Virei O Professor Particular Do Astro Da Escola
7 Capítulo 07: Tutor Particular
Notas iniciais
A sala do diretor Edward Norton era bem ampla, decorada de uma forma que a fazia transmitir uma sensação de tranquilidade e acolhimento. As paredes eram pintadas de cores claras e as cortinas tinham um tom pastel, mas estavam sempre abertas para permitir que a luz do dia iluminasse a sala. Havia muitos quadros com obras abstratas que misturavam linhas, círculos e outras formas geométricas, pendurados nas paredes de forma bem organizada para não competir com os retratos de pessoas e momentos importantes da história do colégio. Prateleiras de livros e estantes de troféus e medalhas também ornavam o lugar.
O Diretor Norton já era um homem acima dos cinquenta anos, o corpo denunciando as marcas da idade. Seus poucos tufos de cabelo nas laterais já estavam bastante grisalhos e a careca no topo da cabeça refletia as luzes do teto como um espelho. Objetos comuns de escritório adornavam sua mesa luxuosa, como a plaquinha de metal pintada de dourado que o identificava como “Diretor Edward Norton”, mas uns poucos eram de natureza pessoal, como seus diplomas emoldurados e retratos pessoais. Um, em especial, tinha uma moldura dourada; ele mostrava o Diretor Norton — ainda novinho e com mais cabelo — de mãos dadas com outro homem de cabelos loiros volumosos, ambos usando elegantes ternos de linho.
Embora fosse sua sala, o Diretor Norton não se encontrava sozinho. Enquanto ele se sentava à sua mesa, ocupado com a pilha de documentos que lia e assinava, do seu lado esquerdo, andando de um lado para o outro, estava o Professor Lange, revisando algumas folhas dentro de uma pasta plástica. Ambos estavam mergulhados em seus papéis quando batidas na porta ecoaram. Pelo vidro translúcido e embaçado da porta, era possível ver as silhuetas de dois homens do lado de fora.
— Entrem! — ordenou o diretor, a voz de um tom bastante grave ao falar.
A porta foi aberta e o Treinador Steven entrou, acompanhado de Nicholas. O Sr. Lange os encarou sem esboçar expressão alguma, enquanto o Diretor Norton demonstrou um semblante mais simpático, completado por um sorriso acolhedor. Com um simples gesto de mãos, ele indicou as duas cadeiras à frente de sua mesa, pedindo para que ambos se sentassem sem a necessidade de dizer.
— Obrigado por terem vindo! O assunto que eu tenho para tratar não será muito agradável. — Apesar do jeito sério de falar, o Diretor Norton ainda se esforçava para manter uma expressão tranquila.
— Tudo bem, Diretor Norton. Não precisa ser tão eufêmico — respondeu Steven.
— Muito bem. Lange, por favor!
O Sr. Lange mexeu em sua pasta, separou alguns papéis e os entregou para Steven. Assim que os teve em mãos, ele os estudou e, conforme ia lendo-os, sua expressão se tornou cada vez mais decepcionada, até que ele se virou para Nicholas e o encarou firmemente, fazendo o garoto se preocupar ao entender que o motivo de terem sido chamados era ele.
— Bem, como pôde constatar por esses papéis, Steven — começou Lange, a voz apática —, nós os chamamos para discutirmos as notas do Nicholas, que vêm caindo absurdamente desde o último trimestre.
— Você tem algo a dizer em sua defesa? — Steven encarou o filho de forma intensa, intimando-o.
Mas Nicholas não teve coragem de respondê-lo, abaixando a cabeça.
— O senhor gostaria que eu tomasse alguma providência em relação a isso? — Steven perguntou diretamente ao Diretor Norton.
— Naturalmente, mas a minha preocupação é outra.
— Como assim? — indagou o treinador dos Hawks.
— Não somente o desempenho do Nicholas tem abaixado, mas o de outros membros do Hawks também. Como sabe, Steven, para que os alunos possam frequentar as atividades extracurriculares, é necessário que eles mantenham um histórico, ao menos, regular, com boas notas e comportamento exemplar.
— Sim, eu tenho consciência disso — respondeu Steven.
— Acontece que, após colocarmos os alunos do time para frequentar o programa de educação comportamental… Bem, digamos que recebemos uma reclamação formal.
— Não me diga que…
— Sim! — confirmou o diretor com um aceno de cabeça. — Os pais do Harry vieram fazer o acompanhamento semanal do filho e ele alegou que não está se sentindo bem tendo membros na equipe com um desempenho tão baixo, ainda mais o capitão do time. Então, meio que os pais dele me questionaram…
— O senhor não precisa me dizer mais nada. Eu já entendi tudo.
