Virei O Professor Particular Do Astro Da Escola
4 Capítulo 04: Reflexões Profundas
Notas iniciais
A sala de aula da disciplina de cálculo do Professor Lange era absolutamente tranquila. Vários sons preenchiam o ambiente, misturados em uma sinfonia harmônica. Porém, por mais que tentasse, Thomas não conseguia se concentrar no ambiente à sua volta, pois cada som que ouvia soava como algo totalmente diferente em sua cabeça, lembrando-o de cada instante dos momentos que vivera minutos atrás.
O Sr. Lange escrevia no quadro negro e o som do giz que ele manuseava enquanto preenchia o quadro com equações, integrais e funções trigonométricas ecoava como batidas ritmadas de uma bateria. Para Thomas, soavam como o estalo metálico dos armários quando ele se chocou contra eles de costas e atingiu o braço esquerdo na porta aberta do seu. O ruído do grafite dos lápis riscando folhas em branco conforme os alunos preenchiam seus cadernos, acompanhando o ritmo do professor, se misturava ao movimento das borrachas apagando o que já havia sido escrito, como também dos apontadores que descascavam a madeira dos lápis. Contudo, aqueles ecos apenas refletiam no garoto a imagem dos braços que puxavam e empurravam um Thomas desorientado de um lado para o outro. Já alguns alunos murmuravam baixo entre si, entretanto, isso apenas reverberava no jovem as risadas daqueles que o faziam de gato e rato ecoando pelo corredor.
Por fim, quando o Sr. Lange escreveu a última parte de uma equação, ele riscou o quadro para formar uma linha, mas seu movimento foi muito brusco e o giz estalou no quadro e pulou da mão do professor, saltando até o chão e obrigando o Sr. Lange a se abaixar para apanhá-lo. No entanto, aquilo apenas relembrou Thomas do momento em que seus óculos voaram na direção de Nicholas e ele, ao partir em direção ao rapaz, tropeçou nos próprios pés e cambaleou, sendo salvo da queda pelo próprio capitão dos Hawks.
Até o momento antes de se encontrar envolvido pelas mãos de Nicholas, Thomas sentia raiva e medo. Raiva sim, por conta daquele grupo de atletas estarem tirando sarro dele ao se acharem no direito de poder fazê-lo só porque se achavam diferentes. Mas também medo, temendo que aquela suposta “brincadeira” se tornasse mais séria a ponto de ele sofrer danos físicos. Contudo, nada disso importava no momento em que as algemas de aço que eram as mãos de Nicholas o seguraram bem firme pelos braços. Toda a raiva e medo foram sufocados por algo maior que subiu à cabeça de Thomas, algo que ele tentou suprimir por achar inadequado diante daquela situação: desejo.
Thomas não negava a si mesmo que sentia uma forte atração por Nicholas. Até mesmo sua grande amiga e confidente, Sarah, sabia dessa sua fraqueza. Então, quando as mãos fortes de Nicholas envolveram seus braços, Thomas se sentiu acolhido e realizado — ainda que não quisesse — naquele instante. Quando seus dedos apertaram a camisa dele na altura do peito, ele pôde sentir aquela musculatura desenvolvida do rapaz, e ela era mesmo firme e dura. O gesto de apertar a camisa dele também trouxe à tona o perfume denso e forte que exalava de Nicholas, que misturava o aroma de grãos de café recém-torrados, caramelo e couro; um cheiro que inspirava a sensação de calor que emanava do corpo dele e o falso toque de veludo que poderia sentir ao tocar a pele de seu abdômen definido. E mesmo com a visão borrada, o tom do cabelo dele, o verde de seus olhos e os contornos do rosto ainda eram distinguíveis.
