedaço do pano de seu vestido e o enrolou na mão. Pronunciou palavras em outra língua e começou a limpar o sangue. Lexie sentiu a ferida se fechar lentamente e aquilo a agonizava.
– Pronto, acho que isso é o suficiente. – Falou Diann com um pequeno sorriso no rosto.
– Por que nunca apareceu em sua forma física? – Perguntou.
– Isso não importa agora. – Disse jogando o pano no lago e voltando seu olhar para Alexia. – Estou aqui para esclarecer algumas coisas, como a mordida de Lion.
Lexie a encarou com curiosidade. Como ela saberia de tantas coisas?
– O veneno de um vampiro não funciona em corpos de oráculos. – Começou. – Mas não deixa de perder sangue, por isso tem de evitar qualquer situação dessas.
– Eu não preciso... Morrerei pela noite de amanhã. – Murmurou.
Diann olhou para os lados e levantou-se abruptamente.
– Siga-me. – Disse num tom baixo.
– Por que?
– Essa não é uma visão comum, Alexia. – Respondeu. – Porém, como você disse, pode ser uma das suas últimas visões.
A jovem oráculo levantou-se e encarou Diann, seguindo-a.
O anjo andava tranquilamente para dentro da floresta, cada vez mais, até que o Sol se foi e a Lua deu-lhe lugar no céu. O local começara a mudar também. As árvores estavam mais altas que o normal, era como se estivessem em outra floresta.
Logo, a floresta ganhava uma trilha e as árvores foram substituídas por casas de pedra, conforme andavam. Agora estavam num vilarejo. Mulheres e homens usavam capuz com capas longas, parecia ser algum tipo de ritual.
– Aonde estamos? – Perguntou a jovem à Diann.
– Shh... – Murmurou.
O anjo estalou os dedos, fazendo as duas mudarem seus trajes no mesmo momento. Ambas estavam com as mesmas vestimentas daquelas pessoas.
Diann entrou numa fila e Lexie a seguiu.
“Não tenha medo... ”
Era uma longa fila com pessoas que carregavam velas para iluminar o caminho durante o céu estrelado. De repente, ouviu um grito e olhou procurando pela pessoa que gritava.
– Socorro! – Uma mulher gritava. – Me ajudem!
Alexia sentiu como se olhasse para um espelho, pois uma garota um tanto quanto mais jovem que ela, era bem parecida com seus traços. Olhos azuis tão claros como a cor das estrelas e cabelo tão escuro quanto a escuridão. A menina estava com os pulsos amarrados com cordas grossas e era arrastada por cavaleiros que andavam a cavalo.
– Por favor... – Dizia a menina entre berros e soluços.
“Tenho que ajuda-la. ”, disse Alexia, enquanto observava arrastarem-na.
“Não faça nada. ”, ordenou o anjo.
“Sinto que ela é como eu... Não posso deixarem fazer isso. ”.
“É por que ela é como você... ”, O anjo a respondeu por telepatia.
“Por favor... ”, suplicou Lexie encarando os olhos do anjo.
– É melhor vocês continuarem andando. – Murmurou um rapaz que parecia ser um guarda.
Diann assentiu e voltou a andar, puxando discretamente Alexia pelo pulso. O percurso era longo. As trilhas que as levaram para o vilarejo, levaram-nas para o outro lado da mesma floresta. Os berros da menina que era arrastada, soavam como tortura aos ouvidos de Lexie. Parecia que ela podia sentir sua agonia. Sentiu lágrimas brotarem em seus olhos, mas continuou de cabeça baixa, sem impedi-las de caírem.
Era um local cercado por árvores, porém um grande vão estava presente ali. Era um círculo perfeito, onde a Lua Vermelha encaixava-se perfeitamente.
Havia muita gente ali, mas podia ver perfeitamente um pentágono no chão, desenhado com pedras e velas iluminavam o círculo. De longe era possível ouvir a menina ser trazida até o local a pé.
– Ande logo, monstro. – Murmurou o rapaz que a empurrava.
A menina fora deitada no centro do pentágono, movendo-se para tentar acomodar-se com as pedras abaixo de si. Um outro homem se aproximou. Tinha olhos negros e opacos, como os de um demônio. Ele soltou os pulsos da menina e esticou os dois braços, fincando uma adaga em cada pulso. A menina gritou com a dor. Fez o mesmo com os tornozelos dela, escutando mais gritos agonizantes vindo da jovem.
“Antigamente, as pessoas eram enganadas por demônios sobre os oráculos... ”, começou a explicar Diann. “O demônio, como reconhecia um oráculo, dizia que o ser com o olho mais límpido como a água, era uma ameaça ao vilarejo inteiro. ”
– Por favor, ajudem-me! – Suplicou a menina. – Não farei mal a nenhum de vocês, apenas ajudem-me! Ajudem-me! – Gritava entre soluços e espasmos de dor.
“As pessoas tinham medo deste ser perfeito e faziam um ritual para a morte de tal. ”, prosseguiu. “O demônio, mais esperto que os mortais, tinha sempre um esquema pronto. Acertava uma adaga no coração do oráculo, vendo sua morte súbita, enquanto as pessoas murmuravam palavras ensinadas por ele, para lhe dar ainda mais força e conseguir fazer o ritual com sucesso. Claro que não bebia seu sangue e comia seu coração na frente das pessoas. Mas ao acabar com a morte do oráculo e quando as pessoas voltassem às suas respectivas casas, ele o fazia. ”
Alexia segurou firme a adaga que Demian havia lhe acertado a momentos antes. O demônio que conduzia o ritual pronunciava palavras estranhas e as pessoas as repetiam como se fossem orações.
“Eu não posso fazer nada? ”, Alexia perguntou sentindo as lágrimas arderem em sua alma. A tristeza, o luto e o ódio a possuíam naquele momento.
“O que você vê, já está feito... Nada mudará o fim desta jovem. ”, Respondeu o anjo.
– NÃO! – Gritou de repente. Todos os olhares foram para ela. – Parem! Por favor! Tenham piedade!
– Droga... – Murmurou o anjo. – Tenho que nos tirar daqui rapidamente.
A menina, presa pelas adagas que atravessavam sua pele e iam de encontro com o solo, levou seu olhar até Alexia, com um olhar de alívio. Lexie sustentou o olhar por alguns segundos, depois os desviou.
– Soltem-na! – Gritava com as lágrimas caindo com mais frequência a cada segundo.
O demônio a encarou e com um sorriso de canto lançou a adaga numa mira certeira, onde atingira o coração da menina.
Alexia apressou os passos para cima do demônio com a adaga de Demian firme em uma das mãos, pronto para ataca-lo.
– NÃO! – Gritou.
De repente, já não estavam mais ali. Levantou-se numa cama macia e com lágrimas no rosto. Diann não estava presente, mas podia ver Lion ao seu lado, olhando-a fixamente. Sentiu alguma coisa em sua mão direita. Seus olhos assustados foram de Lion, para sua mão, vendo a adaga de Demian. Levantou-a lentamente, ainda segurando-a firme. Seus olhos voltaram para Lion, surpresa e amedrontada.
– Eu vi... – Ela sussurrou.
– O que você viu, Lexie? – Ele perguntou confuso.
– Minha morte... – Respondeu.
(Continua...)
Fale com o autor