Viola
2 Fogo
Notas iniciais
Era maio. O vento frio batia em suas costas, sua respiração era controlada, os pés descalços sentiam cada folha de grama, os olhos fechados. Seus cabelos voavam e ricocheteavam em seu rosto, seu coração batia regularmente, seus pensamentos estavam em cada músculo e os ouvidos escutavam apenas o farfalhar das folhas da grande árvore. Estava feliz.
– Viola! – Ela abriu os olhos. A realidade voltou abruptamente, fazendo-a perder a repiração por um segundo.
– Sim, pai?
– Preciso de condimentos, a feira está aberta hoje. Vá até lá – Disse ele sem se importar com o que a filha fazia
– Sim – Viola voltou para dentro da casa de madeira, mais abaixo da colina, pegou sua capa e suas botas, vestiu-as. Pescou a cesta de compras na mesa, algumas moedas e foi em direção ao centro da cidade.
Chegando à rua principal, avistou o castelo ao longe, grande e majestoso, com seus muros gigantes e com as bandeirolas ondulando. Mais alguns passos e chegaria à feira onde seu pai não se atrevia a entrar sob os olhares dos guardas e curiosos.
Foi até as barraquinhas pegando cada material necessário, desde especiarias até tecidos e potes. No final não carregava apenas uma cesta, mas três. Sabia que quando chegasse em casa não sentiria mais os seus braços. Quando estava pronta para deixar o local, viu guardas correndo até a colina de onde ela viera. O primeiro pensamento foi em sua mãe, mas esta já não estava mais presente há algum tempo. Depois pensou no pai, ele estava estranho de manhã, provavelmente tendo mais alguma ideia. Ela não se apressou, caminhou tranquilamente até a casa, pensando se teria que arranjar dinheiro para ficar em uma estalagem até consertar a bagunça. Quando chegou, os guardas já tinham partido. Ele estava na frente de casa, olhando o céu e com papel e tinta nas mãos.
– Viola, você não sabe o que aconteceu hoje – disse sem tirar os olhos do céu – Minha experiência quase deu certo! Eu quase pude bebê-la, mas então começou a sair um gás e a Sra. Pelina ficou com medo e começou a gritar, chamando os guardas. – olhou para ela — Eu disse à eles que o peixe havia queimado, sei que você fica chateada quando levam meus problemas até você – fez uma careta – Você parece cansada, o almoço já está frio...
– Pai – a garota gemeu — É a terceira vez só nesta semana! E se os guardas também o levarem como fizeram com a mamãe? – Essas palavras fizeram com que ele observasse a filha melhor. Por um momento não pôde dizer nada, mas então ele agarrou seus ombros e olhou-a nos olhos.
– Você não entende! Dessa vez eu provarei a eles do que sou capaz, eu farei com que se ajoelhem perante a mim... E a você também! Vou fazer com que paguem com o que fizeram com a sua mãe! Vou provar-lhes que estou certo – Aqueles olhos frios e azuis a olhavam como se enxergasse sua alma. Tinha consciencia de que o que o pai fazia não era certo, mas também não achava muito errado. “O que tem de errado em estudar a natureza?” ele sempre dizia “Quero criar, quero descobrir, quero ser eterno” e dava um sorriso, como agora – Eu juro!
Ele pegou as cestas de suas mãos e levou-as para dentro, ela o acompanhou. Quando olhou para a mesa, havia o café da manhã, não o almoço, tinha certeza que o pai não saíra do porão até a hora em que os guardas chegaram. A menina limpou a bagunça e preparou algo para ela e o pai comerem. Sopa, encheu duas tigelas, uma delas levou até ao pai no porão.
Aquele lugar que era o ninho daquele homem, sempre a enchera de calafrios. Era frio e escuro, há não ser por algumas velas espalhadas. Via vidrinhos de várias cores, formas e tamanhos, prateleiras que não acabavam mais e muito papel e tinta. Deixou a tijela em cima da mesa onde ele estava debruçado e obrigou-o a comer. Se dependesse dele, as necessidades do corpo não seriam satisfeitas, ainda lembrava do dia em que ele desmaiou por não ter comido nem dormido durante uma semana, foi a primeira vez que a casa pegou fogo.
Quando terminou, o pai entregou à filha a tijela e voltou a trabalhar. Tinha muito no que pensar: em novas fórmulas, descobrir o que colocou de diferente que fez a fumaça e que desfez o fogo. A fórmula da força e vida eterna não deveria estar muito longe. Logo, logo ele a descobriria e provaria ao mundo que ele não é o louco bastardo que pensam que é, provaria ter razão e provaria ter poder.
