Visões de Shrai
2 Capítulo 2 - Divertido!
Notas iniciais
A lua ainda estava no centro do céu. A poeira ainda pairava no ar enquanto o garoto de cachecol negro interrogava a menina com feições felinas.
— Sim... Por que você me atacou?
Ela olhou pra ele e riu.
— Eu vi você caindo e resolvi te seguir pra ver o que você faria. Como você não fez nada de interessante eu resolvi brincar com você... — ele olhou para ela espantando e ela continuou — Não deu... muito certo...
Ele riu mas logo ficou sério. Pensou um pouco e prosseguiu.
— Desde quando você está me seguindo?
— Desde que vi você caindo... Você pode me soltar agora?
— Não... Você já estava aqui?
— Sim, por quê? Não, espere. Por que não?
— Você sabe como sair daqui?
— Não... Se soubesse não estaria aqui. — ele pensa um pouco, se vira de costas. — Que tal você me soltar agora, hm?
Ele a ignora. "Se ela estava perdida, por que me atacou? brincar comigo..." Ele então estende uma mão e toca a flor. Ela então se desmancha, se deforma, e esguia de volta ao cachecol. Enquanto a massa negra se desenrola da garota ela revela seu corpo esbelto e nú. Os pelos que cobrem suas bochechas também cobrem seu corpo inteiro, com exceção dos seios e do abdomen.
— Obrigada!
O garoto se espanta e vira de costas.
— P-por que você está nua!?
A garota se espreguiça e ri.
— Tem alguma coisa errada com eu estar nua? Todos ficam se virando de costas quando me vêem.
— Como...? — ele bufa e continua andando. — Não importa... Boa sorte se divertindo por aí.
Ela fica um tanto confusa e começa a seguí-lo. Depois de alguns passos ele a pergunta:
— Por que você está me seguindo?
Ela ri e responde:
— Você está tentando sair daqui, não?
— ...Sim.
— Eu também. Então vou te seguir até você encontrar um jeito de sair, aí eu saio também. Esperta eu, não?
— ... Desde que você não me atrapalhe.
— Não, não, longe disso, vou te ajudar! — Ela corre até ficar do lado dele. — Assim sairemos daqui mais rápido!
— Me ajudar? Hm... Como você tinha me acertado antes?
— Ah, muitos me perguntam isso! É bem simples, eu só soco de longe.
— Como?
— Hmm... Não sei.
Ele então fica em silêncio enquanto ela fica olhando em volta, rodopiando e pulando alegremente. Depois de um tempo ela para e pergunta:
— Hm! Qual seu nome?
Ele hesita um pouco mas responde:
— Roger Colicchio. O seu?
— Äjira!... Colicchio...
— O quê?
— Engraçado. — ela ri e ele a ignora. — Vou te chamar só de Roger, pode ser?
— Sim... Por que você está nua? Aconteceu algo com você?
— Como assim? Só estou sem roupas porque não gosto delas. Nunca gostei delas... Uma vez me deram umas roupas bem pesadas, eu quase não conseguia me mexer. Elas eram grandes e duras...
Roger respira fundo e pergunta:
— Onde está sua família?
— Morta. Por quê?
— O que houve?
— Eu matei todos... — Roger se espanta mas se mantém em silêncio — Eles faziam coisas comigo... me tratavam como um bicho de estimação só porque eu era diferente...
— Diferente? Seus pais não eram como você?
— Pais? eu nunca conheci meus pais. Sempre vivi como a mascote do forte Gra-tach — ela disse com deboche —, Gra-taque, tax, algo assim. Me diziam que me resgataram de algo muito ruim que acontecia onde meus pais moravam... Mas quando eu descobri os monstros que eram eu matei a todos.
