Virei O Professor Particular Do Astro Da Escola
2 Capítulo 02: Bullying
Notas iniciais
A partir do momento em que as farpas entre Sarah e George sobre o diretor favorito dele resultaram em risadas entre os quatro amigos, Harry Trevor desviou a atenção que dedicava aos colegas de time e passou a ouvir a conversa do grupo ao lado com mais foco. Não o interessava saber quem era Thomas Roithman ou se seu novo filme seria indicado ao Oscar. Apenas que os quatro estavam felizes. Ele sorriu maliciosamente, os olhos à espreita como um predador. Então, quando Thomas se rendeu à súplica dos amigos e concordou com os planos de cinema no sábado à noite, Harry mal esperou para se aproximar deles.
— Olha só, é o clube dos nerds reunidos outra vez! — Suas palavras eram carregadas como um trovão prenunciando a tempestade.
Não foi surpresa para Thomas e seus amigos reconhecerem a voz de Harry quando ele se aproximou, dando dois passos em direção a eles. No mesmo instante em que suas palavras ecoaram pelo corredor, toda a alegria e os sorrisos dos quatro desapareceram. Eles se viraram para ele, se reorganizando de forma a ficarem enfileirados ombro a ombro contra ele. Apenas Thomas se desalinhou naquela formação, ficando um passo atrás da linha formada pelos demais. Todavia, assim que Harry se colocou no meio do corredor, todo o time de futebol cessou as conversas paralelas e desviou os olhares na direção dos cinco. Até mesmo os outros alunos ali presentes não puderam evitar a curiosidade — e certo receio — ao verem o vice-líder do Hawks avançar mais uma vez.
— Como vai, Harry? — Sarah foi a primeira a falar, a voz com o sarcasmo no máximo.
— Fazendo planos para mais uma sessão de outro filme idiota? Por que não nos convidam também, não é, gente? — Ele se virou para o time, sinalizando com as mãos em um gesto de convite para se juntarem a ele. Só alguns se aproximaram; os demais apenas riram, meio tímidos, incluindo Nicholas.
— Como presidente do clube de cinema da escola — interrompeu George —, eu digo que todos são bem-vindos às atividades do grupo e podem comparecer às sessões que oferecemos para todos do Westbrooks nas noites de sexta na escola. Agora, se desejarem assistir aos filmes que estão em cartazes nos cinemas da cidade, não precisam da nossa permissão para isso. É só irem até um e comprar um ingresso.
— Mas nós queremos assistir ao mesmo filme que vocês pretendem ver no sábado, não é, turma? — Os poucos que se juntaram a ele murmuraram algumas respostas, como “É, isso mesmo!”, sem sincronia.
— Bem, se quiserem se juntar a nós, então, compareçam ao Cinema Century Square no sábado à noite. Mas como especialista em filmes, Harry, eu devo dizer que a obra que vamos assistir pode soar um pouco “intelectual demais para você”. — Ele fez aspas com os dedos. — Será que você tem neurônios para acompanhar? — O sorriso debochado dele foi de uma orelha a outra.
Muitos alunos em volta, incluindo Nicholas e alguns membros do Hawks, se escancararam de tanto rir com as palavras ditas por George.
Com tantas risadas simultâneas, o sangue subiu ao rosto pálido de Harry, deixando-o vermelho. Ele se virou furioso para seus colegas de time, uma expressão tão carregada que alguns recuaram e cessaram as risadas na hora. Nicholas escondeu o rosto de lado e tentou disfarçar ao máximo, porém, ainda sentia muita vontade de gargalhar. Harry encarou os demais alunos. Alguns pararam de rir dele no mesmo instante, mas outros continuaram rindo. Então, ele se virou para Sarah, George, Stuart e Thomas; esses três primeiros sorrindo vitoriosos, mas Thomas apenas expressou um mero sorriso curto, escondendo-o ao morder os lábios e desviando o olhar para o chão.
— Está me chamando de burro é, seu…
— Seu o quê? — Sarah inclinou o ouvido direito para frente com a mão apoiada nele, encenando. — Cuidado com as palavras, Harry. Algumas delas podem render um belo processo e seus pais podem cortar sua mesada para pagar a nossa indenização.
