Visões
11 XI. Discussões
Notas iniciais
Já dentro da casa, depois de matar saudade, Alexia exigiu um banho decente. Subiu para seu quarto, dando de cara com uma mala pequena de Jannie, a ignorou e pegou umas roupas limpas em sua cômoda.
Adentrou o banheiro ao lado de seu quarto e ligou o chuveiro. Tirou sua roupa e depois sentiu uma dor sem eu pulso. O corte que fizera quando tentara fugir da primeira vez. Ele ainda estava enfaixado com o esparadrapo sujo, o desenrolou o mais rápido que pôde e o jogou no chão. Visualizou o corte que ainda sangrava um pouco, não parecia estar cicatrizando. Abriu o chuveiro e enfiou-se embaixo da água quente, que escorria por todo seu corpo. Quando a água atingiu o corte, a imensa dor voltara de modo surreal; imediatamente mordeu seu lábio inferior com força para desviar a dor, em seguida pegou o sabonete e passou em cima do corte, fazendo-o arder ainda mais. Gemeu baixou com a dor para não chamar atenção.
Quando acabara o banho, ainda enrolada na toalha, passou uma das mãos no espelho do banheiro, fazendo com que seu rosto refletisse limpamente no próprio. Aparentava cansaço. Ignorou e abriu o espelho, dando de cara com esparadrapos limpos e remédio contra a dor. Pegou o remédio de spray e passou por todo ferimento, depois o enfaixou novamente. Vestiu-se ali dentro mesmo com roupas quentes e depois desceu.
Max e Jannie pareciam impacientes de modo silencioso. Nem um, nem outro olhavam-se. Ao aparecer no topo da escada, levantaram-se impulsivamente.
– Ah, minha querida. – Disse Jannie envolvendo-a num abraço.
Logo a soltou.
– Acho que você nos deve umas explicações. – Murmurou Max sentando-se no sofá.
Jannie sentou-se ao lado dele e Alexia num sofá de frente para eles.
– O que aconteceu? – Max perguntou.
– Eu me equivoquei devido nossa discussão e acabei fugindo, não pretendia passar tanto tempo fora, queria apenas colocar a cabeça no lugar. – Explicou.
– Mas, por que demorou para voltar? – Jannie questionou.
Não conte sobre os Darkangels...
Alexia balançou a cabeça para dispersar aquela voz que tanto a perseguia. Respirou fundo e acabou mentindo, para não ter que explicar muita coisa:
– Eu entrei na floresta e me encantei com ela, fui andando cada vez mais e mais, então acabei me perdendo, só consegui achar o caminho de casa hoje. – Falou cansada.
Alexia espreguiçou-se, erguendo os dois braços para cima e deixando à mostra o esparadrapo que havia acabado de colocar.
– O que foi isso no seu braço? – Perguntou Jannie preocupada.
Alexia engoliu em seco lembrando do que acontecera. Obviamente não contaria a verdade, mas não tinha ideia do que falar, então respondeu a primeira coisa que lhe veio a cabeça:
– Ãhn... Me cortei numa garrafa de vidro quebrada.
Max e Jannie não pareciam satisfeitos com a resposta, mas, fingiram acreditar.
– Venha, vamos cuidar disso. – Max murmurou levantando-se.
– Ãhn... Não, não precisa. Eu já fiz isso enquanto tomava banho. – Respondeu abruptamente.
– Tudo bem... – Max respondeu sentando-se novamente. – Estou tão feliz que você tenha voltado.
– Também sinto-me melhor. – Disse abrindo um sorriso.
– Prometa-me que isso não se repetirá. – Max propôs erguendo o braço para que Lexie o pegasse.
– Garanto que não acontecerá mais. – Jannie murmurou com voz autoritária.
Ambos olharam para a mulher, confusos. O que ela queria dizer?
– Lexie voltará comigo amanhã, sairemos pela manhã. – Falou.
Alexia encarou Jannie e depois voltou seu olhar para o pai, que agora estava com a cabeça baixa e sério.
– Você não pode fazer isso. – Max murmurou. – Temos um acordo perante à justiça.
– Sim, mas isso não envolvia sua irresponsabilidade com nossa filha. – Afirmou Jannie.
Não vá com Jannie...
Mais uma vez sacudiu a cabeça para que a voz sumisse e voltou a encarar a cena. Os dois levantaram-se. Jannie parecia satisfeita enquanto, Max parecia que voaria no pescoço da mulher a qualquer momento. Ambos encaravam-se.
– Parem! – Pediu a menina pondo-se no meio dos dois. – Eu não tenho o direito de escolher o meu destino?
