Notas iniciais
Boa noite, meus caros leitores! Como vocês estão? Espero que esteja tudo indo bem. Finalmente, mais um capítulo concluído para atualizar a história. Espero que gostem do capítulo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo. Boa leitura a todos!

Se alguém perguntasse a Thomas Anderson qual o seu maior desejo recentemente, com certeza a resposta dele seria experienciar a sensação de se sentir nos braços de Nicholas Kepplerman. Contudo, nem mesmo em seus sonhos ele ousaria acreditar que aquilo seria possível. Ainda assim, era exatamente isso que acontecia nesse momento, embora não fosse da maneira como Thomas esperava. Após tropeçar e quase cair no chão, sua queda havia sido evitada por Nicholas, que o alcançou rapidamente e o segurou bem firme. As mãos grandes e fortes dele eram como algemas de aço, envolvendo os braços magros de Thomas. Ele, por sua vez, tinha suas mãos apoiadas no peito escultural de Nicholas, podendo sentir seus músculos desenvolvidos apenas pelo toque por cima da camiseta que ele segurava apertado entre os dedos. E mesmo com a visão totalmente borrada, encarando-o com a cabeça erguida, Thomas ainda conseguia distinguir os leves contornos do rosto retangular dele e, em especial, o cabelo loiro mel que caía até o pescoço.

Já Nicholas não sabia explicar o porquê, mas de alguma forma ele se sentia hipnotizado por uma luz presente nos olhos azuis do garoto que segurava, o qual o encarava totalmente dominado pelo medo. O olhar dele, que tremulava, ainda assim tinha algum toque de doçura e inocência. E todas aquelas sensações percebidas por Nicholas foram o suficiente para que aquele olhar viajasse fundo em seu íntimo, fazendo desaparecer a hesitação que sentira sobre se devia ou não se juntar a Harry. Ele agora era movido pela ternura e o semblante com o qual encarava Thomas era cheio de compaixão. A boca de Nicholas se entreabriu e ele estava prestes a dizer algumas palavras, contudo, antes que o pudesse fazer, fora interrompido pelo rapaz que observava.

— Monstro… — Thomas balbuciou, mas claro o suficiente para que fosse entendido.

Monstro? Era assim mesmo que Thomas o estava enxergando naquele momento? Nicholas não conseguia acreditar nisso. Monstro. Ele já tinha a maturidade necessária para entender que nunca conseguiria agradar a todos com sua presença, mesmo assim, Nicholas estava tendo dificuldade de acreditar que aquela palavra era o que o definia naquele momento. Monstro! De qualquer forma, não havia dúvidas de que a mais pura definição daquela palavra lhe cabia bem. Monstro, pois só um monstro teria hesitado como ele hesitou e permitido que aquela covardia continuasse. Monstro, pois, como capitão, deveria ser sua responsabilidade zelar pelo bom comportamento de seus companheiros de equipe. Monstro, pois, se realmente não o fosse, teria interrompido toda aquela tragédia muito antes de ela acontecer.

Com o rosto totalmente despedaçado agora, Nicholas manteve as mãos firmes nos braços de Thomas e o ajudou a se endireitar até que ele se firmasse sobre as próprias pernas. Quando o garoto finalmente se equilibrou, Nicholas pegou uma das mãos dele e a virou com a palma voltada para cima. Com a outra mão, que segurava os óculos dele entre os dedos pela haste, ele colocou o objeto sobre a palma aberta de Thomas, deixando-o agora segurá-los com firmeza, soltando sua mão em seguida. E antes de se afastar, Nicholas sussurrou bem baixinho, de modo que só Thomas o pudesse ouvir.

— Me desculpa! — Então ele recuou.

Sarah, George e Stuart haviam feito todo o esforço possível para atravessar a barreira humana formada pelos atletas que os impediam de passar e acabar com a violência de Harry, mas eles não eram tão aptos fisicamente para lidar com três adolescentes brutamontes. Contudo, ao verem Nicholas agir rápido para salvar o amigo, o choque e a surpresa estavam visíveis em seus semblantes. Já Harry não conseguiu acreditar em seus olhos ao ver seu capitão de time ajudando Thomas a se levantar e devolvendo-lhe os óculos que lhe haviam sido tomados. Enquanto isso, os demais membros do time começaram a hesitar, encarando Nicholas sem saber se continuavam a fazer o que Harry lhes ordenava ou se seguiam o exemplo do capitão, interrompendo naquele momento o que estavam fazendo.