"Forte Gra-Tak. Eu conheço isso... de onde? Ah, sim... Um dos que me salvaram disse ser de lá. Ele tinha um aspecto de bruto, mas era gentil. Talvez seja por isso que ele abandonou o forte." Roger pensava em silêncio. Eles andaram em silêncio por
mais um bom tempo, com exceção dos rodopios e acrobacias que Äjira se divertia
fazendo. A Paisagem não mudava nem um pouco. A lua ainda se mantinha em pico, as
árvores ainda se abriam para dar passagem à estrada que parecia não ter fim. O
silêncio apenas foi quebrado novamente com a continuação da conversa iniciada por
Äjira.
— Estamos quase chegando em um arco bem grande que passa por cima dessa
estrada.
Roger se anima e pergunta:
— Arco? Que arco?
— É, parece um portal. Eu cheguei aqui por ele, mas ele apagou.
— Tem um portal no final da estrada e você nem pensa em mencionar!?
— Ele apagou! Não adianta de nada, eu tentei de tudo, mas nada acende ele.
Roger começa a andar mais rápido e diz com raiva.
— Se você for me ajudar desse jeito não vai dar muito certo...
— Não fale assim comigo!
Não muito à frente eles avistam o tal portal. Um enorme arco de pedra com
símbolos desenhados por toda sua superfície. Enquanto eles se aproximam ele começa a emitir um som grave que os fazem parar. As gravuras começam a brilhar e a piscar aleatóriamente. Äjira exclama alegremente:
— Está acendendo! Está acendendo!
— Fique quieta!
Roger segura Äjira pelo pulso e a puxa para a lateral da estrada, se escondendo atrás de uma árvore. Algo como plasma explode do portal e se condensa dentro dele, brilhando e se movendo caoticamente até ficar relativamente estável. Então sai do portal um homem de cabelo bagunçado e barba mal feita vestindo um manto tão caótico quando o portal. Ele se vira ao portal assim que sai e aguarda. Não muito depois sai uma mulher de pele cinza e cabelos pretos vestindo uma armadura pesada, porém apenas no tronco e nas pernas. Um grande machado pendurado em suas costas demonstrava força.
— Mas, David, eu não sei se o Forte vai concordar com essas exigências...
O homem de manto então responde:
— Não se preocupe, Malog, se você me deixar falar com eles eu acho que consigo convencê-los de que é a melhor opção. Afinal, de todo o Mundus vocês são os únicos que não se aliaram a nós contra a Praga.
"A Praga..." pensou Roger. Ele se aproxima em campo aberto e diz:
— Você disse "a Praga". Você está falando dos mutantes?
David e Malog ficaram espantados ao vê-lo. Malog dá um passo a frente e pergunta:
— Quem é você, cri- — ela para bruscamente e aponta para Äjira, que havia saido de trás da árvore — Äjira!
Todos se espantam e olham para ela. David então acaricia sua barba mal feita e diz:
— Então isso é o demônio azul que você havia dito... Me parece apenas um habitante de Seneja.
— Isso é mais forte do que parece...
Äjira corre rapidamente em direção a eles, mas Malog avança surpreendentemente rápido e agarra Äjira como um brinquedo depois que David a incapacita misteriosamente. Roger sem saber o que fazer salta em direção a Molag e tenta libertar Äjira. De seu cachecol ele tira uma lâmina e tenta decepar a mão de molag, mas seus braços estão protegidos com algum tipo de campo de força. Ainda assim, o impacto foi suficiente pra fazê-la largar Äjira. Ele então a segura e se impulsiona com a massa negra de seu cachecol sob seus pés. Molag pega seu machado e tenta acertá-los, mas eles já estavam do outro lado do portal quando a lâmina atravessou os pilares do mesmo, cortando seja qual for a conexão que ele fazia, deixando um pedaço da massa negra que não havia cruzado o portal para trás.
Depois de um momento de pausa Molag se recompõe e diz:
— Esse seu escudo é realmente eficiente...
David então se aproxima da massa negra e diz enquanto a coleta:
— Essa quem vocês chamam de Äjira... Ela pode não ser um problema sozinha — ele guarda a massa negra dentro de seu manto —, mas esse garoto com ela com certeza será. Espero que você tenha cortado o portal cedo o suficiente.

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