Visões
26 XXVI. Torturada
Notas iniciais
Darc acabara de escolher vinte vampiros para ir junto à ele e mais vinte para ir junto à Cate. De acordo com o plano que ele tinha em mente, tudo daria certo, a não ser se houvesse qualquer imprevisto. Na verdade, ele não tinha planejado direito, a prioridade agora era o oráculo. Salvá-la do demônio e impedi-lo de conseguir o que ele mais deseja: poder.
– Darc isto está errado! – Cate falou puxando o ombro do velho e fazendo-o ficar de frente para ela.
– Você não vai me impedir. – Ele disse com olhos fumegantes e jogando a mão da menina longe.
– Isso não dará certo, Darc! Está mal planejado. – Gritou chamando sua atenção. – Você vai mandar todos nós direto para a morte!
Darc caminhou violentamente até ela e a encarou nos olhos:
– Eu decido as coisas por aqui! – Gritou no mesmo tom que ela.
– Mas não é você quem decide a vida das pessoas! – Retrucou empurrando-o com força.
Ele lançou lhe um olhar mortal, acertando sua face com as costas da mão. O tapa fora tão forte que ela caiu no chão, com a mão esquerda no rosto. Cate levantou-se rapidamente.
– Eu. Não. Vou. – Falou entre os dentes.
– Eu não preciso de você! – Afirmou dando as costas para a moça.
Todos estavam perplexos com a cena. Nunca viram Darc se exaltar tanto quanto ali. Darc lançou um olhar mortal para todos e logo depois pronunciou as seguintes palavras:
– Se tiver mais algum covarde como esta tola, eu dou a ordem de ficar! Não quero lixos como ela numa busca como esta!
Ninguém respondeu. Levaram o olhar até Cate, aterrorizados e depois baixaram a cabeça.
– Foi o que pensei. – Finalizou e saiu da caverna, seguido pelos outros quarenta atrás dele.
Cate os assistiu afastar, cada passo doía sua alma. Dentre aqueles quarenta, muitos ela conhecia e tinha grandes laços de amizade. Sentiu lágrimas percorrerem seu rosto, mas logo as enxugou, percebendo que aquilo era um símbolo de fraqueza.
– Você está bem? – Alguém perguntou atrás dela. – Vi o que Darc fizera.
Ela virou-se abruptamente, ficando de frente para Lion.
– Você não deveria estar aqui. – Ela murmurou baixando o olhar.
– Não vou ficar parado enquanto Darc pensa que faz a coisa certa. – Ele falou.
– Você ainda está muito ferido, mal consegue andar.
– Eu estou bem. – Falou num tom frio. – E você?
Ela balançou a cabeça para cima e para baixo lentamente.
– Eu vou até os undeads, Demian me deixou este bilhete. – Ele disse entregando o mesmo para Cate. – Ele quer me ver, talvez já tenha seus planos para mim, mas também tenho os meus. Eu só queria te pedir um favor...
Ela o encarou nos olhos, vendo o quão sério ele estava sendo.
– Quero que você e o resto do acampamento estejam prontos para qualquer coisa. – Suspirou e baixou a cabeça. – Talvez, quando chegar na velha mansão, Demian mande seus aliados para acabar com o resto do acampamento.
Cate engoliu um nó na garganta e sentiu a tensão pesando em suas costas. Guardou o bilhete no bolso de sua calça e assentiu.
– Eu estarei pronta. – Respondeu, determinada a fazer o que pudesse pelo acampamento.
Lion assentiu para ela e começou a andar para fora da caverna.
– Lion!
Ele virou-se para trás e avistou a garota de cabelos curtos e espetados.
– Boa sorte!
Ele virou-se novamente e continuou seu caminho até os undeads. Dali para frente o destino de muitos estavam em jogo. Começou a correr. Sabia de um atalho para chegar à velha mansão antes dos darkangels, mas teria que tomar cuidado.
~
Estava escuro e frio. Ela teria morrido? Era assim que tudo acabaria? Onde estava agora?
Não tenha medo... Escutara o anjo falar novamente.
“O que aconteceu?” Alexia perguntou mentalmente para o anjo.
Você ficou desacordada por quase cinco dias... Por um momento perdi as esperanças de ficar ao seu lado, achei que tinha morrido.
“Aonde estou?”
Na velha mansão dos undeads. Está numa das celas do calabouço da casa. Demian vai fazer o ritual.
” Ritual?! Que ritual?! O que querem de mim?!”
Um silêncio perturbador viera do anjo. Ele não respondia de modo algum. Moveu o braço e abruptamente sentiu uma mão fria em seus lábios. Ela arregalou os olhos, tentando gritar, mas a voz não saia. Notou também que seus pulsos e tornozelos estavam presos com correntes fortes.
– Shh... – Murmurou alguém no escuro da cela.
Ela forçou a visão para tentar enxergar quem estava ali com ela, mas não podia ver nada. Sentia apenas a presença da pessoa. Não podia ao menos escutar sua respiração.
Escutou alguém tossindo um pouco mais longe de onde estavam. Passos podiam ser escutados, mas também não estavam próximos. Podia escutar barulho de goteira ecoando pelos corredores do local. Aquilo era assustador. E aquela presença junto à ela era ainda pior.
– Você está bem? – Ele falou o mais baixo possível.
Ela assentiu lentamente, ainda atordoada pelo ritual que o anjo mencionara. Ainda com medo, tentava ver seu rosto, mas aquela voz... Aquela voz, com certeza, era conhecida. A mão se afastou lentamente, permitindo-a respirar com menos dificuldade.
– Lexie, eu quero que você fique em silêncio. – Murmurou mais baixo que um sussurro.
