Visões
27 XXVII. A Velha Mansão
Notas iniciais
Lion ouvira gritos desesperados vindos do calabouço dos undeads. Cuspiu no chão ao lembrar-se de como Demian fora sínico durante tanto tempo. Encarou a grande mansão, com alguns buracos nas paredes. Guardas estavam na frente da porta de entrada.
Ele adiantou seus passos, andando como se estivesse em seu próprio terreno. Os dois guardas aproximaram-se:
– O que faz por aqui, traidor? – Perguntou um deles.
– Vim visitar aquele que chamam de demônio. – Murmurou com um olhar frio.
– Não temos permissão de deixa-lo entrar. – Afirmou o outro.
– Eu não preciso de permissão. – Rosnou as palavras.
Lion pegou um dos guardas pelo pescoço e o jogou longe, nocauteando-o. O que estava em sua frente pegou as duas adagas e tentou golpeá-lo, mas Lion segurou seus dois braços, virando-os para trás. O jovem vampiro gritava em agonia, mas Lion não parou. Colocou o pé direito em suas costas, fazendo o guarda ajoelhar-se e puxou seus braços para trás, quebrando-os. Pegou uma de suas adagas e a fincou na jugular do rapaz, vendo-o se debater nos seus últimos momentos de vida. Aproximou-se do outro, que ainda com a visão meio turva, levantou-se em pânico. Lion fincou a adaga que lhe restava no coração do guarda vendo sua pele enrugar-se rapidamente.
Antes de adentrar, cortou a cabeça dos dois, segurando-as pelos cabelos. Chutou a porta de entrada, vendo todos seus antigos companheiros fitarem-no surpresos.
– Onde está o demônio? – Gritou com fúria.
Não demorou muito para o próprio aparecer com uma longa capa negra. Demian sorriu ao vê-lo segurando a cabeça de seus guardas. Lion jogou-as para frente, de modo que elas rolaram até os pés do demônio.
– Que bela surpresa. – Murmurou com um sorriso macabro.
– Disse que queria me ver. – Murmurou.
– Acho que não veio aqui para isto. – Disse aproximando-se dele.
Lion ignorou seu comentário, encarando-o com olhos ainda mais furiosos. Demian deu um breve sorriso sarcástico e continuou:
– Foi o que eu pensei. – Murmurou. – Sabe... Eu gostaria de ter tempo para você, mas estou com uma visita muito mais importante...
Lion respirou fundo, sem demonstrar nenhuma expressão.
– Não vim visita-lo Demian... Não vim ver o oráculo também. – Começou. – Quero me aliar à você novamente, matei os guardas como uma oferenda para isto e espero que as aceite.
– Você quer voltar a ser um undead? – Demian perguntou com certo interesse no rosto.
– Sei que agora, mais do que nunca, sou importante para vocês. – Murmurou.
Demian fez um movimento com as mãos e abruptamente cinco homens cercaram Lion com adagas apontadas para seus pontos de morte. No andar de cima havia vampiros arqueiros, apontando para sua cabeça ou coração.
– O que faz você pensar isso? – Perguntou com curiosidade.
Lion sabia que devia pensar rápido e, ao mesmo tempo, favorece-lo, ou sua morte estaria perto. Por fim, deu um sorriso de lado, desafiador e encarou os olhos do demônio.
– Eu sei cada ponto fraco dos darkangels. – Falou. – Poderemos mata-los, um à um e então, o clã dos demônios nunca mais teria de passar por tantas dificuldades para encontrar o oráculo. – Terminou. – Você sabe que seu chefe odeia atrasos.
Demian levantou o braço com a palma da mão estendida e logo depois a abaixou. Todos que estavam armados, baixaram as armas e continuaram a prestar atenção em qualquer movimento de Demian.
– Você não ganhará bons tratamentos, Lion. – Falou num tom mais sério. – Será tratado como um prisioneiro e, quando tudo o que você prometeu der certo, sua morte estará traçada.
Lion assentiu sério. Pela sua visão periférica todos olhavam para Demian de forma curiosa.
– Levem-no para a cela. – Murmurou.
