A consulta de hoje foi bem rápida. Ta que eu menti para o doutor. Não contei do meu pesadelo, nem que desmaiei depois de conversar com um homem morto. Também não mencionei Lucem. Eu queria chegar na casa da Jessy o mais rápido possível. A casa dela não ficava muito longe do consultório. Quando eu já estava quase chegando mandei uma mensagem para minha mãe dizendo que não precisava me buscar. No caminho eu passei pela minha antiga escola e depois pelo cemitério que Lucem me levava. Demorei 15 minutos para chegar na casa da Jessy. Tinha um tempo que eu não ia lá, mas ela estava do mesmo jeito. Toquei a campainha cinco vezes seguida – era uma maneira de a Jessy saber que era eu – Assim que ela abriu a porta me deu um abraço e me convidou para entrar. Logo que passei pela porta tive que rir.

- Do que você esta rindo guri? – A Jessy me olhou como se eu fosse doido.

- É engraçado entrar aqui depois de tantos anos e vê a sua casa bagunçada. Sua mãe é sempre tão organizada.

Desde a primeira vez que eu fui à casa da Jessy eu fiquei impressionado com a organização da casa. Tia Lucia fazia questão de ter tudo no lugar. Mas agora a sala estava cheia de caixas e os moveis antes arrumados cada um em seu devido lugar estavam encostados de “qualquer jeito”.

A Jessy apenas riu e falou que a tia Lucia já estava doida para organizar tudo de novo.

- Então, você falou que ia precisar de ajuda. Vamos lá?

- Ah! Nem vai precisar. O Rodrigo passou aqui mais cedo e me deu uma ajudinha.

O Rodrigo foi na casa da Jessy e não me falou nada?

- O que ele veio fazer aqui? Por que ele não me mandou mensagem? – minha voz saiu mais alto do que eu gostaria.

- Ta com ciúmes agora? Ele foi no serviço do pai dele e deu uma passada rápida aqui em casa e me ajudou com as caixas. E parece que ele deixou o celular em casa. Mas eu pedi ele para voltar porque você estaria aqui.

Então era isso. O Rodrigo tinha deixado o celular em casa, por isso não me mandou mensagem.

- A sua consulta acabou cedo. Eu estava planejando me arrumar antes de você chegar. Estou horrível, toda suada.

Horrível? Ela não fazia muito o meu tipo, mas a Jessy era muito bonita. Ela era quase do meu tamanho. Tinha uma pela muito branca, o que era muito bom para ela que adorava usar maquiagem preta e o tom da pele dela realçava os seus olhos verdes. Há pouco tempo cansou de ser morena e pintou os cabelos de vermelho. Ela tinha um corpo muito bonito. Eu só não gostava da mania dela de sempre fazer chapinha no cabelo. A Jessy tinha o cabelo todo anelado, mas o detestava assim. Fora o cabelo liso ela era bem bonita.

Eu já ia falar pra ela deixar de bobagem quando a campainha tocou.

- Deve ser o Rodrigo, minha mãe levou a chave.

Era ele mesmo. Ainda estava de uniforme.

- Você já chegou? — Ele veio em minha direção – Pensei que a sua consulta acabava as 18:00. Ainda são 17:30.

Eu expliquei que não estava muito a fim de ficar ouvindo o Dr. Fernando hoje.

- Aproveitando que o Rô chegou e vou ir tomar um banho

A Jessy virou e foi em direção ao banheiro sumindo no meio das caixas. Os olhos do Rodrigo a seguiram ate onde alcançaram. Ele negava, mas eu sabia que o Rodrigo tinha uma queda por ela.

- O que o seu pai queria com você? – Eu perguntei enquanto me sentava no chão.

- Nada de importante. Estava tendo uma palestra sobre a faculdade de medicina.

- Seu pai ainda não tirou da cabeça a ideia de você se tornar medico?

- Não tirou e nem vai tirar — o Rodrigo se sentou no braço do sofá — O que aconteceu hoje? Você caiu do nada. Por sorte eu consegui te segurar.

- Eu vou contar. Mas vou esperar a Jessy. Não quero ter que repetir tudo para ela.

Depois de um bom tempo a Jessy voltou e se sentou do meu lado.

- Muito bem guri, conte-nos tudo.

Ia ser uma longa historia. Cheia de surpresas, mas eu estava enganado quando pensei que o que eu tinha para contar era estranho.