Virei O Professor Particular Do Astro Da Escola
8 Capítulo 08: Posso Te Fazer Um Pedido?
Notas iniciais
Assim que deixaram a sala do diretor Norton, Nicholas e seu pai se despediram no corredor antes do garoto caminhar em direção ao refeitório. Steven pediu que ele agilizasse as coisas com Thomas, o que o jovem confirmou que faria naquela mesma hora, e então o treinador do Hawks se dirigiu até a sala dos professores, onde passaria o intervalo do almoço.
Nicholas cruzou vários corredores até finalmente chegar às grandes portas do refeitório. Ele as abriu e pôde constatar o enorme volume de estudantes sentados ao longo de muitas mesas com assentos acoplados. No momento em que entrou no local, os membros do time de futebol da escola — facilmente reconhecidos pelos casacos vermelhos — estavam em uma mesa no centro do lugar, e um deles, um rapaz negro de corpo avantajado, levantou a mão para sinalizar ao capitão da equipe.
Nicholas correspondeu ao sinal, gesticulando a mão para dar um oi, mas acabou ignorando o convite para se juntar à mesa de seus colegas. Em vez disso, ele começou a andar pelo refeitório com os olhos correndo por todo o local, procurando pelo característico casaco azul-escuro que recordava ter visto Thomas usar momentos atrás. Não demorou para que ele localizasse o garoto, sentado junto com seus amigos em uma mesa discreta no canto. Logo, Nicholas se dirigiu até eles.
Thomas encontrava-se sentado ao lado de Sarah, com George e Stuart de frente para eles. As bandejas cheias de comida mal eram tocadas à medida que a conversa entre os quatro amigos fluía.
— Não, eu não quero assistir a esse filme! — resmungou Sarah. — Não podemos assistir a uma animação da Pixar?
— Qual sua sugestão? — perguntou George, olhando uma folha de papel. Era uma lista com os nomes de alguns alunos que confirmaram presença na sessão de cinema do clube da escola naquela noite.
— Que tal o filme mais recente deles, Soul? — sugeriu ela.
— Eu assisti com a minha mãe — respondeu Stuart. — Ela adorou.
— Pode ser, mas vejo que hoje temos mais meninas inscritas do que rapazes. Devíamos escolher uma narrativa mais agradável para elas, não acha? — George falou sem tirar os olhos da lista.
— Quais filmes você tem em mente? — Thomas perguntou.
— Eu estava pensando em… — George levantou a cabeça, olhando para Thomas ao respondê-lo, no entanto, uma expressão de espanto o tomou.
Todos se viraram para observar o que havia chamado a atenção de George e logo puderam ver Nicholas caminhando na direção deles. Sarah estava em choque, assim como Stuart, mas a expressão de George era, certamente, a mais caricata e cômica. No entanto, Thomas esboçou um semblante de repulsa.
— Mas o que ele quer? — murmurou consigo mesmo.
— Oi, galera! — Nicholas disse quando finalmente os alcançou. — E aí, estão falando sobre o quê?
— Nada que seja do seu interesse. — Thomas se virou e encarou sua bandeja, pegando uma batata frita e molhando-a em ketchup antes de comê-la.
Todos se espantaram com o tom do garoto ao falar. Um leve rubor avermelhou o rosto de Nicholas.
— Escolhendo o filme para a sessão mais tarde no clube — respondeu George educadamente. Ele havia notado o constrangimento que o rapaz sentia.
— Ah, sim! E como eu faço para participar? — Nicholas manteve-se alegre e simpático.
— Você tem interesse no nosso clube? — Stuart ainda demonstrava espanto no tom de voz.
— Claro! Por que não?
— Bem, você pode preencher essa lista de presença e… — George fez menção de empurrar a folha pela mesa na direção dele.
— Um momento — falou Sarah. — Com todo o respeito, Nicholas, mas posso saber o que você deseja com a gente? Não me leve a mal, mas é que… Bem, você não é muito de se enturmar conosco.