O rosto dele se contraiu, frustrado, como um cão fazendo menção a querer rosnar.
— Sarah! — Stuart a chamou como se a repreendesse. — Não seja indiscreta, ele ainda não se acostumou às novas leis do século vinte e um. Ele ainda está perdido nos costumes da época colonial. Perdão, Harry, você quer que eu traduza numa linguagem mais acessível? Talvez no inglês arcaico.
Mas ele apenas bateu palmas aos três de forma lenta e ritmada.
— Isso, podem curtir com a minha cara!
— Imagina, não estamos fazendo nada disso. — Sarah gesticulou, de forma caricata, uma pose de ofendida.
— Vocês adoram se mostrar, não é? Adoram escancarar que são mais inteligentes que nós. — Ele apontou para o máximo de pessoas que pôde, como se pudesse compartilhar a ofensa com os demais.
Thomas pareceu que iria abrir a boca para falar algo, mas se recolheu no mesmo instante.
— Não, nós não gostamos de exibir nossa inteligência — respondeu George. — Mas fica tão difícil não demonstrá-la quando você tenta… Fazer seus showzinhos.
— E todos aqui são inteligentes, Harry — continuou Stuart. — Caso tenha esquecido, todos somos Homo sapiens e a nossa capacidade cognitiva é a mesma.
— Mas alguns ainda se desenvolvem mais que os outros, não é, Thomas? — Sarah colocou o braço em volta do ombro dele e o puxou para perto de si, abraçando-o. Ela sorriu para ele no intuito de confortá-lo, mas ele ainda se mostrava envergonhado, o olhar perdido para os lados.
— É uma questão de esforço… Estudar. — As palavras de Thomas foram tão baixinhas que poucos conseguiram ouvir.
Sarah soltou Thomas e ele ajeitou sua roupa que havia se desalinhado, antes de recuar um passo para trás da linha com os amigos novamente. Então, no mesmo instante, Harry ergueu os braços e fechou os punhos. Ele avançou em direção a eles, focado em George, e se preparou para dar um soco de direita na cara dele. Um blefe. Assim que se inclinou e simulou o soco na cara de George, Harry recuou e sorriu. Ele esperava assustá-lo, mas seu sorriso foi um momento fugaz de uma falsa vitória. George nem sequer piscou, apenas cruzou os braços e encarou Harry friamente, vendo seu sorriso surgir e se apagar no mesmo segundo. Stuart também não se moveu, apenas sorriu, tão certo quanto o amigo de que ele vacilaria. Já Sarah endireitou o corpo e se colocou na frente de Thomas. Mas Thomas…
Quando Harry fingiu avançar e ameaçou socar a cara de George, os olhos de Thomas se arregalaram de medo. Sua única reação foi simplesmente se afastar mais um passo, um passo muito largo, tão largo que ele acabou se chocando com os armários atrás dele e batendo o braço esquerdo na porta aberta do seu. O choque das suas costas no metal provocou um ruído alto que ecoou pelo corredor. E quando seu braço se machucou na borda da porta, ele o dobrou contra o peito e gritou de dor. Muitos riram disso — alguns involuntariamente, outros por querer. Nicholas também riu, embora fosse um riso contido. George, Stuart e Sarah se viraram preocupados para Thomas, os olhos atentos ao amigo, mas quando Harry notou a reação assustada dele, ele sorriu triunfante e a confiança voltou ao seu rosto.
— Vejam só, a bichinha se assusta fácil! — Apenas mais três membros do time riram com ele de seu comentário. A curvatura do riso contido de Nicholas cessou na hora.
— Thomas, você está bem? — Sarah se aproximou dele, a preocupação estampada em seu semblante. Ela segurou o braço dolorido dele, examinando-o com cuidado.
George e Stuart se viraram para Harry.
— Do quase racismo à homofobia, Harry? É sério? — protestou George. Ele e Stuart se aproximaram de Sarah e Thomas, também preocupados.
— Machucou? — perguntou o garoto ruivo.
— Não, só tá doendo!
