Visio Nocturna - Primeiro Desafio
20 Capítulo 19
Cheguei em casa e ela estava vazia. Como estava morrendo de fome fui direto para cozinha e na porta da geladeira havia um bilhete da minha mãe.
Filho, fui ao medico com sua avó. Acho que não demoro.
Tem comida em cima do fogão e não se esqueça de deixar a cozinha arrumada.
beijos.
Minha avó detesta ir ao medico e só minha mãe consegue literalmente arrasta-la para um.
Fiz um prato e me sentei no sofá da sala para comer. Com minha mãe em casa as refeições são feitas na mesa e com a televisão desligada. Ela fala que este contato é muito importante para uma família. Como hoje ela não estava em casa resolvi comer assistindo a televisão. Estava passando uma reportagem sobre aranhas. Troquei de canal na hora. Eu tenho pavor de aranhas, desde pequeno. Eu troquei de canal e no outro estava passando uma reportagem semelhante e no outro e em todos os canais que eu colocava. Eu desliguei a televisão, mas como sou acostumado a comer conversando com minha mãe o silencio estava me incomodando. Fui ate a estante da sala e peguei o primeiro DVD de filme que achei. Logo no começo varias aranhas passaram na tela.
— Eu nem sabia que tinha filme de aranha aqui em casa. Assim que acabar de almoçar vou fazer uma limpeza nessa estante. – Eu peguei a capa para ver qual era o nome do filme e meu susto foi que o filme era “O exterminador do futuro” que eu me lembre não tem aranha neste filme. Um barulho na tela da televisão me distraiu da capa do filme. Eu pensei que estava ficando louco, mas parecia que as aranhas do filme estavam tentando sair de dentro da tela. Elas batiam no vidro que começou a trincar. Eu fiquei parado no sofá em estado de choque olhando para o que estava acontecendo. Tudo aconteceu muito rápido. Eu ouvi um grito, parecia mais com o rugido de uma animal, a tela da televisão estourou e cacos de vidros voaram por todo lado e de dentro dela saíram varias aranhas. Eu estava paralisado de medo, minhas pernas tremiam. Eu tentei gritar, mas minha voz não saiu. Eu me forcei a ficar de pé, minhas pernas tremiam, eu dei um passo para traz e as aranhas pareciam responder aos meus movimentos. Eu fui me distanciando aos poucos com as pernas tremendo e os olhos fixos na cena que, ate pra mim, era estranha. Uma aranha do tamanho de um filhote de cachorro saiu da tela e pulou em minha direção. A única coisa que pude fazer foi levantar os braços e ao fazer isto senti um calor vindo da minha mão esquerda. Não sei bem o que aconteceu, mas eu repeli o bicho que pulou em mim. A aranha bateu com força na estante a fazendo cair no chão. Agora todas as aranhas estavam vindo pra cima de mim. Eu corri e todas viram atrás de mim. Perto da escada havia outra aranha enorme que ao pular em mim também foi repelida. Não entendi o porquê, mas não importava agora. Corri escada acima e entrei para o banheiro e fechei a porta. Não ouvi movimento lá fora. Parei um minuto para respirar e tentar entender o que estava acontecendo, quando senti minha mão esquerda ficar ainda mais quente. Eu a levantei e vi, o anel que Lucem havia me dado antes prateado estava dourado e a serpente parecia que estava se movendo. As palavras de Lucem pareciam ecoara em minha cabeça “Este anel vai lhe proteger”. Quando ele falou proteção eu pensei que era só contra o meu pai. Uma batida forte na porta me tirou dos meus pensamentos. As aranhas estavam tentando entrar. Eu corri ate a janela, mas para o meu desespero vi varias aranhas tentando entrar por ela também. Um forte estrondo me avisou que a porta havia cedido as aranhas. Pensando no que eu havia feito com as duas aranha que me atacaram, eu levantei a minha mão esquerda e apontei para porta. Uma barreira se formou e as aranhas foram repelidas. Mas não tive tempo para ficar feliz. O vidro da janela se esfacelou no chão. Mais rápida do que eu, uma aranha quase do meu tamanho pulou em mim. Com o seu peso ela me jogou no chão, tentei empurra-la com o anel, mas uma de suas pernas estava em cima da minha mão. A todo o momento ela tentava me picar com suas presas e com minha mão livre eu a empurrava. Outra aranha, um pouco menor, apareceu e picou o meu braço direito. Eu soltei um grito de dor e senti meu corpo queimar por dentro. Era o fim. Eu iria morrer ali, devorado por aquelas aranhas que só Deus sabe como vieram parar ali. Morrerei sem nem dizer a Mabi o quanto eu a amo. Meus olhos estavam se fechando e a dor foi diminuindo.
Eu estava caindo. Abri os meus olhos, mas não fez diferença. Estava tudo escuro e eu sentia o meu corpo cair cada vez mais fundo para algum lugar. Eu estava morto afinal? Era assim a passagem para morte?
- Não seja fraco garoto. Você pode sobreviver. Você tem força para isso.
- Quem esta ai? – Eu gritei para a escuridão e ela me respondeu com uma voz de gelar o sangue.
- Não há ninguém aqui, pois os que aqui estão já não podem ser chamados de alguém. São coitados, assim como você, que não aceitam a morte e deixam assuntos inacabados no mundo dos vivos.
- Mundus significat? –
- Exatamente. Mas você não deveria estar aqui ainda. Não há ninguém precisando de você lá no mundo dos vivos?
- Mabi! Ela precisa de mim e eu preciso protegê-la.
- “Eu preciso protegê-la” - Ele disse com uma voz mais fria do que antes. – Como você pode proteger alguém quando não consegue salvar a si mesmo?
Eu cai. De pé em uma terra cinza, sem vida e com cheiro de vários corpos podres. Mundus significat. O lugar para onde as almas daqueles que não podem ir nem para o Céu e nem para o Inferno ficam. Eu não queria estar ali e nem mesmo queria estar morto. Não só a Mabi, mas a Jessy e o Rodrigo.
- Volte garoto. Aqui não é o seu lugar.
Eu fechei os meus olhos e desejei com todas as minhas forças não estar mais lá. Pensei na Mabi, nos meus amigos e na minha mãe. Quando abri os meus olhos eu estava deitado no chão do banheiro e ao meu lado varias aranhas enormes estavam caídas, mortas. Sentindo meu corpo queimando e todo dolorido tentei ficar de pé, mas tudo que consegui foi me sentar.
Meu coração parou com o que eu vi: Uma serpente de quase uns quase sete metros estava parada me olhando. Ela era prateada e tinha os olhos escuros como a noite. O estranho foi que dela eu não tive medo. Apenas fiquei ali olhando para a serpente e ela me olhando.
- Obrigado – as palavras saíram sem que eu percebesse.
A serpente assentiu e mordeu a própria cauda. Ficou nesta posição e foi diminuindo de tamanho ate ficar do tamanho de um anel. Ela se arrastou ate o meu dedo e se enrolou nele. Eu fiquei ali sentado no banheiro completamente destruído e cercado de aranhas mortas.
O barulho de um sino me fez sobressaltar no chão e quando dei por mim estava deitado no sofá da sala. Foi tudo um sonho? Mais uma vez o barulho de sino tocou. Era a campainha tocando. Me levantei e senti uma forte dor no braço. Tirei a camisa do uniforme e vi a marca de duas presas nele.
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