— É verdade. — Ele forçou uma risada, disfarçando a vergonha. — Na verdade, se não for incomodar muito, eu gostaria de falar com o Thomas. Em particular, se possível!
Thomas se virou imediatamente para ele. Sarah acompanhou seu movimento.
— O que você quer? — Havia uma leve hostilidade no tom de voz dele.
— Não podemos falar a sós? — Ele se encabulou, o rosto corando um pouco.
— Eu não tenho nada a esconder de ninguém. E depois, o que de tão importante você teria para falar comigo em particular?
— Por favor, Thomas! Eu juro que é importante. — Ele suplicou.
— Thomas! — chamou Sarah. Ele se virou para ela. — Acho que não custa nada ouvir o que ele tem a dizer. Bem, ele… Você sabe, ao menos um agradecimento pelo que aconteceu mais cedo.
— Está bem. — Ele concordou, ainda que parecesse a contragosto. — Eu te acompanho. Tem um cantinho ali no refeitório que é bem discreto. Vamos! — Ele gesticulou.
Thomas se levantou e caminhou até o canto apontado por ele, seguido bem de perto por Nicholas. Assim que alcançaram o local, Thomas se virou para Nicholas, ficando um de frente para o outro. Embora o capitão do Hawks se esforçasse para manter a expressão cordial e simpática, o jovem nerd não fez questão nenhuma de esconder a hostilidade no semblante.
— Pode falar agora!
— Tá bom. Er… Você conhece o regulamento da escola, eu acredito. Então, deve saber que os alunos que participam das atividades extracurriculares devem ter…
— Notas regulares e um bom desempenho acadêmico e comportamental. Sim, sei. Vá direto ao ponto, Nicholas!
— Okay. É o seguinte: as minhas notas vêm baixando muito nos últimos meses. Não nego que acabei me desleixando quanto aos estudos, mas acontece que o Harry está usando isso para me atingir e tentar tomar o posto de capitão. Eu acho que ele quer essa posição mais do que nunca.
— Isso não é bom. Não é bom mesmo — comentou Thomas, pensativo.
— Exato! Eu penso que seria pior para toda a escola, porque ele faria questão de usar essa posição para praticar mais abusos contra os alunos.
— Isso é bem óbvio. Mas eu ainda não entendi o que tudo isso tem a ver comigo.
— O diretor Norton e alguns professores estão dando um jeito de ajudar os alunos do último ano a terem a chance de recuperarem as notas através de provas extras. Mas, no meu caso, eu preciso me recuperar o mais breve possível para me manter no posto de capitão. E é aí que eu quero que você entre!
— Como assim? — Ele se espantou.
— Thomas, será que eu posso te fazer um pedido? Se não for muito incômodo para você, você gostaria de ser meu tutor particular? Olha, você é o cara mais inteligente que eu conheço, talvez até do colégio inteiro. Ninguém melhor do que você para me ajudar. E enquanto estiver me dando essas aulas, vou manter o time na linha e longe de você. E você vai receber por isso. Eu ouvi dizer que você está precisando de dinheiro, então, pensa só, você vai ganhar dinheiro e vai estar seguro enquanto anda comigo.
— Uou, uou, uou. Um instante! Você está me pedindo ou já está impondo o que eu tenho que fazer?
— Me desculpa! Você tá certo. Acho que me empolguei demais.
— Olha só, Nicholas! Eu já tenho problemas demais para lidar. Agora, ter que dedicar tempo para te dar aulas particulares? Era só o que me faltava. E depois, já é ruim o bastante ter o time de futebol no meu pé, mas se eu começar a andar com você, é aí que não vão largar do meu pé mesmo. E ainda vão ter mais motivo para me aborrecer.
— Então a sua resposta é…?
— Não! E, por favor, não me peça mais nada!
