Visio Nocturna - Primeiro Desafio
21 Capítulo 20
Eu abri a porta e a Mabi ficou um tempo parada me olhando, só depois eu percebi que estava sem camisa. Eu vi que ela ficou um pouco vermelha de vergonha e eu achei aquilo a coisa mais fofa do mundo. Depois de um tempo a Mabi foi a primeira a falar.
- Aposto que você passou a tarde toda dormindo ne doutor Thiago. – Ela colocou as mãos na cintura e parecia um pouco brava.
Ela falou “a tarde toda”. Eu olhei para o céu e vi que o Sol parecia que já ia se por.
- Desculpa Mabi. Eu dormir sem perceber.
Eu estava totalmente sem graça de estar ali, sem camisa, na frente dela.
- Ta tudo bem. Eu também não tive tempo de começar a pesquisa, acabei de chegar da festa do papai. Eu só vim te avisar que se você quiser a gente estuda lá em casa, pode ser?
- Pode sim. Eu só vou tomar um banho e já estou indo e... – Eu falei tudo correndo e embolado, o que fez a Mabi dar uma risada.
- Então tá, mas vê se não demora muito viu?
Ela se virou para ir embora, mas no meio do caminho ela virou pra mim, deu um sorriso e disse:
- Você ta precisando voltar a jogar mais basquete e comer menos sorvete.
Ao dizer isto ela se virou e foi para casa. Eu fiquei esperando ela atravessar a rua e entrar em casa. A tarde passou e eu ainda não havia pensado em como protegê-la do que estava para acontecer. O melhor agora era ficar perto dela.
Arrumei a sala e a cozinha e fui direto para o banheiro. Quando entrei as imagens da porta e das janelas destruídas invadiram minha mente. Eu sabia que aquilo não tinha acontecido, mas meu corpo doía e no meu braço havia a marca da picada da aranha. Eu tirei o anel e o analisei: Parecia um anel comum. Estava prateado e a serpente imóvel. Entrei para chuveiro e deixei a água cair sobre as minhas costas. Durante este tempo fiquei pensando que por toda a minha vida eu queria saber onde meu pai estava e o porquê dele ter abandonado a minha mãe. Queria entender meus sonhos, mas agora que eu sei a verdade penso que seria melhor ficar com as duvidas. Só de imaginar que meu pai vendeu a minha alma meu coração começava a acelerar e eu sentia um ódio profundo por ele. Fantasmas, cachorro que fala e o Lucem. Era difícil de acreditar, mas ao mesmo tempo tudo encaixava. É engraçado como um dia pode mudar toda a sua vida. Agora não é a hora de pensar sobre isto. A Mabi era o mais importante. Acabei de tomar o banho, me arrumei e fui pra casa da Mabi.
Tantos anos que eu ia lá, mas nunca por um convite dela, ao não ser uma vez que a Mabi estava sozinha e me chamou para matar um rato que apareceu na casa dela. Eu sou contra esta cultura de matar ratos. A única coisa que eu fiz foi pegá-lo em uma armadilha e depois o soltar bem longe do meu bairro.
Cheguei à porta e fiquei um tempo parado me lembrando da primeira que estive ali. Foi há oito anos.
Eu tinha acabado de me mudar e ainda não conhecia ninguém no bairro. Nos mudamos para o bairro Lótus que era perto do Centro de New Valley, o que era bom para minha mãe que dava aula e estudava na mesma faculdade. Ela é professora de historia e foi da mesma sala que a mãe do Rodrigo, logo nas primeiras semanas de aula uma professora delas passou um trabalho e a tia Valeria ficou com pena da minha mãe não ter com quem fazer e a convidou para o grupo dela e graças a coincidência das duas serem vizinhas de frente uma amizade nasceu entre as duas. Um dia, por causa deste trabalho minha mãe precisou ir à casa da Tia Valeria e como eu era muito novo ela resolveu me levar. Eu ainda não estava matriculado em nenhuma escola e já havia três noites que eu estava sonhando, agora sei, com o meu pai. Logo que chegamos o Half, que estava solto, veio correndo e latindo. Eu congelei e me agarrei a minha mãe, mas antes que ele pudesse pular em mim a voz de uma menina o chamou.
- Half! Vem aqui! – o cachorro a obedeceu na mesma hora e se virou e correu para uma garotinha bem pequena e tão branca que parecia uma boneca. Ela tinha os olhos cor de mel e eles eram bem grandes.
- Desculpa dona Regina, o meu irmão esqueceu o Half solto, mas ele não morde não ta?
- Tudo bem Mabi, eu acho que já me acostumei com este monstrinho pulando em mim. – Minha mãe se abaixou para fazer carinho no Half que ainda não era muito grande e foi guando a Mabi percebeu que eu estava ali.
- Quem é esta menina ai com a senhora?
Na mesma hora eu fechei a cara e respondi que não era uma menina.
- Este é o meu filho Thiago, diz oi pra ela Thi.
A Mabi riu do “Thi” e eu fechei a cara pra ela. Nesta hora a porta se abriu e uma versão um pouco maior da Mabi saiu de casa.
- Regina, tudo bem? Eu já estava preocupada, você não é de se atrasar. — Ela cumprimentou minha mãe e se virou pra me olhar. – Este é o Thiago?
- É sim e também é o motivo do meu atraso. Já fazem três noites que ele não dorme direito, então acaba que eu também não durmo. – Minha mãe se virou e deu um sorriso cansando.