Por mais que fantasiasse com aquilo na segurança de seus pensamentos mais íntimos, Thomas jamais esperaria realizar esse desejo de sentir aquele garoto tão de perto. Ainda assim, aquilo aconteceu, porém, agora, Thomas tentava a todo custo tirar aquele momento da cabeça. Era sua maior fantasia que se realizou até o momento, mas agora era também uma memória carregada de dor e tristeza. Como ele podia se sentir realizado e satisfeito com uma memória como aquela? Uma memória de um momento em que ele claramente estava sendo feito de palhaço e tratado como uma besta para o divertimento alheio? Não, ele não podia permitir que sentimentos tão mundanos como atração e desejo se impregnassem em uma memória na qual ele deveria se sentir triste e com raiva. Triste sim, por ser tratado como um animal para divertir aquele bando de garotos desumanos e insensíveis. Raiva também, por eles terem feito o que fizeram, mas também raiva de si mesmo, por ser tão fraco e se permitir ser tratado assim sem coragem de revidar ou resistir.
Mas, e Nicholas? Thomas deveria sentir raiva dele? Ele havia sido gentil a ponto de evitar que Thomas caísse e também lhe devolveu os óculos no momento em que os pegou. Isso não contava como forma de redimi-lo do que aconteceu? Não! Não o redimia. Mas por que não? Porque não adiantava que ele tivesse devolvido os óculos ou o ajudado a se erguer. Por que não? Porque ele era o capitão dos Hawks e estava ali o tempo todo. Ele estava rindo junto, participou junto, até mesmo o cerco ele ajudou a fechar para permitir que Harry começasse toda aquela palhaçada. Mas ele não parecia hesitante quando se juntou? Não importa, ele ainda assim se juntou. Se ele quisesse, ele deveria era ter impedido aquilo de acontecer. Afinal, ele não era o capitão do time? Não devia ser essa a responsabilidade dele, zelar pela imagem e o comportamento do time?
É, isso era fato. Todo bom capitão de time tinha responsabilidades em manter a integridade do time, portanto, isso era verdade. Está vendo? Nicholas era culpado sim. Thomas deveria sentir mais raiva ainda. Raiva de gostar de um garoto pamonha como ele que não fez nada diante da humilhação que sofrera e que, ainda por cima, tinha poder sobre os demais para parar tudo aquilo e não o fez. Nicholas não era merecedor de uma gota da pequena admiração que Thomas sentia por ele. Chega, Thomas não podia mais se sentir atraído por um idiota como ele. A partir daquele momento, ele juraria que manteria Nicholas Kepplerman longe dele, física, mental e emocionalmente.
— Aquele idiota! Eu juro que vou… — Ele murmurou para si mesmo, contudo, sua voz soou um pouco mais alta do que o tolerável.
— Algum problema, Sr. Anderson? — indagou o Sr. Lange.
Thomas ergueu os olhos, assustado. Toda a sua turma o encarava. Alguns o olhavam com estranheza, outros pareciam segurar uma vontade de rir e outros o olhavam com certa dó — uns poucos que estavam presentes no momento em que sofreu bullying no corredor. De seus amigos, Stuart era o único que tinha a matéria de Cálculo com ele e era o único a olhá-lo preocupado. Já o Sr. Lange apenas o encarava com certo desdém no semblante. Thomas se sentiu um pouco envergonhado e um ligeiro rubor se esparramou em suas maçãs do rosto.
— Me desculpe, Sr. Lange! Eu… Eu me distraí com alguns pensamentos.
— Deviam ser pensamentos deveras interessantes para não estar prestando atenção na aula e nem perceber que eu o estava chamando.
— Me desculpe, por favor!
— Não gostaria de compartilhar esses pensamentos conosco? Tenho certeza de que serão de maior valor do que minha aula que, afinal, deve ser muito chata para um gêninho como você que tudo sabe, não é?
— Me desculpe, professor, eu não…
— Bom, se não deseja compartilhar conosco seus pensamentos tão importantes, gostaria de resolver essa equação no quadro? — Ele usou o giz para apontar para o quadro na equação desenhada.