— Mas você não quer nem o dinheiro pelo trabalho?
— Eu prefiro catar latinha ou qualquer outra coisa do que ser seu professor. Agora, se me der licença, eu vou terminar de almoçar.
Thomas esbarrou propositalmente no corpo de Nicholas, empurrando-o de lado, enquanto se afastava para retornar à mesa dos amigos. Espantado, Nicholas apenas o observou se afastar.
— O que é que ele queria? — perguntou George assim que Thomas se sentou.
Todos o encararam ansiosos.
— Nada, só pedir um favor besta! Podemos voltar a comer?
— Claro! — respondeu Sarah, e todos se voltaram para suas bandejas de comida. Contudo, enquanto Thomas voltava a comer enraivecido, seus amigos trocaram olhares rápidos entre eles, sinalizando o espanto com aquela situação.
Os membros da equipe Hawks estavam todos reunidos no vestiário, terminando de trocar de roupa para o treino que iria acontecer em breve. Uma balbúrdia de vozes desarmônicas ecoava pelo cômodo, com todos falando quase ao mesmo tempo, compartilhando os planos de final de semana. Havia uma enorme empolgação contagiando todos, embora Nicholas fosse o único a permanecer quieto, pensativo, concentrado em colocar a roupa enquanto o olhar perdido denunciava seus pensamentos profundos.
— Nick, tá tudo bem com você? — chamou o mesmo rapaz negro que havia sinalizado para Nicholas no refeitório. Ele se aproximou cauteloso, tocando-o no ombro com gentileza.
Nicholas se assustou momentaneamente, despertando de seus devaneios. Enquanto tentava se recompor, ele buscou disfarçar o semblante aflito para o companheiro não perceber.
— Ah, Mike! Er… Está! Está sim.
— Você parece um pouco preocupado. Aconteceu alguma coisa? — perguntou ainda atento.
— Não, nada. Pode ficar tranquilo.
— Deve ser porque o diretor o chamou para ir à sala dele, não é, Nicholas? Eu soube que você teve que ir para lá com o Treinador Steven. — A voz rouca e anasalada de Harry era inconfundível.
Mike e Nicholas se viraram para ele. Enquanto Nicholas não transparecia emoção alguma, Mike não escondia o semblante de desgosto por Harry. Dentre todos os membros do Hawks, ele era o único que nunca escondeu o fato de detestar Harry e jamais participou de nenhum ato orquestrado por ele, como o bullying praticado contra Thomas na segunda, embora também não tenha feito nada a respeito para impedi-lo naquele dia.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Mike, indignado.
— Nada. Só que… Ouvi dizer que… Bem, a escola está preocupada com alguns alunos do último ano com baixo desempenho e está querendo reverter a situação para não manchar a reputação do colégio. Vocês sabem, olheiros de faculdades, exames finais. Eles querem ajudar os alunos a não fracassarem. E me parece que o nome do Nicholas estava no meio. Parece até que estão pensando em tirá-lo do posto de capitão se ele não melhorar as notas dele.
Um silêncio sepulcral se instalou no vestiário e todos os atletas passaram a encarar Harry, Nicholas e Mike com espanto.
— E você deve ter adorado isso, não é? Sempre quis tomar o posto de capitão do Nick. — Mike elevou a voz ao falar.
— Não nego que eu gostaria de ser o capitão do time, mas isso não é decisão minha. É do diretor. E eu não tenho nada a ver com isso. Quem mandou o Nicholas não estudar direito?
Várias trocas de olhares aconteceram simultaneamente entre os membros do Hawks. Mike e Nicholas se entreolharam.
— Ignore ele! — ordenou o capitão.
— Okay, pessoal, chega de conversa! — A voz potente do treinador Steven soou pelo cômodo. Ele havia acabado de entrar, batendo palmas para chamar a atenção de todos. — Todo mundo para fora agora, vamos! Bora, bora, bora!