Dois vampiros aproximaram-se de Lion. Demian puxou um deles e murmurou baixo:
– Deixe-o de frente para o oráculo.
~
Alexia estava encolhida num canto da cela. Já vomitara quatro vezes só de lembrar a cena que encontrara naquela cela imunda. Seu corpo tremia em calafrios enquanto o medo espalhava-se por sua alma. Demian já a tinha e temia o que ele pudesse fazer com ela.
Começara a ouvir passos, mas nem ligou. Continuou abraçando seus joelhos com a cabeça baixa e os olhos fechados.
Não fazia muito tempo que Demian havia saído dali ao ouvir a notícia de algum forasteiro adentrando a mansão sem permissão.
– Você ficará ali, traidor. – Murmurou um homem cuja voz ela desconhecia.
O portão da cela à frente fora aberto e escutara o rapaz que estava sendo penalizado adentrando-a calmamente, o portão fora fechado e trancado, mas mesmo assim a jovem garota não quisera olhar o rosto do provável forasteiro.
~
Lion estava em pé. Andando de um lado para o outro numa cela incrivelmente pequena. Sabia que não voltaria para o luxo que tinha antes de sair do clã do demônio, mas pelo menos, seu plano estava indo muito bem, até agora.
Parecia estar sozinho no calabouço, pois não ouvira nenhuma respiração. Entretanto o local estava fedendo a cadáver apodrecido e vômito. Respirou fundo e finalmente sentou-se, encostando-se na parede. Olhou cada detalhe ali. Em sua cela não havia ao menos uma janela, enquanto a da frente tinha. Observou com cuidado cada centímetro da cela à frente e finalmente encontrou os corpos. Estavam completamente terríveis, mal podia conhece-los. Cuspiu no chão com desdém, já estava acostumado a ver cenas como aquela.
De repente, ouviu um barulho brusco vindo da cela ao lado. Ele olhou naquela direção, curioso. Alguém arqueava o corpo para frente enquanto vomitava. Ignorou a pessoa meramente, colocando em ordem os pensamentos. Quem quer que seja, está sofrendo nas mãos do demônio.
A pessoa começou a chorar, abafando o som de sua voz com as mãos. Lion observou a pessoa, sem tirar os olhos dela por um segundo. Era uma jovem garota, cujo cabelos eram negros e bagunçados. Seus sentidos estavam indicando algo, mas não conseguia decifra-los.
– Vai ficar tudo bem... – Sussurrou a jovem para si mesma.
Ao ouvir a frase, Lion arregalou os olhos. É a Alexia. Sentia-se feliz por ainda estar viva, mas pelo que notara, ela não estava em boas condições e nem recebera tratamentos especiais. Provavelmente eram seus pais que Demian colocara ali, mas tinha mais um corpo, que não conseguia ver pela falta de luz.
Ele decidira não falar nada. Deixa-la descobrir por si mesma e então, poderia continuar mentindo para ter ao menos algum sucesso em seu plano.
Não demorou muito para ouvir passos voltando, talvez, para busca-lo. Seria agora a surpresa da jovem.
~
Novamente os passos ecoavam pelo calabouço, misturando-se ao som de goteiras que pareciam não ter fim.
– Espero que esteja pronto, Lion. – Murmurou um dos guardas.
Lion? Fora isso que ela ouvira? Pela primeira vez levantou a cabeça e olhara fixamente para o rosto do forasteiro na cela a frente. Era ele! Talvez viera ajuda-la? Mas então por que estaria preso também?
– Lion! – Ela gritou. – Lion, por favor, me ajuda! Me tira daqui! – Implorou.
Ele não virou seu olhar uma única vez para ela o que a deixou sem esperanças alguma. Ela levantou-se e segurou as barras de ferro com força.
– Por favor... – Disse chorando.
Um dos guardas viera em sua direção e a empurrou, fazendo-a cair com força no chão.
– Cale a boca, oráculo. – Murmurou.
– Lion! – Chamou-o. – Por favor!
– Quieta! – Gritou o guarda que a empurrara.
– Estou com medo... Me ajuda! – Continuou implorando enquanto via o mesmo baixar a cabeça, sem olhar para ela.
