Eu contei para os dois sobre como tudo ficou cinza. Falei que meu pai estava tentando me mandar uma mensagem – nessa hora a Jessy colocou sua mão sobre a minha – Contei que os mortos arrastaram o mensageiro para de baixo da terra.

Neste momento eu dei uma pausa para respirar e esperar algum comentário

Uau! – A Jessy soltou uma exclamação

- E você acha que isso foi real guri? Talvez você tenha sonhando quando desmaiou, sei lá.

- Uma pessoa não sonha quando desmaia Jessy. Ela perde a consciência. É como um apagão.

- Eu sei Rô, mas é estranho tudo isso.

- Eu não contei o mais estranho – ao dizer isso meu coração deu um pulo. Como contar do Lucem sem expor o meu amor pela Mabi? A Jessy já sabia, mas eu não falei nada pro Rodrigo.

- O que pode ser mais estranho que conversar com um morto? – A Jessy perguntou me olhando com uma cara de curiosidade.

Contei sobre o Lucem, fazendo todo possível para esconder a parte sobre a Mabi. E também falei que ele sempre aparecia em meus sonhos.

- Desculpa guri, mas é difícil de acreditar. É loucura pura!

Eu sabia que ia ser difícil de acreditar, mas eu pensei que essa descrença viria do Rodrigo. Ele é meio cético. Eu fiquei surpreso com o que veio a seguir.

- Eu acredito – a voz do Rodrigo saiu abafada.

- Acredita? – Eu e a Jessy perguntamos quase juntos.

- É. Mas eu só acredito porque eu quando eu abaixei para examinar o cara acidentado vi que ele já estava morto. Me virei para te dizer – ele me olhou e eu vi certo medo no seu olhar – e foi ai que aconteceu. – Rodrigo parou como se estivesse tomando coragem.

- O que aconteceu Rô? Fala.

- Os olhos do Thiago estavam vermelhos, eles emitiam um brilho estranho. Me aproximei e ouvi você falando uma língua estranha. Não conseguia entender a principio, mas depois percebi que era latim. Eu te chamei e nessa hora o cara que estava caído segurou no meu braço e meio que sai do meu corpo. Eu vi o mesmo que você: a rua estava cheia de mortos no chão. Meu corpo estava bem do meu lado, mas tinha algo de diferente nele. Era como se o meu corpo estivesse meio fora de foco. E da minha boca, mas com uma voz diferente saiu à pergunta que o cara acidentado te fez. Ah! O seu nome é Kalevra.

Rodrigo fez outra pausa, dessa vez para ver se estávamos acompanhando todo o seu relato.

- Eu vi que ele falou o seu nome e foi só ai que eu me dei conta que você estava lá também. Você estava com uma roupa toda preta, um cinto prateado, seus cabelos estavam cinza escuro e seus olhos já não brilhavam mais, mas ainda estavam vermelhos. Eu tentei te chamar, mas minha boca não emitia nenhum som. Eu ouvi a conversa toda e eu vi a hora que o chão se abriu e os mortos foram arrastando o Kalevra para, sim era o inferno. — Vocês devem estar se perguntando como eu sei o seu nome. — Bom quando os mortos foram arrastando o meu corpo para o chão uma voz ecoou. Era um grito de fúria e com medo desse grito os mortos voltaram sozinhos para o inferno. Me surpreendi quando percebi que foi eu quem gritou. O buraco se fechou e eu corri para o meu corpo. Eu tentei tocá-lo, mas uma voz atrás de mim me mandou parar. Eu me virei para ver quem estava falando e tive uma surpresa maior ainda. Era um cachorro parecia um border collie só que ele tinha os olhos amarelos. Acreditem se quiser, mas o cachorro me falou que seu nome era Kalevra, que significa mensageiro. Eu então perguntei o que estava acontecendo e que lugar era aquele. Ele me respondeu que não podia falar agora, mas me mandou te dar um recado. Ele quer que hoje à noite você durma sem o uso dos calmantes, pois o seu pai precisa falar com você a qualquer custo. Eu respondi que não ia ajudar um cão falante. Ele deu uma risada e me explicou que tem mais de 10 anos que seu pai tenta se comunicar através de seus sonhos, mas que...