Vários armários foram fechados ao mesmo tempo e uma correria começou pelo vestiário conforme todos os estudantes corriam para deixar o lugar. Steven acompanhou os alunos e apenas Mike e Nicholas ficaram para trás.
— O que o Harry falou é verdade? — perguntou Mike, preocupado.
— É, é sim. Mas não se preocupe, eu vou dar um jeito nisso. — Nicholas tentou parecer confiante ao responder.
— Como?
— Eu vou contratar um professor particular. Eu tava falando com o Thomas Anderson sobre isso.
— O garoto com quem o Harry vive implicando? — Nicholas acenou com a cabeça para Mike, concordando. — Ah, por isso você foi direto para a mesa dele naquela hora no refeitório.
— Sim.
— Mas e ele? Aceitou?
— Não, ainda não. Ele ainda está com muita raiva. Raiva do Harry, da equipe. De mim. — De forma violenta, Nicholas fechou seu armário, frustrado.
— Não é pra menos, depois do que você fez na segunda-feira. Onde já se viu: se juntar ao Harry para humilhar aquele menino?
— Eu sei, eu sei — disse exasperado, puxando o cabelo para trás. — Olha, eu sei que o que eu fiz foi errado e eu já me arrependi disso. Mas eu preciso dar um jeito de fazer ele acreditar em mim. Eu não sei como fazer para ganhar a confiança dele.
— Você devia tentar falar com ele em um local mais reservado. Um local fora do colégio, onde ele se sentiria mais confortável. No meio do refeitório, com todo mundo olhando, só ia fazer ele lembrar daquele episódio.
— É, talvez você tenha razão. Eu estava pensando em vir ao clube de cinema na escola hoje à noite. Eu sei que ele participa dele.
— Não, é uma péssima ideia. Ele pode sentir que você está querendo invadir o espaço dele, sabe? Impondo a sua presença.
— Você acha?
— Acho. Você devia conversar com ele num lugar mais à vontade, em público, e que não seja a escola. Ei, um momento! — Mike olhou para o lado, pensativo. — Lembra que segunda-feira, quando o Harry implicou com ele e os amigos dele… Eles não falaram alguma coisa de um filme que iam ver no sábado?
— É, eu acho que sim. — Nicholas o encarou atento.
— É isso, você tem que surpreendê-lo e falar com ele no cinema. É o local perfeito. É público, mas ele se sentiria confortável lá, e não seria tão hostil quanto na escola.
— Acha mesmo que é uma boa ideia?
— Acho. Eu só não consigo me lembrar do resto da conversa. Eles tinham falado o nome do local. Como era mesmo? — Mike estalou os dedos próximos aos ouvidos. Um gesto mecânico feito para forçar o cérebro a trabalhar. — Acho que era cento e… alguma coisa.
— Não, era Square alguma coisa. Acho que era isso. — Nicholas se juntou a ele na tentativa de se lembrarem daquele dia.
— Isso! Centi Square… Não, Century Square. Cinema Century Square. Acho que fica no centro-leste da cidade.
— Ah, o endereço é fácil de conseguir — disse Nicholas, voltando a se animar. — Eu só preciso lembrar o horário.
— Eles não disseram exatamente, mas era de noite. Chegue lá por volta das sete e espere até eles aparecerem. Uma hora ou outra eles vão parar na porta para comprar os ingressos.
— É, você tem razão. Nossa, valeu, Mike! Você me ajudou, e muito.
Nicholas se aproximou e ergueu a mão em um gesto de agradecimento. Mike a apanhou de forma semelhante à posição de “queda de braço” e, depois de um aperto firme, eles se abraçaram com dois tapinhas nas costas.
— Não tem de quê, parceiro! Agora, vamos logo antes que o treinador ralhe com a gente!
— É, tem razão! — Nicholas acenou em concordância.
E os dois deixaram o vestiário rapidamente.
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