Viola

3 Feridas


Notas iniciais
Olá! Mais um capítulo pronto e, por favor, espero que me desculpem se demorei... Hehe Tomara que gostem e aproveitem!!

Haviam se passado três dias, e aquele pensamento ainda não o havia deixado. Como o garoto morreu e eu não? Mas ele tinha assistido a morte do menino: naquele dia trabalhava fora de casa, não queria que algo desse errado e acabasse com aquilo que chamava de lar. A fumaça fora um acidente, não estava previsto, apenas sabia que a combinação era algo forte.

Aquele cachorro irritante é que era o culpado, sempre xeretando onde não devia! Preocupado onde o cão mexia, acabou se distraindo e adicionando quantidades absurdas em seu experimento, percebendo tarde demais e soltando o gás. Como? Como EU sobrevivi?

Aquele menino não era previsto ali também, deveria estar brincando com as outras crianças. Como era um garoto muito metido e curioso foi ver onde o cachorro se encontrava, e encontrou o novo local de experimentos do alquimista, bem no momento de inalar a fumaça também. Não resistiu muito tempo mais.

Lembrava ainda dos gritos da Sra. Pelina. Ela fora até o quintal de sua casa para observar o que o monstro fazia. Como sempre e como todos, desconfiava de seus experimentos, pronta para denunciar a qualquer momento. Porém lhe faltava coragem para tal coisa. Todos na vizinhança tinham medo do que ele poderia fazer, sabiam que ele conhecia maneiras de manejar substâncias e transformá-las em outras, curar doenças estranhas ou mesmo fazer com que o fogo ou a água mudassem de cor. O motivo para incriminá-lo já tinham, agora era necessário provas, como fizeram com sua esposa.

A esposa de Muren era uma das melhores e doces mulheres que o mundo já pôde conhecer. No tempo de sua juventude era gentil com todos e se importava com cada alma presa a este mundo. Contudo, nem todos confiavam nela. Como podiam? Ela era alguém com quem não se deveria falar ou mesmo encarar. Dizia-se que fora por sua culpa que os pais partiram desta vida, no dia de seu nascimento já trouxe maus presságios, além de ser marcada com a cor da besta. O que se esperar de alguém assim?

Com o tempo, a arrogância que todos demonstravam para com a doce mulher, começou a transformar seu mundo num mundo amargo e sem objetivo, ela estava ficando sem esperanças quando encontrou Muren. Este encontrava-se numa situação semelhante, onde as pessoas ao seu redor o reprimiam por ser quem era, além de o levarem constantemente diante de um pároco para lhe fazer pagar por seus pecados e insinuações contra seu Deus.

Os dois se conheceram sem querer, de uma forma rápida e convencional. Descobriram que tinham muitas coisas em comum, e decidiram-se casar em meio ano. O amor naquela época não era algo para se orgulhar, os casamentos, em sua maioria, eram arranjados. No entanto, os dois já não eram bem vistos pela sociedade, logo, não precisavam se importar com o que iriam dizer sobre sua decisão. Assim, ele fugiu de casa, ela juntou suas poucas coisas e, juntos, foram para a parte mais distante do reino, perto de uma colina, onde em seu topo crescia um majestoso carvalho, a árvore que marcaria seu amor.

A vida quase normal do casal, não era fácil de ser mantida, sofriam com a discriminação e o preconceito por parte daqueles ao seu redor, tendo que se isolarem sempre em seu canto, tentando cultivar seus próprios alimentos e se virarem como podiam. O alquimista focou cada vez mais em seus experimentos e pesquisas, a esposa sempre o apoiava, adorava a natureza e queria descobrir tudo sobre ela. Os dois deviam se esconder sempre que praticavam “magia” (como o clero designava os experimentos), caso contrário coisas terríveis poderiam acontecer. Já haviam visto alguns exemplos na praça pública, não queriam ter o mesmo destino dos outros pagãos.

Quando a esposa ficou grávida, Muren teve certeza de que o amor dos dois se fortalecia, e sabia que a desconfiança das pessoas diminuiria, já que eram capazes de gerar um filho, senão, por que Deus lhes daria esta graça? E foi o que aconteceu, a vizinhança já não olhava a família de Muren como uma desgraça, chegaram até mesmo a ajudá-lo. Porém ele não pôde prever o que viria a seguir.