— Eu consegui alegar aos Trevor que todos os membros dos Hawks estão participando igualmente dos programas educacionais como forma de todos aprenderem, como uma equipe, sobre a responsabilidade que eles têm de preservar o nome e a honra do time ao representarem a escola. Mas mesmo eu contornando toda essa situação difícil, eles ainda questionaram a presença de membros com baixo desempenho na equipe e propuseram que fizéssemos uma mudança nela para que um novo capitão fosse escolhido. É claro que Harry deseja assumir o posto de capitão dos Hawks e ele usou os pais como meio para me colocar em uma saia justa.
— Parece que ele adora se esconder atrás dos pais — murmurou Nicholas, mas não baixo o suficiente, podendo ser ouvido por todos.
— Não vejo diferença entre vocês — acrescentou Lange, com tom de desdém.
Steven tentou segurar a expressão de desgosto com o comentário, mas não pôde evitar fuzilá-lo com os olhos.
— É claro que, em outras circunstâncias — continuou o Diretor Norton, rapidamente capturando as atenções —, eu não discordaria da opinião dos Trevor. Mas nós sabemos muito bem tudo a respeito do Harry e, francamente, eu não desejaria tê-lo como capitão da equipe. Seria mais problemático ainda, dado o seu… comportamento.
— Ficou claro, diretor. Também partilho da sua opinião — respondeu Steven.
— Foi pensando em tudo isso que eu decidi ter essa conversa com vocês primeiro. Eu ainda vou conversar com os demais membros do Hawks que estão com baixo desempenho e os seus pais também. Tentaremos ajudá-los e estimulá-los a melhorar suas notas. Mas, no momento, a minha preocupação é o Nicholas manter-se apto a permanecer na equipe e, principalmente, no posto de capitão.
— O que o senhor quer que eu faça, exatamente? — perguntou Steven.
— Eu propus ao diretor uma alternativa — respondeu Lange. — Eu vou fornecer algumas provas extras para que alguns alunos possam tentar recuperar suas notas. Não que eu esteja muito disposto a ajudar, afinal, não tenho obrigação nenhuma com vocês.
— Lange! — bradou o diretor em advertência.
— Desculpe, mas não posso evitar ser sincero — Lange comentou debochado.
— Poupe-nos de sua sinceridade e vá direto ao ponto! — impôs Steven.
— Está certo. Enfim, essas provas extras serão aplicadas por mim e pelos demais professores com o intuito de ajudar os alunos com baixo desempenho a tentarem melhorar suas notas e se prepararem para os exames finais. Mas só faremos isso. O resto, que é pegar no pesado e estudar para valer, fica a cargo de cada aluno. Porém, no caso do Nicholas, eu percebo que ele tem muitas dificuldades com as matérias de exatas, especialmente física e matemática. Foi por essa razão que eu pensei que, para ajudá-lo, talvez fosse necessário que ele tivesse algumas aulas particulares e…
— Aulas particulares?! Eu?! — Nicholas se espantou.
— Precisamente, Sr. Nicholas Kepplerman. — Havia um leve desdém na voz de Lange ao respondê-lo. — Eu poderia até me propor para isso, mas não tenho o menor interesse. No entanto, tenho aqui alguns contatos de colegas meus e acredito que eles podem…
— Um momento — interrompeu Nicholas. — O senhor está sugerindo que eu contrate um professor particular? Para mim, para me ajudar com os estudos?
— Está tão difícil assim entender essa questão? — indagou Lange, arqueando a sobrancelha e observando Nicholas como se desconfiasse ainda mais de sua capacidade intelectual.
— Não precisa falar assim, Lange. — Steven parecia se segurar para não avançar em cima do colega de trabalho. — Tá certo, eu farei o que está sugerindo. Me dê os telefones que eu vou…
— Um momento, pai! — Nicholas interrompeu outra vez e todos o encararam.
Por uma fração de segundo, quando Lange falou pela primeira vez sobre a necessidade de um professor particular, uma imagem veio à cabeça de Nicholas: o rosto de Thomas. E então, sem que percebesse, sua mente vagou até o fatídico dia de segunda-feira, no qual Nicholas e seus amigos haviam parado em frente a um bebedouro no corredor. Como se sua memória estivesse resgatando algo com muito esforço, ele conseguiu se lembrar de que, muito antes de Harry o provocar, Thomas já estava no corredor e conversava com os amigos. No princípio, Nicholas não havia dado importância para aquela conversa, mas, agora, parecia que a voz de Thomas estava mais clara em sua cabeça.