– Eu não deixarei você com seu pai nem mais um segundo. – Falou Jannie raivosa.
– Mãe, a culpa não foi dele, foi minha! Eu que fugi! Você não pode descontar sua raiva nele. – Retrucou a mãe.
– Vamos. Embora. Pela. Manhã. – Falou entre os dentes e subiu para o quarto onde se acomodou.
Lexie lançou um olhar de pena para seu pai enquanto ele ia para a cozinha lamentar-se. Ouviu-o socar a parede com força e cerrou o pulso. Lá em cima, ouviu a porta bater com força.
Faça a escolha certa...
“Sai da minha cabeça!”, gritou com a voz que não a deixava em paz.
Alexia abriu a porta da sala e saiu dali de dentro.
– Alexia, volte! – Ordenou Max da cozinha.
Alexia começou a correr até chegar no centro da cidade, onde havia uma praça. Sentou-se num banco e cruzou as pernas em cima do próprio.
Pouco tempo depois, alguém aproxima-se e senta ao lado da garota. Alexia estava alheia a tudo, mal percebeu a pessoa ao seu lado, até que falasse:
– Está tudo bem com você? – Uma voz grossa saiu de tal individuo, ela já ouvira essa voz antes.
Encarou a figura ao seu lado, dando de cara com Jason. Ele estava com uma jaqueta preta e calça jeans, mal parecia que morava num acampamento de loucos.
– Por que veio? – Perguntou sem vontade e desviou o olhar.
– Acho que nós dois sabemos o que vim fazer aqui. – Murmurou.
– Você não vai me convencer a nada. – Afirmou de cabisbaixa. – Eu vou embora desta cidade pela manhã.
– Você não pode ir. – Murmurou.
– Por que não? – Perguntou fitando o rosto dele. – Mesmo se ficasse, não voltaria para seu acampamento imundo.
– Não precisa voltar, só precisamos defende-la de Demian. – Falou fitando o chão.
– Não tenho medo desse homem. – Respondeu.
– Você não sabe do que esse homem é capaz. – Falou olhando para ela.
– Não tenho medo dele. – Murmurou revirando a cabeça para o outro lado.
– Pois devia ter. Ele está onde as sombras estão, ele é mais obscuro do que pensa. Por favor, não vá. Você só dificultará nossos planos. – Falou.
– Planos? Que planos? Eu decido minha vida, não vocês! – Falou num tom mais alto e voltou a encarar o indivíduo ao seu lado, mas já não havia ninguém ali.
Olhou ao redor, vendo pessoas a encarando como se ela fosse louca, além dessas pessoas não havia mais ninguém, nem Jason. Voltou a olhar para frente e viu ao longe um homem correndo em direção à ela. Max, deduziu.
– Alexia! – Ele gritou ao avistá-la.
– Lexie! – Jannie gritou logo atrás dele.
Quando os dois pararam em sua frente, queria sumir. Não queria vê-los nunca mais.
– Não faça isso novamente. – Max falou sem folego.
– Eu não sumi. – Respondeu a garota de má vontade.
– Vamos voltar minha filha, temos uma tarde inteira para arrumar suas coisas. – Jannie falou, também, sem folego.
Alexia encarou os dois e levantou-se. Ela começou a andar em direção a casa do pai, enquanto Max e Jannie a seguia de longe, ambos quietos.
~
Alexia já havia acabado de guardar todas suas roupas nas malas. Jannie passou o resto da tarde na sala e Max em seu quarto. Nenhuma palavra a mais foi dita dentro daquela casa. Sem discussões, sem desrespeitos e sem palavras baixas. Em compensação, um silêncio atordoador pairou no ar da casa.
Lexie puxou uma cadeira para perto da janela, observando a floresta a sua frente. Olhando tal horizonte, começou a pensar. E se o que Darc dissera for real? E se Demian fosse mesmo perigoso? Ela deveria ficar? Talvez estivesse ficando louca por acreditar que realmente fosse o oráculo. Tentou buscar várias explicações para o que acontecia com ela. Antes pensava que eram desmaios, mas desmaios não doíam tanto quanto os dela. Visões... Talvez, realmente fossem visões. Mas, o que ela via... Era coisa do passado? Do presente? Do futuro?
Levantou-se da cadeira e deitou-se em sua cama. Começou a se esforçar para ter mais uma visão, mas não conseguia.
– Eu quero saber o que realmente sou. – Sussurrou para si mesma na expectativa de uma visão vir. Nada.
Colocou um travesseiro sob o rosto, ainda confusa e acabou dormindo ali mesmo, naquela posição com aquelas dúvidas.
(Continua...)
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