Os vizinhos, desde que receberam a notícia da vinda da criança, decidiram se aproximar da família de monstros, queriam provar que eram enviados pelo espírito negro, e só poderiam fazer isso vendo. Quando a criança completara 3 anos, finalmente conseguiram o que queriam: levar um dos monstros para o inquérito da igreja, condenando-o à morte.

Muren lembrava-se daquele dia com amargura, fora obrigado a assistir a morte da esposa, mesmo perdendo seus sentidos. Só não fora condenado também, pois sua companheira, em um último ato desesperado, dissera que o enfeitiçara, salvando assim sua alma. Ele prometera viver para vingar sua morte, provaria que o que os dois faziam era melhor do que qualquer coisa que as pessoas poderiam imaginar.

A ideia de ter que voltar para casa e para uma filha deixou o alquimista tão atormentado que decidiu fugir. Ficou um ano inteiro passando fome do outro lado do reino, remoendo-se e desejando a morte de cada ser que matara sua amada e deixara uma criança sem mãe. A insanidade já começara o atingir, fazendo-o constantemente sentir o calor de fogo e o cheiro de carne queimada toda vez que fechava seus olhos, o que o fez não conseguir dormir por dias.

Entretanto, Muren, num momento de lucidez, recobrando os sentidos, deu-se conta que parado pedindo esmola e sendo constantemente surrado por guardas não resolveria nada, precisava agir logo para acabar com a cegueira daquele povo que acreditava que o ser humano é um ser inferior, incapaz de descobrir os segredos de um Deus que dizia-se piedoso. Muren sabia que os fatos não levariam a nenhuma das duas afirmações. Já havia provas o suficiente para ele que a piedade não era algo presente, e ele ainda provaria que o homem pode ser muito mais inteligente e ser capaz de criar.

Voltando para casa e para seus experimentos, a loucura recaiu sobre ele. A insanidade cobriu seus olhos e o seu fanatismo tomou espaço para que deixasse de enxergar o mundo de forma prudente. Sua filha cresceu sem que ele notasse, os anos passavam rápido demais e de uma forma que ele não notava. Cada dia tinha uma ideia diferente, o que antes era só um hobby por curiosidade, agora era o que o mantinha vivo.

– Pai?

Deu um pulo da cadeira em que estava sentado e voltou para o presente

– Sim, Viola?

– Sua mão esta sangrando! – Muren não havia notado, estava segurando um vidrinho com Cuprum quando começou a devanear, a raiva fizera com que sua mão se contraísse e estourasse o vidro sem que percebesse. Bateu a mão esquerda na mesa, xingou baixinho e foi lavar a mão em um balde na cozinha. Tinha que tomar cuidado para que o ferimento não inflamasse.

– Pai? – Sua filha o seguia com um pano para enrolar sua mão – O que está acontecendo? Você tem ficado distraído muitas vezes desde a morte de Lino!

Ele grunhiu, não queria ficar falando com a filha sobre isso. Viola começou a enrolar o pano.

– Pai, por favor, o que aconteceu?! – ela parou e ficou segurando a mão com força, achava que o pai iria gritar, o que não aconteceu. Ele nem pareceu notar.

– Algo deu errado! – Ele disse puxando sua mão. Estranhando não sentir o toque da filha.

– Eu sei! Mas o que realmente aconteceu? Lino não pôde entrar na nossa casa, pôde? Nosso porão é completamente fechado, como ele respirou a fumaça? – o pai não respondeu, não falara com ela desde o acontecimento. A gorota não podia ficar mais sem explicação – COMO? – saiu um pouco mais alto do que ela esperava, mas isso fez com que o pai reagisse.

– Eu fiz o experimento fora de casa – disse ele apressadamente, desejando que a filha não prestasse atenção ao fato. Mas aquilo atingiu-a como uma flecha, sabia, tinha certeza, que ele não deveria ter feito o que fez. Produzir “magia” fora de casa era um convite para que os vizinhos o condenasse. O que o pai estava pensando?

– Você ficou louco? – Viola estava assustada, indignada e incerta. O que será de nós agora?

– Acalme-se! Apenas a Sra. Pelina viu, os guardas acreditaram em mim, e não há provas! Não há o que temer!

– Então por que você anda tão preocupado? Não dorme nem come direito desde o incidente! Você nunca ficou tão preocupado com o erro de um experimento. Admita que sente culpa pela morte do garoto e esqueça essa história de...