Os olhos de Thomas se viraram na direção do quadro e, em um movimento sutil, eles se agitaram de um lado para o outro em movimentos fugazes enquanto estudava o quadro claramente. Seus lábios se mexeram em movimentos discretos e ele parecia estar murmurando contas que executava mentalmente. Por fim, ele voltou a atenção para o Sr. Lange e, um pouco seguro, respondeu:
— A resposta é dezesseis sobre pi.
O Sr. Lange suspirou e balançou a cabeça em negação. Ele se virou, pegou seu livro sobre a mesa e o conferiu com atenção, suspirando a seguir.
— Mais uma vez, o senhor está correto, Sr. Anderson. Mas, por gentileza, venha ao quadro e demonstre aos colegas como chegar ao resultado. Nem todos aqui têm uma calculadora embutida no cérebro. — Ele se virou na direção de alguns poucos alunos que se constrangeram com seu olhar.
— Sim, senhor! — E Thomas se levantou, caminhando em direção ao quadro e pegando o giz branco que o Sr. Lange lhe ofereceu ao se aproximar. Ele logo começou a escrever no quadro negro.
Todos os membros do time de futebol Hawks já se encontravam na quadra do ginásio com as roupas adequadas para as aulas de educação física. Os uniformes de atividade física da escola eram compostos por camisetas vermelhas com faixas amarelas e bermudas brancas com faixas vermelhas, cada uma com o emblema do Westbrooks. Os alunos estavam espalhados ao redor da quadra, de forma a contorná-la completamente. Enquanto isso, o treinador Steven se encontrava no centro da quadra, andando de um lado para o outro enquanto observava cada membro do time fazendo as flexões que havia exigido como punição.
Nicholas estava no lado direito da quadra do ginásio. Já Harry se encontrava do seu lado esquerdo. Ambos estavam imersos nas flexões enquanto as executavam mediante a contagem do treinador Steven. Mas enquanto Harry as executava com relativa facilidade, parecendo até estar feliz ao ver todo o time sendo penalizado junto com ele, Nicholas se movia em um ritmo mais controlado, os olhos encarando o nada e distantes, como se seus pensamentos vagassem para outro lugar. Em alguns momentos, Harry se permitia olhar para seu colega, como se tentasse adivinhar no que ele estava pensando. Contudo, o capitão dos Hawks ainda permanecia com a mente dispersa, imerso em algo profundo, e não ter ideia disso era o que intrigava Harry, que não parava de observá-lo discretamente.
Mesmo estando com alguma parte de sua concentração focada nos movimentos necessários para executar as flexões que seu pai estava obrigando o time a realizar, a todo momento, a cena do corredor não parava de ecoar na cabeça de Nicholas, como um filme em loop infinito. As risadas sem fim, o garoto de óculos empurrado de um lado para o outro pelos seus companheiros de equipe, o desespero em seu semblante enquanto ele tentava inutilmente pegar seus óculos de volta. Cada momento era nítido em sua mente. Então, veio a lembrança mais marcante, a que mais perdurou em Nicholas: o tropeço do garoto, seu reflexo rápido em salvá-lo antes de ele cair, o jovem em seus braços o segurando pela camiseta e os olhos trêmulos que o encaravam assustados, com a luz instigante que o tocou intimamente. Então, como se ainda estivesse com ele ali perto o bastante para ouvir com clareza, os lábios de Thomas se moveram e pronunciaram a palavra que abalou Nicholas completamente: MONSTRO.
— Não, eu não sou um monstro. — Ele sussurrou para si mesmo.
— Falando sozinho, Nicholas? — murmurou Harry de forma que só ele pudesse compreendê-lo.
Nicholas virou o rosto de má vontade para ele, mas tentou manter um semblante neutro e inexpressivo.
— O que você quer, Harry?
— Só quero saber se você está bem.
— Eu estou bem.
— Sério? Não me parece nada bem. Você está tão sério. — Havia um leve tom de deboche e provocação na voz de Harry ao falar.