O guarda abriu a cela e adentrou, furioso. Ela se encolhera enquanto o mesmo a levantava pelos cabelos com força, fazendo-a encara-lo.
– Eu mandei você calar a boca! – Rosnou entre os dentes.
A jogou contra a parede escutando a menina bater a cabeça na parede com força. Ela murmurou com a dor enquanto via sua visão completamente turva. Ela iria apagar, sabia disso.
~
Lion andava acompanhado de homens armados a todo momento, agora estava num corredor comprido, que já passara milhões de vezes. Talvez estaria indo para a sala onde Demian gostava de conversar com pessoas que lhe serviam. Lembrava que já fora promovido muitas vezes naquela sala.
Pararam em frente a uma porta escura. Era realmente onde Lion previra. Demian queria conversar com ele, pelo o que percebera. Os guardas abriram a porta e empurraram-no para dentro da sala.
Lion equilibrou-se, com as mãos algemadas, para que não caísse na frente de quem enfrentaria.
– Sente-se. – Murmurou Demian.
Lion o encarou e levou os olhos até as algemas.
– Você pode confiar em mim Demian, não farei nada contra você. – Murmurou em tom sarcástico. – Seus guardas fizeram um bom trabalho e me desarmaram por completo.
Demian aproximou-se do rapaz, impressionado com a coragem do jovem. Estendeu uma das mãos e segurou a corrente que afastava um pulso do outro, apertou-o com força, sem demonstrar expressão e, por fim a corrente partiu-se no meio.
– Beba um pouco. – Demian disse. – Você é meu prisioneiro, mas preciso de você e sua mente com forças para me dizer cada detalhe.
Lion sentou-se na cadeira empoeirada de frente para Demian, que fizera o mesmo, bebeu um gole do líquido amargo e sentiu os olhos mudando de cor.
– Você ainda não aprendera a controlar sua sede enquanto estivera com os darkangels? – Perguntou satisfeito em ver parte do Lion que conhecera.
– Não estamos aqui para falar de mim. – Respondeu terminando de beber o líquido vermelho.
– Como quiser. – Continuou Demian.
– Darc e os outros estão escondidos numa caverna, há uns dez quilômetros de distância daqui. – Começou. – Estão fracos e despreparados para um ataque surpresa.
– Você está me dizendo que devemos ataca-los agora? – Perguntou desconfiado.
– Sim. Você não tem nada a perder Demian... – Murmurou. – Já está com o oráculo, se alguns de seus homens saírem para ataca-los, não fara diferença nenhuma.
– Tudo bem. – Falou sério. – Mandarei cinquenta homens para lá. Não são muitos, mas quero prevenir qualquer ataque vindo deles. – Ele deu uma pausa, encarando o jovem. – Você não sabe de nenhum ataque vindo da parte deles, sabe?
– Não. – Murmurou em tom sério. – Sei que Darc está planejando um resgate para o oráculo, mas parece que até lá, o ritual estará feito.
– Ótimo. – Murmurou.
Estalou os dedos e os guardas voltaram para busca-lo. Lion assentiu para Demian e retirou-se da sala. Ambos os guardas fitaram-no com hesitação. Ele estava com as algemas soltas.
Continuou seu caminho sem precisar dos guardas para guia-lo, os mesmos seguiram-no como se estivessem fazendo seu trabalho.
Enquanto andava um adolescente, que parecia ter sido transformado recentemente trombara de frente com Lion, caindo no chão. O recém-chegado o encarou com um sorriso desafiador no rosto, enquanto Lion voltava seu caminho para o calabouço.
– Ei traidor! – Chamou o garoto. – Espero que tenha a pior das mortes por ter traído seu próprio clã! – Provocou.
Lion o encarou por cima do ombro, vendo-o ainda com aquele olhar desafiador. Num movimento rápido, segurou-o pela camiseta erguendo-o do chão.
– Não se mete onde não é chamado, pirralho! – Rosnou as palavras enquanto fuzilava o menino com os olhos.
Os guardas moveram-se rápido para afastá-lo do novo integrante, mas antes que pudessem faze-lo, Lion soltou o garoto com desprezo e apressou os passos para sua cela. Os guardas encararam o filho de Demian e seguiram Lion.
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