Visões de Shrai
1 Capítulo 1 - Ponte ao novo mundo.
Notas iniciais
Uma floresta incolor. Uma lua fixa no céu limpo, iluminando a copa das árvores, altas e finas. Olhando por cima delas o horizonte parece ser inalcançável, talvez escondido pela névoa vista apenas à distância, que parece encobrir os segredos além dela. No chão, debaixo das folhas, é escuro. Um pouco da luz penetra por entre as folhas e revela silhuetas variadas, quase sempre silenciosas, escondidas por entre os arbustos. Cruzando a floresta há uma trilha, uma estrada, tortuosa, que parece separar naturalmente as árvores pra passar por entre elas. No solo há pegadas de botas e bestas, manchas de sangue e de queimado. Não é claro o que houve por ali, mas o ambiente é hostil.
Acima desta, mais alto que as árvores, o espaço se distorce. Um tipo de buraco se forma no ar e cospe um garoto de cabelos brancos, que cai rapidamente e acerta o chão com violência. A floresta em volta dele fica silenciosa. Algo se move em volta dele, mantendo uma certa distância.
Após alguns segundos ele se levanta lentamente. Seu cachecol negro parecia se mexer com ele. Ele então bate suavemente em sua calça quase tão negra quanto seu cachecol para limpar a terra e olha em volta, procurando onde está. Depois de perceber que estava completamente perdido limpou sua camisa e ajeitou a gola por baixo do cachecol dizendo:
— Eu deveria ter pensado nisso...
Ele decide um lado para seguir a trilha e começa a andar.
Ele anda, e anda, e anda... A paisagem não muda. Muitas árvores altas, a lua acima por trás das folhas, o silêncio que as vezes é quebrado por sons estranhos. Até que então escuta algo se mexendo nos arbustos mais próximos. Ele então se posiciona, preparando-se para um confronto. Fica parado aguardando algum outro movimento, que não acontece. Ele então continua andando, porém alerta. Não demora muito e algo se mexe nos arbustos novamente, desta vez com mais vigor. Algo salta em sua direção com grande velocidade. Antes que ele pudesse identificar o que era sentiu uma grande pressão em seu rosto. De seu cachecol então brotou uma massa de cor metálica que envolveu seu corpo em menos de um segundo. Um impacto é ouvido, ressoando por todo a massa, que agora é sólida. "O que me acertou? aquilo estava longe demais pra me acertar." Ele então toca o metal, o qual se abre. porém, antes que ele pudesse ver através da fenda a massa o encobre novamente e outro impacto é ouvido.
— Eu sei onde você está.
Ele sorri e aponta uma mão ao chão. Seu cachecol encobre seu braço, se estica e muda de forma e de textura. Ele se esguia até o chão e o penetra. O casulo de metal começa a se retrair enquanto aquela massa negra perfura o chão até alcançar o solo debaixo do seu inimigo. Ela então explode em tentáculos negros que sobem até cobri-lo e se enrolam, prendendo-o dentro de uma flor negra.
Quando a massa metálica retorna para dentro do cachecol se percebe uma pequena cratera onde o casulo estava. Ele foi empurrado por quase um metro levando uma notável quantidade de terra consigo. O garoto sai lentamente do buraco onde estava e para ao ver o que havia feito. "Até agora tudo bem..." ele pensa consigo mesmo. Um gemido assustado e constante é ouvido da flor negra. Ele se aproxima lentamente e percebe uma cauda de pelagem azul clara saindo pela parte de baixo de sua prisão por entre as pétalas e se espanta. Ele então coloca a mesma mão que havia criado a flor sobre ela, a qual lentamente se abre por cima. Conforme a prisão se abre o gemido vai parando até revelar um cabelo azul safira na altura de seus olhos, reluzindo com a luz da lua. Então sua face se revela. Seus olhos quase tão claros quanto seus cabelos. A ponta de seu nariz lembra um focinho de gato. Sua boca aberta em um sorriso jovial. Seu rosto inteiro lembra o de uma criança comum, com exceção do focinho e da pelagem em suas bochechas, também azul claro, que se estende pela lateral do pescoço até seus ombros, onde as pétalas negras continuavam cobrindo seu corpo. A menina então ri e diz com uma voz suave:
—Você me pegou!

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