— Já disse que estou bem. — Nicholas soou mais alto que o necessário.
O som agudo do apito ecoou no ginásio e ambos se viraram na direção do treinador Steven.
— Nicholas, Harry, deixem a conversa de lado e continuem as flexões. Ainda estamos no número seiscentos e cinquenta e quatro e vocês ainda têm as abdominais para fazer.
— Sim, treinador! — Ambos responderam em uníssono.
— Mas e aí, não vai me contar o que está acontecendo, mano? — Harry continuou, ainda mantendo o leve teor de deboche na voz.
— Eu me preocuparia menos com o que eu estou pensando e mais com o que suas atitudes causam, Harry.
— Como assim? — O deboche dele deu vez a uma certa preocupação.
— Será que não te incomoda nem um pouco o fato de que isso aqui que estamos fazendo é só a parte mais leve do castigo? Que o que aconteceu no corredor chegará aos ouvidos do diretor e ele irá aplicar um castigo mais severo?
— Hum, como se o diretor fosse ter coragem de castigar o filho de um dos maiores benfeitores da escola.
— Então, é isso? Você acha que nada vai te acontecer por causa dos seus pais?
— Ou acontece e a escola perde uma boa grana do fundo de arrecadação. — Um sorriso cínico tomou os lábios dele.
— E você acha mesmo que seus pais vão compactuar com algo assim? Principalmente depois de saberem o que fizemos no corredor? Não te preocupa que o seu histórico escolar ganhe uma mancha que poderia te impedir de entrar em uma boa faculdade?
Mas Harry não respondeu, apenas virou a cabeça para frente e encarou o vazio.
— Nada disso abalaria meus pais — Mas não havia emoção nenhuma na resposta dele.
— Bem, eu tenho certeza que os meus ficarão umas feras comigo. — E, nesse momento, Nicholas se virou rapidamente para Steven. — Mas isso é o que menos me preocupa no momento.
— E o que de tão grave poderia te incomodar, capitão? — Havia um peso emocional forte na forma como Harry chamava Nicholas de capitão.
— A forma como somos vistos pelos nossos próprios colegas de escola.
— Qual é, todo mundo do time aqui se apoia e…
— Não estou falando dos Hawks, Harry. Estou falando do restante do colégio. Você não viu a forma como os outros alunos nos olhavam? Os amigos daquele garoto que você maltratou? Aquele garoto…
— O gayzinho do Thomas Anderson?
— O que o fato de ele ser gay tem a ver com isso?
— Você sabe, mano.
— Sei o quê?
— Esses viados, se a gente não der um jeito neles, eles podem…
— Podem o quê, Harry? Dar em cima de você? Ou você tem medo de gostar e querer ser um? Sabe qual o nome para isso, Harry?
— Nome do que? De virar viado? — Ele riu, ainda que contido para não chamar atenção.
— Homofobia, Harry. Homofobia. Medo de achar que a diferença do outro pode te contaminar.
— Nunca que um viado como aquele iria me contaminar. — Ele riu ainda mais debochado, desta vez mais alto, o que chamou a atenção do treinador Steven.
Steven apenas encarou Harry com um olhar semicerrado e ele rapidamente conteve a risada.
— Pelo visto, o errado nessa história é mesmo eu. — Nicholas balbuciou.
— Errado de quê?
— De não ter enxergado algo que tava bem na minha frente. Eu vou procurar esse Thomas mais tarde e pedir desculpas para ele.
— Cuidado, hein! — Harry provocou. — Quando você segurou ele nos braços, faltou pouco para ele querer te beijar. Se não tomar cuidado, ele vai te fazer viado. — Ele riu.
— Antes ser gay do que ser você. — Nicholas respondeu baixinho, de modo que nem mesmo Harry pudesse entendê-lo.
— O que disse?
— Nada não. Vamos acabar logo com isso.
E eles voltaram a se concentrar mais ativamente nas flexões.
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