- Você já deu um abraço no Thiago Mabi?
- Eu não! Não vou abraçar um menino que parece uma menina e tem medo de um bebezinho como o Half.
Eu fechei a cara mais ainda. A tia Valeria percebeu e xingou a Mabi.
- Maria Gabriela, pedi desculpas agora para o Thiago! Isto não é jeito de falar.
Desta vez quem fechou a cara foi a Mabi. Contra a sua vontade ela me pediu desculpas, mas tão baixo que eu mal pude escutar. Eu não me lembro muito bem o que respondi, mas sei que a chamei de menininho.
A tia Valeria nos convidou para entrar. A casa dela era muito maior, iluminada e enfeitada que a minha. Eu fiquei parado admirando o corredor de entrada que era cheio de fotos e quadros da família. A tia Valeria nos levou para a sala, a mesma onde eu e a Mabi fizemos o primeiro relatório do trabalho, assim que eu entrei fiquei paralisado com cena que vi: Onde hoje fica a mesa de jantar estava um menino, um pouco maior do que eu e mais moreno que a irmã, sentado brincando com o que parecia ser uma maquete enorme do Velho Oeste, ate um trilho com um trem em movimento tinha. A tia Valeria o chamou e ao contrario da irmã ele não me chamou de menina quando me viu.
- Quem é ele mãe? – O Rodrigo se levantou e veio direto me cumprimentar.
- Este é o Thiago. Ele é filho da tia Regina, ela o trouxe para brincar com você.
Na mesma hora a Mabi perguntou para o irmão se eu não parecia uma menina e ele respondeu que não mais do que ela parecia um menino. Eu tive que rir, minha mãe me corrigiu, mas a Tia Valeria falou que era normal de criança. O Rodrigo me puxou e me mostrou o seu brinquedo, ele me falou que era a representação da antiga North Valley. Era o brinquedo mais legal que eu já tinha visto. Ele perguntou se eu queria brincar com ele e na mesma hora disse que sim, viramos as costas para a minha mãe e a tia Valeria e o Rodrigo me mostrou como a cidade funcionava. Daquele dia em diante todas as tardes eu ia para casa do Rodrigo brincar e todos os dias a Mabi ficava me chamando de menininha. O Rodrigo sempre teve os brinquedos mais caros, mas ouvindo uma conversa da minha mãe com e dele descobri que ele não tinha nenhum amigo que o visitava, o único amigo que ele tinha era o Farofa que na época morava em Next Valley. Foi por causa da amizade da minha mãe com a mãe do Rodrigo que eu comecei a fazer natação, basquete e fui para Saint Michael. E pensar que naquela época a Mabi era só a irmã chata do meu melhor amigo.
Bati a campainha e já ouvi os habituais latidos do Half vindos do fundo da casa. Assim que a Mabi abriu a porta percebi que havia algo errado com a casa. Ela estava silenciosa, o que era uma coisa rara.
- Oi Mabi. Cadê todo mundo? – Era meio estranho ficar sozinho lá com ela.
- Papai esta tentando e transformar o Rodrigo em um medico e a mamãe esta tentando salvar meu irmão. A festa estava muito chata ai eu falei que precisava adiantar um trabalho com você, o que não é mentira. – Ela disse a ultima frase com um sorriso meio maldoso no rosto, típico da Mabi inventar desculpas para fugir do pai.
- Eu arrumei a sala, podemos estudar lá. Você trouxe seu notebook?
Eu me lembrei de pegar meu computador, apenas meu caderno.
- Pela sua cara já vi que não. Igualzinho o Farofa. Me espera na sala que eu vou pegar o note do Rodrigo.
A Mabi subiu a escada sem perceber que eu não havia gostado de ter sido comparado com o Farofa.
Eu atravessei a copa e fui para sala, de fato a Mabi havia arrumado tudo com livros, cadernos, atlas e o seu notebook. Eu me sentei à mesa e fiquei olhando para o relógio de parede que ficava de frente. Ele estava marcando 16:45. Muito em breve meu pai ia aparecer para tentar matar a Mabi, mas agora eu tenho uma arma contra ele. Alguns minutos depois a Mabi voltou com o Notebook e falando ao celular. Ela me entregou o computador e se sentou de frente para mim. Eu fui ligando o computador enquanto esperava ela acabar a ligação.
- Era minha mãe. Parece que um amigo do meu pai vai abrir um consultório aqui em Next Valley e esta querendo colocar o Rô como estagiário. Coitado do meu irmão. Hoje a noite aqui vai ser barulhenta.
- Eu não entendo porque o tio Augusto não deixa o Rodrigo ser jornalista.
- Ah! Papai fala que não da dinheiro e nem garante a vida de ninguém. Eu discordo com ele. Se meu irmão se esforçar pode ser mais bem sucedido que o papai. Agora vamos deixar de conversa senhor dorminhoco, hora de estudar.
Eu ri do “senhor dorminhoco”, mas ela falou que não via graça em nada. Eu iniciei o computador do Rodrigo e já estava no Google quando uma pergunta me veio a cabeça.
- O que você pensa em fazer de faculdade Mabi? – Ela ficou me olhando por um tempo e depois respondeu que não sabia e não pensava muito nisto.
- São muitas oportunidades entende? E eu sinto que posso fazer qualquer coisa.
- Mas tem que ter alguma coisa que você goste muito. Me conta vai.
- Um dia eu te conto Thi. Hora de estudar.
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