Ela assentiu com esperança de que o rapaz tivesse entendido.
De repente sentiu um pano ser amarrado sob seus olhos. Não entendera a necessidade daquilo. Ela já não podia ver, qual era a razão de tampar seus olhos agora?
– Agora está escuro... – Começou. – Mas quando amanhecer, você terá a pior visão da sua vida. Confia em mim. – Terminou ainda em sussurros quase inaudíveis.
Sentiu o corpo afastar-se dela lentamente, fazendo o mínimo de barulho.
– Quem é você? – Ela sussurrou.
Nada. O homem não a respondeu e nem um mísero segundo. Aquilo estava a deixando louca. Ficar acorrentada no escuro com mais alguém presente, era realmente assustador. Estava com medo, não podia esconder aquilo. Mal sabia onde estava.
Passos estavam se aproximando. A garota prendeu a respiração e continuou paralisada.
– Alguma novidade? – Ouviu a voz de alguém.
– Nenhuma. – Respondeu o outro. – Demian vai acabar sacrificando mais um de nós se essa idiota não acordar logo.
– Se ela ainda estiver viva. – Murmurou o outro com voz baixa.
– Vamos, quando ela acordar com certeza saberemos. – Falou como incentivo.
Os passos afastaram-se novamente junto com metade da esperança de Alexia. Por que eles saberiam quando ela acordasse? Se ficasse em silêncio, não ficariam sabendo nunca quando estivesse “acordada”. Uma pontada de curiosidade bateu contra seu corpo. Ela queria ver, visualizar com olhos curiosos cada canto daquele lugar.
~
Lion havia passado pelos darkangels já fazia, pelo menos, oito horas. Por sorte eles não perceberam sua presença. Dark não fora muito inteligente em não mandar Lion, com um meio exército de quarenta pessoas, teria de arranjar comida e abrigo para todos, dificultando sua ida “rápida” até a velha mansão.
Isso não importava. A luz do dia clareava o vasto campo de árvores por onde passava. Não devia passar das sete da manhã. Tudo estava silencioso. Apenas pássaros cantavam baixo, como se estivessem acabado de acordar.
Lion estava sentado num galho de árvore, sugando o sangue do décimo esquilo que conseguira caçar. Deixaria o resto para depois. Ainda sentia-se um pouco fraco. Talvez se Dark não tivesse, tão de repente, resgatar o oráculo, ele não estivesse nesse estado. Também não importava. Ele não sabia o que aconteceria na mansão de Demian. Seria morto na frente de todos que conhecera? Ou seria poupado? De qualquer forma, estava ali para salvar Alexia.
Levantou-se e prosseguiu seu caminho antes que fosse tarde demais, apesar de não faltar muito para chegar.
~
Escutara o canto dos pássaros vindo do lado de fora do local em que estava. Provavelmente era de manhã. Não ouvira mais a pessoa desde a pergunta que fizera, ou seja, talvez estivesse sozinha também.
Havia tentado conversar com o anjo, mas não houvera resposta. E então se perguntou: Por que as pessoas resolvem abandoná-la nos momentos mais difíceis? Quando ela mais precisava não havia ninguém.
Levou os pulsos acorrentados até a faixa escura que estava cobrindo seus olhos. A colocou no chão, notando uma claridade imensa invadir o local. Esfregou os olhos com as duas mãos e depois encarou o chão. Sua visão ainda meio embaçada vira mais dois corpos cobertos com um pano sujo com sangue, mais ao lado mais alguém estava jogado no chão.
Levantou-se e começou a andar, segurando a corrente que prendia seu tornozelo na parede. A cada passo, soltava levemente a corrente, para poder chegar cada vez mais perto dos corpos. Estariam vivos? Talvez com frio... Olhou para o lado e vira o corpo de Jason jogado. Se Demian queria assusta-la teria que fazer muito mais. Suspirou voltando seu olhar para os dois corpos a frente. A corrente esticou-se ao máximo, puxando o tornozelo da menina para trás, mas conseguia alcançar o pano. Puxou-o com cautela e o jogou no chão.
Um grito agudo viera da cela onde a jovem oráculo estava. Logos os guardas correram chamar o demônio.
Ali estava a surpresa.
– Não! – Gritou a jovem. – Não, não, não!
Ali estava Jane e Max sentados. Mas não era só isso. Jane estava com a boca rasgada até a orelha, o braço direito estava torcido ao extremo e sua perna direita estava visivelmente quebrada. Max estava sem os olhos e com o pescoço cortado a ponto de estar pendido para um lado, quase caindo; também estava sem as mãos, estas estavam em seu colo segurando os dois olhos que estavam a encarando fixamente.
Ela colocou as mãos na cabeça. Não conseguia parar de chorar. Já não bastava Demian tê-los matado? Eles não podiam descansar em paz? Não poderiam ter uma longa vida do outro lado em paz?
– Espero que tenha gostado do meu presente. – Uma voz grave e terrivelmente assombrosa murmurou de fora da cela.
– Eu vou te matar! – Gritou ainda mais alto. – Desgraçado!
Ela não olhou uma única vez para Demian, estava deitada naquele chão imundo. Sentia que iria morrer, não podia mais continuar com aquilo
Demian sorria vendo o oráculo esperneando. Provavelmente a jovem menina nunca tivera visto imagens tão fortes assim fora das telas de vidro. Aquilo com certeza era perturbador. Mas quem se importava? Ela morreria a pouco. Não tinha muito tempo mesmo.
Alexia se curvou para o lado e vomitou, limpando a boca com uma das mangas de sua jaqueta imunda.
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