Os vários alunos presentes no corredor ficaram muito receosos quando perceberam Harry provocar o grupo dos amigos de Thomas. E quando ele passou a abusar ainda mais do garoto, fazendo-o andar de um lado para o outro para recuperar seus óculos, o medo e muitos outros sentimentos os tomaram, mas a maioria não sabia como reagir diante de tal situação. Apenas um ou outro se mexeu e partiu em busca de alguém que pudesse intervir naquela situação. Ao verem Thomas quase ir de encontro ao chão, muitos ficaram perplexos em ver como Nicholas agira rápido para salvá-lo a tempo. Todavia, não demorou muito até que um professor aparecesse, bem no momento em que o capitão dos Hawks devolvia os óculos ao garoto que havia salvado.

— O que é que está acontecendo aqui? — A voz grave de um homem adulto trovejou pelo corredor, embora ele não tenha gritado.

Todos se viraram na direção do homem que se aproximava. Ele era bem alto, um pouco mais de um metro e noventa, e seu físico atlético se destacava por conta das roupas esportivas que vestia, bem coladas ao corpo. Seu rosto tinha um formato retangular e seus contornos eram semelhantes aos de Nicholas, mas era difícil observá-lo com clareza por conta do boné que usava e da barba espessa e bem cuidada em torno dele. O homem andava firme e determinado, carregando uma prancheta em sua mão além de um apito de treino e um crachá, pendurados em seu pescoço, que o identificava como “Professor e Treinador Steven”.

Steven atravessou a multidão de alunos até chegar ao meio do corredor e se posicionou ao lado de Nicholas. Ele olhou para todos os envolvidos. No mesmo instante em que chegara, os atletas que impediam o avanço de Sarah, George e Stuart os soltaram imediatamente. Eles, por sua vez, foram até Thomas e o puxaram para longe de Nicholas e do treinador. Harry, disfarçadamente, tentou se colocar ao lado de seus colegas e se mover de modo a se camuflar em meio a todos, mas Sarah fez questão de acompanhar seu movimento sem desviar o olhar.

— Alguém me diz o que está acontecendo aqui, agora! — Outra vez, Steven falou em um tom normal, mas sua voz tinha tamanha potência que o fazia parecer estar bradando.

— Foi ele, Professor! Foi ele quem começou! — Sarah apontou com o indicador diretamente para o algoz de Thomas.

Com o olhar semicerrado, Steven encarou Harry. Por muito pouco, ele não deixou transparecer o nervosismo que o tomou no mesmo instante, mas controlou sua postura o suficiente para manter a calma ao falar.

— Tá, fui eu sim, mas eu não agi sozinho. Eles me ajudaram — ele apontou para cada colega que havia participado do cerco ao Thomas, incluindo os que serviram de muralha —, e o Nicholas também.

Steven se virou para Nicholas, o semblante agora carregado de fúria. O jovem baixou a cabeça e encarou o chão.

— Explique-se! — disse o treinador.

— Eu… Bem, o Harry, nós… — Nicholas hesitava, a voz saindo baixa em razão do nervosismo.

— Sarah! — Ele apenas virou a cabeça para ela, sinalizando-a.

— Nós estávamos conversando aqui no corredor em frente ao armário do Thomas quando os meninos chegaram e o Harry começou a implicar com a gente. O Thomas se assustou e bateu o braço com força na porta do armário, mas aí o Harry o puxou, então, ele, o Nicholas e os meninos ficaram brincando de empurrar o Thomas pra lá e pra cá enquanto ficavam jogando os óculos dele entre eles.

— É verdade? — Ele voltou a atenção para Nicholas.

— Sim.

— Harry!

Ele suspirou, derrotado, mas antes de responder, encarou Sarah com fúria, que devolveu o olhar.

— Sim, treinador. É verdade.

Steven encarou todo o time, um a um.

— Detenção! Agora! Mas no ginásio. Quero mil flexões e mil abdominais e ninguém será liberado até todos terminarem. Vão, agora! O restante de vocês, para aula, já!

A multidão de alunos começou a se dispersar, cada um se dirigindo para suas respectivas salas. No mesmo momento, o alarme que indicava o início das aulas soou por todo o colégio. Todos os membros do Hawks se juntaram e caminharam juntos em direção ao ginásio. Quando Nicholas fez menção de acompanhar o time e deu um passo, Steven o parou ao colocar a mão sobre seu ombro.

— Ainda não. Antes, eu quero ter uma palavrinha com você, senhor Nicholas Kepplerman.

Então ele o soltou e Nicholas esperou parado. Steven caminhou até Thomas, Sarah, George e Stuart. Ele pegou o braço de Thomas com cuidado e o examinou.

— Não me parece nada grave. Se achar que deve ir a enfermaria, vá. Mas se estiver tudo bem, vá para sua aula. Vocês também.

— Eu estou bem, foi só a dor e a surpresa na hora — respondeu Thomas, envergonhado. Ele colocou os óculos de volta e desamassou a roupa, além de ajeitar o cabelo castanho moldado na frente. Ele e seus amigos saíram e se dirigiram até suas primeiras aulas.