– Viola! – ele a interrompeu – O experimento não deu errado! Bem, o de três dias atrás sim, mas eu consegui fazer algo que me deixou imune! Você não percebe? A fumaça atingiu dois seres de espécies diferentes e eu sobrevivi! O que pode ter acontecido?

– Bem, eu não sei... Você é adulto, e sabe como manejar essas coisas!– respondeu ela incerta

– Não seja estúpida! Os elementos contidos ali são fortes demais para deixar uma pessoa viva, mesmo sozinhos! E olhe – ele mostrou a mão direita enfaixada, e com o dedo indicador apertou onde o corte mais profundo estava. Viola prendeu a respiração e sentiu dor pelo pai, mas ele não mexeu nem um músculo – Viu? Agora isso.

– Espere, você sabia que os elementos eram venenosos? Você estava tentando se matar? – Era sério isso? Ele sabia dos perigos daquele experimento e mesmo assim continuou? Ele percebeu que ela estava exasperada.

– Querida – gemeu – foco! O que temos aqui é uma prova do que eu posso fazer! Entenda que o que eu faço é para o nosso bem. Entre a morte e não tentar, prefiro a morte!

– Egoísta! – julgou – Sabe que tem a mim! Por que continuar nessa loucura? Daqui a pouco o levarão também! – o desespero começou a invadir a garota, não suportava a ideia de ficar sozinha, sem ninguém em quem confiar.

– Não – disse ele – Isso não irá acontecer! Entenda, entenda, por favor! Isso – mostrou a mão novamente – Isto prova que não sou maluco, que não estou errado, que posso fazer as coisas acontecerem.

– Mas e se isto – disse ela indicando a mão com certa ironia – for temporário. E se tiver algum efeito colateral, e se você morrer daqui a alguns dias? Como você fez isso? Qual a garantia?

– Não sei, não sei, não sei e não sei! – ele começou a abrir um sorriso – Mas agora tenho certeza que faço coisas! Até então eram suposições, eu não tinha certeza se era capaz de mutar um ser humano! Agora eu sei que posso! E tenho certeza que foi em uma das combinações entre o gás e o líquido que fiz na outra semana – ele ficou pensativo, olhando para um canto com a mão no queixo – Há há! Incrível e terrível ao mesmo tempo! Que vida dramática que possuo!

Ele saiu pulando pela casa, revirando baús e prateleiras, quando finalmente achou o que queria, voltou para cozinha, em frente à Viola.

– Vê isso?

– Sim – disse a garota – é o veneno para ratos que o senhor fez.

– E ele mata os ratos? É eficiente?

– Sim... – disse ela desconfiada. Cansara de ver o pai retirando aqueles roedores, mortos, de dentro do porão por consequência do veneno.

– Vamos testar então para que você acredite – ele tirou uma bolinha preta de dentro do frasco, levando-a até a boca. Viola só teve tempo de gritar, quando tentou pegar a bolinha ela já estava sendo engolida. Com a boca e os olhos escancarados ficou observando aquele homem que sorria, de pé e em frente a ela. Uns cinco minutos se passaram. E Viola quebrou o silêncio

– Seu louco! – seus olhos começaram a encher-se de lágrimas – Como se sente?

Ele riu

– Perfeitamente bem! – Viola deixou cair uma lágrima, por um momento ela pensou que ficaria sozinha no mundo – Ó, não, não chore, não precisa se preocupar! – Ele a abraçou e ficaram assim por um bom tempo.

Viola pensava que não conseguiria viver sem ele, era a única pessoa em que confiava, porém queria que ele fosse bom... Mas talvez ele se provasse ser bom ajudando as outras pessoas através dos experimentos, talvez achasse uma cura e os outros o adorariam, deixariam de chamá-lo de mostro e confiariam nele! Ela sorriu. Já Muren pensava que estava em desvantagem, deu-se conta de que não poderia mais testar seus próprios experimentos em si, teria de arranjar alguém para ser sua cobaia... E esse alguém estava bem entre seus braços, uma garotinha mirrada nem florescida ainda. Mas só vou utilizá-la quando realmente tiver certeza, é apenas uma única chance. E assim, foi sua vez de sorrir.

Notas finais
Como ficou o capítulo? Gostaram?? ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.