— Quer ir à enfermaria? — Ela perguntou com carinho.
— Acho que não precisa.
— Vamos assim mesmo, só para ter certeza — continuou ela. Todos assentiram.
Thomas manteve o braço esquerdo dobrado ao peito enquanto o segurava com a mão direita. Sarah colocou as mãos sobre os ombros dele com a intenção de conduzi-lo, mas ele gentilmente dispensou. Os quatro amigos trocaram algumas palavras e começaram a andar. Stuart fechou e trancou o armário de Thomas e, em seguida, ele e George saíram na frente, abrindo espaço entre o mar de alunos que tinham se aglomerado ao redor daquela área da escola. Sarah ia logo atrás, com Thomas ao seu lado e atenta a ele. Mas Harry não se deu por vencido. Ele apontou para os três garotos que riram de sua ofensa a Thomas e os sinalizou para o grupo em retirada. Ele sussurrou algumas ordens para eles e os rapazes acenaram em concordância. Harry se mexeu e avançou na direção dos quatro, aproximou-se o bastante de Thomas para colocar sua mão sobre o ombro dele, segurando-o tão firme a ponto de machucá-lo, então, o puxou para seu lado com força, praticamente o arrancando de perto de Sarah.
— Não tão rápido, seu nerd!
Assim que teve Thomas sob seu domínio, Harry acenou a cabeça para os três garotos que ele tinha sinalizado. Os três o ultrapassaram e foram para cima dos demais. Quando Sarah percebeu o gesto brusco de Harry ao puxar seu amigo, ela gritou assustada, chamando a atenção de George e Stuart. Eles rapidamente entenderam o que aconteceu e não hesitaram em avançar contra Harry para defender o companheiro, mas logo ficou claro o que ele havia ordenado aos três garotos com quem ele tinha se comunicado. Eles formaram uma barreira humana e impediram que os três amigos de Thomas avançassem em sua defesa.
— Solta ele, Harry! — Sarah grunhiu de raiva, mas ele apenas sorriu; um sorriso vil.
Agora Harry tinha Thomas sob seu controle, segurando-o firme pelos ombros. Ele se virou junto dele para os demais membros do time.
— Quem quer se divertir? — Seu sorriso sádico foi um convite para mais dois membros do time de futebol, que se colocaram um de frente para o outro, ao lado de cada seção de armários.
O palco estava montado. Sarah, George e Stuart tentavam avançar pelo longo corredor, mas eram impedidos pela muralha humana formada pelos três atletas do time de futebol. À frente dessa muralha, de costas para ela, Harry tinha Thomas em seu domínio. Um pouco à frente, de cada lado das paredes com os armários que limitavam o corredor, havia mais dois garotos do time posicionados. Apenas a outra ponta do corredor estava vazia e se alguém se posicionasse bem ali, formaria um cerco perfeito contra Thomas.
Harry se virou para Nicholas e o encarou com frieza.
— Não quer se divertir, Nicholas?
Nicholas travou em sua posição. Ele olhou para seus companheiros de equipe, mas a forma como eles o encaravam dizia que eles esperavam que ele se juntasse a Harry. Ele olhou para Thomas. O garoto se debatia e tentava se livrar do aperto firme de Harry, mas era claro que seu porte esguio não poderia competir com o corpo musculoso do outro, que ainda mantinha firme o olhar frio para Nicholas. Engolindo em seco, ele caminhou para a outra extremidade do corredor, ficando de frente para Harry, fechando o cerco. De forma muito hesitante, ele acenou a cabeça em concordância.
Quando Nicholas assumiu a posição para fechar o cerco contra Thomas, Harry riu vitorioso. Ele virou o garoto para seu lado e levantou a mão até o rosto dele, arrancando-lhe os óculos. Com um empurrão controlado, Harry o lançou até o centro do círculo formado por ele e seus companheiros, enquanto ainda balançava a mão com os óculos na frente de Thomas.
— Vamos ver se a gente consegue te ensinar a ter postura de homem. Quer seus óculos de volta? Então, vem pegar!