- Mas que o que Rodrigo? – Eu perguntei assim que ele hesitou. Percebi que estava tentando acreditar nas próprias palavras. – Vamos cara, pode falar.

- Ele falou que seu pai esta preso no inferno e mantido como refém de Lúcifer. Ele falou que precisava do meu corpo para se comunicar com você e que o lugar onde estávamos se chamava Mundus significat – do latim – mundo do meio. Depois disso ele mandou eu ficar de olho em você e foi embora. Quando acordei Half estava latindo e você estava caído no chão.

Eu precisei de um tempo para assimilar tudo que o Rodrigo tinha contado. A Jessy estava com uma expressão de que não acreditava, mas sabia que o Rodrigo não era de brigar com isso.

- Então – ela começou meio hesitante – deixe-me ver se entendi. O pai do Thiago morreu há 10 anos e desde então ele tenta conversar com você nos seus sonhos, mas Lúcifer tenta impedir. Então essa noite ele tentou de todas as formas te dar um recado e ate mandou um border collie te dar um recado?

- Parece que sim – eu falei tão atordoado quanto ela

- O que você tem a ver com Lúcifer e esse tanto de coisas? No começo eu pensei que era mais um dos seus pesadelos, mas agora com essa historia do Rodrigo eu acredito, mesmo achando loucura de mais.

- Pera ai! Você acredita no Rodrigo e em mim não?

Jessy riu e falou que o Rodrigo era o mais pé no chão de entre nos três.

Eu já ia retrucar quando me lembrei de uma coisa.

- Eu tive um sonho essa noite, foi muito estranho eu...

- Guri, todos os seus sonhos são estranhos.

- Mas este foi pior, um pouco pior.

Eu estava na rua da minha casa, mas ela estava diferente. As arvores que enfeitam a rua estavam mortas e secas. Muitas das casas estavam em chamas. Eu gritei por alguém, mas não houve resposta. Corri de volta para minha casa. Ela estava em chamas também, gritei pela minha mãe, chamei e não veio resposta de volta. Eu fui em direção a casa que explodiu me arremessando no quintal da casa do Rodrigo. Estilhaços de vidro voaram por todo lado. Corri em direção a casa e vi corpos, muitos corpos carbonizados. Pensei se um deles era de minha mãe e comecei a chorar quando vi que em um deles estava o colar de perolas dela. Não podia acreditar, minha mãe estava morta. Não tive tempo para chorar: varias mãos podres saíram do chão e seguraram minhas pernas. Me desvencilhei delas e comecei a correr para casa do Rodrigo. Bati na porta que se abriu, entrei correndo e a fechei. A casa estava agitada eu podia ouvir vozes vindo da copa. Fui ate lá e vi a família toda do Rodrigo sentada há mesa. Eles pareciam felizes. Mabi estava sentada ao lado da mãe e do lado dela estava o Farofa. Rodrigo estava rindo muito com o pai dele. Eu chamei, mas não me ouviram e continuaram a conversar e rir. Bateram na porta e a Mabi foi atender, assim que ela a abriu eu ouvi um barulho de disparo. Todos correram em direção à sala e viram Mabi caída no chão, havia sangue por toda parte. Ela tinha morrido alguém havia atirado nela. Eu vi o atirador correndo e fui atrás dele. À medida que eu ia correndo fui sentindo uma estranha força em minhas pernas. Eu nunca havia corrido naquela velocidade. O atirador se desequilibrou, eu aproveitei a oportunidade para jogá-lo ao chão. Ele caiu, mas sacou a arma e atirou em mim. Meu corpo se moveu de forma involuntária e eu desviei de todos os disparos.

- Maldito! Por que você fez aquilo com ela? Por que a matou?

A terra tremeu com o meu grito e o atirador tentou correr, mas um muro de chamas o cercou. Com a luz das chamas eu pude ver o seu rosto: Ele era moreno e tinha os olhos cor de mel.

- Me responda! – eu gritei. Mais uma vez tudo tremeu e o homem caiu no chão.

- Eu só segui ordem, eu não queria. Eu...

Não sei o que ele ia dizer, pois nessa hora as chamas envolveram o seu corpo e o queimaram ate não sobrar nada.