Agora, só havia Steven e Nicholas no corredor vazio. O homem se voltou para o garoto e colocou-se de frente para ele. Cruzou os braços e manteve um olhar firme. O rapaz apenas baixou a cabeça ao receber o novo olhar e encarou o chão.

— Me desculpa, pai! — Ele sussurrou.

— Shi! Treinador ou Professor Steven! Não esqueça que é assim que você deve se dirigir a mim aqui.

— Me desculpa, Treinador.

— Nossa conversa como pai e filho vai ficar para casa, quando chegarmos. Agora estou falando como seu professor e treinador. Estou muito desapontado com você, Nicholas.

— Eu sei.

— Eu faço de tudo para ninguém achar que o trato com favoritismo. O próprio Diretor Norton me encorajou a te nomear capitão do time, mesmo eu não querendo por achar que não seria ético escolher meu próprio filho.

— Eu sei.

— Sabe por que eu o escolhi mesmo assim? — Ele fez uma breve pausa esperando uma resposta, mas como Nicholas não o respondeu, ele continuou. — Eu o escolhi porque você tinha algo que todo bom capitão precisa ter. Você consegue influenciar os outros só com sua postura, sua atitude e seu carisma. O bom capitão é aquele que inspira, que motiva, que influencia o melhor de sua equipe. Foi só por isso que eu o escolhi. Achei que se você fosse o capitão e não outro, como Harry, você seria capaz de induzir o melhor comportamento dos seus companheiros. Mas não, pelo visto você deixa todos fazerem o que bem entendem, sem intervir ou impedir, e, pior, ainda participa junto. É muita decepção.

— Pai, por favor, eu…

— Nicholas! — Ele controlou a voz para não sair mais alto do que o necessário. — Não me chame de pai, não aqui. Ninguém pode saber disso.

— Tá bom, eu sei, eu sei. Me desculpa… É só que… Eu não queria ter feito aquilo. Na verdade, quando tudo começou, o Harry já tava empurrando aquele menino e jogando os óculos dele pros outros. Foi só quando passaram para mim que eu consegui parar tudo e devolver os óculos para ele. Também consegui impedir ele de cair no chão.

— Então, você não participou? Não diretamente, pelo visto?

— Não.

— Mas você fez alguma coisa para impedir quando ele começou? Ou quando percebeu que ele ia passar dos limites?

— Não.

— Então, você fez sim uma coisa. Você escolheu não fazer nada. E não fazer nada é o mesmo que consentir, Nicholas. Como capitão, você deveria ter imposto limites no Harry no momento em que percebeu que ele os ultrapassou. Esse era o seu dever como capitão.

— Tá certo.

— Muito bem. Infelizmente, eu vou ter que reportar tudo isso ao diretor. Não posso deixar que o comportamento lastimável do time permaneça como está. Não vou poupá-lo, Nicholas. É minha responsabilidade como professor delatar todos.

— Tá bom.

— Deixarei que o Diretor Norton tome as providências que ele achar cabíveis. Mas agora, como pai e professor, há uma coisa que eu gostaria de te pedir.

— O que é?

— Quero que procure aquele garoto mais tarde e se retrate com ele. O que vocês estavam fazendo com ele é bullying e isso jamais deve ser incentivado ou tolerado. Você vai se desculpar com ele por você e por todo o time. Quanto ao Harry, deixarei que o diretor lide com ele.

— Sim, senhor!

— Muito bem, então. Agora, vamos! Você e seu time têm uma punição a cumprir. Vamos ao ginásio antes que outra baderna comece. E se alguém perguntar, eu o estava penalizando como capitão e te obrigando a fazer as pazes com os envolvidos.

— Sim, senhor!

— Não fique triste. Não estou zangado com você, só decepcionado. Mas você tem que entender meu lado, como pai e professor.

— Eu entendo. Mas é que… Na verdade, acho que estou desapontado comigo mesmo. Eu vi o medo no olhar daquele menino. Acho que entendo o que você quis dizer sobre eu ter culpa por não fazer nada.

— O que você está sentindo é o peso da culpa e do remorso. Mas se serve de consolo, isso quer dizer que está arrependido, o que é um bom sinal. Prova que lá no fundo do seu coração você sabia o que era certo e errado. Procure o garoto e se desculpe com ele. Mesmo que ele não o perdoe, você vai se sentir melhor só por ter feito.

— Está bem, eu vou fazer isso.

— Ótimo. Agora, vamos!

Steven passou a mão em torno do ombro de Nicholas e o puxou para perto de si em um abraço afetuoso, sorrindo para ele. O rapaz sorriu de volta, tímido, e ambos começaram a andar rumo ao ginásio do colégio.