Thomas encarou Harry com mais foco, mas agora tudo à sua volta não passava de borrões. Ainda que com a visão embaçada, ele notou a agitação da mão de Harry com seus óculos e tentou ir até ele para pegá-los, mas Harry os arremessou para o jogador da esquerda, que os pegou no ar. Thomas quase trombou contra ele, mas Harry o segurou e o empurrou de volta ao centro do círculo. Desorientado, Thomas voltou a procurar pelos seus óculos, mas foi preciso que o rapaz que os segurava os sacudisse diante dele para que pudesse percebê-los. Ele tentou recuperá-los outra vez, mas eles foram arremessados para o rapaz da direita.
Ao invés de pará-lo, o jovem que ficou à esquerda do corredor recuou de lado e deixou que Thomas se jogasse contra os armários. Ele não avançou com força, não se machucando no processo, e logo se virou, voltando a procurar por seus óculos. O rapaz da direita fez o mesmo que os demais para provocá-lo e chamar sua atenção, e, mais uma vez, Thomas foi até ele em vão. Seria um jogo de gato e rato, e, mesmo a contragosto, o nervosismo e o pânico que cresciam dentro de Thomas levaram algumas lágrimas a se formarem em seus olhos.
— Por favor, me devolvam meus óculos! Eu não vejo nada sem eles! — Mas Harry e os outros dois apenas riram. O rapaz da direita arremessou os óculos de volta para Harry.
— Parem com isso, seus animais! — gritou Sarah, completamente apavorada.
— Alguém chame um professor, por favor! — bravejou George.
— Covardes! — grunhiu Stuart.
Mesmo firme em sua posição, Nicholas ainda se sentia hesitante e foi o único a permanecer calado.
— Vamos, Thomas, venha pegar! — provocou Harry, agitando os óculos para persuadi-lo.
Thomas foi em direção a Harry mais uma vez, o rosto já começando a se desmanchar em lágrimas. Como esperado, Harry apenas esperou que ele se aproximasse para arremessar os óculos para outra pessoa, mas, desta vez, mesmo com a visão turva, Thomas conseguiu acompanhar seu pertence voar por cima dele até ser apanhado novamente. Contudo, naquele momento, quem os pegou foi Nicholas e assim que os óculos caíram em sua mão, ele levantou a cabeça para encarar Thomas. O rapaz já chorava desesperado e a hesitação que Nicholas sentia apenas aumentou. Porém, quando Thomas andou em sua direção e se aproximou, ele acabou tropeçando nos próprios pés e cambaleou. Seria uma queda direta ao chão, mas ela não aconteceu.
Ao ver o garoto tropeçar e quase tombar à sua frente, Nicholas se adiantou e se aproximou dele, conseguindo pegá-lo e segurá-lo firme pelos braços. Por instinto, Thomas havia erguido as mãos à frente do rosto para se proteger na queda, mas elas acabaram por cair em cima da camiseta branca de Nicholas, na altura de seu peito forte, e ele a agarrou com força. Por ser mais baixo, Thomas ergueu a cabeça e encarou o rapaz que o aparou. Ele, por sua vez, o olhou de volta. Os olhos azuis de Thomas ainda lacrimejavam, mas aquele brilho intenso que ele tinha neles ainda estava ali. Nicholas também notou que o olhar dele era trêmulo, oscilante, e o semblante do garoto ainda era assustado.
Por alguma razão que não soube explicar, Nicholas olhou bem no fundo daqueles olhos amedrontados e se perdeu no brilho azul deles. Seria só o reflexo das luzes do teto neles? Ou aquele brilho instigante parecia realmente emanar daqueles olhos que o encaravam tão assustado? Seja o que for, ele não soube explicar. Tudo o que Nicholas sabia era que, ao permanecer ali com Thomas firme em seu aperto e encará-lo tão profundamente, aquela luz que emanava dos olhos do jovem nerd penetrou fundo em sua alma. Seu semblante hesitante desapareceu e, agora, alguma coisa havia brotado dentro dele bem no fundo de sua alma, algo que contraiu sua feição até que ela passasse a expressar o novo sentimento que o tomou naquele mesmo instante: ternura.
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