“Eu estou procurando empregos de meio período nos finais de semana para aumentar minha poupança para a faculdade”, ele se recordou e o conteúdo da conversa ficou fresco em sua lembrança. Era algo sobre a necessidade de arrumar um bom trabalho para Thomas, ou algo assim.
— Diretor Norton, o senhor, por acaso, tem alguma coisa aí sobre um rapaz chamado Thomas Anderson? — Nicholas o encarou ao perguntar.
— Thomas? — questionou Steven. — Thomas Anderson? Não é aquele garoto que o Harry vive perseguindo?
— Ele mesmo, pai.
— Mas o que você quer com ele?
— Naquele dia em que… Bem, o senhor sabe, eu me recordo de que, antes do Harry agir, acho que o Thomas estava falando alguma coisa com os amigos sobre ele precisar de dinheiro. E eu sei que ele é um bom aluno. Achei que…
— Entendi onde quer chegar, Nicholas — disse o diretor Norton. Ele rapidamente mexeu no computador e, logo em seguida, começou a imprimir algumas folhas. Ele as pegou e as analisou cuidadosamente. — Hum, excelentes notas, ótimo comportamento. É uma pena que tenha sido vítima de bullying do Harry. Hum, ele se inscreveu para prestar o exame estadual de verificação de desempenho acadêmico. Acredito que ele deseja obter uma bolsa para alguma boa faculdade. A meu ver, só me parece que os professores relatam uma timidez excessiva e um comportamento meio retraído. O que você tem a dizer sobre ele, Lange? Eu vejo aqui que ele frequenta sua classe de Cálculo Avançado.
— Thomas Anderson, vejamos. — O Sr. Lange olhou para cima, pensativo, parecendo se esforçar para lembrar. — Bem, ótimo aluno, não tenho o que reclamar. Notas sempre próximas do máximo, muito bom em fazer contas de cabeça. Graças a Deus não é tagarela, queria ter mais alunos caladões como ele, mas antissocial… Bem, não vejo por que não. Se tentassem me bater ou enfiar minha cabeça na privada todos os dias, eu faria o mesmo.
— Deixa eu ver se eu entendi — interrompeu Steven. — Você quer que o Thomas Anderson seja seu tutor particular, Nicholas? É isso?
— Isso mesmo.
— Eu não vejo por que não, Steven — acrescentou o diretor. — Ele é um ótimo aluno. Além disso, pense bem: talvez, se ele começar a se enturmar com os outros membros dos Hawks, conviver com eles, quem sabe…
— Não, diretor, não acho uma boa ideia. Não agora — comentou Nicholas rapidamente. — O Thomas ainda tem muito medo dos Hawks. Deixa eu convencê-lo a me dar aulas particulares primeiro. Talvez, com o tempo, eu faça ele e outros membros da equipe, alguns que sejam de minha confiança, se enturmarem. Pode até ser uma oportunidade de redimir a equipe toda perante ele e livrá-la da imagem negativa que o Harry acabou trazendo para nós.
— Está bem, eu concordo com você, Nicholas. — O Diretor Norton acenou a cabeça. — Mas acho melhor as primeiras aulas serem na sua casa, com a supervisão do Steven. Faça ele se sentir confortável com você, depois com outros membros. Vou te passar os nomes dos seus colegas que precisam melhorar as notas. O importante é que você faça com que a equipe passe a respeitá-lo e vice-versa. Quem sabe, não acabamos com os problemas de mau comportamento na escola.
— Não quero ser estraga-prazeres, diretor — continuou Nicholas —, mas acho que isso só vai acontecer quando Harry deixar a escola.
— Eu concordo com meu filho nessa — acrescentou Steven.
— Sejamos otimistas! — propôs o diretor.
— Muito bem, acho que estamos todos resolvidos — disse Lange. — Os exames serão daqui a dois ou três meses. É o tempo que você tem para melhorar suas notas, Sr. Nicholas, além, é claro, de se manter regular nas aulas normais. Espero que não desperdice essa oportunidade.
— Não vou. Com certeza, não irei — respondeu, mas parecia que Nicholas não estava se referindo somente aos exames.
— Bem, Nicholas, eu lhe desejo boa sorte. Talvez você precisará para conquistar a confiança dele.
— Eu agradeço, diretor. E pode ter certeza de que eu vou me esforçar para fazer tudo dar certo.
— Eu confio em você. — E o diretor estendeu a mão para o jovem, que a apertou em respeito.
Nicholas e Steven se levantaram, se despedindo do diretor com apertos de mão, mas dando apenas um leve aceno de cabeça para Lange. E, então, eles se encaminharam até a porta, deixando finalmente a sala do diretor.
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