Viola ficou observando o pai por algum tempo, achava estranhamente magnífico como ele se abstraia do mundo para focar naquilo que ele chamava de ciência. Deu um suspiro e subiu as escadas para comer a sua sopa, que já deveria estar fria. Porém, deteve-se ao ver uma pessoa parada de costas para a escada, parecia nervosa. Quando finalmente se virou e Viola pôde reconhecê-la, era a Sra. Pelina. Uma mulher de cinquenta anos, com uma silhueta pesada e sem curvas, era alta e tinha um cabelo claro que estava preso. Segurava um lenço entre as mãos e, quando viu Viola, fez cara de espanto por vê-la ali e fez um gesto rápido para que a garota se apressasse. Viola fez o que ela mandou e em pouco tempo estavam frente a frente.
– Sra. Pelina! O que aconteceu?
– Ó minha doce Viola! Como você está? – disse a gorda mulher abraçando a mirrada garota – O maluco do seu pai lhe contou o que fez? Ó, os guardas, os guardas! Acreditaram na bobagem que ele lhes contou sobre peixes queimados! Espero que ele não tenha contado a mesma história a você! – ela não esperou Viola responder – Nem sei como ele conseguiu ter uma filha como você! Dedicada e simples! Ó céus e meu bom Senhor! Que bom que você está bem! Aquela fumaça, aquela fumaça era veneno, eu sei!
A menina se perdeu – Veneno?
– Sim! Veneno! O cachorrinho do pobre Lino estava fuçando pela casa — Eu vi tudo! Juro pela minha vida! — enquanto ele estava ali e cheirou a fumaça, o coitado começou a vomitar sangue, os olhos saltaram e, em meio tempo, estava caidinho no chão! – Os olhos da mulher se encheram de lágrimas e ela os conteve com o lenço.
– Mas este não é o único motivo que deixou-a tão abatida. – adivinhou Viola – O que realmente aconteceu?
– Ó, doce Viola, o pequeno Lino... Foi tentar ajudar o pobre animal e inspirou a fumaça também. Ele durou mais do que o cão, mas... Mas... – a mulher soluçou – Foi tão terrível! – os olhos da garota se arregalaram, Pelina não precisava contar mais nada. Viola lembrou-se do pequeno Lino, 6 primaveras, se recordava bem. Tão jovem e cheio de vida, era uma das poucas crianças que ainda se atraviam a chegar perto da colina.
– Minha pequena – continuou Pelina – agora os pais do Lino culpam seu pai. Eles culpam aquele montro insano com razão. Lino era seu único filho. Os guardas não viram na hora, acho que já estão acostumados com as maluquices aqui que nem mais reparam no que realmente acontece. Vim até aqui para lhe avisar, pequena. Creio que nesta família você é a única de mente e coração salvos de todo o mal, não quero que sofra pelos pecados de seu pai – abraçou Viola, soluçando. Ficaram assim por algum tempo, até que a mulher falou: — Se você precisar, venha até mim que eu lhe ajudarei no que for necessário!
A Sra. Pelina deu um último abraço em Viola e saiu sorrateiramente pela porta. Não sabia o que poderia fazer caso visse aquele doente, então decidiu ir para casa, ficar com o marido, proteger os filhos e rezar pela alma do pai da garota.
Viola ficou parada, olhando-a. Por que ela tinha tanto ódio de seu pai? Ela sabia que ele não pretendia fazer mal a ninguém, não sabia? O pai sempre fora sua única família desde que a mãe se fora... Mãe. Viola lembrava-se pouco da mãe, apenas que tinha os cabelos como o fogo, a face marcada por manchinhas alaranjadas e pela mão suave e calorosa. Era muito pequena quando levaram-na dali. Lembrava-se que o pai não voltara para casa por quase um ano, disseram que ele vira tudo. Tudo o quê, Viola não sabia, mas sabia que, mesmo depois de estar em casa ele sonhava e se debatia na cama, murmurando sempre as mesmas palavras: É minha culpa! Não a queimem! E Viola nunca entendia.
Quando questionava o pai em relação a mãe, ele sempre respondia que ela fora a mulher mais perfeita do mundo, e a única que o compreendia realmente. Quando questionava sobre o desaparecimento da mãe, o cenho do pai se fechava e dizia: — Foi tudo culpa minha. Ela era só diferente. Aqueles porcos é que a macularam! – e assim saia de perto, com seus pensamentos e inveções para destruir as memórias passadas.
Se Viola perguntasse aos vizinhos, as respostas eram sempre as mesmas: Sua mãe mereceu, ela possía o espírito malígno. No lugar onde ela está agora, é o lugar dela, Deus é misericordioso. Sua mãe não era pura, não acreditava em nosso Deus, ela o conspurcava com suas ideias. Não se preocupe, você não é como ela.
E Viola se preocupava. Se não era como a mãe, seria como a quem? O pai também não deveria ser tomado como exemplo, segundo aqueles que ela conhecia... Não seguiria os vizinhos, apesar de tudo ela sabia que eles não confiavam nela. Filha de dois monstros que mancharam a vida daquela população. Mas ela ia mudar, ia provar que poderia ser boa o bastante para conviver com eles.
E a esperança continuou a ser alimentada até Viola cair no sono.
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