Alguém colocou a mão no meu ombro. Quando me virei para trás já não estava mais na minha rua, estava em uma rodovia. Olhei pra frente e vi um vulto vindo em minha direção. Então um medo que eu não sentia desde criança tomou conta do meu corpo. Eu recuei dois passos.

- Não precisa ter medo de mim, não vim te fazer mal – quando a voz dele chagou aos meus ouvidos senti como se o calor do meu sangue tivesse sido roubado.

- Eu tenho esperado tanto tempo pela chance de poder conversar com você.

- Quem é você? Foi você que matou a Mabi?

- Ninguém matou a Mabi. Ela esta bem. Isso é só um sonho.

- O problema é que eu aprendi, da pior maneira que meus sonhos não são comuns.

- Eu sei e vejo você sofrendo com isso todo tempo. Eu posso ajudá-lo. Desde quando você é criança tento conversar com você, mas nunca consegui eu...

- Você tenta conversar comigo? – Eu fui afastando. Quanto mais perto o vulto chegava de mim mais tonto eu ficava.

VOCÊ QUER QUE EU O SALVE DELE?

Essa voz eu conhecia. Não me lembrava de onde, mas ela me passava segurança.

- Eu quero – respondi em troca

- Por favor, Thiago, não fuja.

O vulto começou a correr atrás de mim. Eu me assustei e pedi por socorro. Tudo escureceu e eu senti alguém vindo e me carregando para longe da estrada.

“Não é justo. Você não tinha o direito. Você...” – a voz do vulto parecia desesperada.

“Quem não tem direitos aqui é você. Você pensou que podia me enganar? Esta noite você ira para os círculos”.

Eu sentia que conhecia ambas as vozes, só não me lembrava de onde. Quando a claridade voltou para os meus olhos eu vi um acidente de carro e havia uma homem caído para fora. Eu corri em seu socorro. Uma voz fria e cruel cortou o céu como um trovão.

“Você não desiste não é Rafael? Já chega! Hora de acordar Thiago! Acorde!”

Antes porem de acordar ouvi um grito cheio de agonia e dor. Alguém sofria muito e eu queria ajudar, mas meu corpo foi flutuando ate minha casa que estava intacta. Meu corpo foi caindo ate cair na minha cama então eu acordei.

Quando acabei de contar meu sonho vi que Jessy e Rodrigo me olhavam como se a qualquer momento eu fosse rir e falar que era brincadeira. Esse era o pior por que nele minha mãe, Mabi e metade da rua morreram. Eu sabia exatamente o que eles estavam pensando, principalmente o Rodrigo. Eu praticamente falei que a irmã dele ia morrer. Quem quebrou o silencio foi justamente o Rodrigo.

- Ainda bem que você nem sempre “prever o futuro” não é?

Eu queria dizer que ele estava certo, mas algo me dizia que seria mentira. Eu não queria que a Mabi morresse muito menos a minha mãe.

- Olha Rô, é só não deixar a Mabi atender mais a porta. Nem se for o entregador de pizza

Todos nos rimos da piada da Jessy. Meu celular tocou. Era a minha mãe dizendo que estava na porta.

- É minha mãe, você quer carona Rodrigo?

- É claro que quero.

Me despedi da Jessy que me deu um abraço forte e bem demorado.

- Não se preocupe com nada guri. Mas o que eu você vai fazer? Vai escutar esse tal de Kalevra e dormir sem tomar nenhum remédio?

O Dr. Fernando havia, há muito tempo, me receitado um calmante um pouco forte. Eu só devia tomá-lo quando uma noite antes eu tivesse pesadelos. Sobre o efeito do remédio eu durmo sem ter um único sonho, mas também parecia que eu não tinha dormido nem 1 segundo.

- Eu não sei. Talvez seja mesmo o meu pai. No fundo do meu coração sinto que eu devia parar para escutar.

Minha mãe buzinou cinco vezes, era um aviso: “ou você vem agora ou volta de ônibus”

Dei mais um abraço na Jessy e fui para porta. Vi que a Jessy só deu um rápido abraço no Rodrigo, o que o deixou meio triste.

- Ate amanha na aula guria.

Quando sai da casa vi que o céu já estava escuro. Olhei no celular, já eram 19:15. A noite havia chegado. Uma noite que por mim seria adiada mais algumas horas.